29.07 - Diminui o número de pediatras no Brasil
Baixa remuneração e excesso de trabalho são alguns
dos motivos que fazem dessa uma das especializações menos
procuradas
Marina Reis, 15 anos, além de cantora, quer ser pediatra. Um
sonho que tem sido cada vez menos freqüente, principalmente entre
os médicos. Em 1999, 1583 recém-formados se candidataram
ao título nessa especialidade, de acordo com dados da Sociedade
Brasileira de Pediatria. Segundo o último levantamento, realizado
no ano passado, o número passou para 794, uma redução
de 50% em dez anos. A demanda para residência nessa área também
diminuiu.
“Basicamente, a redução se dá em função
da baixa remuneração. É uma área extremamente
trabalhosa e mal remunerada”, afirma Clóvis Francisco Constantino,
presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo. José Fernando
Vinagre, conselheiro do Conselho Federal de Medicina (CFM) e pediatra,
concorda: “O pediatra vive basicamente de consulta clínica e a remuneração
pelos planos de saúde é baixa. Hoje, quase não existem
clínicas privadas, o pai deixa de pagar o plano de saúde
para ele, mas não deixa o filho sem. Além disso, a taxa de
natalidade no Brasil caiu”, afirma.
Formada há seis meses, Andreia Ribeiro Silva, de 28 anos, acredita
que os colegas de profissão tem aversão à área.
“A maioria quer clínica ou cirúrgica. Eles sonham em se formar
e atender num Pronto-Socorro, salvando vidas. A pediatria envolve pai,
mãe, avós e muita conversa. Você vai cuidar da profilaxia,
da prevenção da saúde daquela criança. A maioria
quer se centrar apenas na doença, querem resolver logo o problema
e a pediatria não pode ser assim”, diz ela. Nesta terça-feira,
dia 27 de julho, comemora-se o dia do pediatra e o centenário da
Sociedade Brasileira de Pediatria.
Já faltam profissionais
A carência de estudantes para a área já se reflete
em hospitais, unidades básicas de saúde e centros médicos
de todo o País. “Hoje em dia sobram vagas”, relata Andreia, que
acompanha o mercado de perto. O Brasil tem apenas vinte mil pediatras cadastrados
na entidade do setor. O ideal, segundo Constantino, seria de um pediatra
para cada 80 mil crianças/adolescentes.
O presidente da Associação de Pediatria de São
Paulo destaca também outra conseqüência: a má
distribuição dos profissionais. “Ainda é possível
encontrá-los nos grandes centros, no entanto, na periferia, eles
são raros. Não há remuneração adequada,
nem segurança, assim eles procuram lugares mais centrais.”
A função do pediatra
O pediatra é o profissional que deve estar presente na vida
de crianças e adolescentes desde o aleitamento materno, passando
pelas imunizações, pelo acompanhamento e orientações
necessárias a um crescimento e desenvolvimento saudáveis.
De acordo com pesquisa encomendada pela farmacêutica Pfizer, 88%
das mães brasileiras consideram o pediatra a principal referência
quando o assunto é saúde dos filhos.
No primeiro ano de vida, a criança deve ir ao consultório
mensalmente. O profissional vai avaliar o desenvolvimento físico
e motor, além de passar para a mãe orientações
sobre as vacinas e sobre alimentação. Do primeiro ao segundo
ano, as consultas devem ser realizadas a cada seis meses. Depois dessa
idade, o ideal é que a criança faça algum tipo de
acompanhamento anualmente. “As consultas são preventivas e propiciam
à criança saúde dentro das maiores possibilidades.
Essa é uma questão de saúde pública”, avalia
Vinagre. (Chris Bertelli - IG Notícias)
29.07 - Problemas estruturais do SUS
A crise no financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS),
o aperfeiçoamento das diferentes políticas públicas
que tratam da assistência à população e a revalorização
do profissional médico, por meio de ações que garantam
condições de trabalho e de oferta de atendimento adequado
aos pacientes pontuam a pauta política do XII Encontro Nacional
de Entidades Médicas (Enem). Durante as reuniões que acontecerão
de 28 a 30 de julho, em Brasília, representantes dos 350 mil médicos
brasileiros discutirão estes e outros temas. As conclusões
comporão documento que será encaminhado aos candidatos às
eleições de 2010 e divulgado para toda a sociedade.
O cenário apontado reforça a importância de as
entidades médicas nacionais – Associação Médica
Brasileira (AMB), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Federação
Nacional dos Médicos (Fenam), organizadoras do XII Enem – definir
as estratégias de luta para enfrentar os principais problemas do
setor, como a escassez de recursos financeiros, materiais e humanos para
manter os serviços de saúde operando de maneira apropriada.
Algumas diretrizes nesse sentido já foram delineadas em encontros
prévios ao XII Enem, que aconteceram em todas as regiões
do país – Nordeste (29 de abril e 1º de maio), Sul/Sudeste
(14 e 15 de maio) e Norte/Centro-Oeste (4 e 5 de junho) – e sua melhor
forma de aplicação será traçada no encontro
em Brasília, com definição de prioridades e construção
de estratégias.
Financiamento - Os poucos recursos destinados à saúde
pelos gestores preocupam os médicos. O Brasil gasta 3,5% do seu
Produto Interno Bruto (PIB) em saúde, enquanto os países
desenvolvidos utilizam um patamar de 6%. Em 2010, se cumpridas todas as
previsões, os governos federal, estaduais e municipais devem investirão
juntos em torno de R$ 135 bilhões. Com isso, o desembolso percapta
fica em, aproximadamente, R$ 710,00, ou seja, U$ 394,00. Mesmo com a evolução
registrada nos últimos anos, o Brasil ainda está abaixo da
metade da média mundial (US$ 806,00). Isso faz soar o alerta, pois
o país assiste à mudança de seu perfil epidemiológico,
com o aumento da incidência de doenças crônicas e degenerativas
(cujo tratamento é mais longo e oneroso), e ao aumento da esperança
de vida ao nascer, atualmente em 72,7 anos.
Em boa medida, esse desequilíbrio vem da demora na implementação
de medidas, como a regulamentação da Emenda Constitucional
29, que há anos claudica pelo Congresso Nacional. O tema ganha relevância,
pois sem uma linha definida de financiamento, os diferentes programas correm
risco de continuidade, os salários tendem à defasagem contínua
(o que dificulta o recrutamento) e a rede hospitalar e ambulatorial passa
a sofrer os efeitos do sucateamento.
A luta pela regulamentação da Emenda Constitucional 29
continua sendo uma das prioridades para o movimento médico em nível
nacional. A proposta é importante por determinar parâmetros
adequados ao financiamento do SUS.
Situação do médico - O Sistema Único de
Saúde (SUS) é hoje o maior empregador de médicos no
Brasil. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),
relativos a 2009, apontam mais de 190 mil médicos (55% dos profissionais
registrados no CFM) atuando no SUS. E esse número pode ultrapassar
os 70% em estados com o Sergipe (92%), Rio Grande do Norte (74%) e Minas
Gerais (73%). Essa participação significativa no setor público
aponta a necessidade de um cuidado especial da gestão para com esse
contigente de profissionais. Além dos recursos para o SUS,os médicos
querem o estabelecimento de uma política de recursos humanos na
saúde que garanta aos profissionais, especialmente aos médicos,
um Plano de Cargos, Carreira e Vencimentos (PCCV), programas efetivos de
qualificação/capacitação e a criação
de uma carreira de Estado para o médico. Essas medidas devem colaborar
para eliminar os vínculos empregatícios frágeis ou
inexistentes, garantir honorários adequados e levar a modernização
da infra-estrutura aos municípios distantes. A mudança do
cenário contribuirá para incentivar a interiorização
da Medicina, permitindo a cobertura assistencial em vazios assistenciais,
especialmente no interior e nas áreas de difícil provimento,
mesmo nas metrópoles.
Carreira de Estado - A proposta de criação da carreira
de estado para o médico corre em duas frentes. No Congresso deu
entrada por meio da Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) 454/09, apresentada pelos deputados Eleuses Paiva (DEM-SP) e Ronaldo
Caiado (DEM-GO). A PEC contou com o apoio de 179 parlamentares para iniciar
sua tramitação. A projeto estabelece normas para a carreira
de médico de Estado. A atividade só poderia ser exercida
por ocupantes de cargos efetivos, contratados por concurso público.
Também estão entre as diretrizes da PEC, entre outros
pontos, a ascensão funcional baseada, alternadamente, em critérios
de merecimento e antiguidade; o exercício do cargo em regime de
dedicação exclusiva, com autorização para ocupar
outro cargo ou função apenas no magistério; a proibição
de receber honorários ou qualquer outro tipo de remuneração
de pessoas físicas ou jurídicas, públicas ou privadas,
ressalvadas as exceções previstas em lei.
As discussões também chegaram ao Ministério da
Saúde. Em audiência realizada em 17 de março, o ministro
José Gomes Temporão se comprometeu com as entidades médicas
em incluí-las em grupo de trabalho a ser criado no âmbito
do governo especialmente para cuidar da proposta de criação
da carreira nacional do médico no Sistema Único de Saúde
(SUS). A reunião integrou uma estratégia de necessidade de
apresentar a pauta dos médicos aos gestores em busca de garantir
melhoras efetivas nas condições de trabalho e de assistência
oferecidas.
Outras medidas – Também são considerados imprescindíveis
para o aperfeiçoamento da assistência em saúde outras
medidas que exigem ação direta dos gestores e parlamentares.
Entre elas, a garantia de ressarcimento dos planos privados ao SUS, a qualificação
da gestão no SUS, o estímulo à participação
social, a implementação de instrumentos efetivos de controle
(auditoria) e o fortalecimento do Programa / Estratégia Saúde
da Família (ESF). Todos estes pontos serão discutidos pelos
360 delegados – distribuídos igualmente entre as áreas associativa,
sindical e de conselhos –, além de 40 delegados dos médicos
residentes, que representam cerca de 350 mil médicos brasileiros.
Os pontos aprovados em plenária serão alinhados na forma
de propostas concretas que serão encaminhadas pelo movimento médico
aos candidatos às eleições de 2010 e divulgados à
sociedade. Após a realização do Enem, as entidades
devem elaborar um mecanismo para garantir a execução das
deliberações aprovadas no encontro. Para driblar a dificuldade
de transpor as propostas do campo teórico para o prático,
deverá ser criada uma comissão tripartite para dar suporte
e monitorar o trabalho. Serão estabelecidos prazos para que as tarefas
sejam cumpridas e as decisões importantes serão por responsáveis
previamente indicados.
Além do tema SUS, políticas de saúde e relação
com a sociedade, também serão discutidos no XII Enem questões
relacionadas à formação médica e ao mercado
de trabalho/ remuneração médicas. Em cada dia de atividades,
um desses tópicos será abordado por meio de conferências,
mesas-redondas, trabalhos em grupo e debates. (CFM)
29.07 - Franquia pode trazer prejuízos para consumidores
Pro Teste teme que usuários deixem de fazer exames preventivos
A proposta de diminuir o valor das mensalidades dos planos de saúde
individuais por meio do pagamento de uma franquia —conforme noticiou a
coluna Negócios & Cia. no último sábado —, elaborada
pelo Instituto de Estudos de Saúde Complementar (IESS) e em discussão
com as operadoras, não foi bem aceita pelas entidades de defesa
do consumidor. Os maiores temores são de que o consumidor deixe
de fazer exames preventivos, piorando sua saúde, e de que a franquia
sirva apenas para capitalizar as empresas.
Pelo sistema, o usuário deposita um determinado valor de franquia
e vai abatendo consultas e exames. Quando a quantia acaba, a operadora
banca o restante.
Ciente de que a ideia ainda vai causar muita polêmica, o superintendente
executivo do IESS, José Cechin, ressalta que a proposta será
amplamente discutida antes de virar um projeto de lei.
— Antes dos detalhes operacionais, vamos discutir bastante.
Os gastos iniciais seriam bancados pelo segurado com o valor da franquia.
A partir daí, entrariam as operadoras — explica Cechin. — Penso
que todos sairiam ganhando. Os planos não teriam que controlar um
volume enorme de notas de pequeno valor. Com menos custeio operacional,
poderiam atrair mais clientes. Os segurados, por sua vez, além do
desconto, passariam a ter uma poupança e uma garantia previdenciária.
Segundo Cechin, os Estados Unidos adotaram um modelo semelhante há
sete anos, o Health Savings Accounts (HSA). Atualmente, diz, dez milhões
de americanos são adeptos desse sistema: — O cliente um dia se aposenta
e passa a ter dificuldades para pagar o plano de saúde.
Com o novo modelo, ele sacaria da poupança, sem tributação,
para arcar com essas despesas.
Para coordenador da Apadic, medida é absurda Maria Inês
Dolci, coordenadora institucional da Pro Teste Associação
Brasileira de Defesa do Consumidor, teme que, para não mexer nessa
poupança, o consumidor deixe de fazer seus exames anuais: — Esse
modelo pode ser perverso para a saúde do consumidor.
Além disso, hoje a operadora não consegue tirar o consumidor
de um plano individual, mas, por essa proposta, se o consumidor não
tiver o dinheiro da franquia, ele pode ficar sem plano nenhum.
Falta ainda explicar como fica a portabilidade de planos e a questão
do tempo de carência — observou.
Para Antonio Mallet, coordenador jurídico da Associação
de Proteção e Assistência aos Direitos da Cidadania
(Apadic), essa proposta capitaliza as operadoras e aumenta as obrigações
dos consumidores: — É uma ideia absurda, que vai limitar o tratamento
médico — critica (Nadja Sampaio e Emanuel Alencar -
O Globo)