Notícias Anteriores

 
31.05 - Brasil pode ser o porto seguro na hora da crise
O recente movimento de queda da grande maioria dos mercados assustou os investidores. A impressão que ficou é que os problemas na Europa vão afetar o mundo inteiro, nos mesmos moldes do que ocorreu com a crise internacional de 2008. Mas, em meio a tanto pessimismo, surgem analistas que veem uma luz no fim do túnel e que não é a de um trem vindo. Aos poucos surgem novas vozes que acham que o mercado brasileiro pode se sobressair dos demais.
Para esses profissionais, as ações locais estão entre as poucas do mundo que reúnem os melhores predicados. "A Bovespa é o maior porto seguro neste momento, juntamente com os EUA, cuja recuperação econômica está ocorrendo de forma consistente", diz o gestor da RTI Gestão de Ativos, Fábio Anderaos.
Em primeiro lugar, a economia brasileira vai bem, obrigado, e até agora não se espera que tal movimento seja interrompido pela deterioração da situação na zona do euro. As companhias registraram bons resultados no primeiro trimestre, mesmo se comparados com o quarto trimestre do ano passado, e a expectativa é de que essa tendência continue pelos próximos trimestres. "As empresas brasileiras possuem hoje bons fundamentos e ainda não há nada que mostre que isso corre grandes riscos de mudança, pelo menos no médio prazo", afirma Anderaos.
Ele lembra que, dentro da Bovespa, a grande maioria das empresas está muito mais exposta à economia local. Com algumas exceções, como no setor de papel e celulose (caso da Fibria), em mineração (Vale) e siderurgia (Gerdau, com as suas operações diretas nos EUA e Canadá).
Além dos fundamentos, a queda dos mercados tornou as ações brasileiras ainda mais atraentes. O gestor da RTI lembra que, com o Índice Bovespa na casa dos 70 mil pontos, os papéis já estavam valorizados demais, mas agora ficaram a preços atraentes. Não que eles sejam uma "galinha morta", mas já oferecem um bom potencial de valorização aos compradores.
Quando o Ibovespa estava em 70 mil pontos, o preço sobre lucro (P/L, que dá uma ideia de quantos anos deve demorar para o investidor ter de volta o quanto aplicou) da bolsa estava em torno de 14 vezes, sendo que hoje, depois das quedas, o indicador caiu para 11,5 a 12 vezes, lembra Anderaos. Vale lembrar que, quanto menor o P/L, mais baratas estão as ações e, portanto, maior o espaço para ganhos para o investidor.
O sócio da Grau Gestão de Ativos Carlos Augusto Levorin concorda com a tese de que os papéis brasileiros estão entre as melhores opções. Ele faz uma ressalva no entanto: as consequências da crise europeia no mundo ainda estão por vir e o Brasil não passará ileso. Levorin afirma que a hora que os investidores se tornarem de fato vendedores será possível ver o Ibovespa abaixo dos 50 mil pontos. "Não me surpreenderia se o índice caísse ainda mais uns 10% a 20% dos níveis atuais", diz Levorin. O Ibovespa ontem fechou em alta de 3,16%, aos 62.091 pontos. A questão é que essa queda a que Levorin se refere pode ser fichinha comparada aos tombos que outras bolsas terão.
Entre as ações que mais devem se beneficiar, na visão de Anderaos, estão as de energia, siderurgia, de shopping centers e algumas de varejo. "As construtoras são boas, mas estão caras", diz ele. Já Levorin, além do setor elétrico, aposta em bancos de médio porte como Daycoval, ABC Brasil e Panamericano. "Eles possuem um retorno sobre o patrimônio menor que os grandes bancos, mas são negociados por um valor patrimonial menor", diz ele.    (Daniele Camba - Valor Online)

31.05 - EUA: PIB sobe menos e país tem retomada frágil 
A economia dos EUA no primeiro trimestre se mostrou mais fraca que o estimado e, assim, mais vulnerável num momento em que começa a enfrentar as turbulências causadas pela crise na Europa.
Os EUA cresceram à taxa anualizada de 3% no primeiro trimestre, segundo revisão divulgada na quinta-feira pelo governo. Estimativa anteriores era de expansão de 3,2%.
"Estamos em um ponto de inflexão muito frágil", disse Julia Coronado, economista do BNP Paribas em Nova York. "A economia ainda enfrenta muito vento contra."
O crescimento levemente menor do que o inicialmente esperado é resultado de revisão para baixo dos gastos com consumo e do investimento das empresas. Economistas esperavam que o Produto Interno Bruto (PIB) fosse revisto para cima, para 3,4%. No quarto trimestre, o PIB cresceu 5,6%.
Em relação ao trimestre anterior, os EUA cresceram 0,75% nos três primeiros meses do ano. No quarto trimestre de 2009, tinham registrado expansão de 1,4% .
O Departamento do Comércio revisou os gastos com consumo para um crescimento anualizado de 3,5%, ante estimativa anterior de 3,6%. Ainda assim, esses gastos aumentaram significativamente no primeiro trimestre, em relação à alta de 1,6% no quarto trimestre. O aumento de 3,5% dos gastos com consumo foi o maior desde o primeiro trimestre de 2007.
Os investimentos das empresas subiram 3,1% anualizados no primeiro trimestre, dado revisado de estimativa anterior de alta de 4,1%. As empresas elevaram seus estoques um pouco mais do que o originalmente estimado, em US$ 33,9 bilhões, em vez dos US$ 31,1 bilhões calculados antes. As vendas reais finais de produtos domésticos, que corresponde ao PIB subtraído dos estoques privados, subiu à taxa anual de 1,4% no primeiro trimestre, abaixo da estimativa anterior de crescimento de 1,6% e abaixo da alta de 1,7% do quarto trimestre.  (Valor Online)
 
 
 
 
 

28.05 - Azar do futuro
A França anunciou quarta-feira o aumento da idade mínima de aposentadoria, que era 60 anos. A Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha, que são países ricos, estão elevando a idade mínima. O Brasil não tem esse piso; aqui aposenta-se contando o tempo de serviço. E na prática estará reduzindo a idade se não for vetado o fim do fator previdenciário.
Em apenas quatro anos a previsão do IBGE sobre os idosos de 2050 aumentou 20%. Parece longe 2050, mas em previdência é assim que se trabalha. Essa mudança da projeção mostra como é dinâmica a demografia brasileira. O Brasil está mudando mais rápido do que os especialistas previam. Isso torna a questão previdenciária mais aguda e urgente.
Para quem acha que 2050 é um tempo remoto, basta lembrar, como fez Joaquim Levy, que é a mesma distância que existe entre 2010 e 1970. Ou seja, é um problema das crianças e jovens de hoje. Em 1970, o Brasil tinha uma população que crescia a 3% ao ano, daqui em diante o crescimento médio será de 0,3%. Ou seja, mudamos radicalmente e isso contratou dilemas reais para o futuro.
No livro que acaba de ser lançado, "Demografia, a ameaça invisível", os autores Fábio Giambiagi e Paulo Tafner levantam dados que mostram a insensatez de se adiar indefinidamente o enfrentamento desse problema. Nos próximos 15 a 20 anos o percentual de população idosa deve crescer a uma proporção de 4% aoano. Já a população de 15 a 59 anos deve permanecer a mesma. A revisão da tabela do IBGE mostra que esse grupo etário deve ter crescimento nulo. Como a população idosa terá aumentado, ela terá que ser sustentada por um percentual menor de pessoas. Em 2010, para cada 100 pessoas de 15 a 64 anos, há 10 pessoas com 65 anos ou mais. Em 2050, serão 36.
Uma das propostas mais frequentes é que as aposentadorias sejam corrigidas de acordo com o crescimento do PIB. Como haverá nos próximos anos o aumento vegetativo do número de aposentados, pelo envelhecimento da população, o custo do INSS sairia dos atuais 7,1% do PIB para 15,6% do PIB em 20 anos, consumiria quase a metade da carga tributária. E isso sem falar na caríssima previdência do setor público e nos gastos nababescos com a contribuição para os fundos de pensão das estatais. O INSS, cuja conta é tão alta, é o que tem o menor custo per capita. Alta mesmo é a aposentadoria do setor público, que o governo Lula alegou que queria reformar e depois se esqueceu de regulamentar a mudança.
Um amigo que fiz na Dinamarca, quando estive lá, me conta que o país está propondo uma ampliação da jornada de trabalho e tem uma idade mínima de aposentadoria de 65 anos. Quem quiser se aposentar aos 60 terá que pagar um extra de contribuição previdenciária. A Alemanha, país com maior capacidade de exportar do mundo, aumentou recentemente a jornada de trabalho. Ninguém está brincando com o assunto competitividade e previdência. Só o Brasil.
Não deveríamos. Ainda temos que incluir quase metade dos trabalhadores no mercado formal e a redução da jornada é a falsa solução para este problema. Tudo o que ela vai conseguir é dar mais horas extras para quem já está trabalhando.
No caso da Previdência é claro que o Brasil está na contramão do mundo e de si mesmo. Há uma excelente notícia no país: o brasileiro vive cada vez mais. A cada nova estatística populacional do IBGE, vem uma notícia de que ampliamos a expectativa de vida. Isso é resultado dos nossos acertos. Mas tem um custo: mais brasileiros dependerão por mais tempo do dinheiro da Previdência. E a conta não vai fechar. Na Alemanha, homens e mulheres se aposentam aos 65 anos, mas a idade está indo para 67 anos. No Reino Unido, o Partido Conservador ganhou a eleição propondo que a idade hoje em 65 anos vá para 66 anos. Nos Estados Unidos, ambos os sexos com 67 anos. Pode-se argumentar que esses países são desenvolvidos e a população vive mais. Veja-se o caso do México, com o qual nos comparamos em vários indicadores. Lá, a idade para se aposentar é 65 anos para homens e mulheres. Não há a diferenciação que existe no Brasil. Aliás, essa diferenciação está acabando pelo simples fato de que as mulheres vivem mais. Só cinco países do mundo não têm idade mínima de aposentadoria. Estamos em espantosa minoria.
Esse é um assunto difícil de tratar porque há sempre uma chuva de críticas sobre quem ousa tocar no tema. Um argumento é que a Previdência nem é deficitária na verdade, é apenas uma forma errada de fazer as contas. Que ela só tem rombo porqueforam incluídas pessoas que não contribuíram, como os trabalhadores do setor rural. O que se queria? Que eles não fossem incluídos? Outro argumento é que a pessoa contribuiu para um valor em salário mínimo e hoje ganha menos salários mínimos do que recebia quando se aposentou. Também é verdade, mas porque o salário mínimo teve um forte aumento real desde a estabilização.
Na orelha que escrevi no livro de Giambiagi e Tafner, eu disse que deve ser bom acreditar que mudança climática é invenção de cientista e que rombo previdenciário é invenção de economista neoliberal. Infelizmente, são problemas reais. É preciso enfrentá-lo.
Na Inglaterra, o Partido Conservador ganhou a eleição dizendo que elevaria a idade de aposentadoria e cortaria gastos. Mas o Brasil em plena temporada da demagogia prefere aprovar o fim do único instrumento que reduziu o ritmo de crescimento das despesas, poupando os cofres públicos de R$ 40 bilhões de gastos nos anos da vigência do fator previdenciário. E os políticos fazem isso pensandoem capturar votos. Devem pensar assim: azar do futuro.   (Miriam Leitão - O Globo)

28.05 - OCDE: Brasil deve crescer 6,5% em 2010
Investimentos em infraestrutura ajudarão o crescimeno, apesar do aperto monetário e cortes de gastos
Brasil, China, Índia e Rússia estão crescendo fortemente, avaliou a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) na quarta-feira, elevando suas previsões para as quatro grandes economias emergentes.
No Brasil, os investimentos em infraestrutura ajudarão o crescimento novamente, apesar da política monetária mais apertada e do início de cortes de gastos.
A OCDE projeta uma expansão econômica brasileira de 6,5% neste ano, ante prognóstico anterior de 4,8%. Para 2011, a estimativa é de avanço de 5%.
A OCDE alertou que o superaquecimento pode ser um problema na China e pediu por aumento de juros e um câmbio mais flexível. A entidade prevê para o país um crescimento de 11,1¨% em 2010 e de 9,7% em 2011.
Com a esperada retomada da produção agrícola na Índia, o crescimento lá deve ser forte no curto prazo, segundo a entidade. A expansão neste ano deve ser de 8,2% e no próximo, de 8,5%,
A Rússia deveria usar as receitas petrolíferas para eliminar o déficit fiscal mais rapidamente, avaliou a OCDE, que prevê um crescimento de 5,5% em 2010 e de 5,1% em 2011.  (Reuters/O Estado de S.Paulo)

28.05 - OCDE eleva projeção de crescimento, mas vê risco
Entidade prevê expansão de 2,7% do PIB entre seus 31 países-membros
Previsão anterior era de 1,9%; relatório aponta dados "estimulantes" na economia real e diz que Brasil cresce 6,5%
A recuperação da economia mundial vai melhor do que o esperado pela OCDE, e o PIB dos 31 países-membros deve crescer em média 2,7% no ano, acima do 1,9% que previra há seis meses.
Em 2011, o avanço deve chegar a 2,8%. Todas as previsões foram revistas para cima. Mas os riscos à espreita também aumentaram, alerta a organização para cooperação econômica. O maior deles é a crise da dívida soberana -a dificuldade, especialmente dos europeus, em refinanciar seus títulos.
"As turbulências mostraram a necessidade de as economias europeias fortalecerem sua arquitetura institucional e operacional para dissipar dúvidas sobre a viabilidade, no longo prazo, da união monetária", disse o secretário-geral da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), Angel Gurría.
"Nos últimos seis meses, houve desdobramentos estimulantes na economia real", disse, ao apresentar o relatório semestral de projeções.
A inflação deve chegar a 1,6% neste ano, um ponto a mais do que em 2009, e resistir em 1,3% no ano que vem.
Segundo a OCDE, o Brasil deve estourar a meta de inflação e ir a 6,2%. Cita a expansão da economia, impulsionada pela demanda doméstica, "amparada em uma política maciça de estímulos".
Por isso, a OCDE espera que, com a retirada paulatina dessas medidas e a elevação dos juros, a demanda perca fôlego nos próximos trimestres. "Os estímulos que restam devem ser retirados logo", diz o relatório.
A organização prevê que o Brasil crescerá 6,5% neste ano e 5% no ano que vem.  (LUCIANA COELHO - Folha de S.Paulo)
 
 
 
 
 

27.05 - Economia deve desacelerar-se gradualmente
Economistas da Serasa Experian, provedora de serviços e produtos de análise e informações para crédito, afirmam que a desaceleração do crescimento econômico deve ser gradual, conforme revela o Indicador Serasa Experian de Perspectiva Econômica, divulgado terça-feira.
Em março de 2010, o índice mostrou recuo de 0,1% em relação ao mês anterior, atingindo o valor de 101,4. Este resultado foi a segunda queda mensal consecutiva deste indicador, que sinaliza que após o acentuado aquecimento da atividade econômica observado durantes os meses iniciais deste ano, o ritmo de crescimento entrará em trajetória de moderação a partir dos próximos meses.
Eles também acreditam que a desaceleração do crescimento econômico ocorrerá por conta da adoção de medidas de contenção do avanço da demanda agregada, tanto no campo fiscal (fim dos incentivos fiscais à aquisição de bens duráveis e implementação de cortes orçamentários) bem como na área monetária com ciclo de elevação da taxa básica de juros – taxa Selic.
De acordo com Alcides Leite, professor de Economia da Trevisan Escola de Negócios, esse comportamento da economia em ritmo de desaceleração acontece por conta de alguns fatores: os dados comparados que registram elevação de índices dizem respeito ao período anterior, 2009, cujos valores encontrados não eram positivos e essa elevação corresponde a uma recuperação da economia, que tende a se estabilizar após este período.
Trata-se de um comportamento de ajuste da economia, também vinculado ao aumento da Selic, que vem para frear o consumo e tem como consequência a diminuição do ritmo da economia.
A tendência, segundo o acadêmico, é que a economia permaneça em um patamar estável nos próximos meses, mesmo com a crise na Europa, a qual Leite afirma "não afetar tanto o País por conta da economia ter se fortalecido no passado para enfrentar esse cenário atual".   (Consuelo Zurlo - Executivos Financeiros)

27.05 - BC: Crise reduz investimento externo
Queda no fluxo de recursos pode frustrar a expectativa do governo de repetir o resultado recorde obtido em 2008
Até agora, o Brasil recebeu menos de 20% dos US$ 45 bilhões em investimentos previstos pelo governo para 2010
A crise financeira adiou e reduziu os investimentos de empresas estrangeiras no país nos primeiros quatro meses do ano, segundo o Banco Central.
A queda no fluxo de recursos, especialmente de países europeus como Alemanha e Espanha, pode frustrar a expectativa do governo de repetir o resultado recorde de 2008 nesse indicador.
Além disso, houve aumento nas remessas de lucros e dividendos por parte das filiais de empresas europeias que atuam no país, para ajudar as matrizes no exterior.
Os investimentos estrangeiros registraram no mês passado o menor resultado para meses de abril desde 2006 (US$ 2,2 bilhões), valor que deve cair para US$ 1,6 bilhão neste mês, segundo previsão do Banco Central.
Até o momento, o país recebeu menos de 20% dos US$ 45 bilhões em investimentos previstos pelo governo para o ano todo. O resultado está abaixo até do registrado no mesmo período de 2009, quando a crise nos EUA provocou a interrupção nesse fluxo de recursos.
O BC, que só revisa previsões no final de cada trimestre, diz que essa tendência pode se reverter no segundo semestre, quando há expectativa de retomada de investimento em setores como o automobilístico, o químico, o de varejo e o imobiliário.
"Temos uma previsão muito forte para o ano, mas até agora isso não se materializou. Esses dois meses foram marcados por volatilidades expressivas. Isso traz alguma pisada temporária no freio, principalmente da Europa", disse o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes.
Também houve piora no fluxo de recursos para o mercado financeiro. Em abril, entraram no país US$ 7,6 bilhões para ações e renda fixa.
O investimento externo é a principal fonte para financiar o deficit nas transações do Brasil com o exterior, que cresceu quase três vezes neste ano. Em abril, o Banco Central registrou resultado negativo de US$ 4,6 bilhões nessa conta.
Os principais componentes do resultado são os gastos de turistas no exterior, a queda de 70% do saldo comercial e as despesas com transportes, royalties e aluguéis.
Para o economista Antonio Corrêa de Lacerda, da PUC-SP, a queda nos investimentos não vai prejudicar o financiamento externo do Brasil neste ano, mas o problema terá de ser resolvido pelo próximo governo.  (EDUARDO CUCOLO - Folha de S.Paulo)

27.05 - Inflação perde força e ajuda Banco Central
A menor pressão inflacionária, confirmada por dois índices de preço, teve impacto no mercado futuro de juros e reduziu a expectativa de altas mais acentuadas na Selic nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). O próximo encontro será nos dias 8 e 9 de junho.
Agora, além da instabilidade externa, que para parte do mercado pode resultar em uma diminuição do ciclo de aperto monetário, o cenário doméstico também contribui para tirar pressão sobre a curva futura.
Depois de mostrar alguma resistência, a inflação começa a dar sinais de que vai perder ímpeto de alta. E o grupo que lidera esse recuou são os alimentos.
Segundo o sócio da Oren Investimentos, Jacob Weintraub, a inflação dos alimentos está surpreendendo para baixo de forma mais acentuada que a esperada.
Confirmando essa visão temos os Índices de Preços ao Consumidor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). O IPC da Fipe, divulgado ontem, recuou de 0,46% para 0,35% entre a segunda e a terceira prévia. Os alimentos saíram de 0,96% para 0,59%. Na segunda-feira, o IPC da FGV mostrou desaceleração de 0,64% para 0,47%. A redução também foi liderada pelo grupo alimentação, que saiu de alta de 1,18% para 0,52%.
Tal situação, somada à incerteza externa, diz Weintraub, leva o mercado a querer precificar de forma menos intensa a possibilidade de três ajustes consecutivos de 0,75 ponto percentual na Selic.
Com visão parecida, o economista-chefe da Prosper Corretora, Eduardo Velho, disse que o mercado já estava esperando uma desaceleração da inflação para o período maio/junho, mas uma surpresa positiva pode acontecer, com uma queda maior do que a estimada dos alimentos.
Para Velho, esse recuo dos preços, somado ao desempenho da economia no primeiro trimestre, pode levar o Banco Central a desacelerar o ritmo de ajuste da Selic na reunião de julho para 0,5 ponto. "Isso ainda é aposta minoritária, mas pode ganhar força conforme o tamanho da queda do grupo alimentação e do desempenho do PIB", explica. No Copom de junho, a Prosper mantém previsão de 0,75 ponto de ajuste.
Na percepção do economista, essa teoria ganha força se o crescimento do trimestre rondar os 2%. No entanto, se o PIB mostrar alta mais próxima de 3% no comparativo com o quarto trimestre, o mercado deve manter a previsão atual de altas de ao menos 0,75 ponto.
Dos juros para o câmbio, a linha de R$ 1,90 foi novamente testada e respeitada. Depois de fazer máxima a R$ 1,917, o que representava uma alta 2,84%, o dólar comercial encerrou a jornada valendo R$ 1,868, ainda assim valorização de 0,21% sobre o registrado na segunda-feira.
Segundo o gerente da mesa de câmbio do Banco Prosper, Jorge Knauer, tal comportamento da taxa sugere que os investidores estrangeiros aproveitaram o momento em que o dólar valia mais de R$ 1,90 para zerar posições compradas em contratos futuros.
Fora isso, diz o especialista, os exportadores também trouxeram moeda.
"Obviamente temos que esperar os dados da BM&F para confirmar tal percepção. Mas creio que tivemos gringo vendendo", pondera o especialista.
Vale lembrar que estrangeiro estava comprado em US$ 5,4 bilhões na segunda-feira.  (Eduardo Campos - Valor Online)
 
 
 
 
 

26.05 - Projeção da inflação permanece em alta
O mercado financeiro voltou a elevar a estimativa de inflação pela 18ª vez consecutiva, passando de 5,54% na semana passada para 5,67% segudna-feira, segundo o relatório Focus, divulgado pelo Banco Central.
De acordo com o professor de finanças da FGV-EAESP, Fabio Gallo Garcia, este aumento no começo foi devido a fatores sazonais, mas agora o que pesou foi o aumento do consumo.
"A perspectiva de inflação vem crescendo ao longo de 2010. Logo no início do ano os aumentos dos preços foram devido a causas nitidamente sazonais, como alta das mensalidades escolares e do álcool anidro, entre outros. Não se sabia que até aquele momento a pressão inflacionária era devido a outras causa conjunturais.Com o passar dos meses, verificou-se que a inflação estava mais forte e persistente e que era devida ao nível de consumo na economia brasileira. Para convergir o nível de inflação para a meta proposta pelas autoridades monetárias, em sua última reunião, o COPOM elevou a taxa básica de juros da nossa economia para 9,5%, na busca de retirar liquidez do mercado e, assim, forçar a inflação para baixo."
Também nessa segunda, a FGV divulgou que o IPC-S (Índice de preços ao Consumidor - Semanal) teve alta de 0,47%, valor um pouco menor do que o 0,64% verificado até o dia 15 de maio. Para Gallo, esse índice é pontual e não permite verificar tendências. "Mas a expectativa é que, com a elevação da taxa de juros e outras ações de controle orçamentário, a inflação fique pelo menos dentro da meta, entre 2,5% e 6,5%."
Com relação ao PIB, o relatório Focus prevê avanço de 6,46% - resultado também influenciado pelo consumo. "O alto nível de consumo é um dos principais fatores que estão impulsionando o crescimento do PIB. Isto é muito positivo porque o Brasil tem que buscar o seu desenvolvimento, diminuindo as suas desigualdades e oferecendo mais oportunidades a todos. No entanto o crescimento de forma desordenada pode levar o país de volta à inflação. Em outros termos, devemos crescer, mas de maneira ordenada com ganhos de produtividade, para evitar que a expansão de demanda ocorra em conjunto com a expansão da oferta."
Para finalizar, a dica do professor aos consumidores é cautela. "Em momentos de crise e de perspectivas de aumento de juros, o consumidor deve manter seu orçamento familiar sob rigoroso controle, gastando somente o que cabe em suas contas. Financiamentos devem ser adquiridos somente quando houver real necessidade, caso caibam dentro do orçamento. A palavra de ordem é organização."   (Executivos Financeiros)

26.05 - Mercado: Crescimento do PIB em 6,46% em 2010
De semana em semana, a estimativa de crescimento da economia neste ano avança. O mais recente dado, divulgado ontem pelo Banco Central, prevê que a expansão do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todos os bens e serviços produzidos no País, alcançará 6,46%, superando os 6,30% projetados na semana passada. Para 2011, analistas de mercado mantêm a expectativa de crescimento de 4,50% há 24 semanas.
Mais uma vez, o crescimento da produção industrial no ano foi elevado pelos analistas, passando de 10,40% para 10,90%. Para o próximo ano, a previsão é de 5%.
A projeção para a relação entre a dívida líquida do setor público e o PIB continua em 41%, neste ano, e em 39,50%, em 2011.
Em relação ao superávit comercial (saldo positivo de exportações menos importações), houve elevação da projeção do mercado, de US$ 13,75 bilhões para US$ 14,54 bilhões. Mas foi reduzida para o próximo ano, de US$ 5,3 bilhões para US$ 4,5 bilhões.
No caso do déficit em transações correntes (registro das transações de compra e venda de mercadorias e serviços do Brasil com o exterior), a estimativa para este ano passou de US$ 49,25 bilhões para US$ 48,05 bilhões. E, no próximo ano, a expectativa é elevação, ao passar de US$ 57 bilhões.
Sobre o câmbio, o mercado mantém inalterada a projeção de que o dólar comercial fechará o ano em R$ 1,80 no fim deste ano, e em R$ 1,85, ao final de 2011. No caso da projeção do Investimento Estrangeiro Direto (IED), ou seja, recursos para o setor produtivo do País, o mercado revisou o montante para US$ 37 bilhões em 2010 (US$ 1 bi a menos que na semana passada), mantendo- em US$ 40 bilhões no próximo ano.  (Fenaseg)

26.05 - BC: Decisão de taxa de juros fica mais difícil
Com a piora na crise europeia, analistas começam a questionar se o Banco Central tomará decisão tão rigorosa quanto se esperava.
O mercado já trabalhava com a perspectiva de elevação da taxa básica de juros, a Selic, entre 0,75 ponto percentual e um ponto percentual na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, no dia 15 de junho.
Com as incertezas acerca do impacto das turbulências sobre a atividade no Brasil, a decisão do BC torna-se mais delicada. A crise, porém, não terá o peso do caso Lehman Brothers, pelo menos pelo que se deslumbra até agora, segundo analistas.
Não há sinal de ruptura do fluxo interbancário, como ocorreu em 2008.
"A situação de Portugal e Espanha não parece tão grave quanto a da Grécia", afirma Francisco Pessoa, da LCA Consultores.
No cenário doméstico, permanecem sinais de pressão inflacionária. Para Pessoa, que já estimava aumento de 0,75 ponto percentual, a decisão da autoridade monetária deverá ser nesse patamar.
Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander, diz que o BC não irá mudar a sua trajetória.
"Há uma clara piora do cenário inflacionário, para 2010 e 2011. O BC elevará os juros em 0,75 ponto percentual e continuará em passos contínuos e em muitos passos."  (Maria Cristina Frias - Folha de S.Paulo)
 
 
 
 
 

25.05 - EUA não são a Grécia, mas podem virar um Japão
Deflação sugere que país pode estar a caminho de uma década perdida em estilo japonês, aprisionado em uma era longa de desemprego elevado e crescimento lento
A despeito do coral que alega o contrário, não somos a Grécia. Mas estamos cada vez mais parecidos com o Japão.
Nos últimos meses, boa parte dos comentários sobre a economia vem repetindo um tema central: as autoridades econômicas estão fazendo demais. Os governos precisam parar de gastar, é o que nos dizem.
A Grécia é usada como exemplo cautelar, e cada pequena alta nos juros que incidem sobre os títulos do Tesouro norte-americano é tratada como indicação de que os mercados estão se voltando contra os EUA devido aos nossos deficit.
Enquanto isso, há alertas contínuos de que a inflação está a caminho e que o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) precisa recuar em seus esforços de apoiar a economia e dar início à chamada "estratégia de saída", apertando o crédito por meio da venda de ativos e elevação das taxas de juros.
E quanto ao desemprego quase recorde, com um dos piores índices de longa duração desde os anos 30? E quanto ao fato de que os avanços no emprego dos últimos meses, ainda que bem-vindos, até o momento recuperaram menos de 500 mil dos 8 milhões ou mais de empregos perdidos depois da crise financeira? Ah, preocupar-se com os desempregados é tão 2009...
Mas a verdade é que as autoridades econômicas não estão fazendo demais; estão fazendo menos do que deveriam.
Dados recentes não sugerem que os EUA estejam se encaminhando a um colapso da confiança dos investidores, em estilo grego. Em lugar disso, sugerem que podemos estar a caminho de uma década perdida em estilo japonês, aprisionados em uma era longa de desemprego elevado e crescimento lento.
Juros
Falemos primeiro sobre as taxas de juros. Em diversas ocasiões, ao longo dos 12 últimos meses, fomos informados, depois de alguma alta modesta nos juros, de que o mercado estava começando a reagir e que os EUA precisavam reduzir seu deficit imediatamente ou sofreriam as consequências.
Mais recentemente, muito se falou sobre a alta nos juros dos títulos de dez anos do Tesouro norte-americano, de 3,6% para quase 4%. "Medo quanto à dívida causa alta dos juros" foi a manchete do "Wall Street Journal", embora não existisse indício real de que o medo quanto à dívida fosse responsável pela alta.
Desde então, os juros recuaram para abaixo da marca que mantinham antes da alta mais recente. Na quinta-feira, os juros sobre os títulos de dez anos eram de 3,3%.
Eu gostaria de dizer que a queda nos juros reflete otimismo quanto às finanças federais americanas. Mas o que ela reflete é uma alta no pessimismo quanto às perspectivas de recuperação econômica, um pessimismo que fez os investidores fugirem de qualquer coisa que possa ser considerada arriscada -o que explica a queda no mercado de ações- e optassem pela segurança de uma aposta nos títulos de dívida pública norte-americana.
Europa
O que justifica esse novo pessimismo? Em parte ele reflete os problemas da Europa, que se relacionam menos do que temos ouvido às dívidas dos governos. Os líderes europeus impuseram uma moeda única a economias que não estavam preparadas para essa mudança.
Mas também houve sinais de alerta em casa, o mais recente dos quais no relatório da quarta-feira sobre os preços ao consumidor, que mostrava um indicador crucial de inflação em queda para menos de 1%, sua marca mais baixa em 44 anos.
Isso não deveria surpreender, na verdade: a expectativa é que a inflação caia diante de desemprego em massa e capacidade produtiva excedente. Mas é uma má notícia ainda assim.
Inflação baixa, ou pior, deflação, tende a perpetuar as crises econômicas, porque encoraja as pessoas a acumular dinheiro em lugar de gastar, o que mantém a economia deprimida e conduz a mais deflação.
O círculo vicioso que descrevi não é hipotético: pergunte aos japoneses, que entraram em uma armadilha deflacionária nos anos 90 da qual, a despeito de episódios ocasionais de crescimento, ainda não conseguiram sair. A mesma coisa poderia acontecer nos EUA.
Por isso, o que deveríamos estar realmente perguntando agora não é se vamos nos transformar na Grécia. Em lugar disso, deveríamos estar perguntando que medidas estão sendo tomadas para evitar que nos transformemos no Japão. E a resposta é: nenhuma.
Instinto de aperto
Não que é o risco não seja compreendido. Suspeito fortemente de que alguns dos dirigentes do Fed percebam com clareza o paralelo com o Japão e desejem fazer mais em apoio à economia.
Mas, na prática, tudo que podem fazer é conter o instinto de aperto monetário de seus colegas, os quais (como os dirigentes dos bancos centrais na década de 30) continuam a temer desesperadamente a inflação, a despeito da ausência de qualquer indício de alta de preço.
Suspeito, também, que os economistas do governo Obama gostariam muito de ver um novo plano de estímulo. Mas sabem que um plano como esse não teria chance de aprovação em um Congresso que foi levado ao medo pelas palavras da linha dura quanto ao deficit.
Em resumo, o medo de ameaças imaginárias impediu qualquer resposta efetiva ao verdadeiro perigo que nossa economia está correndo.
O pior vai acontecer? Não necessariamente. Talvez as medidas econômicas já adotadas bastem para realizar a tarefa e dar impulso a uma recuperação capaz de se sustentar sem ajuda. Com certeza é isso o que todos nós esperamos. Mas esperança não é plano.   (PAUL KRUGMAN - New York Times, tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo-22.05)

25.05 - Crise atual é complexa e justifica nervosismo
A crise financeira na Europa, que vem assolando os mercados no exterior e no Brasil, não surpreende, considerando a vulnerabilidade fiscal dos países da zona do euro. Mas o nervosismo dos mercados é justificado. A crise europeia é bem mais complexa que a deflagrada nos Estados Unidos, com a quebra do Lehman Brothers em 2008. Ninguém sabe onde a atual crise vai parar, mas a região responde por 20% do PIB mundial. A crise pode afetar a recuperação global com repercussão em outros países, avalia Mônica Baumgarten Bolle, sócia da Galanto Consultoria.
A economista lembra que a Europa tem menos instrumentos para buscar uma saída, dificuldade agravada pela falta de coordenação dos governos da região. Para o Brasil, os desdobramentos da crise importam porque um freio na recuperação econômica global pode afetar os preços das matérias-primas e agravar a deterioração do balanço de pagamentos.
Apesar da atenção do Banco Central à cena externa, é prematuro supor uma interrupção do ciclo de aperto monetário agora. A pressão inflacionária não dá alternativa ao BC, além de continuar com o aperto. Para este ano é praticamente impossível trazer a inflação para a meta. Mas olhando para o ano que vem, o aperto deve continuar. Pelo menos por enquanto.
A seguir, leia a entrevista concedida ao Valor:
Valor: A crise europeia é uma surpresa?
Mônica Baumgarten de Bolle: A resposta para isso é um grande e reverberante não. A crise europeia não é uma surpresa. Esses países todos que estão com problema agora são países que já tinham antes uma situação fiscal bastante vulnerável, mas não apenas questão fiscal. Na verdade temos um mix de problemas de endividamento um pouco diferentes. A Grécia é um caso clássico de problema fiscal, imprudência, falta de implementação de medidas para conter o crescimento do déficit da dívida. A Grécia nunca chegou nem perto de cumprir com os critérios do pacto de estabilidade fiscal. De fato, a Grécia era uma coisa óbvia, mas para o qual nem todo mundo olhava antes do agravamento com a crise de 2008. Portugal, Espanha e Irlanda são casos um pouco diferentes. Portugal também tem problema fiscal sério por ter déficit fiscal razoável. A Espanha não tem uma dívida tão grande, mas também teve no ano passado um déficit muito alto. Mas olhando para os indicadores fiscais da Espanha antes de 2009, o país não estava tão mal assim. O problema maior da Espanha é o endividamento do setor privado. E a Irlanda é um caso bem parecido com o da Espanha. Nada disso é surpresa para ninguém. Espanha, Portugal e Irlanda foram países que se aproveitaram do boom que tiveram logo após a adesão ao euro. Portugal menos porque cresceu relativamente pouco, mas a Espanha durante um tempo cresceu bastante. A Irlanda foi o maior caso de sucesso, chegou a ser chamada de 'tigre europeu' e aí tudo desandou e consideravelmente após o choque brutal que foi a crise de 2008 para todos os países. Então, a crise não é uma surpresa no sentido de que todos esses países já tinham essas vulnerabilidades identificadas.
Valor: Apesar de todo esse quadro, na esteira da crise de 2008, praticamente dois anos depois, era esperada tamanha turbulência na Europa?
Mônica: Era difícil imaginar que, saindo de uma crise financeira da magnitude que foi a de 2008, não se fosse ter alguma turbulência fiscal em algum lugar do mundo. Aonde isso ia acontecer primeiro, tinha gente que já suspeitava que na Europa até porque é a região mais vulnerável por não ter instrumentos para lidar com isso. Dado que a região tem uma união monetária, o único instrumento de fato disponível são medidas de austeridade. Individualmente, os países não têm como mexer na taxa de juros e, individualmente, não têm o que fazer com o câmbio. Nesse sentido era de se esperar que acontecesse lá, mas dessa magnitude já é mais difícil de dizer, porque o que essa crise expôs é que existe uma falta absoluta de coordenação entre as autoridades daqueles países. Isso está deixando as pessoas mais preocupadas. Quando se vê a dissonância entre as diversas autoridades, fica difícil contemplar qual é o caminho que será tomado para sair dessa situação, dado que a solução deve ser coordenada. A ausência de coordenação é que pegou as pessoas de surpresa.
Valor: Podemos considerar que estamos diante de uma crise sistêmica?
Mônica: Para a Europa a crise certamente é sistêmica. Começou com a Grécia e se espalhou rapidamente para todos os outros países. Todos. O fato de o euro estar se desvalorizando da forma como está desvalorizando é sinal de que a crise está atingindo todo mundo de uma forma ou de outra. Se a crise é sistêmica para o resto do mundo, pelo menos na última semana temos evidências de que o que está se passando na Europa está deixando todos preocupados com o resto do mundo, sim. Ninguém está conseguindo avaliar direito que tipo de implicação essa crise na Europa, que não vai se resolver agora, terá nas perspectivas de recuperação da economia mundial. Tudo estava indo relativamente bem até o cenário começar a desandar na Europa. A economia mundial estava crescendo mais do que as pessoas tinham contemplado. A economia americana, particularmente, estava dando sinais de recuperação bem mais sólida do que se imaginava, claro que no caso americano com as políticas de estímulos monetário e fiscal ainda atuando, até que de repente vem essa turbulência na Europa. E a zona do euro representa cerca de 20% do PIB mundial. Ela é parte importante das fontes de crescimento da economia global. As pessoas estão olhando para isso e pensando em como o crescimento do resto do mundo será afetado. Nesse sentido, a crise pode ser sistêmica para o resto do mundo.
Valor: Os bancos europeus podem mesmo ser duramente afetados?
Mônica: Os bancos europeus estão bastante expostos às dívidas desses países, seja do setor público ou do setor privado, e quando olhamos para isso, quem tem o potencial de maior impacto no balanço dos bancos é a Espanha. A Grécia é relativamente pequena. O que as pessoas andaram dizendo, que a Grécia é uma nova Lehman, que se a Grécia reestruturar ou quebrar vai gerar uma nova crise bancária na Europa de magnitude semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos depois da quebra da Lehman Brothers, não acredito. A Grécia é relevante hoje porque faz parte da zona do euro, ponto. A Grécia é um país, não é uma instituição financeira e desse ponto de vista é muito diferente o canal de contágio que se tem. Além do mais, quando se olha a exposição dos bancos europeus, particularmente dos alemães e dos franceses que são instituições maiores, a exposição à Grécia é relativamente pequena. A exposição à Espanha é grande. Um problema de dívida na Espanha, que não é o que está ocorrendo agora, se viesse a acontecer seria bem problemático para os bancos europeus. Mas o Banco Central Europeu (BCE) adotou como parte das medidas, anunciadas três semanas atrás, a compra direta de títulos desses países que estão com problemas e em poder das instituições financeiras. Com isso, ele criou uma maneira, que não é a ideal mas quando se tem uma crise nada é ideal, para absorver pelo menos uma parte do risco dessas instituições. O BCE fez algo muito parecido com o que o Federal Reserve fez quando o Lehman quebrou e os bancos ficaram com ativos tóxicos nos balanços. O BCE criou algo análogo, mas para ativos de países com problemas. Mas isso tem custo. Tem implicações para o euro, tem implicações potenciais para a inflação na zona do euro.
Valor: Está configurada uma crise de crédito? Os mercados travaram como em 2008?
Mônica: Não, isso não aconteceu. O que houve é que há cerca de três semanas, antes do anúncio do pacote de 750 bilhões de euros e o anúncio do BCE de que ia comprar os títulos desses países com problemas, o BCE tinha dito, numa quinta-feira em que ocorreu a reunião de política monetária, que a hipótese de ele comprar títulos dos países não havia sido discutida. No final do dia seguinte, na Europa, teve sim uma paralisação do mercado interbancário. Aconteceu algo parecido, sem a mesma magnitude, com o que ocorreu nos Estados Unidos. Os bancos ficaram com medo do risco de contraparte por não saber como estava a situação dos outros bancos. O interbancário parou. Por essa razão, o BCE voltou atrás na decisão de não comprar títulos e acabou tendo que comprar os títulos. No final das contas, fez muito rápido algo parecido com o que o Fed fez quando o Lehman quebrou, mas o Fed demorou um pouco mais. O BCE foi muito criticado por ter feito a reviravolta tão rápida, dizendo uma coisa num dia e fazendo outra no outro dia, mas penso que o BCE deve ser elogiado porque mostrou que rapidamente enxergou uma piora da situação e teve que mudar sua postura. O BCE agiu bastante rápido e por isso, em seguida, os mercados reagiram tão bem.
Valor: O nervosismo dos mercados internacionais é justificado? O nervosismo dos mercados no Brasil também?
Mônica: O nervosismo dos mercados em geral é justificado sim. O problema é bastante sério. A solução do problema na Europa é bastante complexa. É muito mais complexa do que a solução para a crise americana. A crise americana foi severa, aconteceu no centro do sistema financeiro internacional, acabou se espalhando para o mundo inteiro de forma muito rápida, porque afinal de contas os Estados Unidos são o centro do sistema financeiro internacional, mas ainda assim, tendo acontecido nos Estados Unidos, que é um país que tem capacidade de emitir a sua própria moeda como também o dólar é moeda de reserva internacional, isso deixou os Estados Unidos numa posição relativamente boa para resolver a crise como se resolveu. Nesse sentido, se dispunha nos Estados Unidos de muito mais instrumentos para lidar com os problemas do que a Europa tem. A Europa não tem instrumentos e tem uma dificuldade enorme de coordenação entre as diversas autoridades. Falta de instrumentos e de coordenação faz com que as pessoas fiquem olhando para os problemas e sem saber como as coisas vão se desenrolar. Então é justificado, sim, o nervosismo nos mercados internacionais. Aqui no Brasil, o nervosismo é também justificado porque não se sabe que tipo de impacto esses problemas terão na economia mundial. E como nós estamos bem dependentes do que acontece com a economia global e bastante dependentes de uma evolução favorável dos preços das matérias-primas, porque temos uma conta corrente em deterioração que está sendo segurada em parte pelos preços favoráveis, o nervosismo se justifica porque um crescimento menos robusto da economia global vai ter um impacto sobre preços de commodities e isso vai se refletir numa piora ainda mais acentuada do balanço de pagamentos aqui no Brasil.
Valor: É possível esperar para já uma mudança na condução da política monetária do Banco Central, com alívio monetário, em decorrência da crise europeia?
Mônica: Aqui no Brasil estamos com problema de inflação crescente, a inflação está subindo, as expectativas estão completamente descoladas da meta, estamos com impulso muito forte de demanda, com o que o governo está fazendo com a política fiscal, mas mais importante ainda com a política de crédito público, com expansão de carteira de bancos públicos. Então o BC, neste contexto, não tem muita alternativa além de continuar o ciclo de aperto monetário. Claro que o fato de ter a Europa nessa situação, de ter uma perspectiva que pode não ser boa para a economia mundial, é uma preocupação. Tenho certeza que o BC está atento. Mas temos um problema doméstico, de aceleração inflacionária, que não tem jeito. É isso o que o BC faz num regime de inflação. Tem que tentar perseguir a meta de uma forma ou de outra. Para este ano é praticamente impossível, mas olhando para o ano que vem tem que continuar com o aperto pelo menos por enquanto. É prematuro dizer que está na hora de o BC interromper o ciclo, esperar ou parar para ver o que vai acontecer. Não, porque enquanto isso as expectativas vão continuar descolando e a inflação vai continuar andando. É cedo demais para isso.  (Angela Bittencourt - Valor Online)

25.05 - Projeção para crescimento do PIB é de 5,5%
De acordo com o Ministério do Planejamento (MP), o crescimento real do PIB (Produto Interno Bruto) deve crescer 5,5% e o índice de inflação IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) deve encerrar o ano no mesmo patamar, compatível com o objetivo de inflação perseguido pela política monetária e com a trajetória para este índice observado até agora.
O órgão declarou ainda que a meta de resultado primário do Governo Central, em valores nominais, está R$ 758,3 milhões maior que aquela prevista na primeira avaliação bimestral de 2010.
Após a análise da realização e reprojeção dos itens até o final do ano, o Governo Federal reduziu as despesas primárias em R$ 10 bilhões em relação ao valor da primeira avaliação bimestral de 2010, sendo R$ 7,6 bilhões em discricionárias e R$ 2,4 bilhões em obrigatórias.
A revisão das estimativas de receita líquida de transferências a Estados e Municípios, exceto RGPS (Contribuição ao Regime Geral de Previdência Social), demonstra diminuição de R$ 9,2 bilhões em relação à primeira avaliação bimestral deste ano.
No que se refere às receitas administradas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB/MF, exceto a Contribuição para o RGPS, a arrecadação do último bimestre mostrou queda de R$ 2,9 bilhões em relação à projeção feita na primeira avaliação, concentrado no Imposto de Renda – IR, na Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins, na Contribuição para o PIS/PASEP, na Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL e nas Outras Receitas Administradas pela RFB.
O Imposto de Importação II, o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e a Cide-Combustíveis apresentaram aumento. Nas demais receitas primárias existe expectativa de decréscimo em relação ao valor estimado na primeira avaliação bimestral de 2010, da ordem de R$ 6,5 bilhões, concentrada em receitas com Dividendos e Demais Receitas.
As receitas próprias foram reavaliadas e apresentaram um acréscimo de R$ 9,7 milhões. Já as despesas primárias de execução obrigatória, exceto as despesas do RGPS, sofrem redução de R$ 2,4 bilhões. Apesar da despesa de apoio financeiro aos entes federados estar somada em relação à primeira avaliação bimestral de 2010, há previsão de menor execução nas despesas com pessoal e encargos sociais, subsídios, Fundo Constitucional do Distrito Federal – FCDF e desembolso financeiro no âmbito dos Fundos de Desenvolvimento da Amazônia e do Nordeste. Além disso, cabe ressaltar que também estão consideradas as expectativas de créditos adicionais para o Poder Judiciário, que totalizam R$ 10,5 milhões.
Em relação ao resultado do RGPS, a projeção atual mantém a expectativa de arrecadação e de pagamento de benefícios, porém aumenta a projeção das sentenças judiciais com benefícios previdenciários em R$ 31 milhões. (Executivos Financeiros)
 
 
 
 
 

24.05 - Economia impulsiona mercado de plano de aposentadoria
Estabilidade monetária, crescimento do emprego formal e da renda e a confiança do consumidor permitem que o brasileiro passe a se planejar
A retomada da economia, somada ao crescimento do emprego formal, à melhora da confiança do consumidor e ao aumento do poder de compra são fatores que vêm impulsionando o segmento de previdência privada desde o 2º semestre de 2009, quando foi iniciado o processo de recuperação da crise financeira - detonada em setembro de 2008 com a quebra do Lehman Brothers.
O cenário de estabilidade, junto ao amadurecimento e à elevação da expectativa de vida da população brasileira, estimulou os planos de longo prazo e despertou a preocupação de com quais recursos sobreviver depois de se aposentar.
É válido lembrar que a adesão aos planos de previdência privada se disseminou somente quando o controle da inflação foi conquistado, na segunda metade da década de 1990, com a inserção do Plano Real na economia. Foi a partir de quando se tornou possível começar a se planejar.
Hoje, existem 11,5 milhões de contratos de previdência privada em todo o país. Número que cresceu 4,13% (400 mil planos) na comparação do primeiro trimestre deste ano com o mesmo período em 2009. As contribuições, segundo dados da Fenaprevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), aumentaram 27,9% (R$ 2,198 bilhões), com captação de R$ 10 bilhões de janeiro a março - o melhor trimestre nos últimos cinco anos.
Na avaliação de Juvêncio Braga, diretor da Caixa Vida e Previdência (a quarta do ranking de captação no trimestre, com 9,25% do total), o momento de expansão da economia favorece a discussão em torno da previsibilidade. "É muito importante ter o horizonte de longo prazo quando se pensa em previdência. Hoje, as pessoas vivem mais. O tema da longevidade é o segundo assunto mais discutido depois de meio ambiente. Como vou me aposentar aos 60 anos e viver até os 100? Tenho de abrir mão de gastar hoje para ter o que gastar amanhã", afirma.
De acordo com Osvaldo Nascimento, diretor-executivo da Itaú Vida e Previdência (a terceira empresa que mais arrecadou no período, com 19,42%), a previdência privada vem crescendo na casa dos 25% ao ano. E isso também se deve ao aumento no contingente de pessoas na classe média, o que elevou o poder de compra. "Hoje esse segmento concentra mais gente do que as classes D e E" (leia mais na página 6).
"Quando as pessoas não têm recursos, ficam preocupadas somente em sobreviver, custeando as necessidades básicas, como alimentação, saúde, educação e moradia. Porém, com a melhoria da renda no Brasil, aliada ao ceticismo em relação ao sistema de previdência social, mais pessoas aderem à previdência complementar", aponta Nascimento.
O VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre), produto voltado àqueles que não declaram o Imposto de Renda pelo formulário completo, ou que são autônomos, foi o que mais cresceu no trimestre frente o mesmo período no ano passado: 38,7%, com R$ 7,8 bilhões em depósitos no período. Sua grande vantagem é que a tributação incide sobre o rendimento, somente, e não sobre o montante acumulado.
Já o PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre), que permite deduzir até 12% do valor a ser pago à Receita Federal, registrou R$ 1,291 bilhão de janeiro a março, recuo de 0,10% frente aos mesmos meses no ano passado.
Para Braga, essa é a melhor forma de juntar dinheiro a longo prazo, pagando menos imposto e mesclando renda fixa com variável. Pelo PGBL com a tabela regressiva, o contribuinte parte de 35% de IR e vai diminuindo 5% a cada dois anos até chegar a 10%. Pela regressiva, quanto maior o valor aplicado, maior o percentual. A tributação segue a tabela utilizada para a declaração do IR, podendo a aplicação ficar isenta do tributo ou incidir até 27,5% do rendimento. Caso o titular venha a falecer, o saldo é transferido ao herdeiro sem a cobrança de impostos.
Segundo Tarcísio Godoy, presidente da Brasilprev (vice-líder em captação no trimestre, com 19,89% do total arrecadado), mesmo durante a crise não houve recuo no crescimento, por conta de a indústria da previdência ser de médio e longo prazo.  (SORAIA PEDROSO - Brasil Econômico)

24.05 - A crise é agora um monstro de muitas pernas
Essa ação ultraconservadora dos investidores pode abortar o crescimento em áreas que não sofrem da doença europeia
Algum sábio esquecido pelo tempo dizia que as crises financeiras, quando não enfrentadas com eficiência na sua origem, acabam por ganhar pernas próprias. Nada mais verdade para o analista que acompanha o desenrolar dos acontecimentos na Europa.
A crise começou como um animal de poucas pernas -a medíocre e pequena economia grega- e hoje se transformou em um monstro assustador de muitas pernas. Entender sua complexidade é um exercício muito difícil para o analista, principalmente porque estamos entrando na fase do pânico entre os investidores.
O que mais me assusta é a falta de um diagnóstico profundo da crise e de uma agenda de ações para enfrentá-la. Nesse vazio de líderes do escopo daqueles que criaram a Europa Unida -Adenauer, De Gaulle, Mitterrand e Kohl-, as dificuldades ficam ainda maiores. Os mercados assistem -já há mais de dois meses- a um incrível e ridículo espetáculo de divergências e ameaças entre aqueles que deveriam estar liderando o processo de enfrentamento da crise.
No início, quando o monstro a ser enfrentado não inspirava medo a ninguém, os líderes de direita conservadora da Alemanha, da Holanda e de outros países do norte europeu se posicionaram contra qualquer ajuda aos gregos. Tiveram a mesma reação estúpida do governo Bush, em setembro de 2008, quando o banco Lehman Brothers entrou em dificuldades. Com isso, deixaram o pânico dos investidores chegar a Irlanda, Portugal e Espanha e acabaram por criar uma crise de confiança em quase toda a dívida pública europeia. Em outras palavras, passamos de uma crise conjuntural para uma sistêmica.
Talvez naquele momento inicial uma ajuda de poucas dezenas de bilhões de euros fosse suficiente para lidar com os fantasmas da Europa.
Mas questões ideológicas e políticas paralisaram as ações dos líderes das nações mais poderosas por várias semanas, com declarações contraditórias e infantis entre os principais atores desse drama que ameaça virar uma ópera-bufa. Quando acordaram para a gravidade do descrédito no arranjo europeu que havia tomado conta dos mercados, a crise tinha vários pares de pernas assustadoras.
Como sempre acontece, foi ao longo de um fim de semana tenso que os governos europeus resolveram agir, e o pacote de US$ 1 trilhão para apoiar os países em dificuldades foi aprovado. Mas nesse momento as dúvidas e os medos dos investidores já eram muito maiores e nem mesmo essa montanha de dinheiro público conseguiu trazer de volta a confiança no euro.
Quando escrevo esta coluna, os mercados financeiros no mundo todo estão em queda vertiginosa, com os investidores fugindo de qualquer ativo financeiro que tenha algum risco. Nem mesmo as moedas de países com forte crescimento -cito o Brasil, a Austrália e a Coreia- escapam da "débâcle". A ordem é vender tudo e aplicar em títulos de crédito nas duas únicas moedas -dólar e iene- vistas como seguras. E isso é o que mais me preocupa.
Esse comportamento ultraconservador dos investidores pode provocar um efeito dominó em todo o mundo e abortar a retomada do crescimento econômico em áreas que não sofrem da doença europeia.
Aprendi com meus médicos pessoais que a recidiva de uma doença é sempre uma situação mais delicada do que a original. E poderemos ter em poucos meses uma recidiva de crise deflacionária de pouco tempo atrás.   (LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Folha de S.Paulo)

24.05 - Bom momento da economia, mas  crise pode afetar país
Aparentemente um território livre de grandes turbulências econômicas, a Europa de repente se viu estampada nos noticiários de economia pelo mundo. A crise fiscal - que começou na Grécia e já se alastra pelo continente - derrubou os mercados nas últimas semanas e segue como principal foco de analistas e investidores. Enquanto o Velho Continente se sacrifica para estancar a sangria nas contas públicas, o Brasil vive um momento oposto, com perspectivas bastante positivas para 2010 e os próximos anos.
Mas nem tudo são flores. "A situação fiscal brasileira não é nenhuma maravilha. O nosso risco existe, mas é pequeno. O que vai acontecer aqui no Brasil, caso a crise fique bem aguda ou que vire uma estagnação europeia, é dificultar nossa exportação, podendo diminuir o investimento estrangeiro no Brasil e trazer volatilidade no câmbio", avalia o professor Simão Davi Silber, da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo).
De acordo com o professor, a recente volatilidade vista nos mercados de renda variável deve continuar até que se tenha certeza dos rumos das economias europeias em meio ao cenário adverso. "Eu diria que de uma certa forma a gente está vendo o mesmo filme de novo. O auge da crise em 2008 está se repetindo agora em 2010. Então, vai ter bastante volatilidade até sabermos para onde as coisas caminham. Por enquanto é uma grande incógnita", completou.
O analista Felipe Insunza, da Rosenberg & Associados, aponta porém que o País deve seguir no mesmo caminho visto no ano passado. Enquanto muitas economias ainda se encontravam em deterioração, o Brasil mostrou retomada mais rápida que o esperado, fechando 2009 com queda de 0,2% no PIB (Produto Interno Bruto) - o sexto melhor desempenho entre os países do G-20.
O forte ritmo da indústria nacional e o bom desempenho do consumo interno deverão ser os principais catalisadores que sustentarão a economia brasileira, caso a crise fiscal na Europa se agrave. "O agravamento da crise no continente europeu pode, por exemplo, afetar nossas commodities e diminuir investimento externo, mas a nossa relação dívida/PIB deverá manter-se em queda", avaliou o analista, que permanece otimista com o desempenho do País.
Em meio ao caos externo, projeções para PIB nacional crescem
A despeito da situação externa, o mercado segue elevando suas projeções de crescimento para a economia brasileira em 2010. De acordo com o último relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, é esperado que a atividade econômica brasileira avance 6,3% neste ano.
Um dos principais setores da economia nacional, o industrial, também parece estar otimista com o crescimento do País. A CNI (Confederação Nacional das Indústrias) também elevou recentemente sua projeção de crescimento da economia brasileira em 2010. Segundo a entidade, o PIB do País terá alta de 6% neste ano, frente à previsão de +5,5% divulgada pela CNI em dezembro.
“Dados preliminares referentes ao primeiro trimestre de 2010 não só confirmam a tendência de robusto crescimento, como também indicam aceleração do ritmo de expansão da atividade econômica”, avaliou a CNI em seu Informe Conjuntural.
De olho na balança comercial
Se por um lado todo esse otimismo que domina as projeções para a economia brasileira parece um sonho finalmente realizado para um país em desenvolvimento, o lado oposto nos faz confrontar a realidade. Bastante dependente de outras economias ainda, embora cada vez mais cresça a importância do consumo doméstico, o Brasil já percebeu que em um mundo globalizado e majoritariamente capitalista crescer sozinho tem suas dificuldades.
Recentemente o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou que o governo vai adotar medidas de estímulo às exportações. A decisão foi tomada diante da diferença observada desde o início do ano entre o volume de produtos brasileiros enviados ao exterior e o total de mercadorias trazidas de outros países para o Brasil. O pacote do governo inclui, entre outras coisas, a criação de um banco que deverá financiar as operações de comércio exterior do País, que está sendo chamado de EximBank. Além disso, a devolução de créditos tributários também deverá ser acelerada (PIS, Cofins e IPI) para as empresas exportadoras.
Vale lembrar que, de janeiro a abril de 2010, o superávit da balança comercial brasileira sofreu contração de 65,7% em relação à igual período do ano passado. Muito desse desempenho deveu-se ao forte ritmo de crescimento do País, a fraqueza das principais economias globais e à valorização do real ante a moeda norte-americana.  (InfoMoney)
 
 
 
 
 

21.05 - Crise europeia e a Selic
A crise na Europa ainda não está sendo sentida no Brasil no tocante à economia real, mas isso não quer dizer que seus efeitos já não tenham chegado por aqui. Ultimamente, observam-se fortes oscilações na cotação do dólar, na Bolsa de Valores, e, de maneira geral, seus efeitos por ora são sentidos no mercado financeiro. Especificamente, a economia brasileira tem apresentado nos últimos tempos um bom comportamento face a um cenário internacional bastante conturbado, em que diversos países europeus estão à beira de uma recessão ou simplesmente se encontram nela. 
Com uma expectativa de baixo crescimento no continente europeu para os próximos anos devido à crise iniciada na Grécia, provoca indagação o motivo dos aumentos já “programados” no Brasil para a taxa Selic ao longo deste ano, haja vista a situação recessiva na economia mundial. A decisão é de ordem interna, isto é, na expectativa quanto à inflação esperada para este ano, que já ultrapassa os 5%, bem acima da meta estipulada de 4,5%, o que já influencia o comportamento da estimada para 2012. É sabido que, uma vez adotado o regime de metas de inflação, este deixa muito claro que, caso a inflação se desloque acima da meta (no caso 4,5%), a taxa de juros será utilizada como instrumento inibidor a esse aumento, apesar dos efeitos colaterais da medida. 
O fato é que alguns economistas tentam dissociar o aumento na taxa Selic com a crise na Europa, dando a entender que um fato não tem relação como o outro. Entretanto, cabe destacar algumas observações. A primeira delas é a de que o Brasil tem apresentado déficit em conta corrente, significando que, apesar das boas perspectivas da economia brasileira, que atrai recursos externos, o país continua enviando mais recursos para fora, via juros de operações financeiras, remessas de lucros, dividendos etc. Em função disso, o Brasil precisa continuar captando recursos no mercado internacional e, para isso, os juros continuam sendo um forte atrativo. Um segundo aspecto leva em conta que os investidores internacionais terão menos recursos para aplicar no resto do mundo, haja vista o próprio imbróglio em que seus países se meteram e, em função disso, para se sentir motivados a alocar recursos em outras praças, terão de vislumbrar elevados ganhos. Nesse caso, o Brasil oferecerá isso, por causa da taxa de juros vigente. Um terceiro ponto mostra que, embora o Brasil tenha sempre apresentado superávit comercial, ele tem diminuído, devido à valorização do real e também à elevada importação. 
Desse modo, é fato que, apesar de uma situação adversa para a economia mundial, o Brasil continuará precisando dos dólares. Para manter o fluxo, certamente usará a taxa de juro como atrativo principal. Assim, sob a ótica interna, os juros servirão para controlar a inflação e, sob a externa, para continuar mantendo a entrada de dólares no país. Dissociar a manutenção de uma taxa de juros elevada, do âmbito interno, sem mensurar os possíveis ganhos marginais, morando o âmbito externo, seria ingênuo. Soluções à vista ainda vão demorar um determinado tempo, pois passam por uma estabilização econômica dos países europeus, bem como por uma acomodação da inflação no Brasil. De concreto, vale dizer que, apesar da boa condução da economia brasileira nos últimos tempos, devemos ficar atentos a um cenário internacional que pode de, algum modo, gerar empecilhos ao crescimento esperado para este ano.   (Eduardo Amat Silva - EStado de Minas)

21.05 - Retomada deixa país competitivo
Estimativa de forte crescimento do PIB faz Brasil avançar duas posições em ranking mundial. Agora o país é o 38°
O crescimento da produtividade empresarial brasileira, a geração de postos de trabalho e a boa resposta aos efeitos recessivos gerados pela crise financeira internacional fizeram do país o 38º mais competitivo do mundo entre as 58 nações avaliadas pelo Índice de Competitividade Mundial 2010. O Brasil ganhou duas colocações, principalmente pela eficiência dos negócios e perspectiva de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), estimado em US$ 1,57 trilhão este ano. 
O estudo, desenvolvido pelo International Institute for Management Development (IMD) em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC), avalia 327 indicadores qualitativos e quantitativos que compõem quatro fatores de competitividade: desenvolvimento econômico, eficiência governamental e dos negócios e infraestrutura. 
Para o professor da FDC Carlos Arruda, responsável pela captação e avaliação dos dados brasileiros, a posição do Brasil ainda não condiz com a realidade vivida pelo país. "O 38º lugar fica aquém do esperado. Uma posição mais coerente com o conjunto de esforços do país seria a 24ª ou 25ª colocação", avalia. A China liderou entre os Bric, ficando em 18º lugar, seguida da Índia (31º), Brasil e Rússia (51º).
Com um PIB estimado em US$ 1,57 trilhão, o Brasil deixou de ser a 10ª economia do mundo em 2008 para atingir este ano a 8ª posição. Quanto à Eficiência dos negócios, o país alcançou a 24ª posição, conquistando três colocações. Em contrapartida, no quesito Eficiência de governo, foi mantida a 52ª colocação, enquanto em Finanças públicas o país ficou em 29º e em Política fiscal, 37º. "O Brasil não tem avançado quando o assunto é eficiência de governo. Para isso, é preciso revisão dos marcos regulatórios, apoio à atividade empresarial e melhoria da gestão pública que, como está, tende a gerar ineficiência dos investimentos", avalia Arruda.
Outro fator a ser observado é o tamanho da máquina pública. "O governo hoje é o maior tomador de crédito e o que sobra é pouco e caro. Uma ação importante seria a redução da máquina pública e liberação de recursos para o mercado. Os spreads bancários no país estão entre os mais altos do mundo%u201D, explica. O trabalho também aponta preocupação em decorrência da retração de multinacionais brasileiras e ao baixo índice de investimentos estrangeiros no país em 2009, que recuaram 42,58% em 2009 ante 2008, baixando de US$ 45,1 bilhões para US$ 25,9 bilhões. A participação no comércio mundial ainda é pequena, já que as exportações representam apenas 1,16% do total de vendas externas em todo o planeta.
Apesar de ter perdido três posições na área de infraestrutura, e ter ficado apenas com a 49ª colocação, o próprio estudo prevê boas perspectivas para os próximos anos. O relatório avalia que com a retomada da economia, a combinação de alta na demanda doméstica, projetos de infraestrutura e investimentos os países emergentes tendem a manter bons índices de competitividade. Para Arruda, o bom desempenho do Brasil nos próximos anos vai depender do governo manter a boa gestão da economia, com inflação baixa, crescimento robusto, o que será auxiliado pela administração rígida das contas públicas, a fim de elevar a produtividade do Estado e elevar os investimentos em obras de longo prazo, em transportes, energia e saneamento básico.
Pela primeira vez, desde 1989, os Estados Unidos perderam a primeira colocação no ranking, hoje ocupada por Cingapura. Os americanos ficaram apenas com o 3º lugar em decorrência dos impactos sofridos pela crise mundial iniciada em 2008.    (Paula Takahashi - Estado de Minas)

21.05 - Investidor teme uma repetição de 2008
A memória negativa muito recente da crise do mercado imobiliário de 2008 pode estar influenciando a movimentação dos investidores neste momento. Assim como ocorreu após a quebra do Lehman Brothers, nos Estados Unidos, hoje é difícil vislumbrar um fim para a crise na Europa, desencadeada pela deterioração fiscal da Grécia.
Segundo o gestor da Vetorial Asset, Sérgio Machado, não tem como não fazer uma analogia com os passos da última derrocada dos mercados mundiais.
Começa um problema, que é minimizado. Os governos demoram em se mexer. As coisas pioram. Em seguida vem a ajuda. Não é suficiente. Aumentam o tamanho da ajuda, mas a crise persiste.
No caso atual, o problema inicial foi a Grécia, a minimização é que era "só a Grécia". O problema cresce e atinge, "além da Grécia, Espanha, Portugal, Itália e Irlanda". Os governos batem cabeça, mas um pacote sai. São 110 bilhões de euros, que não resolvem. Os governos mostram alguma coordenação. A soma vai a 750 bilhões. Mas, por ora, nada resolvido.
Já em 2008, o problema era o crédito subprime. A primeira reação foi "não é nada muito preocupante, afinal são só os créditos subprime". A bomba estoura com o Lehman Brothers. Pânico. Os pacotes sobem dos bilhões para os trilhões e o mercado ainda tenta se recuperar disso.
"Nosso Lehman é a Grécia, que está com cara de que vai cair mesmo", diz Machado.
Ainda de acordo com o gestor, a questão agora não é mais fiscal, é política, pois todos os ajustes necessários dependem de vontade política das nações, depois da vontade dos parlamentos nacionais e, por último, da população, que vai ter que abrir mão da invejada social democracia europeia.
"Não tem nada pragmático. É um problema de solução lenta. Isso deixa o mercado histérico", diz Machado, apontando para as acentuadas variações de preço em curto espaço de tempo e sem notícias que referendem isso.
Um bom exemplo de como o mercado está encarando o momento atual foi dada pelo Safra Banco de Investimento no boletim SafraDiário. "O fato de não conseguirmos identificar um driver específico que consiga reverter de maneira rápida o sentimento negativo do mercado é um fator que aumenta ainda mais a aversão a risco nos mercados", escreveu a instituição.
Acontece que esse também é o melhor cenário para os especuladores, diz o diretor-executivo da NGO Corretora, Sidnei Moura Nehme. 
"Convenhamos, há muito mais especulação do que qualquer simetria nas reações irracionais dos mercados justificadas como decorrentes da crise na zona do euro", pondera Nehme.
Encarando agora o Brasil e seus fundamentos, Nehme acredita que não deveriam ser os brasileiros a perder o sono.
"Nosso sistema bancário não está comprometido com os papéis dos países envolvidos na crise e nem concedemos crédito ao setor privado dos mesmos", pondera.
Para Nehme, talvez esse fosse o momento de as autoridades brasileiras atuarem para conter a volatilidade, "blindarem" um pouco o país do que Nehme chama de "extravagâncias especulativas que ocorrem no mercado de derivativos" e também na Bovespa.
Olhando agora para o euro, Nehme avalia que esse movimento de baixa na cotação da moeda é a melhor passagem de saída da Europa para a crise.
O euro mais barato é grande incentivo para aumento das vendas externas e redução das importações. "Essa é a única saída para a crise. O que precisa ser feito é tomar medida para conter a volatilidade", explica.
Em função dessa mesma passagem de saída da crise, Nehme aponta que não é de se surpreender a Europa queira acordos com o Mercosul.  (Eduardo Campos - Valor Online)
 
 
 
 
 

20.05 - Da autonomia do BC
Temos sempre procurado chamar a atenção para as vantagens sociais e econômicas de uma política monetária executada por um Banco Central operacionalmente autônomo.
Uma instituição que construiu sua "credibilidade" (como é o caso brasileiro) pela verificação, ao longo de alguns anos, de uma taxa média de inflação com pouca variabilidade e próxima à "meta" fixada pelo poder incumbente. Seu efeito positivo sobre o equilíbrio social é sempre esquecido.
Na nossa opinião, entretanto, é um dos fatores mais importantes para "explicar" a ausência de greves selvagens no estabelecimento da distribuição do "excedente" entre o capital e o trabalho, que é um problema essencialmente político.
Seu efeito sobre a eficiência produtiva é, também, inegável: reduz os ruídos dos preços relativos e, portanto, melhora a qualidade da alocação dos fatores de produção para atender à demanda de bens e serviços.
Quanto ao nível "ótimo" da meta de inflação, há muitas dúvidas. É claro que quanto menor melhor.
Deve, porém, ser adequada para acomodar as manobras da política monetária e as necessárias flutuações do salário real. Dito isso, não deveria haver nenhuma surpresa na verificação "empírica" de que, quando funciona (meta de inflação com pequena variabilidade cumprida), ela é um estimulante mecanismo para o desenvolvimento.
É difícil, entretanto, acreditar que seja apenas o sistema de "metas de inflação" executado por um Banco Central autônomo que produz a estabilidade da "expectativa inflacionária", fundamental para a realização da taxa de inflação em torno da meta. Sem um forte apoio da política fiscal e sem a existência de um "ambiente" favorável ao crescimento, o custo daquele sistema em termos de exacerbação das tensões internas pode ser imenso.
O que se deve discutir é a qualidade da "ciência" monetária que é ainda incipiente. O seu modelo exige certeza sobre um oximoro, dois parâmetros variáveis, e ultrafugidios: a "taxa de juros real de equilíbrio" e o "produto potencial". Todos os Bancos Centrais fazem "hedge" para sua "credibilidade" superestimando a primeira e subestimando o segundo.
Em poucas palavras, o sistema tem, sim, um custo social, o que também não é novidade, porque não existe "almoço grátis". É evidente que esse custo é tanto maior quanto mais conservador for o comportamento do Banco Central.
Logo, não é pecado discutir o seu comportamento!  (ANTONIO DELFIM NETTO - Folha de S.Paulo)

20.05 - BC: País cresceu 9,85% no trimestre
Índice criado pelo BC para monitorar a economia indica um ritmo de crescimento mais forte que o calculado pela Fazenda e pelo mercado
A economia brasileira cresceu perto de 10% no primeiro trimestre deste ano, acima do que a maioria dos analistas de mercado e o Ministério da Fazenda estão projetando para o período - na casa de 8%. É o que mostrou o novo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que encerrou o primeiro trimestre com alta de 9,85% sobre igual período de 2009.
Em relação ao quarto trimestre do ano passado, o IBC-Br teve expansão de 2,38% (que significa, em termos anualizados, crescimento próximo de 10%). O dado reforça a análise que a economia brasileira se encontra em ritmo muito forte neste início de ano e é necessário pôr um freio no nível de atividade.
O IBC-BR é um indicador criado pelo Banco Central para tentar antecipar o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) e é a mais recente ferramenta usada pelo Banco Central para ajudar na definição da taxa básica de juros (Selic).
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulga oficialmente o PIB, só anunciará o resultado do primeiro trimestre no dia 8 de junho. Com periodicidade mensal, o IBC-Br leva em conta estatísticas sobre agropecuária, indústria e serviços.
Alta dos juros. O resultado forte do indicador verificado no primeiro trimestre ajuda a entender por que Henrique Meirelles e sua equipe foram unânimes em aumentar em 0,75 ponto porcentual os juros na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do BC. E, pelo mesmo motivo, se espera que o BC siga nessa toada pelo menos por mais uma reunião.
Ao elevar o juro básico, a autoridade monetária tenta conter o ímpeto da economia, de modo que ela não permaneça crescendo acima de sua capacidade por muito tempo. Afinal, essa situação provoca risco de alta forte na inflação, além de piorar o déficit nas contas externas do País - já que a economia não tem capacidade de atender toda a demanda interna e precisa importar produtos e serviços para supri-la.
O economista-chefe do banco Schain, Silvio Campos Neto, afirmou que o dado do Banco Central reforça a preocupação em torno do nível de crescimento econômico e seu impacto na inflação ou no déficit externo.
"De fato, o indicador mostra um crescimento bem forte, acima do que todo mundo entende que o País pode sustentar no longo prazo", disse Campos Neto, ponderando que os dados do primeiro trimestre ainda ocorrem sobre um ano marcado pela crise internacional, ou seja, sobre uma base mais fraca, especialmente a do primeiro trimestre de 2009.
Ele ressaltou, no entanto, que a tendência da economia é de desaceleração nos próximos trimestres, refletindo as melhores bases de comparação e as ações do Banco Central e do Ministério da Fazenda de apertar a política fiscal.
Nesse sentido, Campos Neto defendeu um aumento ainda maior da austeridade nos gastos do governo para ajudar a conter a economia.  (Fabio Graner - O Estado de S.Paulo)

20.05 - Investimentos não sustentam PIB entre 6% e 7%
Os investimentos atuais no Brasil não são suficientes para sustentar o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no patamar entre 6% e 7% ao ano, afirmou ontem o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal.
Em evento da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), ele disse que o atual nível de recursos é suficiente para manter uma expansão de cerca de 4% nos próximos anos.
""Só vamos crescer em torno de 6%, 7% porque no ano passado não crescemos nada. Mas isso não é sustentável", afirmou. O Itaú Unibanco revisou na semana passada sua projeção de expansão do PIB neste ano para 7,5%.
""Nós não temos poupança pública nem investimentos em infraestrutura suficientes para manter isso", disse.
Setubal afirmou que o governo precisa aumentar sua poupança para elevar os investimentos, que, segundo ele, são feitos hoje principalmente pelo setor privado.
Para o banqueiro, é importante desenvolver o mercado de capitais no país. "O Brasil teve grande número de IPOs [oferta inicial de ações] no ano passado, mas ainda assim muito do dinheiro que vem daí é de estrangeiros, e isso significa que o Brasil está usando dinheiro de fora para se financiar", disse.
Pastore
Crescer a taxas mais elevadas nos próximos anos pode trazer de volta o fantasma da inflação. O alerta é de Affonso Celso Pastore, professor da USP e ex-presidente do Banco Central.
Pastore destacou, em palestra no 22º Fórum Nacional, que o país não tem condições de crescer, de forma sustentada, acima de 4,5% por ano no curto prazo.
"Continuar crescendo 7% é procurar encrenca com a inflação", afirmou.
Pastore afirmou que a economia, diante da já pequena capacidade ociosa, pode se expandir de forma temporária em ritmo mais forte. Nas atuais condições, ressaltou, o país continuará tendo ciclos temporários de elevação da atividade econômica.  (GIULIANA VALLONE E CIRILO JUNIOR - Folha de S.Paulo)
 
 
 
 
 

19.05 - Pânico agora ou pânico mais tarde
História de outras crises sugere que o pacote para salvar a Europa pode ser apenas o fim do primeiro ato de uma inevitável tragédia
O pacote de ajuda coordenado, de US$ 1 trilhão, para evitar um calote grego da dívida é fatalmente defeituoso e pode muito bem levar a uma nova e profunda recessão global. Embora os otimistas acreditem que esse socorro financeiro sinalizará o fim da crise da dívida pública grega, a história de outras crises sugere que esse é somente o fim do primeiro ato da que poderá ser uma longa e interminável tragédia.
Como parte do plano de socorro, a Grécia terá de adotar medidas duras para pôr em ordem sua situação fiscal, tais como cortar salários e aposentadorias. É mais fácil falar do que fazer, diante da longa história do país de pagar generosamente aos que trabalham.
Mas a história não termina aí. A falha mortal do plano é que as nações europeias que ajudaram a Grécia ? mesmo a Alemanha, onde a dívida pública subiu para 80% do Produto Interno Bruto (PIB) ? estão com problemas orçamentários similares e pouca vontade política de adotar medidas austeras como aquelas.
Parece que o seu plano é ficar esperando que os credores não prestem atenção nisso. Claro que no final eles acabarão percebendo e, quando isso ocorrer, certamente o que vamos verificar é uma perda de confiança global nos mercados de dívida pública.
Em outras palavras, não é boa notícia para um credor se alguém que tomou emprestado e está falido se oferecer para assumir a dívida de um outro devedor também falido.
Durante a crise financeira, a crença nas grandes instituições financeiras foi restaurada porque os ativos tóxicos foram trocados por títulos governamentais. Se esses títulos se tornarem tóxicos, as opções de cura praticamente inexistem. O colapso será total.
E o colapso pode ocorrer a qualquer hora. Se os credores decidirem que os grandes governos ocidentais estão acumulando uma dívida insustentável e não têm vontade política de resolver o problema, o fim pode chegar amanhã.
Eis como as coisas podem ocorrer: quase diariamente, governos precisam de empréstimos para resgatar dívidas que estão vencendo. Os Estados Unidos, por exemplo, tomaram US$ 10 bilhões dos chineses no ano passado por um ano. Agora, vamos tomar outros US$ 10 bilhões de outro credor para conseguir devolver o dinheiro aos chineses.
Se os credores ficarem muito frustrados, eles podem decidir não comprar a dívida pública de um governo porque não têm ideia de quanto seu valor pode cair entre hoje e amanhã. Os governos que, a cada semana, vêm se refinanciando, vão se ver com pouquíssimas opções.
Não seria um fato sem precedentes nem forçado se uma perda de fé na dívida pública se propagar pelo globo no caso de a Grécia ou outro país de porte entrar em colapso.
A única coisa que precisa ocorrer é os credores se darem conta que os europeus que planejam pedir emprestado para reembolsar as entidades que detêm a dívida grega dificilmente constituem riscos de crédito melhores que os próprios gregos. E isso pode ocorrer no caso de um leilão da dívida pública grega fracassado, mas pode afetar todos os governos ocidentais que estejam tentando tomar fundos emprestados.
E, nesse caso, até os Estados Unidos terão problemas.
Embora o país até agora esteja longe da confusão, um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), publicado em 2003, sugere que dificilmente está em território seguro. Economistas que têm estudado as crises de dívida soberana, exatamente a situação que as nações ocidentais pretendem evitar, concluíram que os níveis de dívida externa, que é o dinheiro devido a estrangeiros, quando excedem os 50%, são um indicador-chave de que pode ocorrer um calote da dívida.
Aqui, um fato arrepiante: a dívida externa média, como porcentagem do PIB, entre os países da amostragem um ano antes de uma crise de dívida soberana, foi de 54,7%, e de 71,4% no ano da própria crise. A dívida externa dos Estados Unidos em 31 de dezembro de 2009 era de US$ 13,77 trilhões, ou quase 100% do PIB. Em boa parte da Europa, a situação é ainda pior.
Um força-chave empurrando a dívida externa para cima tem sido o aumento na tomada de empréstimos pelos governos. No seu primeiro ano, o governo Obama conseguiu acrescentar mais de US$ 8 trilhões à dívida prevista para 2019, hoje projetada para chegar a US$ 17,5 trilhões.
Os Estados Unidos, relativamente saudáveis, estarão como a Grécia em uma década. O único caminho é as grandes nações desenvolvidas fazerem ajustes orçamentários de longo prazo para acalmar os mercados antes que estoure uma crise. Como a única nação séria quanto a reduzir seu déficit no momento é a Grécia, parece quase impossível essa história ter um final feliz.
Nossas opções são: ou pânico agora ou pânico mais tarde.  (KEVIN HASSETT - Bloomberg, tradução de TEREZINHA MARTINO - O Estado de S.Paulo)

19.05 - Para BC, país já tem pronta ação anticrise
Meirelles diz que Brasil tem instrumentos para evitar reflexos da turbulência europeia
Presidente do BC está em Nova York, onde receberá prêmio de Personalidade do Ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos
Em Nova York nesta semana para receber o prêmio Personalidade do Ano, da Câmara de Comércio Brasil-EUA, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tocou ontem o sino que abre os trabalhos da Bolsa em Wall Street.
Em entrevista coletiva após a cerimônia, afirmou que o Brasil está "analisando qualquer sinal" de que a crise econômica na Europa "possa piorar" e voltou a garantir que o país está "bem preparado" para reagir.
Para ele, "esta é uma semana importante" para a situação europeia, e os brasileiros estão "observando com muito cuidado o desenvolvimento da situação". "Vamos esperar para ver."
Questionado se o país cogita voltar a implementar as medidas usadas contra a crise de 2008, Meirelles afirmou que "todo o pacote está devidamente preparado".
Ele citou o "empréstimo de reservas, a liberação dos compulsórios para a melhora da liquidez e do crédito em moeda estrangeira e nacional, os estímulos fiscais e a ação decisiva dos bancos públicos".
"É um pouco prematuro para decidir alguma coisa", ressalvou. "Estamos acompanhando com cuidado. É uma situação séria, como os europeus têm dito, mas eles têm a expectativa de conseguir resolver a questão no devido tempo."
Para o presidente do Banco Central, "é normal" que os mercados estejam "nervosos e voláteis", mas o Brasil tem uma "economia saudável" e recursos -como os US$ 250 bilhões em reservas internacionais- para evitar o contágio da crise na zona do euro.
Meirelles disse ainda esperar que as "autoridades europeias, tomando as medidas adequadas, venham a estabilizar a situação". "Trabalhamos tendo em vista a pior hipótese, mas esperamos pela melhor."
O conjunto de medidas estará preparado "não só agora como em qualquer crise que venha a acontecer no futuro", afirmou Meirelles.
"Aquela crise [de 2008] foi a pior que enfrentamos em 80 anos, e o Brasil se saiu mais forte do que entrou. Estamos preparados. Temos recursos, a economia vai bem, o Brasil está crescendo."  (CRISTINA FIBE - Folha de S.Paulo)

19.05 - Remessas ao exterior devem ser declaradas
Empresas e pessoas físicas que fizerem remessas ao exterior acima de R$ 53,9 mil por ano terão de informar as operações à Receita Federal, informou ontem o órgão.
As mudanças valem para a declaração que será entregue até o último dia de fevereiro de 2011.
O objetivo é ter mais informações para cruzar com outras já declaradas atualmente e evitar fraudes e sonegações.
A partir do ano que vem, as empresas terão ainda de declarar o valor pago por seus funcionários a fundos de previdência privada e planos de seguros de vida intermediados por ela. Os contribuintes podem deduzir esses valores do Imposto de Renda.   (Destak Jornal)
 
 
 
 
 

18.05 - Balanços bons, mas a luz amarela está acesa
Legalmente, a safra de balanços do primeiro trimestre acabou na sexta-feira, com o anúncio da Petrobras fechando o período. De forma geral, os números vieram dentro do esperado, com um viés ligeiramente positivo. Esse cenário é bastante bom por dois motivos. Primeiro porque as expectativas já eram boas e os números no mínimo atenderam tais previsões. Além disso, os lucros e as receitas cresceram quando comparados com os do quarto trimestre do ano passado, que foram muito bons, pois já refletiam a recuperação econômica brasileira após a crise financeira de 2008. Mas o cenário pode mudar, e para pior.
A questão agora é saber se os balanços continuarão evoluindo positivamente nos próximos trimestres, assim como se imaginava até recentemente, ou se a deterioração do cenário internacional, com os problemas na Europa, pode começar a comprometer a saúde dos balanços das companhias brasileiras.
Na visão dos analistas, ainda não há motivo para alarde. No entanto, a situação externa acende sim uma luz amarela de alerta sobre os próximos balanços. Não é preciso ir muito longe para lembrar que, dependendo da intensidade dos problemas internacionais, eles podem afetar em cheio a economia de países que estão muito longe do epicentro da crise. Em 2008, por exemplo, a crise no setor de hipotecas de alto risco americano se alastrou pela economia inteira dos EUA, e num piscar de olhos, já tinha tomado o resto do mundo.
A contaminação ocorre por duas vias: pela do mercado financeiro ou pela economia real. Isso porque tanto os mercados quanto as economias hoje estão totalmente interligadas. Portanto, o reflexo de um país no outro torna-se quase que instantâneo. É verdade que o impacto é menor em economias com melhores fundamentos, como é hoje a brasileira. Mas passar ao largo de uma importante turbulência internacional é uma tarefa hercúlea.
Para o gerente de renda variável da Modal Asset Management, Eduardo Roche, é muito cedo para que os problemas na Europa afetem a atividade das companhias brasileiras neste segundo trimestre. "A crise na Grécia ainda não afetou a economia real no mundo e, além disso, o segundo trimestre já está em andamento", diz Roche.
Ele acredita, no entanto, que a partir do próximo trimestre os balanços já poderão começar a sentir os primeiros efeitos da situação europeia. "Isso deve acontecer especialmente no momento em que a crise comprometer as relações comerciais entre os países", explica. É de se esperar que as empresas ligadas ao mercado externo sejam as mais impactadas. Entre elas estão as produtoras de commodities, como siderurgia, mineração e petróleo.
O chefe de análise da Link Investimentos, Andres Kikuchi, acredita que os primeiros efeitos dos problemas na zona do euro já poderão ser sentidos neste trimestre, especialmente nas empresas de commodities. "É natural que os governos europeus adotem algumas medidas protecionistas com o objetivo de minimizar os efeitos da crise em suas indústrias, o que prejudicará as exportações para esses países", diz Kikuchi. Segundo ele, os papéis de commodities vêm caindo, com o aumento da aversão a risco por esse setor.
O desempenho do mercado no fim da semana passada mostra como o cenário externo continua sendo foco de preocupação. Na sexta-feira, o Índice Bovespa fechou em queda de 2,12%, aos 63.412 pontos. Essa é a menor pontuação desde o dia 7, quando o indicador encerrou os negócios aos 62.870 pontos.  (Daniele Camba - Valor Online)

18.05 - 'Europa vai mergulhar em nova recessão'
Para especialista em sistema financeiro, medidas vieram tarde demais e tornaram a desaceleração inevitável
Apesar de a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) terem criado um pacote de 750 bilhões contra crises, para tentar evitar um contágio dos problemas fiscais da Grécia sobre outros países da região e proteger o euro, o bloco europeu ainda tem um longo caminho pela frente, em que um novo mergulho na recessão se mostra inevitável, acredita o economista Barry Eichengreen.
Professor de Economia e Ciência Política na Universidade Califórnia, Berkeley, Eichengreen é considerado um dos maiores especialistas na história e no funcionamento do sistema financeiro e monetário internacional.
"Os governos não tomaram medidas para consolidação fiscal e a União Europeia não adotou o pacote de resgate até que fosse tarde demais", disse. "Agora chegou-se a um ponto em que é praticamente inevitável uma maior desaceleração da economia europeia", disse o professor à Agência Estado.
O pacote de 750 bilhões pode ajudar a resolver os problemas da Europa?
Essa história não acabou. O pacote ainda está em andamento. O Parlamento europeu tem de concordar e, para ter acesso ao dinheiro, os países terão de negociar um programa com o FMI, o que eles não querem fazer. A parte importante não foi o pacote, mas a decisão do Banco Central Europeu de comprar bônus de Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda. Isso permitiu que o mercado da dívida se acalmasse e deu algum tempo aos governos. Espanha e Portugal anunciaram medidas fiscais.
O medo continua rondando os investidores. Essas preocupações têm fundamento?
Ainda há incertezas sobre o que os Parlamentos da Espanha e de Portugal vão fazer. Ainda haverá desaceleração econômica na Europa e recessão nos países mais ao sul. Mas a volatilidade deve acabar.
O sr. está otimista de que o euro vai sobreviver?
O euro foi punido pela crise, mas ele ainda é melhor do que qualquer outra alternativa.
O economista Kenneth Rogoff sugeriu que Grécia e Portugal devem ser colocados para fora da zona do euro e fala-se que o presidente Sarkozy teria ameaçado sair do bloco. Há risco de fragmentação da zona do euro?
Os últimos anos nos ensinaram que tudo é possível. Mas acho que a fragmentação é pouco provável. Um default (calote) grego é mais provável. Reestruturar dívida não é o mesmo que abandonar o euro e reintroduzir o dracma (moeda grega). Os problemas da Grécia não vão ser solucionados se o país deixar a zona do euro. O país terá de reestruturar sua dívida.
Quando o BCE pode começar a subir os juros?
A Europa deve ter duplo mergulho na recessão e não haverá suporte fiscal para crescimento. O juro não subirá tão cedo.
O que ainda pode ser feito para evitar recessão na Europa?
É muito tarde para evitar uma dupla recessão. Os governos não tomaram medidas para consolidação fiscal necessária, a UE não adotou seu pacote de resgate até que fosse tarde demais e agora chegou-se a um ponto em que é praticamente inevitável a desaceleração da economia.
Quanto tempo levará então para a Europa se recuperar?
Depende das reformas, mas estamos falando de anos.
Até que ponto os EUA estão a salvo?
Os indicadores mostram que a retomada está se acelerando e a Europa não vai ajudar nesse processo. A pior coisa que poderia acontecer seria Europa e China desacelerando ao mesmo tempo. Vamos torcer para a China continuar indo bem.  (Luciana Xavier - O Estado de S.Paulo)

18.05 - Brasil está pronto para crise na UE
Para o presidente do Banco Central, não devem ocorrer quebras como as de 2008
Meirelles vê "consenso de que a economia necessita de um ajuste" ao defender corte de gastos de R$ 10 bilhões pelo governo
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou ontem que o Brasil está preparado para enfrentar os efeitos da crise europeia. Em um dia marcado pela desconfiança dos investidores em relação à capacidade de recuperação da região, Meirelles disse que ainda é cedo para fazer um diagnóstico preciso da crise.
O presidente do BC afirmou que itens como estabilidade de preços, inflação sob controle, câmbio flutuante e reservas elevadas dão segurança ao país. Ele participou do encerramento do seminário sobre metas de inflação organizado pelo banco no Rio de Janeiro.
"Crise não é bom para ninguém. Crise sempre custa muito. (...) Mas o fato concreto é que, por enquanto, é um pouco prematuro tentar ver a dimensão da que atinge a Europa."
Ontem as Bolsas europeias terminaram o dia em queda e o euro registrou a menor cotação desde outubro de 2008. Mesmo assim, Meirelles afirmou que é natural o mercado discutir a eficácia de medidas anunciadas para combater a crise, como o pacote de socorro à Grécia.
Meirelles explica que a ameaça para o Brasil de um eventual agravamento da crise é um aumento da aversão ao risco. Isso poderia ocorrer como consequência da maior dificuldade de financiamento de países europeus. Na prática, o capital pode ficar mais caro no mundo todo. Ele citou ainda a possibilidade de um crescimento mais lento das economias da região, o que teria impacto sobre as exportações.
Juro
Questionado sobre os efeitos de uma crise em meio a um ciclo de alta nos juros, Meirelles disse que esse é o aumento de juros mais pacífico dos últimos sete anos. A taxa básica de juros está em 9,5% ao ano.
"É um consenso hoje entre os formadores de opinião que a economia necessita de um ajuste, o próprio pacote fiscal de corte de gastos vai nessa direção", afirmou, em referência ao corte de R$ 10 bilhões anunciado anteontem pelo governo para evitar um superaquecimento da economia.
Meirelles disse ainda que é pouco provável que o país seja surpreendido durante o ciclo de alta dos juros por um evento semelhante à quebra do banco Lehman Brothers, em 2008.
"Toda a estrutura institucional está preparada para evitar a falência de uma instituição financeira sistemicamente importante. É trabalhar esperando o pior e torcer pelo melhor."
O presidente do Deustche Bundesbank, o banco central alemão, Axel Weber, que participou do seminário, declarou que a crise é um processo longo e que deve continuar.   (JANAINA LAGE - Folha de S.Paulo)
 
 
 
 
 

17.05 - Prudência necessária 
Anúncio de corte de despesas é um sinal de sensatez do governo, que enveredava pelo terreno do descontrole fiscal
Depois de uma fase em que a adoção de medidas para enfrentar a crise econômica internacional serviu de licença para gastos descontrolados, o governo federal demonstra, enfim, estar preocupado com o desequilíbrio fiscal e as evidências de superaquecimento da economia.
A Fazenda anunciou um corte adicional de R$ 10 bilhões em despesas de custeio, que poderá ajudar a União a superar a meta de 3,3% do PIB para o superavit primário -a economia do setor público com vistas ao pagamento dos juros da dívida.
O novo congelamento de gastos soma-se aos R$ 21,8 bilhões anunciados em março, perfazendo um total de R$ 31,8 bilhões, cerca de 1% do PIB.
O valor é quase o mesmo dos investimentos vinculados ao Programa de Aceleração do Crescimento, que podem ser abatidos do cálculo do superavit. Se cumprir o prometido, o governo poderá agora alcançar o objetivo fiscal de maneira mais convincente, sem precisar recorrer ao desconto dos valores do PAC.
O anúncio veio em boa hora. Os cortes trazem uma salutar dose de sensatez para um ambiente de gestão das finanças públicas que parecia caminhar para o terreno da irresponsabilidade.
Desde sempre inclinado a aumentar despesas, o governo Lula nos últimos tempos ultrapassou os limites. Uma série de subterfúgios foi utilizada para fechar as contas de 2009, facilitar gastos e driblar a contabilidade oficial.
O mais "criativo" -e preocupante- deles foi a transferência de R$ 180 bilhões do Tesouro Nacional para o BNDES. Na mesma linha, editou-se medida provisória que permite o uso de recursos do chamado fundo soberano para capitalizar estatais, sem afetar o superavit primário.
O quadro tornou-se mais arriscado com a eclosão da crise europeia e com os sinais de que a retomada do crescimento da economia brasileira vinha de fato ocorrendo em ritmo muito forte, o que já levara o Banco Central a iniciar um processo de elevação da taxa básica de juros.
Embora os cortes previstos não sejam suficientes para alterar a direção restritiva da política monetária, podem representar um alívio. Os juros certamente continuarão em alta, mas sem o esforço fiscal seriam maiores as chances de que atingissem um patamar mais elevado -e mais nocivo para a economia.
Quanto à Europa, a montagem, às pressas, de um pacote de socorro de 750 bilhões (cerca de R$ 1,7 trilhão) não deixou dúvidas sobre a gravidade dos desequilíbrios fiscais em muitas economias do continente.
As dificuldades da Grécia lembram, aliás, momentos sombrios já enfrentados pelo Brasil em passado não muito distante. Mesmo fora do epicentro da crise, o governo brasileiro não poderia comportar-se como se nada tivesse acontecido.
Também são positivas, neste cenário, as indicações de que a Presidência dispõe-se a vetar os descalabros previdenciários aprovados pelo Congresso. A hora, de fato, exige prudência.  (Folha de S.Paulo)
 
 
 
 
 

14.05 - A mais nova odisseia da Grécia
Para o líder de um país cujas finanças vêm causando susto ao planeta há meses, o primeiro-ministro grego, George Papandreou, ostenta uma calma quase zen, digna de Obama.
Ele acaba de retornar de reunião com os demais líderes da União Europeia, que decidiram tentar evitar o colapso da Grécia e racha no bloco por meio de uma demonstração de força esmagadora -prometendo quase US$ 1 trilhão em apoio à economia de qualquer país-membro que venha a ter dificuldades.
Mas, em um almoço cujo cardápio incluía peixe grelhado e salada grega, Papandreou deixou claro que está ciente de que o acordo da UE não é uma simples troca de dinheiro de resgate por cortes orçamentários. Não: se considerarmos com atenção o que será preciso para que a Grécia corrija sua economia, estamos falando de uma troca de verbas de resgate por uma revolução. Todo o sistema econômico e político do país terá de mudar, se a Grécia quiser cumprir sua parte do trato.
Papandreou diz que está pronto e que o mesmo se aplica ao país. "As pessoas apelam para que eu mude o país, sabem que mudanças são necessárias. Ninguém desejaria perder essa oportunidade."
Em um restaurante instalado no topo de um edifício, com vista para a Acrópole, peço que Papandreou me conte como foi ser alvo de caçada para o pessoal das transações eletrônicas de títulos por seis meses.
"Por conta da crise de 2008, todos os agentes de mercado se tornaram mais avessos a riscos, e por isso eles atiram rápido", diz o primeiro-ministro de centro-esquerda, eleito em outubro para consertar a bagunça. Os agentes do mercado são "como um animal ferido, que recua ante o menor movimento. Por isso, qualquer boato pode tornar realidade as profecias desfavoráveis que contém".
Comparar os protagonistas do mercado de títulos a bestas selvagens talvez seja injusto para com as bestas, ele sugere. Esses mercados "nem mesmo são humanos, hoje. Algumas dessas coisas funcionam de forma computadorizada e operam em modo automático" ao perceber qualquer sinal de problema.
"Agora teremos uma folga", disse Papandreou, não para relaxar, mas para que o governo inicie "as profundas mudanças -a pequena revolução" na forma pela qual o país é governado, com ênfase na mudança do sistema de incentivos, de modelo que estimulava os gregos a procurar empregos públicos vitalícios a outro cujo foco será estimular a iniciativa privada.
O gabinete do país já aprovou elevar a idade de aposentadoria mínima dos funcionários públicos dos 61 para 65 anos. Os salários médios do funcionalismo foram reduzidos em 20%, e as aposentadorias, em 10%. O imposto por valor adicionado subiu de 19% para 23%, e os tributos sobre combustíveis, álcool e tabaco subiram 30%.
O governo quer reduzir o número de municípios de mil para 400 e o de companhias estatais de 6.000 para 2.000, para poupar dinheiro e reduzir a burocracia. Até o momento, o deficit já caiu 40% ante o de 2009.
Mas Papandreou, cujo carro oficial é um híbrido Prius, diz que, para sustentar essas dolorosas reformas, os gregos precisam se tornar participantes do processo. E isso só acontecerá se houver senso de "justiça" -os gregos querem ver processos contra os grandes sonegadores- e se o povo sentir que seus líderes têm visão.
"Precisamos dar um sonho a este país", para que os sacrifícios façam sentido.
"Vamos trazer as melhores práticas da Europa e do mundo para reformar o país", diz Papandreou. "É difícil, e haverá protestos, mas será um dos períodos mais criativos que a Grécia terá vivido."
Será que a Grécia é capaz de uma revolução cívica? As chances parecem precárias, mas não será necessário consultar o FMI para determinar a resposta. Basta observar os jovens. Se em seis meses eles estiverem emigrando, aposte contra a Grécia. Se os vir decidindo ficar, talvez seja hora de comprar um ou dois títulos gregos.   (THOMAS FRIEDMAN - New York Times, tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo)

14.05 - Europa em transe 
Mercados turbulentos têm uma capacidade fenomenal de encurralar governos financeiramente frágeis 
Quando o ano começou, eu alimentava esperanças de que a minha vida fosse ficar um pouco mais fácil aqui em Washington. A crise internacional estava amainando e a pressão sobre o FMI parecia diminuir.
Não aconteceu. Estamos tendo reuniões da diretoria até no domingo. A Europa não dá descanso. O terremoto europeu, com epicentro na Grécia, afetou grande parte do continente e reverberou no resto do mundo.
O superpacote anunciado pela União Europeia na madrugada de segunda-feira é uma tentativa dramática de estancar a crise. Os primeiros efeitos foram positivos.
Morfina para os mercados, declarou um alto funcionário do FMI. Em grande parte, é uma repetição do que foi feito para lidar com a crise global depois do colapso do Lehman. Com uma diferença importante: procura-se agora atuar em grande escala antes que a Grécia ou algum outro elo fraco provoque uma crise comparável à de 2008-2009. Mas o quadro é desalentador.
Mercados turbulentos, misturando pânico e especulação agressiva, mostram uma capacidade fenomenal de encurralar governos financeiramente frágeis. A matilha de lobos, na expressão de uma autoridade europeia, sente o cheiro de sangue e ataca sem dó nem piedade.
Em resposta, o setor oficial (governos europeus, autoridades regionais, bancos centrais, FMI etc.) procura impressionar os mercados exibindo uma artilharia pesada. Como fizeram em 2008 e 2009, governantes anunciam novamente números estratosféricos de apoio financeiro oficial. Outra vez, aparece a cifra mágica: US$ 1 trilhão ou quase. O FMI é chamado a comparecer com grandes empréstimos. O Banco Central Europeu e outros bancos centrais do continente, depois de muita hesitação, dispõem-se finalmente a comprar títulos públicos e outros papéis duvidosos rejeitados pelo mercado. Voltam as operações de "swap" de moedas entre o Fed e os principais bancos centrais. Em resumo, um deus nos acuda.
Tudo para impedir que a quebra de governos ou de instituições financeiras gere perdas para os credores e recrie um quadro de crise profunda.
Um dos grandes objetivos desses superpacotes é mostrar determinação e poder de fogo na esperança de que o dinheiro anunciado não precise ser totalmente utilizado. Pode funcionar. Nem todo o socorro oficial anunciado pós-colapso Lehman teve que ser desembolsado.
A repetição do artifício leva, porém, ao seu desgaste. Tanto mais que há um elemento de blefe nos números anunciados. Os valores nem sempre estão efetivamente disponíveis.
No caso do FMI, os 250 bilhões que a instituição deveria aportar para socorrer os europeus constituem, de acordo com o divulgado pela administração do Fundo, um valor "hipotético" (sic).
Os europeus parecem ter perdido o rumo de casa. Há pouco tempo, autoridades europeias graúdas consideravam inaceitável que a Grécia, um país da zona do euro, recorresse ao FMI. Agora, os europeus anunciam demandas extraordinárias sobre a instituição, as suas equipes e os seus recursos. No limite, levariam todo o dinheiro que temos aqui -e mais algum.
FMI, não. FME -Fundo Monetário Europeu.   (PAULO NOGUEIRA BATISTA JR - Folha de S.Paulo)

14.05 - Brasil: Remédio tardio para a indigestão 
Governo pensa em cortar gasto para evitar crescimento "excessivo" da economia, talvez o maior em 34 anos 
O Ministério da Fazenda acredita que o país teria crescido em torno de 8,5% no primeiro trimestre deste ano (taxa do trimestre, anualizada). As projeções dos maiores bancos e consultorias vão de 9% a 12%, ao menos nas estimativas daqueles que costumam ser mais certeiros e realistas.
Ontem, o Itaú Unibanco revisou sua previsão de crescimento do PIB deste ano para 7,5%. Na segunda-feira, o Bradesco atualizara a sua estimativa para 7%. As revisões têm sido mensais e muito fortes. Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tais projeções são exageradas. O crescimento ficaria entre 5,5% e 6%.
A se confirmar a previsão do Itaú Unibanco, teríamos neste ano a maior alta do PIB per capita desde 1976. Em um terço de século.
Como se escreveu nesta coluna, faz um mês, a equipe econômica de Lula já estava então preocupada com a aceleração excessiva da economia e dos preços: "O governo está algo surpreendido com a velocidade da recuperação. Pensa agora como pode ajudar a conter a escalada de alguns preços".
O governo então pensava em tomar medidas pontuais a fim de conter aumentos de preços com grande poder de contágio, por assim dizer, como os do aço e de material de construção. Ainda imaginava que o BC poderia apertar o crédito sem apenas recorrer à taxa de juros -exigindo mais depósitos compulsórios dos bancos nos cofres do BC.
Agora, Planejamento e Fazenda anunciam em público e difundem por meios mais discretos a ideia de que pretendem reduzir os gastos de modo a dar sua parte na redução do consumo e, assim, conter a aceleração excessiva da economia.
Em si mesma, a ideia é boa. No mínimo, vai colaborar marginalmente para a redução da dívida pública. Os juros de tal dívida são monstruosos e constituem, enfim, uma grande transferência de renda para a minoria de brasileiros que têm poupança, grandes investidores e bancos.
Quanto a esfriar a economia com cortes de gastos a fim de conter a inflação e evitar altas maiores de juros, esses são outros quinhentos.
Onde o governo pode cortar o bastante, a ponto de dar uma mão na política monetária (a de juros, do BC)? Os aumentos de renda devidos à ação do governo foram contratados no ano passado, e um tanto mais neste: rendas assistenciais, aposentadorias do INSS, salários de servidores, tudo isso já foi.
A despesa pode aumentar ainda, com o reajuste que o Congresso deu aos aposentados do INSS. Mas tal reajuste extra nem estava na conta do governo. Seria corte de vento.
Previdência, salários e gastos vinculados com saúde e educação perfazem quase todo o gasto do governo. Onde é que se vai cortar?
É tarde também para o governo mexer em outra rubrica do PIB, o investimento. O governo aumentou o capital do BNDES. Boa coisa, pois os investimentos crescerão. Mas não dá mais para conter a demanda por aí, a não ser em parte, e com uma paulada nas taxas de juros.
Ainda que o governo tivesse como fazer cortes importantes neste ano, é um tanto tarde para que a medida possa evitar as altas de juros previsíveis para 2010 ("tudo o mais constante", não considerando a hipótese de catástrofes pelo mundo, claro).   (VINICIUS TORRES FREIRE - Folha de S.Paulo)
 
 
 
 
 

13.05 - O FMI melhorou 
É fato conhecido que, no Brasil, o mais importante para a aceitação de uma "teoria" é que ela seja exposta em inglês.
Sua conformação com nossa realidade e nossa história é, em geral, um acidente de menor importância. Que tais construções são mais "modismo" do que "ciência" nunca foi tão visível como no comportamento recente dos economistas do FMI. Estes costumavam impor sua ideologia como "ciência" a todos os países que lhe pediam ajuda. A geografia, a história e a organização política de cada um deles não lhes interessavam.
Eram todos elementos pertencentes a um mesmo conjunto abstrato de países supostamente controlados por um mesmo modelo de equilíbrio, que respondia a uma ciência econômica universal. Esta, em lugar de ser parte de um todo social, era o próprio todo.
Nem mesmo a distinção entre países "desenvolvidos" e "em desenvolvimento" fazia sentido. Numa espécie de ataque de marxismo tardio, para o FMI todos estavam condenados a percorrer o mesmo caminho. Ele era, apenas, o guia que indicava o caminho "ótimo"!
Foi preciso uma crise internacional, que ainda não terminou, mas já dizimou a economia de muitos países e produziu um desemprego e um empobrecimento fantásticos, para que o "modismo" vendido como "ciência" mostrasse a sua verdadeira cara.
Uma coisa é certa: o FMI não produziu a crise, mas suas "crenças" foram importantes fatores coadjuvantes na insensatez que levou os Estados a reduzirem a regulação do sistema financeiro. Regulação criada nos anos 30 do século passado para coibir a repetição da patifaria que produziu a crise de 1929.
Os fatos mostraram que a crença no "mercado" financeiro perfeito, que ao autorregular-se obedecia ao imperativo categórico kantiano, é uma farsa. Os agentes de tal mercado, quando não duramente regulados pelo Estado, têm uma irresistível propensão à velhacaria. Sempre voltam ao local do crime...
Para mostrar a mudança de atitude do FMI e a recuperação de certo "espírito científico" temos: 1º) a dúvida sistemática; 2º) o cuidado e a humildade com as afirmações apodícticas e, acima de tudo, 3º) a busca incessante de refutar empiricamente suas crenças.
E basta esta frase: "Embora existam algumas evidências sugerindo que uma continuada sobrevalorização da taxa de câmbio prejudique o crescimento e que uma desvalorização o estimule, elas são ainda insuficientes" ("Regional Economic Outlook - Western Hemisphere", maio de 2010, pág. 52). Bingo! Essa é a dúvida que temos de eliminar.   (ANTONIO DELFIM NETTO - Folha de S.Paulo)

13.05 - FMI exige austeridade da Europa
Com socorro à Grécia, Fundo amplia seu papel nas decisões econômicas globais e resgata receituário para países em crise
Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente, pede mais ação política do bloco; para entidade, reação europeia será moderada e desigual
De volta ao centro do palco após acudir a Europa, o Fundo Monetário Internacional bateu e assoprou ontem fazendo lembrar sua velha forma: avisou que está pronto para prover crédito a outros países à beira do abismo, mas ditou para Atenas um futuro sombrio.
O diretor-gerente da entidade, Dominique Strauss-Kahn, lembrou que o problema da Grécia não acaba no deficit fiscal, e será preciso tratar a falta de competitividade para sanar as contas e pagar aos credores.
Na prática, para um país sem política cambial independente por conta da moeda comum, isso significa desvalorizar toda a sua economia achatando salários e preços.
"O programa grego é muito duro, dolorido, mas é o modo de voltar para os trilhos. Para a Grécia, isso vai acontecer por meio da melhora da competitividade", afirmou.
A recomendação -que lembra o velho receituário do Fundo, do tipo que é mal recebido nas ruas e tem custo político- foi feita em entrevista coletiva em Zurique após um evento com o Banco Central Suíço.
Strauss-Kahn capitalizou o momento político, bem definido pouco depois pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles: "A posição do FMI no sistema financeiro cresceu enormemente, na prevenção e no monitoramento".
Já o francês lembrou que a instituição debate a reformulação de seu mandato, que suas reservas em um ano triplicaram e que, se forem necessários pacotes a outros países, o FMI tem "recursos disponíveis".
"Há perguntas para o futuro sobre o tamanho do Fundo", ponderou. "Mas admitimos que temos de dar um passo adiante. Isso me deixa otimista sobre a reforma do mandato."
Indagado pela Folha sobre o significado político de a União Europeia ter acorrido ao FMI após meses dizendo que não o faria para não mostrar fraqueza, ironizou: "Melhor perguntar à União Europeia, pois não temos a experiência política".
Mas sua frase seguinte não deixa de ecoar as semanas de resistência da Alemanha para emprestar dinheiro a um vizinho que passou duas décadas bagunçando o orçamento.
"A solidariedade dos países da Europa foi grande o bastante para prover a maior parte do programa [a UE entrou com € 80 bilhões, e o FMI, com € 30 bilhões]. Em qualquer outra parte do mundo onde os vizinhos quisessem providenciar a maior parte do pacote, ficaríamos felizes em deixar."
Performance fraca
Relatório emitido ontem pelo próprio FMI guarda poucos elogios à UE, ressaltando apenas sua ação coordenada para superar a crise e evitar a quebradeira no sistema bancário.
O documento descreve a recuperação europeia como moderada e desigual, atrelada sobretudo à retomada do comércio global e à política de estímulos (a mesma, diz, que ajudou a inflar o deficit mediterrâneo).
"A performance da Europa continua fraca se comparada com a recuperação em outras partes do mundo", diz o texto. E há forte contraste entre os europeus, refletindo vulnerabilidades à dificuldade de financiamento externo e à queda na demanda por exportações.
O FMI se diz cada vez mais preocupado com a intervenção estatal e pede mais ação política. "O crescimento deve ganhar fôlego em 2010-11, mas os motores tradicionais da retomada estarão mais frágeis."
O texto, sem surpresa, também cita a alta do desemprego e o risco aos bancos vindo da crise da dívida.  (LUCIANA COELHO - Folha de S.Paulo)

13.05 - UE está despreparada para apertar o cinto
A Europa ganhou algum tempo com o resgate de 750 bilhões. Mas o problema de longo prazo permanece.
A maior parte da União Europeia vive acima de suas posses. Os deficit governamentais estão descontrolados, e a dívida do setor público, em ascensão. Caso os governos não utilizem para controlar seus gastos o tempo que obtiveram, os mercados voltarão a ficar perigosamente inquietos.
Infelizmente, eleitores e políticos europeus estão despreparados para a era de austeridade que os aguarda.
A Europa poderia continuar a ser o lugar com as mais belas cidades, o melhor vinho, a mais rica histórica cultural, as férias mais compridas, os melhores times de futebol. A vida para a maior parte dos europeus jamais foi tão confortável.
A estratégia era excelente, mas trazia uma grande falha. A Europa não tem como arcar com o custo de sua confortável aposentadoria.
A crise financeira grega serve, infelizmente, como exemplo extremo de um problema europeu mais amplo. Os investidores vêm contemplando nervosamente os níveis de dívida e os deficit orçamentários de Espanha, Portugal e Irlanda.
Mas nem os quatro grandes países da Europa -Alemanha, França, Itália e Reino Unido- estão imunes a preocupações, em razão das dívidas e deficit.
E um dos motivos para a amargura da Alemanha quanto à necessidade de resgatar a Grécia é o conhecimento de que Berlim já enfrenta dificuldades para manter suas contas.
É verdade que os cidadãos da Letônia e da Irlanda já engoliram a necessidade de cortes de salários e pensões. Mas experimentaram pobreza em época recente, seguida por expansão intensa e insustentável. Seus cidadãos sabem que os últimos anos foram um tanto irreais.
Como ilustram os tumultos em Atenas, no entanto, nem todo europeu reage de forma tão estoica a fortes cortes de orçamento. Muitos consideram que aposentadoria antecipada, assistência médica gratuita e seguros-desemprego generosos são direitos fundamentais.
Deixaram há muito de perguntar como essas coisas eram pagas. É essa sensação de que tudo é um direito que torna tão difíceis as reformas.
Mas, caso os europeus não aceitem a austeridade agora, no futuro terão de encarar algo mais chocante: moratórias nacionais e colapsos bancários.
Para muitos europeus, isso é coisa de América Latina. A descoberta de que a Europa Latina -e talvez também a Europa setentrional- pode colidir contra os fatos financeiros será um choque horrível.
O crescimento no tamanho e no poder da UE alimentou uma perigosa sensação de complacência. Para os países do centro e do sul da Europa -que aderiram depois do núcleo central-, "Bruxelas" foi vendida como a apólice de seguros definitiva.
Assim que tivessem aderido à UE, todos poderiam aspirar às vidas relativamente confortáveis e estáveis de franceses e alemães. E o método funcionou durante anos, com a alta dos padrões de vida em países como Espanha, Grécia e Polônia.
Apólice de seguro
Nos últimos anos, a unidade europeia também vinha sendo alardeada como apólice de seguro para os membros fundadores da União. Nicolas Sarkozy e Angela Merkel falam de uma Europa que "protege".
A ideia era que uma União abarcando 27 membros seria grande o bastante para proteger o modelo social único que existe na Europa contra as incertezas da globalização. Em seu nível mais fundamental, a UE decerto protege.
Mas, embora os europeus já não temam Exércitos estrangeiros, começam a temer os detentores estrangeiros de seus títulos de dívida. A existência da Europa como "superpotência do estilo de vida" depende de ampla oferta de crédito.
O resgate do final de semana representa um último salva-vidas lançado aos governos europeus que possam precisar dele. Mas, apesar de toda a conversa sobre solidariedade europeia, um dos custos dessa linha de crédito será o agravamento das tensões no seio da UE.
Já há muitos protestos na Grécia quanto à perda de soberania nacional, só equiparados à amargura na Alemanha sobre o custo do resgate aos irresponsáveis europeus do sul.
Na semana passada, conversei com um membro da elite da UE. Ele sacudiu a cabeça diante das amargas recriminações trocadas entre alemães e gregos e da forma pela qual a crise "lançou os dois povos um contra o outro". Isso, disse, é o mais perto que temos da guerra, na Europa moderna.
Vamos esperar que sim. Mas os europeus estão descobrindo que o "projeto europeu" não oferece proteção contra a dureza do mundo externo. As coisas ainda podem ir horrivelmente mal mesmo no jardim murado da União Europeia.   (GIDEON RACHMAN - Financial Times, tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo)
 
 
 
 
 

12.05 - Brasileiro tende a buscar aplicação com risco maior
Gestores, associações e governo se preparam para o aumento no número de investidores que querem mais retorno, mesmo com mais risco
Apesar da tendência de alta nas taxas básicas de juros para os próximos meses, que acabam acomodando o investidor em aplicações mais conservadoras porém seguras, a indústria financeira tem mexido-se, nos últimos meses, em busca de novos formatos. Gestores de recursos já começaram a sentir uma demanda um pouco maior por investimentos mais arriscados e a expectativa é que, em algum momento num futuro não muito distante, essa busca se torne um hábito corrente do brasileiro.
Atrás desse mercado emergente, Luiz Fernando Figueiredo, sócio da gestora de recursos financeiros Mauá Sekular Investimentos, afirma que a Mauá se uniu à Sekular em outubro para ampliar os produtos ofertados. “O sonho era ter uma companhia de investimentos completa, mas com profissionais reconhecidos entre os investidores”, diz.
Atualmente, a Mauá tem R$ 1,1 bilhão de ativos sob gestão. As áreas de atuação são gestão de fundos, de patrimônio e de crédito. “Queremos desenvolver desde produtos moderados a mais agressivos, em todas as áreas”, afirma.
Na Verax, administradora independente de recursos, o forte são os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). Também conhecidos por fundos de recebíveis, são lastreados em títulos de dívidas de empresas e estão começando a se popularizar. “Queremos ter parceiros para ampliar a oferta de serviços em FIDCs”, diz Marcelo Xandó, diretor executivo da empresa. “
Xandó afirma que seus clientes estão tomando cada vez mais gosto por risco. “Os investidores estão com mais disposição para investir", diz. "Alguns de nossos clientes, por exemplo, saíram de uma fatia de 5% dos ativos em Bolsa para 45%.” A renda variável é mais arriscada que a fixa.
Feito sob medida
Além dos gestores, as associações setoriais e o governo também têm procurado atender à demanda crescente por risco. Na semana passada, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) comemorou o aniversário de cinco anos do IMA, o Índice de Mercado Anbima. O indicador foi criado em parceria com a Secretaria do Tesouro Nacional e representa a evolução da carteira de títulos públicos.
O IMA nasceu para suprir uma necessidade de um mercado mais maduro: um acompanhamento mais fiel para títulos de longo prazo. Até então, explica Marcelo Giufrida, presidente da associação, a indústria de fundos utilizava basicamente o Depósito Interbancário (DI) para medir rendimento. O problema é que o DI é um indicador de curto prazo, e muitas vezes, se mostrava ineficiente para aplicações mais longas.
Nesses cinco anos de vida, o IMA parece estar caindo no gosto dos gestores. Em 2007, segundo levantamento do Tesouro Nacional, 24 fundos seguiam o indicador. Este ano já são 78.
Uma mudança regulatória também ajuda na adesão ao índice. Em 2009, o Conselho Monetário Nacional aprovou mudanças nas regras de investimento de fundos de pensão e regimes próprios de previdência social. No caso dos últimos, tornou-se obrigatório que pelo menos 70% dos investimentos previdenciários em fundos sigam um índice IMA.   (Aline Cury Zampieri - iG)

12.05 - Crise europeia não impedirá país de crescer
A crise econômica europeia, disparada com a debacle da Grécia, não vai impedir o novo ciclo de expansão econômica do Brasil, cujo Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 5,5% a 6% este ano, disse segunda-feira o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, no seminário "Brazil Infrastructure Summit". Promovido pelos jornais Valor e "Financial Times", o encontro reuniu, em seu primeiro dia no Rio de Janeiro, especialistas e autoridades da área de infraestrutura para discutir as propostas e possibilidades de desenvolvimento e financiamento de projetos no país.
Em sua palestra no painel "Panorama Econômico Brasileiro", Mantega falou das condições que fizeram do país um dos únicos no mundo a crescer enquanto a maioria se retraía pela crise internacional. Destacou o crescimento sustentado da economia brasileira com geração de empregos e equilíbrio fiscal e avaliou positivamente o pacote financeiro acertado pela União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), de US$ 955 bilhões ( € 750 bilhões), aprovado na segunda-feira.
Mantega disse que o pacote "deve ser suficiente para restabelecer a tranquilidade", apesar de ter chegado tarde. "A União Europeia estava lenta, dormiu no ponto e a conta foi subindo", criticou. Para o ministro, o pacote europeu permite prever uma recuperação da economia mundial a partir de 2011, o que beneficiaria diretamente o Brasil ao reduzir a pressão sobre as contas externas. "Temos tido problemas com déficit em transações correntes que se deve à crise que reduziu o comercio internacional e, portanto, os nossos mercados."
O economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, também se mostrou otimista em relação à possibilidade de que o pacote de ajuda anunciado pela União Europeia evite o contágio da crise iniciada na Grécia. "Os países se juntaram, vai ter um grande ajuste fiscal. A economia vai continuar funcionando", frisou Goldfajn, para quem a economia global ainda vai sofrer os efeitos de um crescimento mais modesto no médio prazo. "Mas não será mais um crise desorganizada", acrescentou.
Para o Brasil, a projeção de Goldfajn é de que a crise europeia não afetará a tendência de um crescimento forte para este ano. A estimativa de crescimento do Itaú Unibanco para o país em 2010 é de 6,5% e o economista confirmou que o patamar está sendo revisto, "provavelmente para cima".
Na visão de Mantega, a solução da crise internacional com o pacote financeiro da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional também é importante do ponto de vista de perspectivas de financiamento dos projetos de infraestrutura a médio e longo prazos. "O Brasil hoje pode ser considerado um canteiro de obras", afirmou Mantega apresentando um mapa com as principais obras em curso no território nacional, entre elas rodovias, ferrovias, plataformas de petróleo e hidrelétricas.
Mantega garantiu que o volume de poupança interna prevista para 2010, da ordem de 18,5% do PIB mostra forte recuperação em comparação com 2009, quando foi de 16,5%. No entanto, o salto nos investimentos previsto para os próximos anos vai exigir poupança estatal e externa para garantir o financiamento de projetos que, só na carteira do BNDES, já passam de R$ 300 bilhões.
Em entrevista ao Valor, Mantega rebateu as críticas de economistas e analistas de que haveria um superaquecimento da economia brasileira. No entanto, disse que o governo prepara medidas de curto e médio prazo para evitar ameaças ao cumprimento da meta de inflação para 2010, de 4,5%.
Retiradas as medidas de estímulo tomadas em 2008 como redução de IPI e de depósitos compulsórios nos bancos, o próximo passo será cortar gastos públicos. Segundo Mantega, o corte vai atingir gastos correntes em todos os ministérios, mas o valor global da redução ainda está em definição, sujeita à aprovação do presidente luiz Inácio Lula da Silva.   (Janes Rocha e Rafael Rosas - Valor Online)

12.05 - Previsão para o PIB sobe pela oitava semana
Os analistas do mercado financeiro elevaram, pela oitava semana seguida, a previsão para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) para 2010. Segundo o relatório Focus, divulgado segunda-feira pelo Banco Central (BC), o PIB deve fechar o ano com elevação de 6,26%. Para 2011, a previsão de crescimento econômico do mercado financeiro permaneceu estável em 4,5%.
As estimativas para a inflação oficial para 2010, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), também foram elevadas pela 16ª semana consecutiva, para 5,50%, bem acima da meta do governo de 4,5%. Para 2011, a previsão dos analistas permaneceu em 4,8%.
A produção industrial também teve suas projeções aumentadas para este ano pela 11ª vez seguida. Segundo os analistas do mercado financeiro, a produção industrial deve ter elevação de 10,30%. No último relatório a previsão era de alta de 9,54%. Para 2011, a estimativa permaneceu inalterada em 5,00%.
Já a projeção dos economistas do mercado financeiro para o superávit da balança comercial em 2010 subiu de US$ 12,2 bilhões para US$ 13 bilhões na semana passada. Para 2011, o BC revelou que a previsão dos economistas para o saldo da balança comercial permaneceu estável em US$ 5 bilhões de superávit.   (Executivos Financeiros)
 
 
 
 
 

11.05 - A natureza da crise na Europa 
É preciso repensar radicalmente o problema das finanças internacionais e dos deficit em conta-corrente 
O quadro financeiro europeu continua muito grave. A Alemanha, afinal, decidiu dar apoio ao pacote financeiro grego, de forma que a dívida do setor público da Grécia está equacionada. A imprensa tem dado amplo noticiário sobre o assunto, mas afinal se limita a informar sobre o deficit público e a dívida pública do Estado grego, em vez de informar sobre o problema fundamental que não é do setor público, e sim do setor privado: é o deficit em conta-corrente e a dívida externa dos países. O problema fiscal é grave porque o deficit de 2009 somou-se a elevados níveis de dívida pública, mas o desequilíbrio não está apenas nos governos; está nos países como um todo e, portanto, em seu deficit em conta-corrente e em sua dívida externa, que englobam o setor público e o setor privado. 
Se o problema fosse apenas do setor público, o socorro financeiro e uma política dura de ajuste fiscal resolveriam a questão. Sendo do país, necessita da depreciação cambial que não podem realizar. 
A União Europeia controla os deficit públicos, não controla os deficit em conta-corrente. Os jornais não publicam dados sobre esse deficit porque não os recebem dos economistas. Esses não os informam porque a teoria econômica ortodoxa pressupõe que o setor privado é equilibrado pelo mercado: é o chamado "princípio de Lawson", associado ao ministro das Finanças de Margaret Thatcher, Nigel Lawson. 
A Crise Global de 2008 mostrou que essa tese é absurda no plano nacional. Agora o fenômeno se repete no plano internacional. Em 2009, enquanto a Alemanha, que reduziu salários nos últimos dez anos, obteve superavit em conta-corrente de 4,8% do PIB, Grécia, Portugal, Espanha e Itália realizaram deficit em conta-corrente de 10,2%, 10,5%, 5,8% e 3,9% do PIB, respectivamente. Esses deficit financiaram investimentos de médio prazo, mas as empresas e o Estado se endividaram no mercado financeiro de curto prazo. 
Devedores e credores sabiam que os débitos não poderiam ser pagos de um dia para o outro -que teriam que ser rolados-, mas, dado o pressuposto dos mercados privados sempre equilibrados, foram adiante no processo. Até que, neste ano, repentinamente, os credores começaram a elevar os prêmios de risco e a suspender a rolagem da dívida. 
O problema se agrava porque decidiram pelo "sudden stop" em um quadro no qual os países não têm o mecanismo de ajuste clássico para esses momentos: a desvalorização cambial, que reduziria os salários e equilibraria a conta-corrente. Os Estados de cada país podem ajustar suas finanças, mas não há solução para o desajuste privado de países que não têm moeda própria para desvalorizar. 
Como na Crise Global, existe a solução financeira via Estado. O governo da União Europeia pode garantir a dívida externa daqueles quatro países por meio da criação, às pressas, de um FMI europeu, por meio do próprio FMI e via BC Europeu. 
Neste momento, os ortodoxos dirão que o BCE não pode entrar no jogo porque estaria criando dinheiro ao socorrer os países, mas foi exatamente isso o que fez o Federal Reserve na Crise Global, sem causar inflação. Agora o BCE precisará criar dinheiro para salvar os países, ou melhor, novamente os bancos, porque foram eles que emprestaram. 
Mas uma situação como essa não pode continuar para sempre. A política de crescimento com poupança externa já vitimou muitos países. É preciso repensar radicalmente o problema das finanças internacionais e dos deficit em conta-corrente.    (LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA - Folha de S.Paulo)

11.05 - A crise na Grécia afetará a economia brasileira?
NÃO
Contágio é menos intenso que no passado
PAULO TENANI
Bolhas especulativas existem em diferentes variedades e podem inflar ou derrubar preços de ativos, mas só surgem e se desenvolvem sob determinadas condições.
Por exemplo, entre 1997 e 2002, o Brasil tinha condições necessárias e suficientes para que bolhas especulativas surgissem no mercado de dívida e câmbio. Qualquer choque mais intenso poderia levar os ativos brasileiros a adquirir vida própria e sofrer correção muito maior do que seria justificado pela deterioração dos fundamentos.
Hoje, no entanto, em tempos de crise na Grécia, o contexto é bastante distinto, e tais condições não mais existem. Nesse sentido, assumindo contágio, é improvável que, como no passado, os ativos brasileiros desvalorizem-se desproporcionalmente -sem relação com os fundamentos.
Alguns números são ilustrativos.
Entre 1997 e 2002, o Brasil enfrentou uma conjunção de fatores desfavoráveis, que resultaram na condição necessária para uma bolha especulativa: juros mundiais de 5,5%, risco Brasil de 9%, crescimento econômico em 2% e um superavit primário e dívida líquida, respectivamente, em 2,25% e 47% do PIB (Produto Interno Bruto) -números medidos em termos de valores médios no período.
Nessas circunstâncias, a dinâmica da dívida pública brasileira era intrinsecamente instável, aumentando, em condições normais, 2,3 pontos percentuais por ano.
Por outro lado, a dívida pública indexada ao dólar, que na época representava 18% do PIB, caracterizava o mecanismo de realimentação -condição suficiente para uma bolha.
O processo era o seguinte: um choque no risco-país afetava a taxa de câmbio, que, por sua vez, através da dívida indexada ao dólar, desestabilizava ainda mais a dinâmica da dívida.
O risco Brasil, então, era novamente afetado, o que, mais uma vez, repercutia sobre o câmbio; e o processo assim se repetia. Ou seja, entre 1997 e 2002, existiam condições para o surgimento de duas bolhas especulativas que se realimentavam mutuamente: uma na dívida, outra no câmbio.
Bastava apenas um choque -e no período o Brasil sofreu vários- para iniciar o processo.
Hoje, no entanto, o Brasil enfrenta uma conjunção de fatores distinta: juros mundiais de 3,6%, risco-país em 2%, crescimento em 5,5% e superavit primário e dívida líquida em, respectivamente, 3% e 42% do PIB.
Nessas circunstâncias, a dinâmica da dívida é intrinsecamente estável, decrescendo, em condições normais, quatro pontos percentuais por ano. Além do mais, não há mais mecanismos de realimentação, pois que a dívida indexada ao dólar é negativa.
Ou seja, não há condições para um choque instaurar uma bolha que derrube o preço dos ativos mais que proporcionalmente a deterioração dos fundamentos, muito pelo contrário.
Se hoje, no Brasil, existem condições para bolhas especulativas, elas estão no sentido de inflar, não no de derrubar o preço dos ativos.
A baixa probabilidade de bolhas negativas no Brasil, no entanto, não é a única boa notícia. O cenário também é melhor para os fundamentos.
Por exemplo, a evidência empírica sugere que o Brasil está se tornando um país de "beta" baixo -menos correlacionado com o cenário global.
Entre 1997 e 2002, o "beta" médio da dívida externa soberana brasileira era 1,05, enquanto o "beta" do mercado de ações era de 1,64, e o do câmbio, medido entre 2003 e 2008, de - 0,73.
Hoje, as correlações caíram para 0,71, 1,33 e - 0,70, respectivamente.
Ou seja, tudo o mais constante, uma queda de 20% nas bolsas globais, como aconteceu em outubro de 2008, resultaria em aumento de um ponto percentuais no risco Brasil (para 3%), desvalorização de 13% do real e queda de 26% do mercado de ações.
Sem dúvida um ajuste difícil, dada a deterioração abrupta dos fundamentos globais. Mas um ajuste que fica muito aquém da queda de preços possível na presença de uma bolha.
Nesse sentido, a possibilidade de contágio vindo da Grécia pode até ser preocupante. Porém, na ausência de bolhas especulativas, as simulações acima sugerem um ajuste muito menos dramático do que o Brasil já experimentou no passado.
SIM
A especulação tem limites
GILSON SCHWARTZ
O Brasil sempre foi o "país do futuro". Com o tempo, esforços foram empreendidos para acelerar esse tempo pela ação do Estado e do desenvolvimentismo, uma espécie de ciência da aceleração do tempo econômico.
A eterna promessa brasileira, no entanto, parecia ter desencantado na crise financeira de 2008-2009.
Com o desmonte ocorrido nas principais economias desenvolvidas do mundo, parece que um relógio maluco inverteu seus ponteiros e as economias da periferia, como Brasil, China e Índia, tornaram-se as que já chegaram ao futuro, enquanto as sociedades maduras e pós-industrializadas retraem-se e retrocedem a níveis bárbaros de desemprego, endividamento e asfixia do gasto estatal.
É hora do Brasil? Ou tudo não passa de mais uma ilusão de ótica criada pela forte e rápida deterioração dos países mais ricos?
O ilusionismo é decorrência da especulação financeira. Nesse jogo de espelhos, não interessa tanto a qualidade do ativo, mas o sentido do fluxo, o movimento da manada.
Se o sistema indica baixa na rentabilidade de ativos ancorados nas economias mais ricas, o capital em busca de oportunidades fareja o que parece menos ruim e com potencial de alta (quem não arrisca, não petisca). Não importa quão bom é um papel ou ativo financeiro, mas o quanto ele pode melhorar, seja como for.
Há limites para as virtudes expansivas da economia especulativa. A ilusão de ótica se desfaz nos movimentos do próprio sistema.
Ontem, era bom comprar Brasil para escapar da crise. Hoje, é melhor vender Brasil: liquidar ativos brasileiros, ainda com bom preço, ajuda a melhorar o balanço de quem perde dinheiro na Grécia ou na Espanha.
O risco, nessa conjuntura, é o de se encantar com as ilusões provocadas pelos fluxos de capitais "andorinhas", com foco no curto prazo.
A onda de otimismo com um mercado é real, mas a massa de apostadores que acorre querendo surfar ao mesmo tempo cria muitas vezes apenas mais espuma, não uma onda mais alta ou duradoura.
No Brasil, o Banco Central faz o que pode para enfrentar a euforia especulativa (travestida de apetite exuberante e irracional por países menos afetados pela crise global).
A tragédia grega nada tem a ver com o Carnaval brasileiro? Já vimos esse filme antes (a fantasia mais célebre foi o "milagre" dos anos 70). Para evitar o pior, o ciclo de redução dos juros já foi revertido e a percepção mais realista é a de que os primeiros dois anos após as eleições presidenciais exigirão forte disciplina fiscal.
A União Europeia aderna com problemas financeiros e fiscais. Os EUA ganharam fôlego. Não é trivial, para o investidor global, acreditar em miragens como Brics. Pode ser uma boa hora para realizar os lucros da "onda" brasileira e correr de volta para o complexo industrial-consumista animado pelos EUA e pela China.
Para garantir a estabilidade do Brasil nessas águas agitadas e turvas, o Banco Central continuará cauteloso e elevará os juros para manter a taxa de câmbio sob controle (juros mais altos no Brasil atraem dólares, que reforçam nossa blindagem cambial).
Descartada a ilusão de ótica, a miragem da "ilha de tranquilidade" tropical, a economia brasileira ainda não encontrou um modelo de desenvolvimento que se sustente sem juros reais elevadíssimos.
A expiação dos pecados terceiro-mundistas (moratória, estatismo e corrupção) foi até hoje insuficiente no duelo com o dragão da inflação e contra os diabos da especulação.
A crise grega (e europeia), combinada aos sinais de retomada dos EUA, pode configurar o pior dos mundos: perdemos mercado (dada a perda no poder de compra dos europeus) e ficamos menos atraentes como destino de investimentos produtivos (pois nossa aceleração do crescimento também tem limites, mesmo com todo o apoio estatal).
O cenário doméstico reforça a cautela -inflação acima da meta, dúvidas sobre o equilíbrio fiscal e incerteza eleitoral afetam investidores abalados pelo rescaldo global.
Chegou mais uma vez a nossa hora, mas talvez ainda não seja a nossa vez.   (Folha de S.Paulo)

11.05 - Investimentos: Sob a nuvem vulcânica
Como ficam os investimentos no Brasil com o agravamento da crise europeia?
A crise que sacode as economias da Europa, a Grécia em especial, vai afetar a remessa de recursos a países emergentes? Para alguns economistas, os gregos já não são o maior problema. O apoio europeu e o do FMI vão sinalizar uma saída. A preocupação central é com o sistema bancário europeu, que, literalmente, travou. O que vai definir o alcance da crise será a capacidade de o Banco Central Europeu dar repostas mais ágeis, a exemplo do que fez o Fed (o BC dos EUA) na crise do Lehman Brothers. Analistas afirmam que, até agora, não veem contágio muito significativo para o Brasil nos custos de linhas externas. A crise na Europa escamoteou as deficiências brasileiras, como o deficit, e favoreceu o entusiasmo com o Brasil? Como há liquidez no mundo, investidores acabaram investindo no país, apesar dos problemas?
Abaixo, extratos da opinião de economistas.
Brasil pode se beneficiar
"O Brasil pode se tornar beneficiário de uma certa "fuga para a qualidade". Apesar das incertezas que ainda rondam a economia europeia e que podem nos afetar via commodities, confiança e financiamentos externos, o país tem grandes chances de seguir como "darling" dos mercados. Os vasos comunicantes abalam todos os mercados, mas a volta pode ser bem favorável ao Brasil se autoridades do G7 derem a resposta adequada a essa crise. Seria fantástico se mostrássemos que somos capazes de avançar no plano fiscal e que não deixaremos que retrocessos nos joguem na vala comum dos países desajustados fiscalmente. Nossa situação fiscal não pode depender só do crescimento econômico forte como o deste ano porque, em fases de vacas magras, as fraturas ficarão expostas. Se déssemos sinais de austeridade, aí, sim, o Brasil poderia ter um extraordinário benefício na disputa por investimentos."
Lado fiscal preocupa
"O Brasil tem sido procurado mais pelos seus méritos do que pelos deméritos dos demais países. Tenho restrições, mas não há como não reconhecer que o Brasil está se dando melhor que outros países, pela atitude que adotou há anos, de responsabilidade fiscal e de preocupação em manter a inflação sob controle. Há problemas: o país tributa demais e gasta demais; há também preocupação com o lado fiscal, mas não como a Grécia, de insolvência. O problema fiscal é um obstáculo à nossa capacidade de crescimento, mas não como em alguns países da Europa, em que se questiona a capacidade de pagamento dos governos. O Brasil poderia melhorar a sua política fiscal, mas o fato de ter adotado uma política de redução da dívida em relação ao PIB é um mérito."
Incerteza favoreceu o país
"Tudo dependerá do tamanho da crise, se vai reduzir a atratividade dos emergentes, sem elevar muito a aversão ao risco. O Brasil é um dos mais bem alocados. Mas, se a crise aumentar, isso pode mudar. O BCE parece pouco afeito ao problema. Vão ter que chamar o Brasil para entender como trabalhar. É banco de estirpe alemã, tendo que lidar com problema ao qual não está acostumado, que parece de latino-americano. São 15 Tesouros que não têm necessariamente o mesmo entendimento de como ajudar a Grécia. O Brasil acaba sendo destino para o dólar. O país vinha sendo favorecido pelas incertezas causadas pela crise europeia. Nos últimos dois meses, quando já havia sinais da Grécia, havia lista de espera para emissões. O risco-país, medido pelo CDS, estava baixo. Mas acabou subindo."
Dívida requer atenção
"O Brasil não tem problema de solvência, como a Grécia, e tem a perspectiva de manter a relação dívida líquida sobre o PIB. No longo prazo, deve ter crescimento em torno de 5%. Se o Brasil entregar superavit primário de 2,5%, conseguirá reduzir a dívida líquida como proporção do PIB e, talvez, zerar o deficit nominal até 2020. Mas há riscos no radar: a previdência preocupa e, com a incerteza relativa ao fator previdenciário, ficou ainda pior. É preciso também ficar atento ao endividamento bruto, em razão de empréstimos a bancos públicos. Sem entrar no mérito, a perspectiva é boa, mas não pode exagerar. Apesar da redução do superavit primário, a situação brasileira é mais fácil do que a de alguns países desenvolvidos. O investidor estrangeiro não está olhando com atenção para o deficit brasileiro. Nem muitos de nós."   (Maria Cristina Frias - Folha de S.Paulo)
 
 
 
 

10.05 - O que devemos preservar na economia 
Espero que o que houve nos mercados sirva para abrir os olhos das autoridades sobre a falta de controle dos gastos 
A economia brasileira tem se beneficiado por mudanças estruturais importantes que estão ocorrendo no mundo nos últimos anos. São eventos que ocorrem fora de nossas fronteiras e em relação aos quais não temos nenhuma influência. De certa forma, somos observadores privilegiados desse processo que ainda é ignorado pela grande maioria de nossos analistas políticos e econômicos. Mesmo dentro do governo a desinformação em relação a esses fatos é abissal.
Estou convencido de que estamos vivendo uma descontinuidade importante no funcionamento das economias de mercado que formam o que se convencionou chamar de mundo global. Até a virada do século, o processo de globalização ocorria dentro de um arcabouço institucional e operacional herdado do pós-Segunda Guerra Mundial.
Podemos colocar o colapso do mundo comunista -ou soviético, para ser mais preciso- como uma etapa final na construção desse mundo econômico centrado nos Estados Unidos e na Europa.
Um primeiro sinal da descontinuidade a que me referi veio com a ascensão da China e de umas poucas economias emergentes como a brasileira, os chamados Brics. A força desses novos atores vinha, principalmente, do potencial de consumo de seus cidadãos à medida que se incorporavam ao mercado de trabalho e de crédito. Eles representavam um contraponto ao consumidor do Primeiro Mundo, que mantinha seus gastos à custa de um superendividamento bancário.
Mas é a partir de 2008, com a quebra do Lehman Brothers e a necessidade de um incrível esforço financeiro dos governos do G7 para evitar uma depressão econômica, que a descontinuidade no funcionamento da economia mundial aparece de forma clara. A crise grega acordou a todos sobre a gravidade dos desequilíbrios financeiros dos países ricos e recolocou na ordem do dia os receios de uma nova crise de credibilidade no funcionamento da economia mundial.
Tardiamente foi percebido que, para salvar o sistema bancário no G7, governos passaram a incorrer em deficit fiscais gigantescos, o que levou o endividamento público a níveis próximos da ruptura. E só mais recentemente ficou claro que os grandes detentores dos títulos públicos são os mesmos bancos que foram salvos pela ação dos Tesouros nacionais. A credibilidade do sistema financeiro está sendo novamente colocada em xeque e o medo de um banco investir em outro já está de volta, pelo menos na Europa.
Na próxima década, um dos elementos mais importantes para o sucesso ou o fracasso de uma economia nacional será o nível do endividamento público. E, mais uma vez, são os países da antiga periferia econômica -hoje chamados de emergentes- que estarão em melhores condições de crescer. E o Brasil está entre eles. Talvez um dos pontos mais importantes para garantir um crescimento sustentado nos próximos anos seja uma relação dívi- da-PIB vista como sólida.
Por isso, parece-me uma irresponsabilidade a falta de controle atual dos gastos fiscais do governo Lula, principalmente a emissão de dívida pública para aumentar a capacidade de emprestar do BNDES.
Preservar um endividamento controlado, em um mundo apavorado com as dívidas dos governos, pode ser até mais importante para nós do que o chamado pré-sal lulista.
Espero que os acontecimentos dos últimos dias nos mercados -inclusive a disparada do dólar aqui no Brasil- sirvam para abrir os olhos das autoridades.  (LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Folha de S.Paulo)

10.05 - A macroeconomia de 2011
Na ata do Copom de março, o Banco Central indicou que não mais mirava a inflação de 2010, optando por manter a taxa Selic constante, apesar de suas projeções indicarem que nesse cenário a inflação do ano ficaria "sensivelmente acima do valor central de 4,5% para a meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional CMN". Reconhecia, assim, que o custo para trazer a inflação para o centro da meta este ano seria alto demais e que melhor seria fazer um ajuste mais gradual, voltado para garantir essa convergência em 2011. Desde então, a expectativa de mercado para a alta de preços este ano subiu 0,4 ponto percentual (p.p.), no caso do IPCA, e 1,9 p.p., no do IGP-M. É bem possível que essas projeções subam mais nos próximos meses e não se pode descartar o risco de que a inflação supere o teto da banda.
A política fiscal também não deve atingir suas metas este ano. O superávit primário do primeiro trimestre de 2010 ficou em apenas 2,1% do PIB, cerca de um terço do observado em 2008, quando o PIB registrou uma expansão semelhante à atual. No acumulado de 12 meses, métrica que controla melhor para a sazonalidade do gasto e da receita pública, esse indicador está em 1,9% do PIB. Dificilmente se conseguirá fechar o ano com um superávit próximo à meta de 3,3% do PIB. Outras facetas da política fiscal também geram preocupação. Por exemplo, as operações de empréstimos do Tesouro aos bancos públicos, além de elevar o juro implícito sobre a dívida líquida, criam passivos contingentes e reduzem a transparência da contabilidade pública.
Em relação ao crédito público, largamente ampliado desde o final de 2008, em princípio para combater a crise, também não se observa uma desaceleração consistente com o seu prometido caráter anticíclico. No primeiro trimestre de 2010, com a economia brasileira crescendo acima de 7%, o setor financeiro público ampliou os empréstimos tanto quanto os bancos privados. A possibilidade de que o Tesouro aporte novos recursos nessas instituições sinaliza que essas devem continuar expandindo suas carteiras num ritmo forte.
Os mais críticos não hesitarão em enxergar nesse quadro mais do que uma deterioração conjuntural na qualidade da política econômica, lembrando que é mais custoso reverter os desequilíbrios que estão sendo gerados do que simplesmente evitá-los. Muitos estranharão essa visão, considerando a forma positiva como o mundo passou a enxergar o Brasil. Mas não se pode esquecer que o país ficou mais atraente para o investidor, menos pelos progressos que fez recentemente, e mais pela deterioração de fundamentos no resto do mundo.
Se 2010 está essencialmente perdido em termos de ambições da política macroeconômica, é hora de pensar sobre o que fazer em 2011. Essa reflexão é importante não apenas para sinalizar como serão revertidos os desequilíbrios herdados de 2010, mas também no sentido de se discutir qual a estratégia que deve ser adotada no próximo mandato presidencial. Além disso, o primeiro ano de mandato é basicamente a única janela aberta para a adoção de reformas que permitam conter a escalada dos gastos públicos correntes, reformas que em geral não gozam da simpatia do eleitor, como demonstrou esta semana a Câmara dos Deputados.
Idealmente, a política macroeconômica de 2011 deverá focar em dois objetivos. Primeiro, reduzir o ritmo de expansão da demanda doméstica, de forma a conter a inflação e limitar a ampliação do déficit externo. Em especial, isso deve ser feito utilizando um mix mais equilibrado de políticas fiscal, creditícia e monetária. Em 2010, como observou Gustavo Loyola neste espaço, isso está sendo feito com certa dose de esquizofrenia, com a política monetária puxando o freio, enquanto as políticas fiscal e creditícia pisam no acelerador.
Segundo, é preciso aumentar a poupança doméstica, para que se possa elevar a taxa de investimento, viabilizando um crescimento potencial mais alto, sem gerar um déficit externo insustentavelmente elevado. Para isso será necessário mudar a composição do gasto público, reduzindo as despesas correntes e elevando as de capital, em especial em infraestrutura. Isso também passa por reduzir os subsídios dados pelo Tesouro ao setor privado, por intermédio dos bancos públicos, limitando-os aos casos em que haja uma contrapartida social que vá além do ganho privado dos donos e empregados das empresas beneficiadas.
Em 2011 é provável que o novo governo, como é tradicional, aproveite para dar um freio de arrumação, subindo mais os juros e cortando gastos, com programas de austeridade e controles na "boca do caixa". Se, porém, ousar mais e der uma guinada na direção apontada acima, pode levar o país a um novo patamar de crescimento, com a redução do custo de capital e a alta na demanda por investimentos. A elevada poupança pública, e não o dirigismo estatal, foi o verdadeiro segredo do período de alto crescimento do Brasil no século passado.   (Armando Castelar Pinheiro - Valor Online)

10.05 - BC indica que manterá o ritmo de alta dos juros
Efeitos dos gastos do governo preocupam mais Copom que desdobramentos da crise grega
Ata da última reunião do Copom sinaliza que alta dos juros nos próximos meses é necessária para colocar a inflação na meta prevista
O Banco Central deve manter o ritmo de aumento da taxa básica de juros nos próximos meses para colocar a inflação na meta, de acordo com a ata da última reunião do Copom, divulgada ontem.
Na semana passada, o BC aumentou a taxa, que estava inalterada desde julho do ano passado, de 8,75% para 9,50% ao ano. O documento divulgado ontem reforçou as apostas de que os juros devem subir para 10,25% na reunião de junho.
Apesar dos problemas na Grécia e em outros países europeus, o BC diz que está mais preocupado com os efeitos dos gastos do governo sobre a economia brasileira do que com o ambiente externo, que ainda é de "liquidez abundante".
Para o BC, a piora no mercado internacional ainda não compromete o fluxo de recursos para o país. Além disso, os preços de ativos brasileiros e commodities, fatores que afetam a inflação doméstica, continuam se valorizando.
A instituição afirma, no entanto, que esse cenário pode ser rapidamente revertido, o que vai depender do "quadro de desconfiança" do mercado em relação à solvência dessas economias europeias.
Ao justificar a alta dos juros, o BC diz que era preciso agir de forma "incisiva" para evitar a disparada da inflação. Para o BC, apesar de a crise econômica ter sido superada, os incentivos do governo continuam estimulando o aumento da demanda, que está acima da oferta.
"A despeito da reversão de parcela substancial dos estímulos introduzidos durante a recente crise financeira internacional, desde a última reunião, aumentaram os riscos à concretização de um cenário inflacionário benigno", diz a ata.
Além do aumento recente da inflação, o Banco Central vê como sinais de aquecimento da economia os indícios de escassez de mão de obra em alguns segmentos e a alta dos custos de insumos para a produção.
O BC não divulga as previsões para o IPCA, mas diz que elas estão "sensivelmente" acima da meta de 4,50% na maioria dos cenários traçados para 2010 e para 2011.  (EDUARDO CUCOLO - Folha de S.Paulo)

10.05 - Crise na Europa pode deter nova alta de juro
Ata do Copom alerta que agravamento da crise pode levar a interrupção do crescimento global e causar deflação com impacto na inflação brasileira
A crise fiscal na Europa, que teve início com a Grécia e ganhou contornos mais graves nos últimos dias, entrou no radar do Banco Central (BC) e passou a ter peso na definição dos próximos passos da política de juros. A ata da última reunião do Copom, divulgada na quinta-feira, 6, alertou para a possibilidade de um agravamento da crise europeia levar a uma interrupção da retomada do crescimento nos países desenvolvidos e provocar um movimento de deflação com impacto na inflação brasileira.
A interpretação que ganhou força no mercado financeiro, logo após a divulgação da ata, foi a de que as altas de juros poderão ser menores do que o esperado, caso a crise fiscal que se abateu sobre a Europa se intensifique. Em consequência, o mercado de juros começou a rever as suas apostas com a possibilidade de altas menores da taxa de juros daqui para frente. A aposta de que o Copom poderá subir a taxa Selic em um ponto porcentual na sua próxima reunião, em junho, ficou enfraquecida.
Nesse cenário de piora da economia europeia, as empresas no Brasil iriam importar a deflação europeia comprando do exterior produtos mais baratos, como matéria-prima e insumos para a indústria, com impacto positivo sobre a inflação no País. Além de baratear as importações, o "viés" positivo da crise europeia para a inflação brasileira seria reforçado também pela queda dos preços de commodities, pressionado para baixo a inflação.
Cenário
Na ata, os integrantes do BC afirmam que o cenário de retomada das pressões inflacionárias em "economias relevantes" do mundo, que estava se configurando nos últimos meses, inclusive com o aumento dos preços das commodities, poderá ser revertido rapidamente "dependendo da dinâmica que tomar" o quadro de desconfiança do mercado em relação à solvência de alguns países europeus. Dessa forma, no entendimento do Banco Central, a influência benigna do cenário externo para o comportamento da inflação brasileira, que vinha diminuindo nos últimos tempos, poderá continuar.
"O peso externo na inflação é hoje maior do que o interno, de aumento da demanda", destaca Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor da área externa do BC e hoje economista-chefe da Confederação Nacional de Comércio (CNC). Segundo ele, um choque deflacionário na Europa e nos EUA poderá fazer com o BC faça uma dosagem menor dos porcentuais de elevação da Selic. Por outro lado, alertou Freitas, a crise na Europa aumenta as incertezas de médio prazo com relação à inflação. Segundo ele, com o aumento da aversão ao risco os investidores retiram as suas aplicações em títulos de países emergentes em troca do porto seguro dos papéis do Tesouro norte-americanos.  (Adriana Fernandes e Fabio Graner, colaborou Francisco Carlos de Assis - O Estado de S. Paulo)
 
 
 
 
 

07.05 - O arrastão financeiro 
Ataque especulativo tornou-se palavra branda demais para descrever o que está acontecendo na Europa. Já é um "arrastão", desses que vira e mexe acontecem nas praias do Rio ou nos condomínios de São Paulo.
A gota de sangue que pingou da Grécia (e ontem pingou literalmente, não figuradamente) despertou o apetite incontrolável das piranhas do mercado financeiro. Não há mais -se é que houve em algum momento- a menor "rationale" para o que está ocorrendo.
É só ler o que um dos operadores de mercado, Juan Luis García Alejo, do Inversis Banco, disse ao jornal espanhol "El País": "É impossível impor a calma nos mercados neste momento. Quando a Grécia não tinha um plano de ajuste, era castigada; quando o aprovou, era muito pequeno; e agora, que o endureceu, os investidores dizem que não acreditam nele".
Não é pequeno o estrago, de que dá prova frase de Angela Merkel, a chanceler alemã, em geral pouco dada a arroubos retóricos: "Estão em jogo o futuro da Alemanha e o futuro da Europa".
Surpreende o arrastão? A mim, nadica de nada. A ganância desenfreada tornou-se o combustível que move uma parte importante do setor financeiro.
O que surpreende é o silêncio de governantes, acadêmicos e até dos bancos não corsários, igualmente vítimas. Anteontem, o Santander sofreu um belo tombo por conta da especulação contra tudo o que cheirasse Espanha, cujo sangue está sendo pedido pelas piranhas.
O que você, Fábio Barbosa, presidente do Santander no Brasil e da Federação de Bancos e eterno pregador da ética nos negócios, tem a dizer?
Essa roleta infernal não gera "benefício social", como disse há dias George Soros, que é campeão mundial de ganhar dinheiro com as falhas do mercado, mas sabe enxergá-las e não se cala.  (Clóvis Rossi - Folha de S.Paulo)

07.05 - É possível salvar o euro?
A crise financeira grega colocou em jogo a sobrevivência do euro. Quando a moeda unificada foi criada, muita gente se preocupava com sua viabilidade no longo prazo. Porque tudo transcorreu bem, essas preocupações foram esquecidas.
Mas a questão de como realizar ajustes caso uma parte da zona do euro fosse atingida por fortes efeitos adversos persistiu. Determinar uma taxa fixa de câmbio e entregar a autoridade monetária ao Banco Central Europeu eliminou os dois meios primários pelos quais governos nacionais estimulam suas economias a fim de evitar recessões. Como substituí-los?
Robert Mundell, Nobel de Economia, estabeleceu as condições sob as quais uma moeda unificada seria capaz de funcionar. A Europa não cumpria essas condições quando da adoção do euro; e ainda não o faz.
A remoção das barreiras jurídicas ao movimento de trabalhadores criou um mercado de trabalho unificado, mas as diferenças linguísticas e culturais tornam irrealizável uma mobilidade de mão de obra como a que existe nos EUA.
Além disso, a Europa não tem um meio de ajudar os países que enfrentam sérios problemas. Tomemos como exemplo a Espanha, que tem um índice de desemprego de 20% -e de mais de 40% entre os jovens.
O país tinha superavit fiscal antes da crise; depois, seu deficit inchou para mais de 11% do PIB. Mas, sob as regras da UE (União Europeia), a Espanha agora precisa reduzir seus gastos, o que provavelmente exacerbará o desemprego. Com a desaceleração da economia, a melhora na posição fiscal do país pode ser mínima.
Para os países de menor porte na UE, a lição é clara: caso não reduzam seus deficit orçamentários, existe um alto risco de ataques especulativos, com pouca esperança de ajuda adequada dos vizinhos, ao menos não sem dolorosas e contraproducentes medidas de restrição orçamentária pró-cíclicas.
As consequências sociais e econômicas do arranjo atual devem ser inaceitáveis. Os países cujos deficit dispararam como resultado da recessão mundial não devem ser forçados a uma espiral de morte como a Argentina há uma década.
Uma das soluções propostas é que esses países organizem o equivalente a uma desvalorização cambial -um corte uniforme nos salários. Creio que seja impossível, e as consequências distributivas seriam inaceitáveis. As tensões sociais seriam enormes. É uma fantasia.
Existe uma segunda solução: que a Alemanha deixe a zona do euro ou que esta seja dividida em duas subáreas. O euro foi uma experiência interessante, mas falta-lhe o apoio institucional para que funcione.
Há também uma terceira solução que a Europa talvez venha a compreender como a mais promissora de todas: implementar as reformas institucionais, incluindo a criação da estrutura fiscal necessária, que deveriam ter sido adotadas quando do lançamento do euro.
Não é tarde demais para que a Europa implemente as reformas e recupere os ideais, baseados na solidariedade, que embasaram a criação do euro.
Mas, caso a Europa não possa fazê-lo, talvez o melhor seja admitir o fracasso e seguir em frente, em lugar de pagar o alto preço em termos de desemprego e sofrimento humano que a preservação de um modelo econômico falho requereria.  (JOSEPH STIGLITZ, tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo)

07.05 - Brasil registra mais de 200 fusões e aquisições no 1º quadrimestre 
Foram registradas 208 operações de fusões e aquisições no Brasil nos primeiros quatro meses de 2010, segundo levantamento da KPMG.
O número de transações realizadas cresceu muito em relação às 135 do mesmo período de 2009, ano marcado pela crise econômica.
O volume, porém, é menor que os 225 registrados no primeiro quadrimestre de 2008, quando o mercado vinha extremamente aquecido e estimulado pela onda de IPOs (ofertas iniciais de ações) do ano anterior, que deu fôlego às compras e vendas de empresas ocorridas naquela época.
A quantidade de operações fechadas em abril (48) caiu em relação a março (59), sinal de que os próximos meses devem ser menos aquecidos. O primeiro trimestre, que havia registrado recorde histórico de fusões e aquisições desde a década de 1990, foi marcado por negociações que tinham sido represadas em 2009 pela crise.
"O ano de 2010 será bom, mas não se pode esperar que supere 2007, época em que muitas empresas abriram capital e saíram se consolidado no mercado, até porque os IPOs estavam sendo feitos justamente para isso", afirma Luís Motta, sócio da KPMG.
O Brasil também não conta mais com a maciça presença de estrangeiros na liderança das transações. "Grande parte dos negócios são domésticos, de empresas brasileiras comprando estrangeiras ou brasileiras."
O cenário deve voltar a se aquecer a partir do segundo semestre. "As operações represadas aconteceram, agora devem dar uma baixada. Os negócios, que levam cerca de seis meses para serem fechados, devem voltar a aparecer com muita força a partir de julho", diz.  (Maria Cristina Frias - Folha de S.Paulo)
 
 
 
 
 

06.05 - Equilíbrio fiscal 
É preciso insistir no fato de que o Brasil só se tornou uma "área monetária ótima", isto é, um "ente" passível de ser razoavelmente administrado do ponto de vista monetário por um Banco Central operacionalmente autônomo, a partir do momento em que:
1) realizou a consolidação das dívidas internas e externas de todos os Estados da Federação e lhes impôs condições de pagamento "líquidas e certas" (com taxas nominais de juros talvez exageradas). O arranjo foi eficiente. Todos os Estados já liquidaram a sua dívida externa;
2) aprovou a Lei de Responsabilidade Fiscal, que colocou relativa ordem nas finanças estaduais, mas, infelizmente, com resultados menores nas finanças da União.
Não se passa um dia, entretanto, em que, por "arte" do Legislativo e algum estímulo do Executivo, não se tente emascular os efeitos que garantem a "ordem fiscal", o que é lamentável.
O exemplo da tragédia que se abate sobre o povo grego deve servir-nos de exemplo. A possibilidade de manter a coerência de nossa política macroeconômica depende fundamentalmente da manutenção do nosso equilíbrio fiscal: 1) deficits nominais modestos e 2) superavits primário capazes de reduzir, monotonicamente, a relação dívida/PIB (fator importante na formação da taxa de juros). É preciso entender que essa é uma condição necessária para completar a tríade que caracteriza a política econômica canônica que é o "estado da arte" da teoria econômica da moda.
Ela é (ou era, até recentemente) utilizada pela grande maioria dos países desenvolvidos e emergentes: 1) política fiscal responsável; 2) política monetária executada por um Banco Central operacionalmente autônomo; 3) política cambial com relativa liberdade de movimento de capitais e intervenções "sujas".
Em relação à dívida pública, é preciso uma clara distinção sobre o seu uso. Se ela cresce para sustentar despesas de custeio ou transferências de retorno economicamente duvidoso, ainda que socialmente necessários, devem ser "acomodadas", ou com cortes de outras despesas de custeio, ou, explicitamente, com aumento de impostos, para que a sociedade contabilize os seus custos. Se o seu uso for para investimentos com taxas de retorno superiores à taxa de juro real da economia, o seu aumento produzirá uma aceleração do crescimento futuro.
É claro que qualquer eventual subsídio sobre as taxas de juros nominais deve ser inscrito no Orçamento. O que é obviamente ridículo é considerar a dívida pública ameaçadora do equilíbrio fiscal no longo prazo.   (ANTONIO DELFIM NETTO - Folha de S.Paulo)

06.05 - Brics apresentam ambiente econômico pior do que Piigs 
Apesar das perspectivas positivas com relação ao poder do Brasil e outros Brics em captar investimentos estrangeiros diretos, esses países ainda oferecem ambiente de negócios pior que os Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha).
Os Brics são os vencedores em entraves burocráticos e jurídicos à atração de investimentos, segundo William Eid Júnior, do Centro de Estudos em Finanças da FGV.
"O risco de investimento sobe se um país não dá garantia de direito de propriedade, por exemplo. Para o investidor, isso gera custo de monitoramento do capital e de busca de informações sobre garantias", diz.
Um estudo elaborado por Eid Junior, Marcos Wink e Hsia Sheng, da FGV, reuniu variáveis e indicadores de custos de transação para comparar seus efeitos em diferentes economias. As variáveis utilizadas foram desenvolvidas recentemente pelo Doing Business, do Banco Mundial, e pela Heritage Foundation.
Os piores indicadores de liberdade estão nos Brics, segundo o levantamento. Enquanto o indicador de liberdade de governo nos Brics é de cerca de 32 pontos apenas, os Piigs marcam 60. Se nos Brics são necessários quase 80 dias para a abertura de um negócio, nos Piigs o trabalho é feito em pouco mais de 40 dias.
"No Brasil, uma disputa judicial leva anos. Abrir negócio demora. Tanta norma dá insegurança. Rússia e China também são complicados. Tudo conta para atrair investimento. Nos Piigs, os efeitos são menores."  (Maria Cristina Frias - Folha de S.Paulo)

06.05 - Resgate à Grécia é apenas o começo
Momentos de desespero requerem medidas desesperadas. Depois de meses de dispendiosa postergação, a zona do euro fechou um enorme pacote de apoio à Grécia. Ao envolver o FMI, a pedido da Alemanha, os países europeus conseguiram alguns recursos adicionais e um programa melhor. Mas será que vai funcionar? Infelizmente, tenho sérias dúvidas.
Duas características do que foi decidido merecem menção. Primeiro, não haverá reestruturação da dívida; segundo, será suspenso o requisito de uma classificação mínima de crédito para os ativos garantidos pelo governo grego utilizados nas operações de liquidez, o que oferece alguma assistência aos vulneráveis bancos locais.
Assim, será que o programa é sensato, quer para a Grécia, quer para a zona do euro? Sim e não, em ambos os casos.
Comecemos pela Grécia. O país já perdeu o acesso aos mercados. Assim, a alternativa a aceitar esse pacote seria decretar uma moratória.
O país nesse caso deixaria de pagar os juros sobre suas dívidas, mas teria de reduzir seu deficit fiscal primário (ou seja, anterior aos pagamentos de juros) para 9% a 10% do PIB imediatamente. Isso resultaria em um aperto muito mais brutal do que aquele que a Grécia aceitou como parte do pacote.
Além disso, uma moratória traria o colapso do sistema bancário. A Grécia está certa em prometer mundos e fundos, a fim de ganhar tempo e eliminar de maneira mais suave o seu deficit primário.
Mas é difícil acreditar que a Grécia venha a ser capaz de evitar uma reestruturação da dívida. Primeiro, presumamos que tudo corra de acordo com o plano. E que a taxa média de juros sobre a dívida grega de longo prazo fique em apenas 5%.
O país precisaria, com isso, manter um superavit primário da ordem de 4,5% e dedicar o equivalente a 7,5% do PIB de sua arrecadação tributária para manter o serviço da dívida.
O público grego será capaz de suportar esse fardo ano após ano, sem descanso?
A Grécia está sendo solicitada a fazer o que a América Latina fez nos anos 80. Isso resultou em uma década perdida, da qual os únicos beneficiários foram os credores estrangeiros.
Além disso, já que os credores agora estão sendo pagos para escapar, quem os substituirá? O pacote certamente fracassará em seu objetivo de devolver a Grécia aos mercados, em termos administráveis, dentro de poucos anos.
Para a zona do euro, duas lições são claras: primeiro, a escolha é ou permitir moratórias de dívidas soberanas, por mais complicadas que sejam, ou criar uma união fiscal, com forte disciplina e fundos suficientes para permitir o amparo a economias devastadas.
Segundo, os ajustes na zona do euro não funcionarão sem que os países mais importantes realizem ajustes compensatórios. Se a zona do euro estiver disposta a viver próxima da estagnação em sua demanda geral, ela se tornará uma arena para medidas agressivas de desinflação competitiva e dependerá mais dos mercados mundiais como destino para seus excedentes de produção.
A crise que está em curso confirma a sabedoria daqueles que viam o euro como uma empreitada de alto risco. No entanto, agora que a zona do euro foi criada, é preciso fazer com que ela funcione. A tentativa de resgate à Grécia é só o começo da história. Há muito mais que precisa ser feito, em termos de resposta imediata à crise e de reforma da zona do euro, em futuro não muito distante.   (MARTIN WOLF - Financial Times, tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo)
 
 
 
 
 

05.05 - A crise só acaba quando termina
Empréstimo-monstro grego não dá cabo da crise; BCE dá mãozinha a bancos; tumulto grego ainda pode se espalhar 
Remendar as contas de um país pequeno como a Grécia com US$ 145 bilhões, ou R$ 250 bilhões, é impressionante, embora nem isso assente a crise. Mas extravagante mesmo foi o fato menos notado de que o Banco Central Europeu resolveu aceitar os títulos públicos gregos como garantia mesmo que todas as agências de avaliação de risco chamem de "podre" a dívida da Grécia. Parece um assunto estrambótico, relevante apenas para "nerds" financeiros. Mas não é, não.
O Banco Central Europeu insinua é que pode imprimir dinheiro para tapar um rombo grego ou outros.
Do que se trata? Bancos emprestam dinheiro ao governo grego: compram títulos públicos da dívida grega. Usam esses títulos como garantia para o dinheiro que eventualmente tomam no BCE.
Em tese, se todas as agências de risco relevantes dissessem que esses papéis são "podres", o BCE não poderia aceitá-los como garantia. Teria de pedir mais garantias ou dinheiro aos bancos. Isso é problema. Reduz o capital dos bancos. Coloca-os sob suspeita. Etc.
Se a Grécia dá calote, os primeiros caloteados são bancos que compraram títulos, decerto. Mas tais títulos estão no BCE. Se o BCE aceita papéis gregos "podres", pode ficar com a conta. Basta o BCE não exigir que os bancos privados fiquem com o mico, o que o BCE pode ter de fazer a fim de evitar "problemas sistêmicos". Isso é um cenário limite, de monetização da dívida grega. Mas, após a crise de 2008/9, essas probabilidades parecem menos remotas.
De imediato, o que o BCE está fazendo é evitar que os bancos gregos acabem no vinagre. Os bancos gregos são os principais detentores de títulos gregos. Se esses títulos não servirem para nada, como garantias para operações compromissadas com o BCE, podem ter "crise de liquidez". E até quebrar.
Enfim, a Europa faz gato e sapato de suas normas financeiras a fim de evitar o calote grego. Que pode vir mesmo com a dinheirama ofertada.
A fim de receber o dinheiro, a Grécia terá de produzir recessão e crise social. Se conseguir cortar na carne econômica, pode não resistir politicamente. O tumulto social pode derrubar o governo. E o acordo financeiro com o FMI e a UE.
Os governos português e, em menor medida, espanhol já estão sendo discretamente instados a arrochar suas contas. Vão aguentar politicamente? A Espanha já tem 20% de desemprego. E se os mercados decidirem que pode ser uma boa ideia especular com a baixa dos papéis ibéricos? Isto é, demandando juros mais altos desses governos a fim de rolar as dívidas deles.
A crise da dívida europeia não acabou. Seu destino, em parte, vai ser decidido no conflito político e social grego. Por ora, apenas sindicatos de servidores estão em combate. Com a continuidade da recessão, mais gente pode entrar na liça. Se o governo e o acordo gregos caírem, vai haver confusão além das ruas gregas.
Os investidores, gente com dinheiro grosso, "os mercados", podem começar a pedir juros estratosféricos para financiar a dívida portuguesa. E daí? Portugal vai cortar ainda mais gastos para honrar o serviço da dívida? O quanto vai aguentar?
Vai pedir água? Se pedir, como a União Europeia negaria ajuda?   (VINICIUS TORRES FREIRE - Folha de S.Paulo)

05.05 - Álibi perfeito 
A deterioração das contas públicas do Brasil seria um álibi perfeito para justificar novas altas dos juros 
Os fatos das últimas semanas mostram uma grande diferença entre os blocos econômicos mundiais no que se refere à saída da crise.
Na Ásia, principalmente na China, já há um crescimento econômico tão acelerado quanto antes de setembro de 2008. Lá, de fato, a crise foi uma marolinha que deixou poucos estragos.
No Brasil, também se cultiva a preocupação com um possível superaquecimento devido à expansão da demanda interna. O Banco Central elevou a taxa básica de juros na semana passada para 9,50% ao ano, em minha opinião de forma precipitada, mas deixa isso pra lá -todos já conhecem o que penso sobre esse assunto: trata-se da escolha da política do medo.
Nos EUA, a recuperação parece estar a caminho, com três trimestres seguidos de crescimento do PIB. Apesar disso, os juros básicos seguem entre zero e 0,25% ao ano.
Na Europa, a situação de países do sul é dramática, com reflexos em todo o continente e fora dele. Sem socorro financeiro do FMI e da União Europeia como o concedido à Grécia ( 110 bilhões), alguns países poderão entrar em default (calote).
A origem dos problemas da Europa está nos deficit fiscais. O tratado de Maastricht, que em 1992 criou a União Europeia, tem entre seus pilares a recomendação, imposta pela Alemanha, de que os deficit fiscais dos países se mantenham no limite máximo de 3% do Produto Interno Bruto.
A meta de austeridade fiscal de Maastricht passa longe da Europa.
Nem a própria Alemanha vai cumpri-la. O deficit fiscal médio para a zona do euro deve ficar em 2010 acima de 7% do PIB. A Grécia encerrou 2009 com deficit de 13,6%, depois que o novo governo divulgou os números corretos e admitiu que o anterior maquiava as contas.
Os gregos estão pagando caro pelo excesso de gastos. Caíram no que o economista Paul Krugman chamou de "armadilha do euro".
Precisariam aumentar exportações para cobrir o deficit e para isso teriam de desvalorizar sua moeda, mas não podem fazer isso, porque a moeda (euro) é comunitária. Sobra, então, a opção de buscar ajuda externa e fazer um profundo corte de gastos do setor público, com enorme desgaste político.
Problemas da mesma natureza, embora aparentemente um pouco menos graves, enfrentam Espanha, Portugal e Itália. Os dois primeiros, com a Grécia, tiveram suas dívidas rebaixadas na semana passada.
A situação do Brasil está muito distante da vivida por esses países europeus. Para este ano, o deficit esperado é de 2,4% do PIB. Nos últimos 12 meses, excluídos gastos com pagamentos de juros da dívida pública, há um superavit primário de 1,94% do PIB.
Apesar disso, acendeu-se uma luz amarela porque as contas públicas brasileiras fecharam março com um péssimo desempenho.
Mesmo com o forte crescimento da receita, o superavit primário do primeiro trimestre, de R$ 16,8 bilhões, foi R$ 2 bilhões inferior ao do mesmo período do ano passado.
É recomendável, portanto, atenção especial para a evolução dos gastos correntes do setor público, nos três níveis de governo, principalmente levando-se em conta que estamos em ano eleitoral. Para manter e ampliar os investimentos, é preciso cortar despesas correntes e evitar maior deterioração das contas. Até porque essa tendência seria um álibi perfeito para justificar novas altas dos juros.   (BENJAMIN STEINBRUCH - Folha de S.Paulo)

05.05 - A desregulamentação financeira 
FMI fracassou em prever a crise por distração ou por olhar para o lado errado
Agora que a crise financeira mundial perde força, chegou a hora de fazer o inventário de nossos erros e assegurar que não sejam repetidos. Além de melhorias na regulamentação, que evitem recompensar com incentivos monetários a assunção imprudente de riscos, e de construir muralhas da China entre os criadores dos papéis e as agências avaliadoras de crédito, precisamos descobrir o que tornou essa crise tão difícil de ser prevista.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) é nosso fiscalizador global e muitos acreditam que fracassou em prever a crise por distração ou por olhar para o lado errado. Discordo. O problema é que o FMI foi incapaz de interpretar as evidências com as quais se confrontava.
Trabalhei no conselho do FMI em junho de 2006, quando se discutiu sua avaliação anual dos Estados Unidos. Os funcionários "viram" o relaxamento nos padrões de crédito imobiliário nos EUA, mas detectaram que "os captadores sob risco de sofrerem aumento significativo no pagamento da hipoteca continuavam sendo uma pequena minoria, concentrada, na maior parte, em famílias de maior renda, conscientes dos riscos existentes".
Poucos meses depois, em setembro de 2006, apenas dez meses antes da crise das hipotecas de baixa qualidade tornar-se evidente a todos, o Relatório de Estabilidade Financeira Mundial, uma das principais publicações do FMI, sustentou quer "importantes instituições financeiras em mercados desenvolvidos (estavam) saudáveis, continuando lucrativas e bem capitalizadas". Além disso, atestava que os setores financeiros em muitos países estavam supostamente em uma forte posição para lidar com quaisquer desafios cíclicos e correções do mercado por vir.
O radar do FMI começou a piscar apenas em abril de 2007, praticamente quando o problema já atingia o para-brisa, mas ainda com pouca percepção de urgência. Claramente, a vigilância da economia dos EUA pelo FMI foi ineficiente e a vigilância multilateral dos mercados financeiros não se saiu melhor. O Fundo não foi o único em deixar de interpretar os fatos que estiveram por trás da crise, mas isso serve de pouco consolo.
Antes da crise, a função mais conhecida do FMI - emprestar a países com problemas no balanço de pagamentos - estava se tornando irrelevante. Países emergentes preferiram ter um seguro próprio, acumulando reservas internacionais, em vez de captar empréstimos do fundo. Por ironia, isso estava levando o FMI a centrar-se mais em seu papel de supervisão. Portanto, na busca pelos motivos que levaram o FMI a falhar, podemos descartar distrações por outros assuntos mais urgentes.
O Fundo normalmente supõe que os problemas chegarão a partir dos suspeitos de sempre - países em desenvolvimento economicamente voláteis -, mas desta vez a crise originou-se a poucos quilômetros de sua própria sede. Talvez essa proximidade seja uma das raízes do fracasso do FMI em interpretar evidências bem debaixo de seu nariz.
Se for isso, é um fracasso que levanta duas questões. Primeira, será que a estrutura de governança do fundo é adequada para exercer uma vigilância distanciada de seus principais cotistas? E, segunda, será que fatores ideológicos cegaram o FMI impedindo-o de ver que a desregulamentação poderia contribuir para um desastre?
É inconcebível pensar que o fundo, com seus funcionários qualificados e dedicados, teria falhado tão miseravelmente em detectar e chamar a atenção para as vulnerabilidades que se acumulavam no mercado hipotecário dos EUA caso se tratasse de um país em desenvolvimento. Mas o poder no FMI atualmente segue a lógica de seu papel como credor. Quanto mais dinheiro um país coloca no fundo, mais influência ganha.
Eu, por exemplo, não estou satisfeito com a forma como as cotas do FMI são calculadas, mas tenho de admitir que trocar dinheiro por voto é uma estrutura de governo perfeitamente adequada para uma instituição de crédito. Não é adequado, no entanto, para uma instituição que supostamente deveria exercer uma vigilância distanciada de seus membros - particularmente, de seu membro mais influente, cujas políticas domésticas possuem implicações sistêmicas mundiais.
Em agosto de 2005, seu conselheiro econômico (economista-chefe), Raghuram Rajan, alertava para a debilidade dos mercados financeiros dos EUA. Rajan via que algo potencialmente perigoso estava ocorrendo. Advertiu que as forças da concorrência estavam levando os mercados financeiros a "flertar continuamente com os limites de iliquidez" e a esconder riscos dos investidores, para poder superar os concorrentes.
Talvez ainda mais revelador, no entanto, Rajan argumentou de forma otimista, apesar de tudo, dizendo que a "desregulamentação removeu barreiras artificiais à entrada de novas firmas e encorajou a competição entre produtos, instituições, mercados e jurisdições". Em outras palavras, ele claramente acreditava que a regulamentação criava "barreiras artificiais" e que a "competição entre jurisdições" - isto é, entre órgãos reguladores - deveria ser bem-vinda.
Tais crenças são naturais para os que estão comprometidos com a visão de que os mercados funcionam melhor sem regulamentação e a declaração de Rajan é uma boa ilustração do credo da FMI na época. E foi essa fé irrestrita na capacidade autorreguladora dos mercados que parece ter sido a raiz do fracasso do fundo em detectar o que não estava procurando.
Há novos sinais encorajadores de mudança no FMI, mas isso não deve ser motivo para que nos acalmemos. Como ressaltou o economista político Fred Block, "as sociedades, invariavelmente, voltam atrás quando estão à beira do pleno funcionamento da experimentação da autorregulamentação do mercado". Infelizmente, isso também torna a autorregulamentação uma fé muito difícil de dispersar, porque seus sacerdotes podem sempre argumentar que seus fracassos resultam não de uma falência teológica, mas de ortodoxia insuficiente.   (Hector R. Torres - Valor Online)
 
 
 
 
 

04.05 - Inflação e o BC
Interessante notar a recente mudança de opinião dos analistas econômicos referente à inflação no Brasil. Até dezembro de 2009 era consenso entre tais analistas que a inflação não seria um problema. Durante uma sessão de conjuntura econômica, ocorrida em dezembro de 2009, no Encontro de Economia (que ocorreu em Foz do IguaçuPR) perguntei aos palestrantes por que os mesmos não endereçavam a inflação como um problema. As respostas foram variadas, mas todos foram unânimes em afirmar que num horizonte de médio prazo a inflação não era problema.
Venho alertando há tempos sobre o problema da volta da inflação no Brasil. Aconselhei com todas as letras que se façam dívidas em juros pré-fixados: essas dívidas com a volta da inflação serão um ótimo negócio para o devedor. Disse, com todas as letras, que em 2011 teremos problemas com a inflação. Só não entendo o motivo da relutância de tantos analistas de enxergarem um problema tão simples. Existem duas razões bem claras que sinalizam para o problema inflacionário. A primeira razão é que a política monetária, ao contrário do que é alardeado, não é tão restritiva no Brasil. Em segundo lugar a política fiscal tem sido mais frouxa ainda que a política monetária.
Os dados referentes à expansão do M1 (fornecidas pelo Banco Central) deixam meu ponto claro: de janeiro de 2003 a janeiro de 2007 (o primeiro mandato de Lula) a oferta de moeda (M1) cresceu 68,34%. De janeiro de 2007 a janeiro de 2010 o M1 já cresceu 45,36%. Isto é, entre janeiro de 2003 e janeiro de 2010 a oferta de moeda cresceu em incríveis 144,7%, sendo que só entre janeiro de 2009 e janeiro de 2010 esse crescimento foi de 15,37%. Cedo ou tarde esse incrível aumento de moeda vai ser transformado, pelo menos em parte, em aumento de preços.
Do ponto de vista fiscal, o panorama também não é melhor, os recursivos aumentos salariais concedidos a funcionários públicos aliado à contratação de cada vez mais servidores pressiona o orçamento público. Um ano eleitoral também não apresenta o melhor ambiente para se acreditar que o gasto público será reduzido. Resumindo, o panorama para as contas públicas em 2011 não parece ser dos melhores. Isso indica que o caminho fácil da inflação para sanar contas públicas pode voltar ao cenário nacional. Não custa lembrar que para Dilma uma inflação de 10% ao ano não é grande problema.    (Adolfo Sachsida - Jornal de Brasília)

04.05 - Finanças reguladas 
Países do G20 se desentendem sobre regras para bancos, mas evoluem para ampliar legitimidade do FMI 
São duas as frentes do atual debate no âmbito do G20, o grupo dos principais países ricos e emergentes, sobre as reformas na regulação financeira global.
A primeira busca criar regras para bancos e outras instituições financeiras que minimizem os riscos de crises sistêmicas. A segunda diz respeito a mudanças nos organismos financeiros multilaterais, principalmente o FMI e o Banco Mundial, para aumentar a representatividade dos países em desenvolvimento e, com isso, reduzir o deficit de legitimidade dessas instituições.
Os pontos menos controversos da regulação financeira em debate são a necessidade de ampliar o capital mínimo usado pelos bancos como base para seus empréstimos, a adoção de melhores práticas para evitar a exposição excessiva a riscos e a harmonização dos padrões de contabilidade.
Em outros temas ainda há desacordo, como ficou claro na última reunião dos ministros das finanças do G20.
O ponto nevrálgico é a taxação dos bancos. Dias antes do encontro, o FMI propôs a criação de "uma contribuição justa e substancial do setor financeiro" para custear a eventual necessidade de um novo "resgate". A proposta foi apoiada por aqueles que estiveram no epicentro da crise de 2008 e 2009 -EUA, Inglaterra e União Europeia.
Mas houve repúdio por parte de países que não comprometeram dinheiro público na crise e que consideram injusta a aplicação de uma regra global. O Canadá considerou tal solução como uma potencial violação de soberania. O Brasil também se posicionou contra. Não deixa de ser uma ironia que EUA e Inglaterra sejam hoje os países mais intervencionistas, movidos pelo imperativo político de dar satisfações a um público descontente.
Provavelmente haverá concordância nos temas básicos, o que já é um avanço, mas muitos outros permanecerão em aberto e, em última instância, a cargo dos governos nacionais.
Quanto às mudanças no FMI, desde 2006 está em curso uma revisão das participações nacionais, que ocorrerá em etapas. Haverá maior relação com o peso econômico, com aumento da participação -e do voto- de vários países em desenvolvimento.
Mas a conquista definitiva da legitimidade, necessária para que o FMI se coloque como núcleo da coordenação monetária e financeira no novo contexto mundial, ainda depende de reformas mais profundas.
O fim do poder de veto ainda conferido aos EUA em decisões fundamentais e a adoção de critérios de mérito para a escolha do diretor-gerente (reservada a um europeu) são exemplos destas reformas. Trata-se de uma agenda de longo prazo. Dela pode resultar uma melhor coordenação internacional, com efeitos positivos para o crescimento da economia mundial.  (Folha de S.Paulo)

04.05 - A crise europeia
Os líderes da UE se reúnem e fazem promessas a cada crise, mas estão sempre atrasados; o FMI se envolveu tarde demais
A Grécia, e mais recentemente Portugal e Espanha, dominaram a imprensa financeira nas últimas semanas. As dívidas soberanas desses países tiveram sua classificação rebaixada, mais radicalmente no caso da Grécia, cujos títulos a Standard & Poor's agora classifica como "junk bonds". Os juros sobre eles, com isso, dispararam.
Para as pessoas que se interessam por história, os acontecimentos atuais dificilmente constituem surpresa. Afinal, no século 4 a.C., as cidades gregas declararam moratória sobre os empréstimos tomados para construir o templo de Delos; e, no século 19, depois de conquistar a independência política, a Grécia deu mais quatro calotes.
As circunstâncias modernas são um pouco mais complicadas. Todos os países mencionados fazem parte da União Europeia e adotaram o euro.
O Tratado de Maastricht fixa um conjunto de condições a satisfazer quanto a um nível de deficit fiscal inferior a 3%, uma magnitude de dívida pública inferior a 60% do PIB, bem como baixa inflação. No início, as coisas pareciam estar funcionando bem, e a convergência estava funcionando. O valor do euro subiu de modo impressionante ante o dólar.
Com a recente crise de 2007/8, a situação escapou completamente ao controle. Um indicativo das dimensões do problema está em a Grécia ter registrado no ano passado deficit fiscal superior a 14%, relação entre dívida pública e PIB superior a 100% e inflação em queda após índice superior a 4% em 2008.
Outros países enfrentaram problemas, mas não dessa magnitude, e tentaram resolvê-los. Um bom exemplo é a Irlanda. Também infelizmente, o problema persiste há meses. Os líderes da União Europeia se reúnem e fazem promessas a cada crise, mas estão sempre atrasados.
Os pacotes de assistência prometidos foram sempre insuficientes, e o FMI se envolveu tarde demais, e apenas por iniciativa do primeiro-ministro grego, George Papandreou.
A Alemanha demonstrou claramente que é um líder relutante na União Europeia. O motivo é compreensível. O público alemão não vê grandes motivos para fornecer os recursos requeridos. Até recentemente, claro, os alemães estavam felizes com a venda continuada de exportações de seu país à Grécia. Isso resultava em empregos na Alemanha. E a Grécia não está sozinha em seus problemas.
A Alemanha mantém superavit em seu comércio com os demais países da União Europeia e financia a crescente dívida de muitos dos demais países. Historicamente, uma situação como essa teria resultado em valorização do marco, mas com o euro essa possibilidade desapareceu. Um ajuste conduzido por meio de taxas de câmbio já não é possível.
Isso força a Grécia a reduzir diretamente a demanda interna e a renda disponível. Não surpreende que haja, no país, grande resistência a esse desfecho. Os sindicatos estão resistindo vigorosamente. Preferem o passado de altos salários, consumo ampliado e maior endividamento. Resolver a situação não será fácil.
Fundamentalmente, a Alemanha terá de consumir e importar mais, enquanto os demais países poupam e exportam mais. Mais fácil falar sobre um equilíbrio sustentável como esse do que atingi-lo. Não avançamos muito nesse sentido, até agora.
Existe um indicador claro da importância internacional dessa questão. Depois que o Banco Central brasileiro elevou a taxa Selic em 0,75 ponto percentual, na quarta, a edição de quinta do "Financial Times" não teve espaço para um artigo sobre o assunto. A preocupação com a Europa era intensa demais.   (ALBERT FISHLOW, tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo)
 
 
 
 
 

03.05 - Governo reforça controle de fundos estrangeiros
O governo federal estuda uma forma de aumentar o controle sobre investimentos feitos por fundos estrangeiros na compra de ativos no Brasil. O objetivo é evitar que recursos provenientes de atividades ilícitas sejam "lavados" em território nacional. O tema está sendo analisado pelo Ministério da Justiça em conjunto com o Conselho de Controle de Atividades Financeira (Coaf), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central (BC).
De acordo com o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., a ideia de criar mecanismos para evitar a lavagem de dinheiro por meio de fundos estrangeiros que investem no país, através da compra de ativos, surgiu durante a crise econômica iniciada nos Estados Unidos em 2007, quando o governo percebeu que, apesar da falta de liquidez no sistema financeiro mundial, não houve descapitalização dos bancos no Brasil. "Quando fomos ver o porquê, percebemos que os bancos haviam afrouxado o cumprimento das regras de compliance", diz Tuma Jr.
A tipologia da lavagem de dinheiro por meio de fundos estrangeiros conta com o sigilo oferecido pelos paraísos fiscais a empresas offshore - segundo Tuma Jr., 80% da lavagem no Brasil ocorre por meio dessas companhias. De acordo com secretário, após o início da crise foram identificados indícios de lavagem por meio de fundos estrangeiros, que estão sendo investigados sob sigilo. "Temos feito alguns trabalhos nesse sentido", afirma. Entre os fundos investigados, há casos de recursos de brasileiros obtidos de forma ilícita e enviados para fora ilegalmente, e que retornaram ao Brasil ao serem repassados a offshores e posteriormente a fundos que investiram em ativos nacionais. "Com a crise os bancos afrouxaram o compliance no recebimento desses recursos", diz. "E essa é uma situação que já foi identificada em vários países do mundo, não apenas no Brasil."
De acordo com Lorenzo Parodi, especialista em lavagem de dinheiro da Deall Riscos e Inteligência, em muitos países a utilização de fundos para legalizar recursos provenientes de crimes é feita de forma sistemática. Segundo ele, nos últimos três anos surgiram diversos alertas sobre o uso de fundos para lavar dinheiro. Pelas regras de compliance seguidas pelo sistema financeiro, no Brasil e na maior parte do mundo, os bancos devem exigir de qualquer correntista informações sobre o titular da conta e a origem dos recursos depositados. No caso de fundos de investimento brasileiros, sujeitos às regras da CVM, os bancos exigem informações sobre as pessoas físicas beneficiárias desses fundos - o que dificulta a lavagem.
A mesma exigência, no entanto, não é feita por alguns paraísos fiscais em relação aos fundos neles criados. E esses fundos estrangeiros, por não captarem recursos no Brasil, mas apenas se destinarem a comprar ativos locais, não se submetem às regras brasileiras, mas às do país onde têm sede. Os bancos nacionais, por sua vez, embora tenham a obrigação de saber quem são os titulares das contas abertas por eles, não têm a obrigação de buscar o investidor de um fundo estrangeiro que abre uma conta no país - que pode ser uma offshore com sede em um paraíso fiscal, cujos titulares são protegidos pelo sigilo oferecido por esses países.
A criação de regras para evitar a lavagem de dinheiro por meio de fundos no Brasil ainda é uma ideia incipiente. Na opinião de Tuma Jr., a opção ideal seria obrigar os bancos a exigir dos fundos estrangeiros detalhes sobre seus investidores. "Isso já inibiria a lavagem", diz. O advogado José Eduardo Carneiro Queiroz, especialista em fundos do escritório Mattos Filho Advogados, no entanto, alerta para a necessidade de que normas nesse sentido sigam o padrão internacional. "É preciso tomar cuidado para não criar um ambiente regulatório que afugente o investidor", diz.  (Cristine Prestes - Valor Online)

03.05 - Um novo ciclo econômico no Brasil
Não é possível continuar com essa farra do boi de consumismo que é a marca mais importante dos últimos cinco anos
AMB Associados acaba de publicar um interessante estudo sobre o crescimento brasileiro. A variação do PIB -medida do lado da demanda- nos mostra que o Brasil viveu duas fases distintas nos últimos dez anos: de 2000 a 2005 e de 2006 a 2010. Considerada a década como um todo, o crescimento do PIB pode ser explicado em 70% pelo consumo das famílias, em 20% pelo consumo do governo e em 13% pela formação bruta de capital fixo. Para fechar esse quadro de demanda interna, as importações foram maiores do que as exportações em 3% do PIB.
Mas esse mesmo exercício para o período 2006/2010 mostra um quadro bem diferente. O consumo das famílias passa a explicar 85% do crescimento do PIB, com o consumo do governo caindo para 18% e os investimentos representando 16,4%. Para fechar a conta, as exportações líquidas negativas representaram 19,2% do PIB. Nos últimos cinco anos, o consumo interno total -governo mais famílias- ultrapassou o valor do PIB brasileiro. O pouco investimento realizado nestes cinco anos foi todo ele financiado com poupança externa. Em outras palavras, nos últimos cinco anos os brasileiros viveram o papel de cigarras, e não de formigas.
Mas o economista Sergio Vale, da MB, construiu uma projeção desses componentes de demanda para os primeiros cinco anos da nova década. Como premissa, considerou um crescimento real de 10% ao ano para o volume de investimentos em capital fixo no Brasil. Além disso, trouxe a participação do consumo das famílias no PIB para o número médio de 70% e reduziu o consumo do governo para 17% do PIB. Nessas hipóteses, o setor externo continuará sendo a variável de ajuste para fazer o consumo caber no PIB.
Os números obtidos por Sergio Vale, da MB, apenas quantificam o que alguns analistas vêm advertindo há algum tempo: não é possível continuar com essa farra do boi de consumismo que é a marca mais importante dos últimos cinco anos. Ter o consumo das famílias brasileiras representando 85% do crescimento PIB é uma irresponsabilidade que vai cobrar um preço elevadíssimo em futuro próximo. Mais ainda, ter a soma do consumo do governo e das famílias maior do que o PIB é uma situação insustentável no médio prazo.
Daí resulta o ponto mais assustador do exercício da MB: mesmo com uma redução do consumo das famílias e do governo e um aumento mínimo no investimento de capital fixo, a deterioração de nossa conta-corrente pode chegar a níveis perigosos. Uma bela sinuca de bico para o próximo presidente da República.
Quero terminar fazendo uma homenagem a meus filhos Marcello e Daniel. Depois de 12 anos no controle acionário da Link Investimentos, período em que ela alcançou a posição de maior corretora de valores independente no Brasil, eles e seus companheiros venderam a empresa para o banco suíço UBS. Acompanhei -como pai e conselheiro- toda a vida da Link, sofrendo juntos quando aloprados do PT resolveram acusá-los de utilização de informações privilegiadas fornecidas por mim -à época eu era ministro do governo FHC-, e agora, nos longos meses em que concretizaram a difícil decisão de vender a empresa.
Neste novo Brasil internacionalizado, é muito difícil um grupo brasileiro de médio porte e líder de mercado ficar independente. Acho que tomaram a decisão correta.  (LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Folha de S.Paulo)

03.05 - A economia aquecida
A economia está aquecida e a temperatura é bastante alta para justificar a preocupação do Banco Central (BC) com a inflação. Mais uma confirmação do intenso ritmo de atividade foi divulgada nessa quinta-feira. O desemprego nas seis maiores áreas metropolitanas, 7,6% em março, foi o mais baixo para esse mês desde o início da série, em 2002. A massa de rendimento habitual dos ocupados aumentou 0,6% no mês, descontada a inflação, e no primeiro trimestre foi 5,2% maior que a de um ano antes. Combinado com o crédito disponível, esse aumento de renda tem permitido uma rápida expansão do consumo, refletida tanto nos índices de preços quanto nos volumes crescentes de importação. Mais empregos e mais dinheiro para gastar no varejo são boas notícias, especialmente depois de um ano de estagnação econômica. Mas só com a inflação contida esses ganhos serão preservados. É esse o melhor argumento a favor de um aperto da política monetária. Se o aumento de juros básicos de 8,75% para 9,5% ao ano está bem calibrado é outra questão. O BC acompanhará a evolução dos indicadores nos próximos meses e novos ajustes ocorrerão.
Os últimos dados nacionais de consumo são de fevereiro e mostram intenso movimento no comércio varejista. Naquele mês, o volume de vendas foi 1,6% maior que o do mês anterior e 12,3% maior que o de um ano antes. No primeiro bimestre, as vendas ficaram 11,3% acima do volume registrado em janeiro e fevereiro de 2009. Como este foi o pior momento da crise, a recuperação pode parecer apenas normal. Mas o quadro fica mais claro quando se verifica um aumento de 6,9% em 12 meses. Além disso, o consumo das famílias não deixou de crescer em 2009, apesar da retração da maior parte dos indicadores da economia. Também nesse aspecto, a recessão foi muito menos severa no Brasil do que na maior parte dos países desenvolvidos.
Os números da produção indicam também a firme expansão do mercado consumidor. Sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou, com base na avaliação de executivos de 1.227 empresas de todo o País, um firme crescimento da produção, do emprego, das vendas e do uso da capacidade instalada. Além disso, foi registrada expansão em 26 de 28 setores cobertos pela pesquisa. Dos outros dois, um recuou e o outro permaneceu sem variação.
A Federação das Indústrias do Estado de S. Paulo divulgou terça-feira o Índice do Nível de Atividade. O aumento de 2,8% de fevereiro para março, descontado o efeito sazonal, foi o maior para o período desde 2004. Comparando-se o primeiro trimestre deste ano com o primeiro de 2009, o resultado obtido ? uma diferença de 18,2% ? é o melhor da série iniciada em 2001. No acumulado de 12 meses, a variação ainda é negativa (-1,15), mas um nível igual ao anterior à crise já deve ter sido alcançado em abril, segundo o diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Paulo Francini. Além disso, a indústria usou 81,6% de seu potencial produtivo, pouco mais que no mês anterior.
Um dos melhores indicadores do aquecimento econômico é a redução do superávit comercial. A importação voltou a crescer bem mais rapidamente que a exportação, por causa da expansão da demanda interna. Sem a entrada de produtos estrangeiros, a inflação seria certamente mais alta. Apesar disso, os preços continuam crescendo aceleradamente, embora tenham perdido algum impulso nos últimos dois meses.
Em março, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência para a política oficial, subiu 0,52%. Subiu menos do que em fevereiro (0,78%), mas ainda acima do ritmo compatível com a meta central fixada para este ano, de 4,5%. Apesar da redução do IPCA, o grau de difusão cresceu de 61,7% para 66,4%: elevou-se, portanto, o número de itens com aumento de preço. As pressões se espalharam, portanto, e esse é um forte sinal de excesso de demanda.
Boa parte dessa tendência é explicável pela rápida expansão do crédito ao consumidor. Em março, o saldo dos empréstimos a pessoas físicas foi 2% maior que em fevereiro. Em 12 meses, o crescimento foi de 18,6%, segundo relatório divulgado nessa quinta-feira pelo BC. Esse quadro mostra que o aumento da Selic pode não bastar.  (Editorial - O Estado de S.Paulo)

Notícias Recentes


    Envie um email sobre informações relevantesque você destacaria para os demais profissionais do setor