31.05 - Brasil pode ser o porto seguro na hora da crise
O recente movimento de queda da grande maioria dos mercados assustou
os investidores. A impressão que ficou é que os problemas
na Europa vão afetar o mundo inteiro, nos mesmos moldes do que ocorreu
com a crise internacional de 2008. Mas, em meio a tanto pessimismo, surgem
analistas que veem uma luz no fim do túnel e que não é
a de um trem vindo. Aos poucos surgem novas vozes que acham que o mercado
brasileiro pode se sobressair dos demais.
Para esses profissionais, as ações locais estão
entre as poucas do mundo que reúnem os melhores predicados. "A Bovespa
é o maior porto seguro neste momento, juntamente com os EUA, cuja
recuperação econômica está ocorrendo de forma
consistente", diz o gestor da RTI Gestão de Ativos, Fábio
Anderaos.
Em primeiro lugar, a economia brasileira vai bem, obrigado, e até
agora não se espera que tal movimento seja interrompido pela deterioração
da situação na zona do euro. As companhias registraram bons
resultados no primeiro trimestre, mesmo se comparados com o quarto trimestre
do ano passado, e a expectativa é de que essa tendência continue
pelos próximos trimestres. "As empresas brasileiras possuem hoje
bons fundamentos e ainda não há nada que mostre que isso
corre grandes riscos de mudança, pelo menos no médio prazo",
afirma Anderaos.
Ele lembra que, dentro da Bovespa, a grande maioria das empresas está
muito mais exposta à economia local. Com algumas exceções,
como no setor de papel e celulose (caso da Fibria), em mineração
(Vale) e siderurgia (Gerdau, com as suas operações diretas
nos EUA e Canadá).
Além dos fundamentos, a queda dos mercados tornou as ações
brasileiras ainda mais atraentes. O gestor da RTI lembra que, com o Índice
Bovespa na casa dos 70 mil pontos, os papéis já estavam valorizados
demais, mas agora ficaram a preços atraentes. Não que eles
sejam uma "galinha morta", mas já oferecem um bom potencial de valorização
aos compradores.
Quando o Ibovespa estava em 70 mil pontos, o preço sobre lucro
(P/L, que dá uma ideia de quantos anos deve demorar para o investidor
ter de volta o quanto aplicou) da bolsa estava em torno de 14 vezes, sendo
que hoje, depois das quedas, o indicador caiu para 11,5 a 12 vezes, lembra
Anderaos. Vale lembrar que, quanto menor o P/L, mais baratas estão
as ações e, portanto, maior o espaço para ganhos para
o investidor.
O sócio da Grau Gestão de Ativos Carlos Augusto Levorin
concorda com a tese de que os papéis brasileiros estão entre
as melhores opções. Ele faz uma ressalva no entanto: as consequências
da crise europeia no mundo ainda estão por vir e o Brasil não
passará ileso. Levorin afirma que a hora que os investidores se
tornarem de fato vendedores será possível ver o Ibovespa
abaixo dos 50 mil pontos. "Não me surpreenderia se o índice
caísse ainda mais uns 10% a 20% dos níveis atuais", diz Levorin.
O Ibovespa ontem fechou em alta de 3,16%, aos 62.091 pontos. A questão
é que essa queda a que Levorin se refere pode ser fichinha comparada
aos tombos que outras bolsas terão.
Entre as ações que mais devem se beneficiar, na visão
de Anderaos, estão as de energia, siderurgia, de shopping centers
e algumas de varejo. "As construtoras são boas, mas estão
caras", diz ele. Já Levorin, além do setor elétrico,
aposta em bancos de médio porte como Daycoval, ABC Brasil e Panamericano.
"Eles possuem um retorno sobre o patrimônio menor que os grandes
bancos, mas são negociados por um valor patrimonial menor", diz
ele. (Daniele Camba - Valor Online)
31.05 - EUA: PIB sobe menos e país tem retomada frágil
A economia dos EUA no primeiro trimestre se mostrou mais fraca que
o estimado e, assim, mais vulnerável num momento em que começa
a enfrentar as turbulências causadas pela crise na Europa.
Os EUA cresceram à taxa anualizada de 3% no primeiro trimestre,
segundo revisão divulgada na quinta-feira pelo governo. Estimativa
anteriores era de expansão de 3,2%.
"Estamos em um ponto de inflexão muito frágil", disse
Julia Coronado, economista do BNP Paribas em Nova York. "A economia ainda
enfrenta muito vento contra."
O crescimento levemente menor do que o inicialmente esperado é
resultado de revisão para baixo dos gastos com consumo e do investimento
das empresas. Economistas esperavam que o Produto Interno Bruto (PIB) fosse
revisto para cima, para 3,4%. No quarto trimestre, o PIB cresceu 5,6%.
Em relação ao trimestre anterior, os EUA cresceram 0,75%
nos três primeiros meses do ano. No quarto trimestre de 2009, tinham
registrado expansão de 1,4% .
O Departamento do Comércio revisou os gastos com consumo para
um crescimento anualizado de 3,5%, ante estimativa anterior de 3,6%. Ainda
assim, esses gastos aumentaram significativamente no primeiro trimestre,
em relação à alta de 1,6% no quarto trimestre. O aumento
de 3,5% dos gastos com consumo foi o maior desde o primeiro trimestre de
2007.
Os investimentos das empresas subiram 3,1% anualizados no primeiro
trimestre, dado revisado de estimativa anterior de alta de 4,1%. As empresas
elevaram seus estoques um pouco mais do que o originalmente estimado, em
US$ 33,9 bilhões, em vez dos US$ 31,1 bilhões calculados
antes. As vendas reais finais de produtos domésticos, que corresponde
ao PIB subtraído dos estoques privados, subiu à taxa anual
de 1,4% no primeiro trimestre, abaixo da estimativa anterior de crescimento
de 1,6% e abaixo da alta de 1,7% do quarto trimestre. (Valor Online)
28.05 - Azar do futuro
A França anunciou quarta-feira o aumento da idade mínima
de aposentadoria, que era 60 anos. A Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha,
que são países ricos, estão elevando a idade mínima.
O Brasil não tem esse piso; aqui aposenta-se contando o tempo de
serviço. E na prática estará reduzindo a idade se
não for vetado o fim do fator previdenciário.
Em apenas quatro anos a previsão do IBGE sobre os idosos de
2050 aumentou 20%. Parece longe 2050, mas em previdência é
assim que se trabalha. Essa mudança da projeção mostra
como é dinâmica a demografia brasileira. O Brasil está
mudando mais rápido do que os especialistas previam. Isso torna
a questão previdenciária mais aguda e urgente.
Para quem acha que 2050 é um tempo remoto, basta lembrar, como
fez Joaquim Levy, que é a mesma distância que existe entre
2010 e 1970. Ou seja, é um problema das crianças e jovens
de hoje. Em 1970, o Brasil tinha uma população que crescia
a 3% ao ano, daqui em diante o crescimento médio será de
0,3%. Ou seja, mudamos radicalmente e isso contratou dilemas reais para
o futuro.
No livro que acaba de ser lançado, "Demografia, a ameaça
invisível", os autores Fábio Giambiagi e Paulo Tafner levantam
dados que mostram a insensatez de se adiar indefinidamente o enfrentamento
desse problema. Nos próximos 15 a 20 anos o percentual de população
idosa deve crescer a uma proporção de 4% aoano. Já
a população de 15 a 59 anos deve permanecer a mesma. A revisão
da tabela do IBGE mostra que esse grupo etário deve ter crescimento
nulo. Como a população idosa terá aumentado, ela terá
que ser sustentada por um percentual menor de pessoas. Em 2010, para cada
100 pessoas de 15 a 64 anos, há 10 pessoas com 65 anos ou mais.
Em 2050, serão 36.
Uma das propostas mais frequentes é que as aposentadorias sejam
corrigidas de acordo com o crescimento do PIB. Como haverá nos próximos
anos o aumento vegetativo do número de aposentados, pelo envelhecimento
da população, o custo do INSS sairia dos atuais 7,1% do PIB
para 15,6% do PIB em 20 anos, consumiria quase a metade da carga tributária.
E isso sem falar na caríssima previdência do setor público
e nos gastos nababescos com a contribuição para os fundos
de pensão das estatais. O INSS, cuja conta é tão alta,
é o que tem o menor custo per capita. Alta mesmo é a aposentadoria
do setor público, que o governo Lula alegou que queria reformar
e depois se esqueceu de regulamentar a mudança.
Um amigo que fiz na Dinamarca, quando estive lá, me conta que
o país está propondo uma ampliação da jornada
de trabalho e tem uma idade mínima de aposentadoria de 65 anos.
Quem quiser se aposentar aos 60 terá que pagar um extra de contribuição
previdenciária. A Alemanha, país com maior capacidade de
exportar do mundo, aumentou recentemente a jornada de trabalho. Ninguém
está brincando com o assunto competitividade e previdência.
Só o Brasil.
Não deveríamos. Ainda temos que incluir quase metade
dos trabalhadores no mercado formal e a redução da jornada
é a falsa solução para este problema. Tudo o que ela
vai conseguir é dar mais horas extras para quem já está
trabalhando.
No caso da Previdência é claro que o Brasil está
na contramão do mundo e de si mesmo. Há uma excelente notícia
no país: o brasileiro vive cada vez mais. A cada nova estatística
populacional do IBGE, vem uma notícia de que ampliamos a expectativa
de vida. Isso é resultado dos nossos acertos. Mas tem um custo:
mais brasileiros dependerão por mais tempo do dinheiro da Previdência.
E a conta não vai fechar. Na Alemanha, homens e mulheres se aposentam
aos 65 anos, mas a idade está indo para 67 anos. No Reino Unido,
o Partido Conservador ganhou a eleição propondo que a idade
hoje em 65 anos vá para 66 anos. Nos Estados Unidos, ambos os sexos
com 67 anos. Pode-se argumentar que esses países são desenvolvidos
e a população vive mais. Veja-se o caso do México,
com o qual nos comparamos em vários indicadores. Lá, a idade
para se aposentar é 65 anos para homens e mulheres. Não há
a diferenciação que existe no Brasil. Aliás, essa
diferenciação está acabando pelo simples fato de que
as mulheres vivem mais. Só cinco países do mundo não
têm idade mínima de aposentadoria. Estamos em espantosa minoria.
Esse é um assunto difícil de tratar porque há
sempre uma chuva de críticas sobre quem ousa tocar no tema. Um argumento
é que a Previdência nem é deficitária na verdade,
é apenas uma forma errada de fazer as contas. Que ela só
tem rombo porqueforam incluídas pessoas que não contribuíram,
como os trabalhadores do setor rural. O que se queria? Que eles não
fossem incluídos? Outro argumento é que a pessoa contribuiu
para um valor em salário mínimo e hoje ganha menos salários
mínimos do que recebia quando se aposentou. Também é
verdade, mas porque o salário mínimo teve um forte aumento
real desde a estabilização.
Na orelha que escrevi no livro de Giambiagi e Tafner, eu disse que
deve ser bom acreditar que mudança climática é invenção
de cientista e que rombo previdenciário é invenção
de economista neoliberal. Infelizmente, são problemas reais. É
preciso enfrentá-lo.
Na Inglaterra, o Partido Conservador ganhou a eleição
dizendo que elevaria a idade de aposentadoria e cortaria gastos. Mas o
Brasil em plena temporada da demagogia prefere aprovar o fim do único
instrumento que reduziu o ritmo de crescimento das despesas, poupando os
cofres públicos de R$ 40 bilhões de gastos nos anos da vigência
do fator previdenciário. E os políticos fazem isso pensandoem
capturar votos. Devem pensar assim: azar do futuro. (Miriam
Leitão - O Globo)
28.05 - OCDE: Brasil deve crescer 6,5% em 2010
Investimentos em infraestrutura ajudarão o crescimeno, apesar
do aperto monetário e cortes de gastos
Brasil, China, Índia e Rússia estão crescendo
fortemente, avaliou a Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômico (OCDE) na quarta-feira, elevando suas
previsões para as quatro grandes economias emergentes.
No Brasil, os investimentos em infraestrutura ajudarão o crescimento
novamente, apesar da política monetária mais apertada e do
início de cortes de gastos.
A OCDE projeta uma expansão econômica brasileira de 6,5%
neste ano, ante prognóstico anterior de 4,8%. Para 2011, a estimativa
é de avanço de 5%.
A OCDE alertou que o superaquecimento pode ser um problema na China
e pediu por aumento de juros e um câmbio mais flexível. A
entidade prevê para o país um crescimento de 11,1¨% em
2010 e de 9,7% em 2011.
Com a esperada retomada da produção agrícola na
Índia, o crescimento lá deve ser forte no curto prazo, segundo
a entidade. A expansão neste ano deve ser de 8,2% e no próximo,
de 8,5%,
A Rússia deveria usar as receitas petrolíferas para eliminar
o déficit fiscal mais rapidamente, avaliou a OCDE, que prevê
um crescimento de 5,5% em 2010 e de 5,1% em 2011. (Reuters/O Estado
de S.Paulo)
28.05 - OCDE eleva projeção de crescimento, mas vê
risco
Entidade prevê expansão de 2,7% do PIB entre seus 31 países-membros
Previsão anterior era de 1,9%; relatório aponta dados
"estimulantes" na economia real e diz que Brasil cresce 6,5%
A recuperação da economia mundial vai melhor do que o
esperado pela OCDE, e o PIB dos 31 países-membros deve crescer em
média 2,7% no ano, acima do 1,9% que previra há seis meses.
Em 2011, o avanço deve chegar a 2,8%. Todas as previsões
foram revistas para cima. Mas os riscos à espreita também
aumentaram, alerta a organização para cooperação
econômica. O maior deles é a crise da dívida soberana
-a dificuldade, especialmente dos europeus, em refinanciar seus títulos.
"As turbulências mostraram a necessidade de as economias europeias
fortalecerem sua arquitetura institucional e operacional para dissipar
dúvidas sobre a viabilidade, no longo prazo, da união monetária",
disse o secretário-geral da OCDE (Organização para
a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), Angel
Gurría.
"Nos últimos seis meses, houve desdobramentos estimulantes na
economia real", disse, ao apresentar o relatório semestral de projeções.
A inflação deve chegar a 1,6% neste ano, um ponto a mais
do que em 2009, e resistir em 1,3% no ano que vem.
Segundo a OCDE, o Brasil deve estourar a meta de inflação
e ir a 6,2%. Cita a expansão da economia, impulsionada pela demanda
doméstica, "amparada em uma política maciça de estímulos".
Por isso, a OCDE espera que, com a retirada paulatina dessas medidas
e a elevação dos juros, a demanda perca fôlego nos
próximos trimestres. "Os estímulos que restam devem ser retirados
logo", diz o relatório.
A organização prevê que o Brasil crescerá
6,5% neste ano e 5% no ano que vem. (LUCIANA COELHO - Folha de S.Paulo)
27.05 - Economia deve desacelerar-se gradualmente
Economistas da Serasa Experian, provedora de serviços e produtos
de análise e informações para crédito, afirmam
que a desaceleração do crescimento econômico deve ser
gradual, conforme revela o Indicador Serasa Experian de Perspectiva Econômica,
divulgado terça-feira.
Em março de 2010, o índice mostrou recuo de 0,1% em relação
ao mês anterior, atingindo o valor de 101,4. Este resultado foi a
segunda queda mensal consecutiva deste indicador, que sinaliza que após
o acentuado aquecimento da atividade econômica observado durantes
os meses iniciais deste ano, o ritmo de crescimento entrará em trajetória
de moderação a partir dos próximos meses.
Eles também acreditam que a desaceleração do crescimento
econômico ocorrerá por conta da adoção de medidas
de contenção do avanço da demanda agregada, tanto
no campo fiscal (fim dos incentivos fiscais à aquisição
de bens duráveis e implementação de cortes orçamentários)
bem como na área monetária com ciclo de elevação
da taxa básica de juros – taxa Selic.
De acordo com Alcides Leite, professor de Economia da Trevisan Escola
de Negócios, esse comportamento da economia em ritmo de desaceleração
acontece por conta de alguns fatores: os dados comparados que registram
elevação de índices dizem respeito ao período
anterior, 2009, cujos valores encontrados não eram positivos e essa
elevação corresponde a uma recuperação da economia,
que tende a se estabilizar após este período.
Trata-se de um comportamento de ajuste da economia, também vinculado
ao aumento da Selic, que vem para frear o consumo e tem como consequência
a diminuição do ritmo da economia.
A tendência, segundo o acadêmico, é que a economia
permaneça em um patamar estável nos próximos meses,
mesmo com a crise na Europa, a qual Leite afirma "não afetar tanto
o País por conta da economia ter se fortalecido no passado para
enfrentar esse cenário atual". (Consuelo Zurlo - Executivos
Financeiros)
27.05 - BC: Crise reduz investimento externo
Queda no fluxo de recursos pode frustrar a expectativa do governo de
repetir o resultado recorde obtido em 2008
Até agora, o Brasil recebeu menos de 20% dos US$ 45 bilhões
em investimentos previstos pelo governo para 2010
A crise financeira adiou e reduziu os investimentos de empresas estrangeiras
no país nos primeiros quatro meses do ano, segundo o Banco Central.
A queda no fluxo de recursos, especialmente de países europeus
como Alemanha e Espanha, pode frustrar a expectativa do governo de repetir
o resultado recorde de 2008 nesse indicador.
Além disso, houve aumento nas remessas de lucros e dividendos
por parte das filiais de empresas europeias que atuam no país, para
ajudar as matrizes no exterior.
Os investimentos estrangeiros registraram no mês passado o menor
resultado para meses de abril desde 2006 (US$ 2,2 bilhões), valor
que deve cair para US$ 1,6 bilhão neste mês, segundo previsão
do Banco Central.
Até o momento, o país recebeu menos de 20% dos US$ 45
bilhões em investimentos previstos pelo governo para o ano todo.
O resultado está abaixo até do registrado no mesmo período
de 2009, quando a crise nos EUA provocou a interrupção nesse
fluxo de recursos.
O BC, que só revisa previsões no final de cada trimestre,
diz que essa tendência pode se reverter no segundo semestre, quando
há expectativa de retomada de investimento em setores como o automobilístico,
o químico, o de varejo e o imobiliário.
"Temos uma previsão muito forte para o ano, mas até agora
isso não se materializou. Esses dois meses foram marcados por volatilidades
expressivas. Isso traz alguma pisada temporária no freio, principalmente
da Europa", disse o chefe do Departamento Econômico do Banco Central,
Altamir Lopes.
Também houve piora no fluxo de recursos para o mercado financeiro.
Em abril, entraram no país US$ 7,6 bilhões para ações
e renda fixa.
O investimento externo é a principal fonte para financiar o
deficit nas transações do Brasil com o exterior, que cresceu
quase três vezes neste ano. Em abril, o Banco Central registrou resultado
negativo de US$ 4,6 bilhões nessa conta.
Os principais componentes do resultado são os gastos de turistas
no exterior, a queda de 70% do saldo comercial e as despesas com transportes,
royalties e aluguéis.
Para o economista Antonio Corrêa de Lacerda, da PUC-SP, a queda
nos investimentos não vai prejudicar o financiamento externo do
Brasil neste ano, mas o problema terá de ser resolvido pelo próximo
governo. (EDUARDO CUCOLO - Folha de S.Paulo)
27.05 - Inflação perde força e ajuda Banco Central
A menor pressão inflacionária, confirmada por dois índices
de preço, teve impacto no mercado futuro de juros e reduziu a expectativa
de altas mais acentuadas na Selic nas próximas reuniões do
Comitê de Política Monetária (Copom). O próximo
encontro será nos dias 8 e 9 de junho.
Agora, além da instabilidade externa, que para parte do mercado
pode resultar em uma diminuição do ciclo de aperto monetário,
o cenário doméstico também contribui para tirar pressão
sobre a curva futura.
Depois de mostrar alguma resistência, a inflação
começa a dar sinais de que vai perder ímpeto de alta. E o
grupo que lidera esse recuou são os alimentos.
Segundo o sócio da Oren Investimentos, Jacob Weintraub, a inflação
dos alimentos está surpreendendo para baixo de forma mais acentuada
que a esperada.
Confirmando essa visão temos os Índices de Preços
ao Consumidor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da
Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
O IPC da Fipe, divulgado ontem, recuou de 0,46% para 0,35% entre a segunda
e a terceira prévia. Os alimentos saíram de 0,96% para 0,59%.
Na segunda-feira, o IPC da FGV mostrou desaceleração de 0,64%
para 0,47%. A redução também foi liderada pelo grupo
alimentação, que saiu de alta de 1,18% para 0,52%.
Tal situação, somada à incerteza externa, diz
Weintraub, leva o mercado a querer precificar de forma menos intensa a
possibilidade de três ajustes consecutivos de 0,75 ponto percentual
na Selic.
Com visão parecida, o economista-chefe da Prosper Corretora,
Eduardo Velho, disse que o mercado já estava esperando uma desaceleração
da inflação para o período maio/junho, mas uma surpresa
positiva pode acontecer, com uma queda maior do que a estimada dos alimentos.
Para Velho, esse recuo dos preços, somado ao desempenho da economia
no primeiro trimestre, pode levar o Banco Central a desacelerar o ritmo
de ajuste da Selic na reunião de julho para 0,5 ponto. "Isso ainda
é aposta minoritária, mas pode ganhar força conforme
o tamanho da queda do grupo alimentação e do desempenho do
PIB", explica. No Copom de junho, a Prosper mantém previsão
de 0,75 ponto de ajuste.
Na percepção do economista, essa teoria ganha força
se o crescimento do trimestre rondar os 2%. No entanto, se o PIB mostrar
alta mais próxima de 3% no comparativo com o quarto trimestre, o
mercado deve manter a previsão atual de altas de ao menos 0,75 ponto.
Dos juros para o câmbio, a linha de R$ 1,90 foi novamente testada
e respeitada. Depois de fazer máxima a R$ 1,917, o que representava
uma alta 2,84%, o dólar comercial encerrou a jornada valendo R$
1,868, ainda assim valorização de 0,21% sobre o registrado
na segunda-feira.
Segundo o gerente da mesa de câmbio do Banco Prosper, Jorge Knauer,
tal comportamento da taxa sugere que os investidores estrangeiros aproveitaram
o momento em que o dólar valia mais de R$ 1,90 para zerar posições
compradas em contratos futuros.
Fora isso, diz o especialista, os exportadores também trouxeram
moeda.
"Obviamente temos que esperar os dados da BM&F para confirmar tal
percepção. Mas creio que tivemos gringo vendendo", pondera
o especialista.
Vale lembrar que estrangeiro estava comprado em US$ 5,4 bilhões
na segunda-feira. (Eduardo Campos - Valor Online)
26.05 - Projeção da inflação permanece em
alta
O mercado financeiro voltou a elevar a estimativa de inflação
pela 18ª vez consecutiva, passando de 5,54% na semana passada para
5,67% segudna-feira, segundo o relatório Focus, divulgado pelo Banco
Central.
De acordo com o professor de finanças da FGV-EAESP, Fabio Gallo
Garcia, este aumento no começo foi devido a fatores sazonais, mas
agora o que pesou foi o aumento do consumo.
"A perspectiva de inflação vem crescendo ao longo de
2010. Logo no início do ano os aumentos dos preços foram
devido a causas nitidamente sazonais, como alta das mensalidades escolares
e do álcool anidro, entre outros. Não se sabia que até
aquele momento a pressão inflacionária era devido a outras
causa conjunturais.Com o passar dos meses, verificou-se que a inflação
estava mais forte e persistente e que era devida ao nível de consumo
na economia brasileira. Para convergir o nível de inflação
para a meta proposta pelas autoridades monetárias, em sua última
reunião, o COPOM elevou a taxa básica de juros da nossa economia
para 9,5%, na busca de retirar liquidez do mercado e, assim, forçar
a inflação para baixo."
Também nessa segunda, a FGV divulgou que o IPC-S (Índice
de preços ao Consumidor - Semanal) teve alta de 0,47%, valor um
pouco menor do que o 0,64% verificado até o dia 15 de maio. Para
Gallo, esse índice é pontual e não permite verificar
tendências. "Mas a expectativa é que, com a elevação
da taxa de juros e outras ações de controle orçamentário,
a inflação fique pelo menos dentro da meta, entre 2,5% e
6,5%."
Com relação ao PIB, o relatório Focus prevê
avanço de 6,46% - resultado também influenciado pelo consumo.
"O alto nível de consumo é um dos principais fatores que
estão impulsionando o crescimento do PIB. Isto é muito positivo
porque o Brasil tem que buscar o seu desenvolvimento, diminuindo as suas
desigualdades e oferecendo mais oportunidades a todos. No entanto o crescimento
de forma desordenada pode levar o país de volta à inflação.
Em outros termos, devemos crescer, mas de maneira ordenada com ganhos de
produtividade, para evitar que a expansão de demanda ocorra em conjunto
com a expansão da oferta."
Para finalizar, a dica do professor aos consumidores é cautela.
"Em momentos de crise e de perspectivas de aumento de juros, o consumidor
deve manter seu orçamento familiar sob rigoroso controle, gastando
somente o que cabe em suas contas. Financiamentos devem ser adquiridos
somente quando houver real necessidade, caso caibam dentro do orçamento.
A palavra de ordem é organização." (Executivos
Financeiros)
26.05 - Mercado: Crescimento do PIB em 6,46% em 2010
De semana em semana, a estimativa de crescimento da economia neste
ano avança. O mais recente dado, divulgado ontem pelo Banco Central,
prevê que a expansão do Produto Interno Bruto (PIB), a soma
de todos os bens e serviços produzidos no País, alcançará
6,46%, superando os 6,30% projetados na semana passada. Para 2011, analistas
de mercado mantêm a expectativa de crescimento de 4,50% há
24 semanas.
Mais uma vez, o crescimento da produção industrial no
ano foi elevado pelos analistas, passando de 10,40% para 10,90%. Para o
próximo ano, a previsão é de 5%.
A projeção para a relação entre a dívida
líquida do setor público e o PIB continua em 41%, neste ano,
e em 39,50%, em 2011.
Em relação ao superávit comercial (saldo positivo
de exportações menos importações), houve elevação
da projeção do mercado, de US$ 13,75 bilhões para
US$ 14,54 bilhões. Mas foi reduzida para o próximo ano, de
US$ 5,3 bilhões para US$ 4,5 bilhões.
No caso do déficit em transações correntes (registro
das transações de compra e venda de mercadorias e serviços
do Brasil com o exterior), a estimativa para este ano passou de US$ 49,25
bilhões para US$ 48,05 bilhões. E, no próximo ano,
a expectativa é elevação, ao passar de US$ 57 bilhões.
Sobre o câmbio, o mercado mantém inalterada a projeção
de que o dólar comercial fechará o ano em R$ 1,80 no fim
deste ano, e em R$ 1,85, ao final de 2011. No caso da projeção
do Investimento Estrangeiro Direto (IED), ou seja, recursos para o setor
produtivo do País, o mercado revisou o montante para US$ 37 bilhões
em 2010 (US$ 1 bi a menos que na semana passada), mantendo- em US$ 40 bilhões
no próximo ano. (Fenaseg)
26.05 - BC: Decisão de taxa de juros fica mais difícil
Com a piora na crise europeia, analistas começam a questionar
se o Banco Central tomará decisão tão rigorosa quanto
se esperava.
O mercado já trabalhava com a perspectiva de elevação
da taxa básica de juros, a Selic, entre 0,75 ponto percentual e
um ponto percentual na próxima reunião do Copom (Comitê
de Política Monetária) do Banco Central, no dia 15 de junho.
Com as incertezas acerca do impacto das turbulências sobre a
atividade no Brasil, a decisão do BC torna-se mais delicada. A crise,
porém, não terá o peso do caso Lehman Brothers, pelo
menos pelo que se deslumbra até agora, segundo analistas.
Não há sinal de ruptura do fluxo interbancário,
como ocorreu em 2008.
"A situação de Portugal e Espanha não parece tão
grave quanto a da Grécia", afirma Francisco Pessoa, da LCA Consultores.
No cenário doméstico, permanecem sinais de pressão
inflacionária. Para Pessoa, que já estimava aumento de 0,75
ponto percentual, a decisão da autoridade monetária deverá
ser nesse patamar.
Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander, diz que
o BC não irá mudar a sua trajetória.
"Há uma clara piora do cenário inflacionário,
para 2010 e 2011. O BC elevará os juros em 0,75 ponto percentual
e continuará em passos contínuos e em muitos passos."
(Maria Cristina Frias - Folha de S.Paulo)
25.05 - EUA não são a Grécia, mas podem virar um
Japão
Deflação sugere que país pode estar a caminho
de uma década perdida em estilo japonês, aprisionado em uma
era longa de desemprego elevado e crescimento lento
A despeito do coral que alega o contrário, não somos
a Grécia. Mas estamos cada vez mais parecidos com o Japão.
Nos últimos meses, boa parte dos comentários sobre a
economia vem repetindo um tema central: as autoridades econômicas
estão fazendo demais. Os governos precisam parar de gastar, é
o que nos dizem.
A Grécia é usada como exemplo cautelar, e cada pequena
alta nos juros que incidem sobre os títulos do Tesouro norte-americano
é tratada como indicação de que os mercados estão
se voltando contra os EUA devido aos nossos deficit.
Enquanto isso, há alertas contínuos de que a inflação
está a caminho e que o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) precisa
recuar em seus esforços de apoiar a economia e dar início
à chamada "estratégia de saída", apertando o crédito
por meio da venda de ativos e elevação das taxas de juros.
E quanto ao desemprego quase recorde, com um dos piores índices
de longa duração desde os anos 30? E quanto ao fato de que
os avanços no emprego dos últimos meses, ainda que bem-vindos,
até o momento recuperaram menos de 500 mil dos 8 milhões
ou mais de empregos perdidos depois da crise financeira? Ah, preocupar-se
com os desempregados é tão 2009...
Mas a verdade é que as autoridades econômicas não
estão fazendo demais; estão fazendo menos do que deveriam.
Dados recentes não sugerem que os EUA estejam se encaminhando
a um colapso da confiança dos investidores, em estilo grego. Em
lugar disso, sugerem que podemos estar a caminho de uma década perdida
em estilo japonês, aprisionados em uma era longa de desemprego elevado
e crescimento lento.
Juros
Falemos primeiro sobre as taxas de juros. Em diversas ocasiões,
ao longo dos 12 últimos meses, fomos informados, depois de alguma
alta modesta nos juros, de que o mercado estava começando a reagir
e que os EUA precisavam reduzir seu deficit imediatamente ou sofreriam
as consequências.
Mais recentemente, muito se falou sobre a alta nos juros dos títulos
de dez anos do Tesouro norte-americano, de 3,6% para quase 4%. "Medo quanto
à dívida causa alta dos juros" foi a manchete do "Wall Street
Journal", embora não existisse indício real de que o medo
quanto à dívida fosse responsável pela alta.
Desde então, os juros recuaram para abaixo da marca que mantinham
antes da alta mais recente. Na quinta-feira, os juros sobre os títulos
de dez anos eram de 3,3%.
Eu gostaria de dizer que a queda nos juros reflete otimismo quanto
às finanças federais americanas. Mas o que ela reflete é
uma alta no pessimismo quanto às perspectivas de recuperação
econômica, um pessimismo que fez os investidores fugirem de qualquer
coisa que possa ser considerada arriscada -o que explica a queda no mercado
de ações- e optassem pela segurança de uma aposta
nos títulos de dívida pública norte-americana.
Europa
O que justifica esse novo pessimismo? Em parte ele reflete os problemas
da Europa, que se relacionam menos do que temos ouvido às dívidas
dos governos. Os líderes europeus impuseram uma moeda única
a economias que não estavam preparadas para essa mudança.
Mas também houve sinais de alerta em casa, o mais recente dos
quais no relatório da quarta-feira sobre os preços ao consumidor,
que mostrava um indicador crucial de inflação em queda para
menos de 1%, sua marca mais baixa em 44 anos.
Isso não deveria surpreender, na verdade: a expectativa é
que a inflação caia diante de desemprego em massa e capacidade
produtiva excedente. Mas é uma má notícia ainda assim.
Inflação baixa, ou pior, deflação, tende
a perpetuar as crises econômicas, porque encoraja as pessoas a acumular
dinheiro em lugar de gastar, o que mantém a economia deprimida e
conduz a mais deflação.
O círculo vicioso que descrevi não é hipotético:
pergunte aos japoneses, que entraram em uma armadilha deflacionária
nos anos 90 da qual, a despeito de episódios ocasionais de crescimento,
ainda não conseguiram sair. A mesma coisa poderia acontecer nos
EUA.
Por isso, o que deveríamos estar realmente perguntando agora
não é se vamos nos transformar na Grécia. Em lugar
disso, deveríamos estar perguntando que medidas estão sendo
tomadas para evitar que nos transformemos no Japão. E a resposta
é: nenhuma.
Instinto de aperto
Não que é o risco não seja compreendido. Suspeito
fortemente de que alguns dos dirigentes do Fed percebam com clareza o paralelo
com o Japão e desejem fazer mais em apoio à economia.
Mas, na prática, tudo que podem fazer é conter o instinto
de aperto monetário de seus colegas, os quais (como os dirigentes
dos bancos centrais na década de 30) continuam a temer desesperadamente
a inflação, a despeito da ausência de qualquer indício
de alta de preço.
Suspeito, também, que os economistas do governo Obama gostariam
muito de ver um novo plano de estímulo. Mas sabem que um plano como
esse não teria chance de aprovação em um Congresso
que foi levado ao medo pelas palavras da linha dura quanto ao deficit.
Em resumo, o medo de ameaças imaginárias impediu qualquer
resposta efetiva ao verdadeiro perigo que nossa economia está correndo.
O pior vai acontecer? Não necessariamente. Talvez as medidas
econômicas já adotadas bastem para realizar a tarefa e dar
impulso a uma recuperação capaz de se sustentar sem ajuda.
Com certeza é isso o que todos nós esperamos. Mas esperança
não é plano. (PAUL KRUGMAN - New York Times,
tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo-22.05)
25.05 - Crise atual é complexa e justifica nervosismo
A crise financeira na Europa, que vem assolando os mercados no exterior
e no Brasil, não surpreende, considerando a vulnerabilidade fiscal
dos países da zona do euro. Mas o nervosismo dos mercados é
justificado. A crise europeia é bem mais complexa que a deflagrada
nos Estados Unidos, com a quebra do Lehman Brothers em 2008. Ninguém
sabe onde a atual crise vai parar, mas a região responde por 20%
do PIB mundial. A crise pode afetar a recuperação global
com repercussão em outros países, avalia Mônica Baumgarten
Bolle, sócia da Galanto Consultoria.
A economista lembra que a Europa tem menos instrumentos para buscar
uma saída, dificuldade agravada pela falta de coordenação
dos governos da região. Para o Brasil, os desdobramentos da crise
importam porque um freio na recuperação econômica global
pode afetar os preços das matérias-primas e agravar a deterioração
do balanço de pagamentos.
Apesar da atenção do Banco Central à cena externa,
é prematuro supor uma interrupção do ciclo de aperto
monetário agora. A pressão inflacionária não
dá alternativa ao BC, além de continuar com o aperto. Para
este ano é praticamente impossível trazer a inflação
para a meta. Mas olhando para o ano que vem, o aperto deve continuar. Pelo
menos por enquanto.
A seguir, leia a entrevista concedida ao Valor:
Valor: A crise europeia é uma surpresa?
Mônica Baumgarten de Bolle: A resposta para isso é um
grande e reverberante não. A crise europeia não é
uma surpresa. Esses países todos que estão com problema agora
são países que já tinham antes uma situação
fiscal bastante vulnerável, mas não apenas questão
fiscal. Na verdade temos um mix de problemas de endividamento um pouco
diferentes. A Grécia é um caso clássico de problema
fiscal, imprudência, falta de implementação de medidas
para conter o crescimento do déficit da dívida. A Grécia
nunca chegou nem perto de cumprir com os critérios do pacto de estabilidade
fiscal. De fato, a Grécia era uma coisa óbvia, mas para o
qual nem todo mundo olhava antes do agravamento com a crise de 2008. Portugal,
Espanha e Irlanda são casos um pouco diferentes. Portugal também
tem problema fiscal sério por ter déficit fiscal razoável.
A Espanha não tem uma dívida tão grande, mas também
teve no ano passado um déficit muito alto. Mas olhando para os indicadores
fiscais da Espanha antes de 2009, o país não estava tão
mal assim. O problema maior da Espanha é o endividamento do setor
privado. E a Irlanda é um caso bem parecido com o da Espanha. Nada
disso é surpresa para ninguém. Espanha, Portugal e Irlanda
foram países que se aproveitaram do boom que tiveram logo após
a adesão ao euro. Portugal menos porque cresceu relativamente pouco,
mas a Espanha durante um tempo cresceu bastante. A Irlanda foi o maior
caso de sucesso, chegou a ser chamada de 'tigre europeu' e aí tudo
desandou e consideravelmente após o choque brutal que foi a crise
de 2008 para todos os países. Então, a crise não é
uma surpresa no sentido de que todos esses países já tinham
essas vulnerabilidades identificadas.
Valor: Apesar de todo esse quadro, na esteira da crise de 2008, praticamente
dois anos depois, era esperada tamanha turbulência na Europa?
Mônica: Era difícil imaginar que, saindo de uma crise
financeira da magnitude que foi a de 2008, não se fosse ter alguma
turbulência fiscal em algum lugar do mundo. Aonde isso ia acontecer
primeiro, tinha gente que já suspeitava que na Europa até
porque é a região mais vulnerável por não ter
instrumentos para lidar com isso. Dado que a região tem uma união
monetária, o único instrumento de fato disponível
são medidas de austeridade. Individualmente, os países não
têm como mexer na taxa de juros e, individualmente, não têm
o que fazer com o câmbio. Nesse sentido era de se esperar que acontecesse
lá, mas dessa magnitude já é mais difícil de
dizer, porque o que essa crise expôs é que existe uma falta
absoluta de coordenação entre as autoridades daqueles países.
Isso está deixando as pessoas mais preocupadas. Quando se vê
a dissonância entre as diversas autoridades, fica difícil
contemplar qual é o caminho que será tomado para sair dessa
situação, dado que a solução deve ser coordenada.
A ausência de coordenação é que pegou as pessoas
de surpresa.
Valor: Podemos considerar que estamos diante de uma crise sistêmica?
Mônica: Para a Europa a crise certamente é sistêmica.
Começou com a Grécia e se espalhou rapidamente para todos
os outros países. Todos. O fato de o euro estar se desvalorizando
da forma como está desvalorizando é sinal de que a crise
está atingindo todo mundo de uma forma ou de outra. Se a crise é
sistêmica para o resto do mundo, pelo menos na última semana
temos evidências de que o que está se passando na Europa está
deixando todos preocupados com o resto do mundo, sim. Ninguém está
conseguindo avaliar direito que tipo de implicação essa crise
na Europa, que não vai se resolver agora, terá nas perspectivas
de recuperação da economia mundial. Tudo estava indo relativamente
bem até o cenário começar a desandar na Europa. A
economia mundial estava crescendo mais do que as pessoas tinham contemplado.
A economia americana, particularmente, estava dando sinais de recuperação
bem mais sólida do que se imaginava, claro que no caso americano
com as políticas de estímulos monetário e fiscal ainda
atuando, até que de repente vem essa turbulência na Europa.
E a zona do euro representa cerca de 20% do PIB mundial. Ela é parte
importante das fontes de crescimento da economia global. As pessoas estão
olhando para isso e pensando em como o crescimento do resto do mundo será
afetado. Nesse sentido, a crise pode ser sistêmica para o resto do
mundo.
Valor: Os bancos europeus podem mesmo ser duramente afetados?
Mônica: Os bancos europeus estão bastante expostos às
dívidas desses países, seja do setor público ou do
setor privado, e quando olhamos para isso, quem tem o potencial de maior
impacto no balanço dos bancos é a Espanha. A Grécia
é relativamente pequena. O que as pessoas andaram dizendo, que a
Grécia é uma nova Lehman, que se a Grécia reestruturar
ou quebrar vai gerar uma nova crise bancária na Europa de magnitude
semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos depois da quebra da Lehman
Brothers, não acredito. A Grécia é relevante hoje
porque faz parte da zona do euro, ponto. A Grécia é um país,
não é uma instituição financeira e desse ponto
de vista é muito diferente o canal de contágio que se tem.
Além do mais, quando se olha a exposição dos bancos
europeus, particularmente dos alemães e dos franceses que são
instituições maiores, a exposição à
Grécia é relativamente pequena. A exposição
à Espanha é grande. Um problema de dívida na Espanha,
que não é o que está ocorrendo agora, se viesse a
acontecer seria bem problemático para os bancos europeus. Mas o
Banco Central Europeu (BCE) adotou como parte das medidas, anunciadas três
semanas atrás, a compra direta de títulos desses países
que estão com problemas e em poder das instituições
financeiras. Com isso, ele criou uma maneira, que não é a
ideal mas quando se tem uma crise nada é ideal, para absorver pelo
menos uma parte do risco dessas instituições. O BCE fez algo
muito parecido com o que o Federal Reserve fez quando o Lehman quebrou
e os bancos ficaram com ativos tóxicos nos balanços. O BCE
criou algo análogo, mas para ativos de países com problemas.
Mas isso tem custo. Tem implicações para o euro, tem implicações
potenciais para a inflação na zona do euro.
Valor: Está configurada uma crise de crédito? Os mercados
travaram como em 2008?
Mônica: Não, isso não aconteceu. O que houve é
que há cerca de três semanas, antes do anúncio do pacote
de 750 bilhões de euros e o anúncio do BCE de que ia comprar
os títulos desses países com problemas, o BCE tinha dito,
numa quinta-feira em que ocorreu a reunião de política monetária,
que a hipótese de ele comprar títulos dos países não
havia sido discutida. No final do dia seguinte, na Europa, teve sim uma
paralisação do mercado interbancário. Aconteceu algo
parecido, sem a mesma magnitude, com o que ocorreu nos Estados Unidos.
Os bancos ficaram com medo do risco de contraparte por não saber
como estava a situação dos outros bancos. O interbancário
parou. Por essa razão, o BCE voltou atrás na decisão
de não comprar títulos e acabou tendo que comprar os títulos.
No final das contas, fez muito rápido algo parecido com o que o
Fed fez quando o Lehman quebrou, mas o Fed demorou um pouco mais. O BCE
foi muito criticado por ter feito a reviravolta tão rápida,
dizendo uma coisa num dia e fazendo outra no outro dia, mas penso que o
BCE deve ser elogiado porque mostrou que rapidamente enxergou uma piora
da situação e teve que mudar sua postura. O BCE agiu bastante
rápido e por isso, em seguida, os mercados reagiram tão bem.
Valor: O nervosismo dos mercados internacionais é justificado?
O nervosismo dos mercados no Brasil também?
Mônica: O nervosismo dos mercados em geral é justificado
sim. O problema é bastante sério. A solução
do problema na Europa é bastante complexa. É muito mais complexa
do que a solução para a crise americana. A crise americana
foi severa, aconteceu no centro do sistema financeiro internacional, acabou
se espalhando para o mundo inteiro de forma muito rápida, porque
afinal de contas os Estados Unidos são o centro do sistema financeiro
internacional, mas ainda assim, tendo acontecido nos Estados Unidos, que
é um país que tem capacidade de emitir a sua própria
moeda como também o dólar é moeda de reserva internacional,
isso deixou os Estados Unidos numa posição relativamente
boa para resolver a crise como se resolveu. Nesse sentido, se dispunha
nos Estados Unidos de muito mais instrumentos para lidar com os problemas
do que a Europa tem. A Europa não tem instrumentos e tem uma dificuldade
enorme de coordenação entre as diversas autoridades. Falta
de instrumentos e de coordenação faz com que as pessoas fiquem
olhando para os problemas e sem saber como as coisas vão se desenrolar.
Então é justificado, sim, o nervosismo nos mercados internacionais.
Aqui no Brasil, o nervosismo é também justificado porque
não se sabe que tipo de impacto esses problemas terão na
economia mundial. E como nós estamos bem dependentes do que acontece
com a economia global e bastante dependentes de uma evolução
favorável dos preços das matérias-primas, porque temos
uma conta corrente em deterioração que está sendo
segurada em parte pelos preços favoráveis, o nervosismo se
justifica porque um crescimento menos robusto da economia global vai ter
um impacto sobre preços de commodities e isso vai se refletir numa
piora ainda mais acentuada do balanço de pagamentos aqui no Brasil.
Valor: É possível esperar para já uma mudança
na condução da política monetária do Banco
Central, com alívio monetário, em decorrência da crise
europeia?
Mônica: Aqui no Brasil estamos com problema de inflação
crescente, a inflação está subindo, as expectativas
estão completamente descoladas da meta, estamos com impulso muito
forte de demanda, com o que o governo está fazendo com a política
fiscal, mas mais importante ainda com a política de crédito
público, com expansão de carteira de bancos públicos.
Então o BC, neste contexto, não tem muita alternativa além
de continuar o ciclo de aperto monetário. Claro que o fato de ter
a Europa nessa situação, de ter uma perspectiva que pode
não ser boa para a economia mundial, é uma preocupação.
Tenho certeza que o BC está atento. Mas temos um problema doméstico,
de aceleração inflacionária, que não tem jeito.
É isso o que o BC faz num regime de inflação. Tem
que tentar perseguir a meta de uma forma ou de outra. Para este ano é
praticamente impossível, mas olhando para o ano que vem tem que
continuar com o aperto pelo menos por enquanto. É prematuro dizer
que está na hora de o BC interromper o ciclo, esperar ou parar para
ver o que vai acontecer. Não, porque enquanto isso as expectativas
vão continuar descolando e a inflação vai continuar
andando. É cedo demais para isso. (Angela Bittencourt - Valor
Online)
25.05 - Projeção para crescimento do PIB é de 5,5%
De acordo com o Ministério do Planejamento (MP), o crescimento
real do PIB (Produto Interno Bruto) deve crescer 5,5% e o índice
de inflação IPCA (Índice de Preços ao Consumidor
Amplo) deve encerrar o ano no mesmo patamar, compatível com o objetivo
de inflação perseguido pela política monetária
e com a trajetória para este índice observado até
agora.
O órgão declarou ainda que a meta de resultado primário
do Governo Central, em valores nominais, está R$ 758,3 milhões
maior que aquela prevista na primeira avaliação bimestral
de 2010.
Após a análise da realização e reprojeção
dos itens até o final do ano, o Governo Federal reduziu as despesas
primárias em R$ 10 bilhões em relação ao valor
da primeira avaliação bimestral de 2010, sendo R$ 7,6 bilhões
em discricionárias e R$ 2,4 bilhões em obrigatórias.
A revisão das estimativas de receita líquida de transferências
a Estados e Municípios, exceto RGPS (Contribuição
ao Regime Geral de Previdência Social), demonstra diminuição
de R$ 9,2 bilhões em relação à primeira avaliação
bimestral deste ano.
No que se refere às receitas administradas pela Secretaria da
Receita Federal do Brasil RFB/MF, exceto a Contribuição para
o RGPS, a arrecadação do último bimestre mostrou queda
de R$ 2,9 bilhões em relação à projeção
feita na primeira avaliação, concentrado no Imposto de Renda
– IR, na Contribuição para o Financiamento da Seguridade
Social – Cofins, na Contribuição para o PIS/PASEP, na Contribuição
Social sobre o Lucro Líquido – CSLL e nas Outras Receitas Administradas
pela RFB.
O Imposto de Importação II, o IPI (Imposto sobre Produtos
Industrializados) e a Cide-Combustíveis apresentaram aumento. Nas
demais receitas primárias existe expectativa de decréscimo
em relação ao valor estimado na primeira avaliação
bimestral de 2010, da ordem de R$ 6,5 bilhões, concentrada em receitas
com Dividendos e Demais Receitas.
As receitas próprias foram reavaliadas e apresentaram um acréscimo
de R$ 9,7 milhões. Já as despesas primárias de execução
obrigatória, exceto as despesas do RGPS, sofrem redução
de R$ 2,4 bilhões. Apesar da despesa de apoio financeiro aos entes
federados estar somada em relação à primeira avaliação
bimestral de 2010, há previsão de menor execução
nas despesas com pessoal e encargos sociais, subsídios, Fundo Constitucional
do Distrito Federal – FCDF e desembolso financeiro no âmbito dos
Fundos de Desenvolvimento da Amazônia e do Nordeste. Além
disso, cabe ressaltar que também estão consideradas as expectativas
de créditos adicionais para o Poder Judiciário, que totalizam
R$ 10,5 milhões.
Em relação ao resultado do RGPS, a projeção
atual mantém a expectativa de arrecadação e de pagamento
de benefícios, porém aumenta a projeção das
sentenças judiciais com benefícios previdenciários
em R$ 31 milhões. (Executivos Financeiros)
24.05 - Economia impulsiona mercado de plano de aposentadoria
Estabilidade monetária, crescimento do emprego formal e da renda
e a confiança do consumidor permitem que o brasileiro passe a se
planejar
A retomada da economia, somada ao crescimento do emprego formal, à
melhora da confiança do consumidor e ao aumento do poder de compra
são fatores que vêm impulsionando o segmento de previdência
privada desde o 2º semestre de 2009, quando foi iniciado o processo
de recuperação da crise financeira - detonada em setembro
de 2008 com a quebra do Lehman Brothers.
O cenário de estabilidade, junto ao amadurecimento e à
elevação da expectativa de vida da população
brasileira, estimulou os planos de longo prazo e despertou a preocupação
de com quais recursos sobreviver depois de se aposentar.
É válido lembrar que a adesão aos planos de previdência
privada se disseminou somente quando o controle da inflação
foi conquistado, na segunda metade da década de 1990, com a inserção
do Plano Real na economia. Foi a partir de quando se tornou possível
começar a se planejar.
Hoje, existem 11,5 milhões de contratos de previdência
privada em todo o país. Número que cresceu 4,13% (400 mil
planos) na comparação do primeiro trimestre deste ano com
o mesmo período em 2009. As contribuições, segundo
dados da Fenaprevi (Federação Nacional de Previdência
Privada e Vida), aumentaram 27,9% (R$ 2,198 bilhões), com captação
de R$ 10 bilhões de janeiro a março - o melhor trimestre
nos últimos cinco anos.
Na avaliação de Juvêncio Braga, diretor da Caixa
Vida e Previdência (a quarta do ranking de captação
no trimestre, com 9,25% do total), o momento de expansão da economia
favorece a discussão em torno da previsibilidade. "É muito
importante ter o horizonte de longo prazo quando se pensa em previdência.
Hoje, as pessoas vivem mais. O tema da longevidade é o segundo assunto
mais discutido depois de meio ambiente. Como vou me aposentar aos 60 anos
e viver até os 100? Tenho de abrir mão de gastar hoje para
ter o que gastar amanhã", afirma.
De acordo com Osvaldo Nascimento, diretor-executivo da Itaú
Vida e Previdência (a terceira empresa que mais arrecadou no período,
com 19,42%), a previdência privada vem crescendo na casa dos 25%
ao ano. E isso também se deve ao aumento no contingente de pessoas
na classe média, o que elevou o poder de compra. "Hoje esse segmento
concentra mais gente do que as classes D e E" (leia mais na página
6).
"Quando as pessoas não têm recursos, ficam preocupadas
somente em sobreviver, custeando as necessidades básicas, como alimentação,
saúde, educação e moradia. Porém, com a melhoria
da renda no Brasil, aliada ao ceticismo em relação ao sistema
de previdência social, mais pessoas aderem à previdência
complementar", aponta Nascimento.
O VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre), produto voltado àqueles
que não declaram o Imposto de Renda pelo formulário completo,
ou que são autônomos, foi o que mais cresceu no trimestre
frente o mesmo período no ano passado: 38,7%, com R$ 7,8 bilhões
em depósitos no período. Sua grande vantagem é que
a tributação incide sobre o rendimento, somente, e não
sobre o montante acumulado.
Já o PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre), que permite
deduzir até 12% do valor a ser pago à Receita Federal, registrou
R$ 1,291 bilhão de janeiro a março, recuo de 0,10% frente
aos mesmos meses no ano passado.
Para Braga, essa é a melhor forma de juntar dinheiro a longo
prazo, pagando menos imposto e mesclando renda fixa com variável.
Pelo PGBL com a tabela regressiva, o contribuinte parte de 35% de IR e
vai diminuindo 5% a cada dois anos até chegar a 10%. Pela regressiva,
quanto maior o valor aplicado, maior o percentual. A tributação
segue a tabela utilizada para a declaração do IR, podendo
a aplicação ficar isenta do tributo ou incidir até
27,5% do rendimento. Caso o titular venha a falecer, o saldo é transferido
ao herdeiro sem a cobrança de impostos.
Segundo Tarcísio Godoy, presidente da Brasilprev (vice-líder
em captação no trimestre, com 19,89% do total arrecadado),
mesmo durante a crise não houve recuo no crescimento, por conta
de a indústria da previdência ser de médio e longo
prazo. (SORAIA PEDROSO - Brasil Econômico)
24.05 - A crise é agora um monstro de muitas pernas
Essa ação ultraconservadora dos investidores pode abortar
o crescimento em áreas que não sofrem da doença europeia
Algum sábio esquecido pelo tempo dizia que as crises financeiras,
quando não enfrentadas com eficiência na sua origem, acabam
por ganhar pernas próprias. Nada mais verdade para o analista que
acompanha o desenrolar dos acontecimentos na Europa.
A crise começou como um animal de poucas pernas -a medíocre
e pequena economia grega- e hoje se transformou em um monstro assustador
de muitas pernas. Entender sua complexidade é um exercício
muito difícil para o analista, principalmente porque estamos entrando
na fase do pânico entre os investidores.
O que mais me assusta é a falta de um diagnóstico profundo
da crise e de uma agenda de ações para enfrentá-la.
Nesse vazio de líderes do escopo daqueles que criaram a Europa Unida
-Adenauer, De Gaulle, Mitterrand e Kohl-, as dificuldades ficam ainda maiores.
Os mercados assistem -já há mais de dois meses- a um incrível
e ridículo espetáculo de divergências e ameaças
entre aqueles que deveriam estar liderando o processo de enfrentamento
da crise.
No início, quando o monstro a ser enfrentado não inspirava
medo a ninguém, os líderes de direita conservadora da Alemanha,
da Holanda e de outros países do norte europeu se posicionaram contra
qualquer ajuda aos gregos. Tiveram a mesma reação estúpida
do governo Bush, em setembro de 2008, quando o banco Lehman Brothers entrou
em dificuldades. Com isso, deixaram o pânico dos investidores chegar
a Irlanda, Portugal e Espanha e acabaram por criar uma crise de confiança
em quase toda a dívida pública europeia. Em outras palavras,
passamos de uma crise conjuntural para uma sistêmica.
Talvez naquele momento inicial uma ajuda de poucas dezenas de bilhões
de euros fosse suficiente para lidar com os fantasmas da Europa.
Mas questões ideológicas e políticas paralisaram
as ações dos líderes das nações mais
poderosas por várias semanas, com declarações contraditórias
e infantis entre os principais atores desse drama que ameaça virar
uma ópera-bufa. Quando acordaram para a gravidade do descrédito
no arranjo europeu que havia tomado conta dos mercados, a crise tinha vários
pares de pernas assustadoras.
Como sempre acontece, foi ao longo de um fim de semana tenso que os
governos europeus resolveram agir, e o pacote de US$ 1 trilhão para
apoiar os países em dificuldades foi aprovado. Mas nesse momento
as dúvidas e os medos dos investidores já eram muito maiores
e nem mesmo essa montanha de dinheiro público conseguiu trazer de
volta a confiança no euro.
Quando escrevo esta coluna, os mercados financeiros no mundo todo estão
em queda vertiginosa, com os investidores fugindo de qualquer ativo financeiro
que tenha algum risco. Nem mesmo as moedas de países com forte crescimento
-cito o Brasil, a Austrália e a Coreia- escapam da "débâcle".
A ordem é vender tudo e aplicar em títulos de crédito
nas duas únicas moedas -dólar e iene- vistas como seguras.
E isso é o que mais me preocupa.
Esse comportamento ultraconservador dos investidores pode provocar
um efeito dominó em todo o mundo e abortar a retomada do crescimento
econômico em áreas que não sofrem da doença
europeia.
Aprendi com meus médicos pessoais que a recidiva de uma doença
é sempre uma situação mais delicada do que a original.
E poderemos ter em poucos meses uma recidiva de crise deflacionária
de pouco tempo atrás. (LUIZ CARLOS MENDONÇA DE
BARROS - Folha de S.Paulo)
24.05 - Bom momento da economia, mas crise pode afetar país
Aparentemente um território livre de grandes turbulências
econômicas, a Europa de repente se viu estampada nos noticiários
de economia pelo mundo. A crise fiscal - que começou na Grécia
e já se alastra pelo continente - derrubou os mercados nas últimas
semanas e segue como principal foco de analistas e investidores. Enquanto
o Velho Continente se sacrifica para estancar a sangria nas contas públicas,
o Brasil vive um momento oposto, com perspectivas bastante positivas para
2010 e os próximos anos.
Mas nem tudo são flores. "A situação fiscal brasileira
não é nenhuma maravilha. O nosso risco existe, mas é
pequeno. O que vai acontecer aqui no Brasil, caso a crise fique bem aguda
ou que vire uma estagnação europeia, é dificultar
nossa exportação, podendo diminuir o investimento estrangeiro
no Brasil e trazer volatilidade no câmbio", avalia o professor Simão
Davi Silber, da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da Universidade de São Paulo).
De acordo com o professor, a recente volatilidade vista nos mercados
de renda variável deve continuar até que se tenha certeza
dos rumos das economias europeias em meio ao cenário adverso. "Eu
diria que de uma certa forma a gente está vendo o mesmo filme de
novo. O auge da crise em 2008 está se repetindo agora em 2010. Então,
vai ter bastante volatilidade até sabermos para onde as coisas caminham.
Por enquanto é uma grande incógnita", completou.
O analista Felipe Insunza, da Rosenberg & Associados, aponta porém
que o País deve seguir no mesmo caminho visto no ano passado. Enquanto
muitas economias ainda se encontravam em deterioração, o
Brasil mostrou retomada mais rápida que o esperado, fechando 2009
com queda de 0,2% no PIB (Produto Interno Bruto) - o sexto melhor desempenho
entre os países do G-20.
O forte ritmo da indústria nacional e o bom desempenho do consumo
interno deverão ser os principais catalisadores que sustentarão
a economia brasileira, caso a crise fiscal na Europa se agrave. "O agravamento
da crise no continente europeu pode, por exemplo, afetar nossas commodities
e diminuir investimento externo, mas a nossa relação dívida/PIB
deverá manter-se em queda", avaliou o analista, que permanece otimista
com o desempenho do País.
Em meio ao caos externo, projeções para PIB nacional
crescem
A despeito da situação externa, o mercado segue elevando
suas projeções de crescimento para a economia brasileira
em 2010. De acordo com o último relatório Focus, divulgado
pelo Banco Central, é esperado que a atividade econômica brasileira
avance 6,3% neste ano.
Um dos principais setores da economia nacional, o industrial, também
parece estar otimista com o crescimento do País. A CNI (Confederação
Nacional das Indústrias) também elevou recentemente sua projeção
de crescimento da economia brasileira em 2010. Segundo a entidade, o PIB
do País terá alta de 6% neste ano, frente à previsão
de +5,5% divulgada pela CNI em dezembro.
“Dados preliminares referentes ao primeiro trimestre de 2010 não
só confirmam a tendência de robusto crescimento, como também
indicam aceleração do ritmo de expansão da atividade
econômica”, avaliou a CNI em seu Informe Conjuntural.
De olho na balança comercial
Se por um lado todo esse otimismo que domina as projeções
para a economia brasileira parece um sonho finalmente realizado para um
país em desenvolvimento, o lado oposto nos faz confrontar a realidade.
Bastante dependente de outras economias ainda, embora cada vez mais cresça
a importância do consumo doméstico, o Brasil já percebeu
que em um mundo globalizado e majoritariamente capitalista crescer sozinho
tem suas dificuldades.
Recentemente o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou que o governo
vai adotar medidas de estímulo às exportações.
A decisão foi tomada diante da diferença observada desde
o início do ano entre o volume de produtos brasileiros enviados
ao exterior e o total de mercadorias trazidas de outros países para
o Brasil. O pacote do governo inclui, entre outras coisas, a criação
de um banco que deverá financiar as operações de comércio
exterior do País, que está sendo chamado de EximBank. Além
disso, a devolução de créditos tributários
também deverá ser acelerada (PIS, Cofins e IPI) para as empresas
exportadoras.
Vale lembrar que, de janeiro a abril de 2010, o superávit da
balança comercial brasileira sofreu contração de 65,7%
em relação à igual período do ano passado.
Muito desse desempenho deveu-se ao forte ritmo de crescimento do País,
a fraqueza das principais economias globais e à valorização
do real ante a moeda norte-americana. (InfoMoney)
21.05 - Crise europeia e a Selic
A crise na Europa ainda não está sendo sentida no Brasil
no tocante à economia real, mas isso não quer dizer que seus
efeitos já não tenham chegado por aqui. Ultimamente, observam-se
fortes oscilações na cotação do dólar,
na Bolsa de Valores, e, de maneira geral, seus efeitos por ora são
sentidos no mercado financeiro. Especificamente, a economia brasileira
tem apresentado nos últimos tempos um bom comportamento face a um
cenário internacional bastante conturbado, em que diversos países
europeus estão à beira de uma recessão ou simplesmente
se encontram nela.
Com uma expectativa de baixo crescimento no continente europeu para
os próximos anos devido à crise iniciada na Grécia,
provoca indagação o motivo dos aumentos já “programados”
no Brasil para a taxa Selic ao longo deste ano, haja vista a situação
recessiva na economia mundial. A decisão é de ordem interna,
isto é, na expectativa quanto à inflação esperada
para este ano, que já ultrapassa os 5%, bem acima da meta estipulada
de 4,5%, o que já influencia o comportamento da estimada para 2012.
É sabido que, uma vez adotado o regime de metas de inflação,
este deixa muito claro que, caso a inflação se desloque acima
da meta (no caso 4,5%), a taxa de juros será utilizada como instrumento
inibidor a esse aumento, apesar dos efeitos colaterais da medida.
O fato é que alguns economistas tentam dissociar o aumento na
taxa Selic com a crise na Europa, dando a entender que um fato não
tem relação como o outro. Entretanto, cabe destacar algumas
observações. A primeira delas é a de que o Brasil
tem apresentado déficit em conta corrente, significando que, apesar
das boas perspectivas da economia brasileira, que atrai recursos externos,
o país continua enviando mais recursos para fora, via juros de operações
financeiras, remessas de lucros, dividendos etc. Em função
disso, o Brasil precisa continuar captando recursos no mercado internacional
e, para isso, os juros continuam sendo um forte atrativo. Um segundo aspecto
leva em conta que os investidores internacionais terão menos recursos
para aplicar no resto do mundo, haja vista o próprio imbróglio
em que seus países se meteram e, em função disso,
para se sentir motivados a alocar recursos em outras praças, terão
de vislumbrar elevados ganhos. Nesse caso, o Brasil oferecerá isso,
por causa da taxa de juros vigente. Um terceiro ponto mostra que, embora
o Brasil tenha sempre apresentado superávit comercial, ele tem diminuído,
devido à valorização do real e também à
elevada importação.
Desse modo, é fato que, apesar de uma situação
adversa para a economia mundial, o Brasil continuará precisando
dos dólares. Para manter o fluxo, certamente usará a taxa
de juro como atrativo principal. Assim, sob a ótica interna, os
juros servirão para controlar a inflação e, sob a
externa, para continuar mantendo a entrada de dólares no país.
Dissociar a manutenção de uma taxa de juros elevada, do âmbito
interno, sem mensurar os possíveis ganhos marginais, morando o âmbito
externo, seria ingênuo. Soluções à vista ainda
vão demorar um determinado tempo, pois passam por uma estabilização
econômica dos países europeus, bem como por uma acomodação
da inflação no Brasil. De concreto, vale dizer que, apesar
da boa condução da economia brasileira nos últimos
tempos, devemos ficar atentos a um cenário internacional que pode
de, algum modo, gerar empecilhos ao crescimento esperado para este ano.
(Eduardo Amat Silva - EStado de Minas)
21.05 - Retomada deixa país competitivo
Estimativa de forte crescimento do PIB faz Brasil avançar duas
posições em ranking mundial. Agora o país é
o 38°
O crescimento da produtividade empresarial brasileira, a geração
de postos de trabalho e a boa resposta aos efeitos recessivos gerados pela
crise financeira internacional fizeram do país o 38º mais competitivo
do mundo entre as 58 nações avaliadas pelo Índice
de Competitividade Mundial 2010. O Brasil ganhou duas colocações,
principalmente pela eficiência dos negócios e perspectiva
de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), estimado em US$ 1,57 trilhão
este ano.
O estudo, desenvolvido pelo International Institute for Management
Development (IMD) em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC),
avalia 327 indicadores qualitativos e quantitativos que compõem
quatro fatores de competitividade: desenvolvimento econômico, eficiência
governamental e dos negócios e infraestrutura.
Para o professor da FDC Carlos Arruda, responsável pela captação
e avaliação dos dados brasileiros, a posição
do Brasil ainda não condiz com a realidade vivida pelo país.
"O 38º lugar fica aquém do esperado. Uma posição
mais coerente com o conjunto de esforços do país seria a
24ª ou 25ª colocação", avalia. A China liderou
entre os Bric, ficando em 18º lugar, seguida da Índia (31º),
Brasil e Rússia (51º).
Com um PIB estimado em US$ 1,57 trilhão, o Brasil deixou de
ser a 10ª economia do mundo em 2008 para atingir este ano a 8ª
posição. Quanto à Eficiência dos negócios,
o país alcançou a 24ª posição, conquistando
três colocações. Em contrapartida, no quesito Eficiência
de governo, foi mantida a 52ª colocação, enquanto em
Finanças públicas o país ficou em 29º e em Política
fiscal, 37º. "O Brasil não tem avançado quando o assunto
é eficiência de governo. Para isso, é preciso revisão
dos marcos regulatórios, apoio à atividade empresarial e
melhoria da gestão pública que, como está, tende a
gerar ineficiência dos investimentos", avalia Arruda.
Outro fator a ser observado é o tamanho da máquina pública.
"O governo hoje é o maior tomador de crédito e o que sobra
é pouco e caro. Uma ação importante seria a redução
da máquina pública e liberação de recursos
para o mercado. Os spreads bancários no país estão
entre os mais altos do mundo%u201D, explica. O trabalho também aponta
preocupação em decorrência da retração
de multinacionais brasileiras e ao baixo índice de investimentos
estrangeiros no país em 2009, que recuaram 42,58% em 2009 ante 2008,
baixando de US$ 45,1 bilhões para US$ 25,9 bilhões. A participação
no comércio mundial ainda é pequena, já que as exportações
representam apenas 1,16% do total de vendas externas em todo o planeta.
Apesar de ter perdido três posições na área
de infraestrutura, e ter ficado apenas com a 49ª colocação,
o próprio estudo prevê boas perspectivas para os próximos
anos. O relatório avalia que com a retomada da economia, a combinação
de alta na demanda doméstica, projetos de infraestrutura e investimentos
os países emergentes tendem a manter bons índices de competitividade.
Para Arruda, o bom desempenho do Brasil nos próximos anos vai depender
do governo manter a boa gestão da economia, com inflação
baixa, crescimento robusto, o que será auxiliado pela administração
rígida das contas públicas, a fim de elevar a produtividade
do Estado e elevar os investimentos em obras de longo prazo, em transportes,
energia e saneamento básico.
Pela primeira vez, desde 1989, os Estados Unidos perderam a primeira
colocação no ranking, hoje ocupada por Cingapura. Os americanos
ficaram apenas com o 3º lugar em decorrência dos impactos sofridos
pela crise mundial iniciada em 2008. (Paula Takahashi
- Estado de Minas)
21.05 - Investidor teme uma repetição de 2008
A memória negativa muito recente da crise do mercado imobiliário
de 2008 pode estar influenciando a movimentação dos investidores
neste momento. Assim como ocorreu após a quebra do Lehman Brothers,
nos Estados Unidos, hoje é difícil vislumbrar um fim para
a crise na Europa, desencadeada pela deterioração fiscal
da Grécia.
Segundo o gestor da Vetorial Asset, Sérgio Machado, não
tem como não fazer uma analogia com os passos da última derrocada
dos mercados mundiais.
Começa um problema, que é minimizado. Os governos demoram
em se mexer. As coisas pioram. Em seguida vem a ajuda. Não é
suficiente. Aumentam o tamanho da ajuda, mas a crise persiste.
No caso atual, o problema inicial foi a Grécia, a minimização
é que era "só a Grécia". O problema cresce e atinge,
"além da Grécia, Espanha, Portugal, Itália e Irlanda".
Os governos batem cabeça, mas um pacote sai. São 110 bilhões
de euros, que não resolvem. Os governos mostram alguma coordenação.
A soma vai a 750 bilhões. Mas, por ora, nada resolvido.
Já em 2008, o problema era o crédito subprime. A primeira
reação foi "não é nada muito preocupante, afinal
são só os créditos subprime". A bomba estoura com
o Lehman Brothers. Pânico. Os pacotes sobem dos bilhões para
os trilhões e o mercado ainda tenta se recuperar disso.
"Nosso Lehman é a Grécia, que está com cara de
que vai cair mesmo", diz Machado.
Ainda de acordo com o gestor, a questão agora não é
mais fiscal, é política, pois todos os ajustes necessários
dependem de vontade política das nações, depois da
vontade dos parlamentos nacionais e, por último, da população,
que vai ter que abrir mão da invejada social democracia europeia.
"Não tem nada pragmático. É um problema de solução
lenta. Isso deixa o mercado histérico", diz Machado, apontando para
as acentuadas variações de preço em curto espaço
de tempo e sem notícias que referendem isso.
Um bom exemplo de como o mercado está encarando o momento atual
foi dada pelo Safra Banco de Investimento no boletim SafraDiário.
"O fato de não conseguirmos identificar um driver específico
que consiga reverter de maneira rápida o sentimento negativo do
mercado é um fator que aumenta ainda mais a aversão a risco
nos mercados", escreveu a instituição.
Acontece que esse também é o melhor cenário para
os especuladores, diz o diretor-executivo da NGO Corretora, Sidnei Moura
Nehme.
"Convenhamos, há muito mais especulação do que
qualquer simetria nas reações irracionais dos mercados justificadas
como decorrentes da crise na zona do euro", pondera Nehme.
Encarando agora o Brasil e seus fundamentos, Nehme acredita que não
deveriam ser os brasileiros a perder o sono.
"Nosso sistema bancário não está comprometido
com os papéis dos países envolvidos na crise e nem concedemos
crédito ao setor privado dos mesmos", pondera.
Para Nehme, talvez esse fosse o momento de as autoridades brasileiras
atuarem para conter a volatilidade, "blindarem" um pouco o país
do que Nehme chama de "extravagâncias especulativas que ocorrem no
mercado de derivativos" e também na Bovespa.
Olhando agora para o euro, Nehme avalia que esse movimento de baixa
na cotação da moeda é a melhor passagem de saída
da Europa para a crise.
O euro mais barato é grande incentivo para aumento das vendas
externas e redução das importações. "Essa é
a única saída para a crise. O que precisa ser feito é
tomar medida para conter a volatilidade", explica.
Em função dessa mesma passagem de saída da crise,
Nehme aponta que não é de se surpreender a Europa queira
acordos com o Mercosul. (Eduardo Campos - Valor Online)
20.05 - Da autonomia do BC
Temos sempre procurado chamar a atenção para as vantagens
sociais e econômicas de uma política monetária executada
por um Banco Central operacionalmente autônomo.
Uma instituição que construiu sua "credibilidade" (como
é o caso brasileiro) pela verificação, ao longo de
alguns anos, de uma taxa média de inflação com pouca
variabilidade e próxima à "meta" fixada pelo poder incumbente.
Seu efeito positivo sobre o equilíbrio social é sempre esquecido.
Na nossa opinião, entretanto, é um dos fatores mais importantes
para "explicar" a ausência de greves selvagens no estabelecimento
da distribuição do "excedente" entre o capital e o trabalho,
que é um problema essencialmente político.
Seu efeito sobre a eficiência produtiva é, também,
inegável: reduz os ruídos dos preços relativos e,
portanto, melhora a qualidade da alocação dos fatores de
produção para atender à demanda de bens e serviços.
Quanto ao nível "ótimo" da meta de inflação,
há muitas dúvidas. É claro que quanto menor melhor.
Deve, porém, ser adequada para acomodar as manobras da política
monetária e as necessárias flutuações do salário
real. Dito isso, não deveria haver nenhuma surpresa na verificação
"empírica" de que, quando funciona (meta de inflação
com pequena variabilidade cumprida), ela é um estimulante mecanismo
para o desenvolvimento.
É difícil, entretanto, acreditar que seja apenas o sistema
de "metas de inflação" executado por um Banco Central autônomo
que produz a estabilidade da "expectativa inflacionária", fundamental
para a realização da taxa de inflação em torno
da meta. Sem um forte apoio da política fiscal e sem a existência
de um "ambiente" favorável ao crescimento, o custo daquele sistema
em termos de exacerbação das tensões internas pode
ser imenso.
O que se deve discutir é a qualidade da "ciência" monetária
que é ainda incipiente. O seu modelo exige certeza sobre um oximoro,
dois parâmetros variáveis, e ultrafugidios: a "taxa de juros
real de equilíbrio" e o "produto potencial". Todos os Bancos Centrais
fazem "hedge" para sua "credibilidade" superestimando a primeira e subestimando
o segundo.
Em poucas palavras, o sistema tem, sim, um custo social, o que também
não é novidade, porque não existe "almoço grátis".
É evidente que esse custo é tanto maior quanto mais conservador
for o comportamento do Banco Central.
Logo, não é pecado discutir o seu comportamento!
(ANTONIO DELFIM NETTO - Folha de S.Paulo)
20.05 - BC: País cresceu 9,85% no trimestre
Índice criado pelo BC para monitorar a economia indica um ritmo
de crescimento mais forte que o calculado pela Fazenda e pelo mercado
A economia brasileira cresceu perto de 10% no primeiro trimestre deste
ano, acima do que a maioria dos analistas de mercado e o Ministério
da Fazenda estão projetando para o período - na casa de 8%.
É o que mostrou o novo Índice de Atividade Econômica
do Banco Central (IBC-Br), que encerrou o primeiro trimestre com alta de
9,85% sobre igual período de 2009.
Em relação ao quarto trimestre do ano passado, o IBC-Br
teve expansão de 2,38% (que significa, em termos anualizados, crescimento
próximo de 10%). O dado reforça a análise que a economia
brasileira se encontra em ritmo muito forte neste início de ano
e é necessário pôr um freio no nível de atividade.
O IBC-BR é um indicador criado pelo Banco Central para tentar
antecipar o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) e é a mais
recente ferramenta usada pelo Banco Central para ajudar na definição
da taxa básica de juros (Selic).
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que
divulga oficialmente o PIB, só anunciará o resultado do primeiro
trimestre no dia 8 de junho. Com periodicidade mensal, o IBC-Br leva em
conta estatísticas sobre agropecuária, indústria e
serviços.
Alta dos juros. O resultado forte do indicador verificado no primeiro
trimestre ajuda a entender por que Henrique Meirelles e sua equipe foram
unânimes em aumentar em 0,75 ponto porcentual os juros na última
reunião do Comitê de Política Monetária (Copom),
do BC. E, pelo mesmo motivo, se espera que o BC siga nessa toada pelo menos
por mais uma reunião.
Ao elevar o juro básico, a autoridade monetária tenta
conter o ímpeto da economia, de modo que ela não permaneça
crescendo acima de sua capacidade por muito tempo. Afinal, essa situação
provoca risco de alta forte na inflação, além de piorar
o déficit nas contas externas do País - já que a economia
não tem capacidade de atender toda a demanda interna e precisa importar
produtos e serviços para supri-la.
O economista-chefe do banco Schain, Silvio Campos Neto, afirmou que
o dado do Banco Central reforça a preocupação em torno
do nível de crescimento econômico e seu impacto na inflação
ou no déficit externo.
"De fato, o indicador mostra um crescimento bem forte, acima do que
todo mundo entende que o País pode sustentar no longo prazo", disse
Campos Neto, ponderando que os dados do primeiro trimestre ainda ocorrem
sobre um ano marcado pela crise internacional, ou seja, sobre uma base
mais fraca, especialmente a do primeiro trimestre de 2009.
Ele ressaltou, no entanto, que a tendência da economia é
de desaceleração nos próximos trimestres, refletindo
as melhores bases de comparação e as ações
do Banco Central e do Ministério da Fazenda de apertar a política
fiscal.
Nesse sentido, Campos Neto defendeu um aumento ainda maior da austeridade
nos gastos do governo para ajudar a conter a economia. (Fabio Graner
- O Estado de S.Paulo)
20.05 - Investimentos não sustentam PIB entre 6% e 7%
Os investimentos atuais no Brasil não são suficientes
para sustentar o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no patamar
entre 6% e 7% ao ano, afirmou ontem o presidente do Itaú Unibanco,
Roberto Setubal.
Em evento da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção
de Exportações e Investimentos), ele disse que o atual nível
de recursos é suficiente para manter uma expansão de cerca
de 4% nos próximos anos.
""Só vamos crescer em torno de 6%, 7% porque no ano passado
não crescemos nada. Mas isso não é sustentável",
afirmou. O Itaú Unibanco revisou na semana passada sua projeção
de expansão do PIB neste ano para 7,5%.
""Nós não temos poupança pública nem investimentos
em infraestrutura suficientes para manter isso", disse.
Setubal afirmou que o governo precisa aumentar sua poupança
para elevar os investimentos, que, segundo ele, são feitos hoje
principalmente pelo setor privado.
Para o banqueiro, é importante desenvolver o mercado de capitais
no país. "O Brasil teve grande número de IPOs [oferta inicial
de ações] no ano passado, mas ainda assim muito do dinheiro
que vem daí é de estrangeiros, e isso significa que o Brasil
está usando dinheiro de fora para se financiar", disse.
Pastore
Crescer a taxas mais elevadas nos próximos anos pode trazer
de volta o fantasma da inflação. O alerta é de Affonso
Celso Pastore, professor da USP e ex-presidente do Banco Central.
Pastore destacou, em palestra no 22º Fórum Nacional, que
o país não tem condições de crescer, de forma
sustentada, acima de 4,5% por ano no curto prazo.
"Continuar crescendo 7% é procurar encrenca com a inflação",
afirmou.
Pastore afirmou que a economia, diante da já pequena capacidade
ociosa, pode se expandir de forma temporária em ritmo mais forte.
Nas atuais condições, ressaltou, o país continuará
tendo ciclos temporários de elevação da atividade
econômica. (GIULIANA VALLONE E CIRILO JUNIOR - Folha de S.Paulo)
19.05 - Pânico agora ou pânico mais tarde
História de outras crises sugere que o pacote para salvar a
Europa pode ser apenas o fim do primeiro ato de uma inevitável tragédia
O pacote de ajuda coordenado, de US$ 1 trilhão, para evitar
um calote grego da dívida é fatalmente defeituoso e pode
muito bem levar a uma nova e profunda recessão global. Embora os
otimistas acreditem que esse socorro financeiro sinalizará o fim
da crise da dívida pública grega, a história de outras
crises sugere que esse é somente o fim do primeiro ato da que poderá
ser uma longa e interminável tragédia.
Como parte do plano de socorro, a Grécia terá de adotar
medidas duras para pôr em ordem sua situação fiscal,
tais como cortar salários e aposentadorias. É mais fácil
falar do que fazer, diante da longa história do país de pagar
generosamente aos que trabalham.
Mas a história não termina aí. A falha mortal
do plano é que as nações europeias que ajudaram a
Grécia ? mesmo a Alemanha, onde a dívida pública subiu
para 80% do Produto Interno Bruto (PIB) ? estão com problemas orçamentários
similares e pouca vontade política de adotar medidas austeras como
aquelas.
Parece que o seu plano é ficar esperando que os credores não
prestem atenção nisso. Claro que no final eles acabarão
percebendo e, quando isso ocorrer, certamente o que vamos verificar é
uma perda de confiança global nos mercados de dívida pública.
Em outras palavras, não é boa notícia para um
credor se alguém que tomou emprestado e está falido se oferecer
para assumir a dívida de um outro devedor também falido.
Durante a crise financeira, a crença nas grandes instituições
financeiras foi restaurada porque os ativos tóxicos foram trocados
por títulos governamentais. Se esses títulos se tornarem
tóxicos, as opções de cura praticamente inexistem.
O colapso será total.
E o colapso pode ocorrer a qualquer hora. Se os credores decidirem
que os grandes governos ocidentais estão acumulando uma dívida
insustentável e não têm vontade política de
resolver o problema, o fim pode chegar amanhã.
Eis como as coisas podem ocorrer: quase diariamente, governos precisam
de empréstimos para resgatar dívidas que estão vencendo.
Os Estados Unidos, por exemplo, tomaram US$ 10 bilhões dos chineses
no ano passado por um ano. Agora, vamos tomar outros US$ 10 bilhões
de outro credor para conseguir devolver o dinheiro aos chineses.
Se os credores ficarem muito frustrados, eles podem decidir não
comprar a dívida pública de um governo porque não
têm ideia de quanto seu valor pode cair entre hoje e amanhã.
Os governos que, a cada semana, vêm se refinanciando, vão
se ver com pouquíssimas opções.
Não seria um fato sem precedentes nem forçado se uma
perda de fé na dívida pública se propagar pelo globo
no caso de a Grécia ou outro país de porte entrar em colapso.
A única coisa que precisa ocorrer é os credores se darem
conta que os europeus que planejam pedir emprestado para reembolsar as
entidades que detêm a dívida grega dificilmente constituem
riscos de crédito melhores que os próprios gregos. E isso
pode ocorrer no caso de um leilão da dívida pública
grega fracassado, mas pode afetar todos os governos ocidentais que estejam
tentando tomar fundos emprestados.
E, nesse caso, até os Estados Unidos terão problemas.
Embora o país até agora esteja longe da confusão,
um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), publicado em 2003,
sugere que dificilmente está em território seguro. Economistas
que têm estudado as crises de dívida soberana, exatamente
a situação que as nações ocidentais pretendem
evitar, concluíram que os níveis de dívida externa,
que é o dinheiro devido a estrangeiros, quando excedem os 50%, são
um indicador-chave de que pode ocorrer um calote da dívida.
Aqui, um fato arrepiante: a dívida externa média, como
porcentagem do PIB, entre os países da amostragem um ano antes de
uma crise de dívida soberana, foi de 54,7%, e de 71,4% no ano da
própria crise. A dívida externa dos Estados Unidos em 31
de dezembro de 2009 era de US$ 13,77 trilhões, ou quase 100% do
PIB. Em boa parte da Europa, a situação é ainda pior.
Um força-chave empurrando a dívida externa para cima
tem sido o aumento na tomada de empréstimos pelos governos. No seu
primeiro ano, o governo Obama conseguiu acrescentar mais de US$ 8 trilhões
à dívida prevista para 2019, hoje projetada para chegar a
US$ 17,5 trilhões.
Os Estados Unidos, relativamente saudáveis, estarão como
a Grécia em uma década. O único caminho é as
grandes nações desenvolvidas fazerem ajustes orçamentários
de longo prazo para acalmar os mercados antes que estoure uma crise. Como
a única nação séria quanto a reduzir seu déficit
no momento é a Grécia, parece quase impossível essa
história ter um final feliz.
Nossas opções são: ou pânico agora ou pânico
mais tarde. (KEVIN HASSETT - Bloomberg, tradução de
TEREZINHA MARTINO - O Estado de S.Paulo)
19.05 - Para BC, país já tem pronta ação
anticrise
Meirelles diz que Brasil tem instrumentos para evitar reflexos da turbulência
europeia
Presidente do BC está em Nova York, onde receberá prêmio
de Personalidade do Ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados
Unidos
Em Nova York nesta semana para receber o prêmio Personalidade
do Ano, da Câmara de Comércio Brasil-EUA, o presidente do
Banco Central, Henrique Meirelles, tocou ontem o sino que abre os trabalhos
da Bolsa em Wall Street.
Em entrevista coletiva após a cerimônia, afirmou que o
Brasil está "analisando qualquer sinal" de que a crise econômica
na Europa "possa piorar" e voltou a garantir que o país está
"bem preparado" para reagir.
Para ele, "esta é uma semana importante" para a situação
europeia, e os brasileiros estão "observando com muito cuidado o
desenvolvimento da situação". "Vamos esperar para ver."
Questionado se o país cogita voltar a implementar as medidas
usadas contra a crise de 2008, Meirelles afirmou que "todo o pacote está
devidamente preparado".
Ele citou o "empréstimo de reservas, a liberação
dos compulsórios para a melhora da liquidez e do crédito
em moeda estrangeira e nacional, os estímulos fiscais e a ação
decisiva dos bancos públicos".
"É um pouco prematuro para decidir alguma coisa", ressalvou.
"Estamos acompanhando com cuidado. É uma situação
séria, como os europeus têm dito, mas eles têm a expectativa
de conseguir resolver a questão no devido tempo."
Para o presidente do Banco Central, "é normal" que os mercados
estejam "nervosos e voláteis", mas o Brasil tem uma "economia saudável"
e recursos -como os US$ 250 bilhões em reservas internacionais-
para evitar o contágio da crise na zona do euro.
Meirelles disse ainda esperar que as "autoridades europeias, tomando
as medidas adequadas, venham a estabilizar a situação". "Trabalhamos
tendo em vista a pior hipótese, mas esperamos pela melhor."
O conjunto de medidas estará preparado "não só
agora como em qualquer crise que venha a acontecer no futuro", afirmou
Meirelles.
"Aquela crise [de 2008] foi a pior que enfrentamos em 80 anos, e o
Brasil se saiu mais forte do que entrou. Estamos preparados. Temos recursos,
a economia vai bem, o Brasil está crescendo." (CRISTINA FIBE
- Folha de S.Paulo)
19.05 - Remessas ao exterior devem ser declaradas
Empresas e pessoas físicas que fizerem remessas ao exterior
acima de R$ 53,9 mil por ano terão de informar as operações
à Receita Federal, informou ontem o órgão.
As mudanças valem para a declaração que será
entregue até o último dia de fevereiro de 2011.
O objetivo é ter mais informações para cruzar
com outras já declaradas atualmente e evitar fraudes e sonegações.
A partir do ano que vem, as empresas terão ainda de declarar
o valor pago por seus funcionários a fundos de previdência
privada e planos de seguros de vida intermediados por ela. Os contribuintes
podem deduzir esses valores do Imposto de Renda. (Destak Jornal)
18.05 - Balanços bons, mas a luz amarela está acesa
Legalmente, a safra de balanços do primeiro trimestre acabou
na sexta-feira, com o anúncio da Petrobras fechando o período.
De forma geral, os números vieram dentro do esperado, com um viés
ligeiramente positivo. Esse cenário é bastante bom por dois
motivos. Primeiro porque as expectativas já eram boas e os números
no mínimo atenderam tais previsões. Além disso, os
lucros e as receitas cresceram quando comparados com os do quarto trimestre
do ano passado, que foram muito bons, pois já refletiam a recuperação
econômica brasileira após a crise financeira de 2008. Mas
o cenário pode mudar, e para pior.
A questão agora é saber se os balanços continuarão
evoluindo positivamente nos próximos trimestres, assim como se imaginava
até recentemente, ou se a deterioração do cenário
internacional, com os problemas na Europa, pode começar a comprometer
a saúde dos balanços das companhias brasileiras.
Na visão dos analistas, ainda não há motivo para
alarde. No entanto, a situação externa acende sim uma luz
amarela de alerta sobre os próximos balanços. Não
é preciso ir muito longe para lembrar que, dependendo da intensidade
dos problemas internacionais, eles podem afetar em cheio a economia de
países que estão muito longe do epicentro da crise. Em 2008,
por exemplo, a crise no setor de hipotecas de alto risco americano se alastrou
pela economia inteira dos EUA, e num piscar de olhos, já tinha tomado
o resto do mundo.
A contaminação ocorre por duas vias: pela do mercado
financeiro ou pela economia real. Isso porque tanto os mercados quanto
as economias hoje estão totalmente interligadas. Portanto, o reflexo
de um país no outro torna-se quase que instantâneo. É
verdade que o impacto é menor em economias com melhores fundamentos,
como é hoje a brasileira. Mas passar ao largo de uma importante
turbulência internacional é uma tarefa hercúlea.
Para o gerente de renda variável da Modal Asset Management,
Eduardo Roche, é muito cedo para que os problemas na Europa afetem
a atividade das companhias brasileiras neste segundo trimestre. "A crise
na Grécia ainda não afetou a economia real no mundo e, além
disso, o segundo trimestre já está em andamento", diz Roche.
Ele acredita, no entanto, que a partir do próximo trimestre
os balanços já poderão começar a sentir os
primeiros efeitos da situação europeia. "Isso deve acontecer
especialmente no momento em que a crise comprometer as relações
comerciais entre os países", explica. É de se esperar que
as empresas ligadas ao mercado externo sejam as mais impactadas. Entre
elas estão as produtoras de commodities, como siderurgia, mineração
e petróleo.
O chefe de análise da Link Investimentos, Andres Kikuchi, acredita
que os primeiros efeitos dos problemas na zona do euro já poderão
ser sentidos neste trimestre, especialmente nas empresas de commodities.
"É natural que os governos europeus adotem algumas medidas protecionistas
com o objetivo de minimizar os efeitos da crise em suas indústrias,
o que prejudicará as exportações para esses países",
diz Kikuchi. Segundo ele, os papéis de commodities vêm caindo,
com o aumento da aversão a risco por esse setor.
O desempenho do mercado no fim da semana passada mostra como o cenário
externo continua sendo foco de preocupação. Na sexta-feira,
o Índice Bovespa fechou em queda de 2,12%, aos 63.412 pontos. Essa
é a menor pontuação desde o dia 7, quando o indicador
encerrou os negócios aos 62.870 pontos. (Daniele Camba - Valor
Online)
18.05 - 'Europa vai mergulhar em nova recessão'
Para especialista em sistema financeiro, medidas vieram tarde demais
e tornaram a desaceleração inevitável
Apesar de a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional
(FMI) terem criado um pacote de 750 bilhões contra crises, para
tentar evitar um contágio dos problemas fiscais da Grécia
sobre outros países da região e proteger o euro, o bloco
europeu ainda tem um longo caminho pela frente, em que um novo mergulho
na recessão se mostra inevitável, acredita o economista Barry
Eichengreen.
Professor de Economia e Ciência Política na Universidade
Califórnia, Berkeley, Eichengreen é considerado um dos maiores
especialistas na história e no funcionamento do sistema financeiro
e monetário internacional.
"Os governos não tomaram medidas para consolidação
fiscal e a União Europeia não adotou o pacote de resgate
até que fosse tarde demais", disse. "Agora chegou-se a um ponto
em que é praticamente inevitável uma maior desaceleração
da economia europeia", disse o professor à Agência Estado.
O pacote de 750 bilhões pode ajudar a resolver os problemas
da Europa?
Essa história não acabou. O pacote ainda está
em andamento. O Parlamento europeu tem de concordar e, para ter acesso
ao dinheiro, os países terão de negociar um programa com
o FMI, o que eles não querem fazer. A parte importante não
foi o pacote, mas a decisão do Banco Central Europeu de comprar
bônus de Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda. Isso permitiu
que o mercado da dívida se acalmasse e deu algum tempo aos governos.
Espanha e Portugal anunciaram medidas fiscais.
O medo continua rondando os investidores. Essas preocupações
têm fundamento?
Ainda há incertezas sobre o que os Parlamentos da Espanha e
de Portugal vão fazer. Ainda haverá desaceleração
econômica na Europa e recessão nos países mais ao sul.
Mas a volatilidade deve acabar.
O sr. está otimista de que o euro vai sobreviver?
O euro foi punido pela crise, mas ele ainda é melhor do que
qualquer outra alternativa.
O economista Kenneth Rogoff sugeriu que Grécia e Portugal devem
ser colocados para fora da zona do euro e fala-se que o presidente Sarkozy
teria ameaçado sair do bloco. Há risco de fragmentação
da zona do euro?
Os últimos anos nos ensinaram que tudo é possível.
Mas acho que a fragmentação é pouco provável.
Um default (calote) grego é mais provável. Reestruturar dívida
não é o mesmo que abandonar o euro e reintroduzir o dracma
(moeda grega). Os problemas da Grécia não vão ser
solucionados se o país deixar a zona do euro. O país terá
de reestruturar sua dívida.
Quando o BCE pode começar a subir os juros?
A Europa deve ter duplo mergulho na recessão e não haverá
suporte fiscal para crescimento. O juro não subirá tão
cedo.
O que ainda pode ser feito para evitar recessão na Europa?
É muito tarde para evitar uma dupla recessão. Os governos
não tomaram medidas para consolidação fiscal necessária,
a UE não adotou seu pacote de resgate até que fosse tarde
demais e agora chegou-se a um ponto em que é praticamente inevitável
a desaceleração da economia.
Quanto tempo levará então para a Europa se recuperar?
Depende das reformas, mas estamos falando de anos.
Até que ponto os EUA estão a salvo?
Os indicadores mostram que a retomada está se acelerando e a
Europa não vai ajudar nesse processo. A pior coisa que poderia acontecer
seria Europa e China desacelerando ao mesmo tempo. Vamos torcer para a
China continuar indo bem. (Luciana Xavier - O Estado de S.Paulo)
18.05 - Brasil está pronto para crise na UE
Para o presidente do Banco Central, não devem ocorrer quebras
como as de 2008
Meirelles vê "consenso de que a economia necessita de um ajuste"
ao defender corte de gastos de R$ 10 bilhões pelo governo
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou ontem que
o Brasil está preparado para enfrentar os efeitos da crise europeia.
Em um dia marcado pela desconfiança dos investidores em relação
à capacidade de recuperação da região, Meirelles
disse que ainda é cedo para fazer um diagnóstico preciso
da crise.
O presidente do BC afirmou que itens como estabilidade de preços,
inflação sob controle, câmbio flutuante e reservas
elevadas dão segurança ao país. Ele participou do
encerramento do seminário sobre metas de inflação
organizado pelo banco no Rio de Janeiro.
"Crise não é bom para ninguém. Crise sempre custa
muito. (...) Mas o fato concreto é que, por enquanto, é um
pouco prematuro tentar ver a dimensão da que atinge a Europa."
Ontem as Bolsas europeias terminaram o dia em queda e o euro registrou
a menor cotação desde outubro de 2008. Mesmo assim, Meirelles
afirmou que é natural o mercado discutir a eficácia de medidas
anunciadas para combater a crise, como o pacote de socorro à Grécia.
Meirelles explica que a ameaça para o Brasil de um eventual
agravamento da crise é um aumento da aversão ao risco. Isso
poderia ocorrer como consequência da maior dificuldade de financiamento
de países europeus. Na prática, o capital pode ficar mais
caro no mundo todo. Ele citou ainda a possibilidade de um crescimento mais
lento das economias da região, o que teria impacto sobre as exportações.
Juro
Questionado sobre os efeitos de uma crise em meio a um ciclo de alta
nos juros, Meirelles disse que esse é o aumento de juros mais pacífico
dos últimos sete anos. A taxa básica de juros está
em 9,5% ao ano.
"É um consenso hoje entre os formadores de opinião que
a economia necessita de um ajuste, o próprio pacote fiscal de corte
de gastos vai nessa direção", afirmou, em referência
ao corte de R$ 10 bilhões anunciado anteontem pelo governo para
evitar um superaquecimento da economia.
Meirelles disse ainda que é pouco provável que o país
seja surpreendido durante o ciclo de alta dos juros por um evento semelhante
à quebra do banco Lehman Brothers, em 2008.
"Toda a estrutura institucional está preparada para evitar a
falência de uma instituição financeira sistemicamente
importante. É trabalhar esperando o pior e torcer pelo melhor."
O presidente do Deustche Bundesbank, o banco central alemão,
Axel Weber, que participou do seminário, declarou que a crise é
um processo longo e que deve continuar. (JANAINA LAGE - Folha
de S.Paulo)
17.05 - Prudência necessária
Anúncio de corte de despesas é um sinal de sensatez do
governo, que enveredava pelo terreno do descontrole fiscal
Depois de uma fase em que a adoção de medidas para enfrentar
a crise econômica internacional serviu de licença para gastos
descontrolados, o governo federal demonstra, enfim, estar preocupado com
o desequilíbrio fiscal e as evidências de superaquecimento
da economia.
A Fazenda anunciou um corte adicional de R$ 10 bilhões em despesas
de custeio, que poderá ajudar a União a superar a meta de
3,3% do PIB para o superavit primário -a economia do setor público
com vistas ao pagamento dos juros da dívida.
O novo congelamento de gastos soma-se aos R$ 21,8 bilhões anunciados
em março, perfazendo um total de R$ 31,8 bilhões, cerca de
1% do PIB.
O valor é quase o mesmo dos investimentos vinculados ao Programa
de Aceleração do Crescimento, que podem ser abatidos do cálculo
do superavit. Se cumprir o prometido, o governo poderá agora alcançar
o objetivo fiscal de maneira mais convincente, sem precisar recorrer ao
desconto dos valores do PAC.
O anúncio veio em boa hora. Os cortes trazem uma salutar dose
de sensatez para um ambiente de gestão das finanças públicas
que parecia caminhar para o terreno da irresponsabilidade.
Desde sempre inclinado a aumentar despesas, o governo Lula nos últimos
tempos ultrapassou os limites. Uma série de subterfúgios
foi utilizada para fechar as contas de 2009, facilitar gastos e driblar
a contabilidade oficial.
O mais "criativo" -e preocupante- deles foi a transferência de
R$ 180 bilhões do Tesouro Nacional para o BNDES. Na mesma linha,
editou-se medida provisória que permite o uso de recursos do chamado
fundo soberano para capitalizar estatais, sem afetar o superavit primário.
O quadro tornou-se mais arriscado com a eclosão da crise europeia
e com os sinais de que a retomada do crescimento da economia brasileira
vinha de fato ocorrendo em ritmo muito forte, o que já levara o
Banco Central a iniciar um processo de elevação da taxa básica
de juros.
Embora os cortes previstos não sejam suficientes para alterar
a direção restritiva da política monetária,
podem representar um alívio. Os juros certamente continuarão
em alta, mas sem o esforço fiscal seriam maiores as chances de que
atingissem um patamar mais elevado -e mais nocivo para a economia.
Quanto à Europa, a montagem, às pressas, de um pacote
de socorro de 750 bilhões (cerca de R$ 1,7 trilhão) não
deixou dúvidas sobre a gravidade dos desequilíbrios fiscais
em muitas economias do continente.
As dificuldades da Grécia lembram, aliás, momentos sombrios
já enfrentados pelo Brasil em passado não muito distante.
Mesmo fora do epicentro da crise, o governo brasileiro não poderia
comportar-se como se nada tivesse acontecido.
Também são positivas, neste cenário, as indicações
de que a Presidência dispõe-se a vetar os descalabros previdenciários
aprovados pelo Congresso. A hora, de fato, exige prudência.
(Folha de S.Paulo)
14.05 - A mais nova odisseia da Grécia
Para o líder de um país cujas finanças vêm
causando susto ao planeta há meses, o primeiro-ministro grego, George
Papandreou, ostenta uma calma quase zen, digna de Obama.
Ele acaba de retornar de reunião com os demais líderes
da União Europeia, que decidiram tentar evitar o colapso da Grécia
e racha no bloco por meio de uma demonstração de força
esmagadora -prometendo quase US$ 1 trilhão em apoio à economia
de qualquer país-membro que venha a ter dificuldades.
Mas, em um almoço cujo cardápio incluía peixe
grelhado e salada grega, Papandreou deixou claro que está ciente
de que o acordo da UE não é uma simples troca de dinheiro
de resgate por cortes orçamentários. Não: se considerarmos
com atenção o que será preciso para que a Grécia
corrija sua economia, estamos falando de uma troca de verbas de resgate
por uma revolução. Todo o sistema econômico e político
do país terá de mudar, se a Grécia quiser cumprir
sua parte do trato.
Papandreou diz que está pronto e que o mesmo se aplica ao país.
"As pessoas apelam para que eu mude o país, sabem que mudanças
são necessárias. Ninguém desejaria perder essa oportunidade."
Em um restaurante instalado no topo de um edifício, com vista
para a Acrópole, peço que Papandreou me conte como foi ser
alvo de caçada para o pessoal das transações eletrônicas
de títulos por seis meses.
"Por conta da crise de 2008, todos os agentes de mercado se tornaram
mais avessos a riscos, e por isso eles atiram rápido", diz o primeiro-ministro
de centro-esquerda, eleito em outubro para consertar a bagunça.
Os agentes do mercado são "como um animal ferido, que recua ante
o menor movimento. Por isso, qualquer boato pode tornar realidade as profecias
desfavoráveis que contém".
Comparar os protagonistas do mercado de títulos a bestas selvagens
talvez seja injusto para com as bestas, ele sugere. Esses mercados "nem
mesmo são humanos, hoje. Algumas dessas coisas funcionam de forma
computadorizada e operam em modo automático" ao perceber qualquer
sinal de problema.
"Agora teremos uma folga", disse Papandreou, não para relaxar,
mas para que o governo inicie "as profundas mudanças -a pequena
revolução" na forma pela qual o país é governado,
com ênfase na mudança do sistema de incentivos, de modelo
que estimulava os gregos a procurar empregos públicos vitalícios
a outro cujo foco será estimular a iniciativa privada.
O gabinete do país já aprovou elevar a idade de aposentadoria
mínima dos funcionários públicos dos 61 para 65 anos.
Os salários médios do funcionalismo foram reduzidos em 20%,
e as aposentadorias, em 10%. O imposto por valor adicionado subiu de 19%
para 23%, e os tributos sobre combustíveis, álcool e tabaco
subiram 30%.
O governo quer reduzir o número de municípios de mil
para 400 e o de companhias estatais de 6.000 para 2.000, para poupar dinheiro
e reduzir a burocracia. Até o momento, o deficit já caiu
40% ante o de 2009.
Mas Papandreou, cujo carro oficial é um híbrido Prius,
diz que, para sustentar essas dolorosas reformas, os gregos precisam se
tornar participantes do processo. E isso só acontecerá se
houver senso de "justiça" -os gregos querem ver processos contra
os grandes sonegadores- e se o povo sentir que seus líderes têm
visão.
"Precisamos dar um sonho a este país", para que os sacrifícios
façam sentido.
"Vamos trazer as melhores práticas da Europa e do mundo para
reformar o país", diz Papandreou. "É difícil, e haverá
protestos, mas será um dos períodos mais criativos que a
Grécia terá vivido."
Será que a Grécia é capaz de uma revolução
cívica? As chances parecem precárias, mas não será
necessário consultar o FMI para determinar a resposta. Basta observar
os jovens. Se em seis meses eles estiverem emigrando, aposte contra a Grécia.
Se os vir decidindo ficar, talvez seja hora de comprar um ou dois títulos
gregos. (THOMAS FRIEDMAN - New York Times, tradução
de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo)
14.05 - Europa em transe
Mercados turbulentos têm uma capacidade fenomenal de encurralar
governos financeiramente frágeis
Quando o ano começou, eu alimentava esperanças de que
a minha vida fosse ficar um pouco mais fácil aqui em Washington.
A crise internacional estava amainando e a pressão sobre o FMI parecia
diminuir.
Não aconteceu. Estamos tendo reuniões da diretoria até
no domingo. A Europa não dá descanso. O terremoto europeu,
com epicentro na Grécia, afetou grande parte do continente e reverberou
no resto do mundo.
O superpacote anunciado pela União Europeia na madrugada de
segunda-feira é uma tentativa dramática de estancar a crise.
Os primeiros efeitos foram positivos.
Morfina para os mercados, declarou um alto funcionário do FMI.
Em grande parte, é uma repetição do que foi feito
para lidar com a crise global depois do colapso do Lehman. Com uma diferença
importante: procura-se agora atuar em grande escala antes que a Grécia
ou algum outro elo fraco provoque uma crise comparável à
de 2008-2009. Mas o quadro é desalentador.
Mercados turbulentos, misturando pânico e especulação
agressiva, mostram uma capacidade fenomenal de encurralar governos financeiramente
frágeis. A matilha de lobos, na expressão de uma autoridade
europeia, sente o cheiro de sangue e ataca sem dó nem piedade.
Em resposta, o setor oficial (governos europeus, autoridades regionais,
bancos centrais, FMI etc.) procura impressionar os mercados exibindo uma
artilharia pesada. Como fizeram em 2008 e 2009, governantes anunciam novamente
números estratosféricos de apoio financeiro oficial. Outra
vez, aparece a cifra mágica: US$ 1 trilhão ou quase. O FMI
é chamado a comparecer com grandes empréstimos. O Banco Central
Europeu e outros bancos centrais do continente, depois de muita hesitação,
dispõem-se finalmente a comprar títulos públicos e
outros papéis duvidosos rejeitados pelo mercado. Voltam as operações
de "swap" de moedas entre o Fed e os principais bancos centrais. Em resumo,
um deus nos acuda.
Tudo para impedir que a quebra de governos ou de instituições
financeiras gere perdas para os credores e recrie um quadro de crise profunda.
Um dos grandes objetivos desses superpacotes é mostrar determinação
e poder de fogo na esperança de que o dinheiro anunciado não
precise ser totalmente utilizado. Pode funcionar. Nem todo o socorro oficial
anunciado pós-colapso Lehman teve que ser desembolsado.
A repetição do artifício leva, porém, ao
seu desgaste. Tanto mais que há um elemento de blefe nos números
anunciados. Os valores nem sempre estão efetivamente disponíveis.
No caso do FMI, os 250 bilhões que a instituição
deveria aportar para socorrer os europeus constituem, de acordo com o divulgado
pela administração do Fundo, um valor "hipotético"
(sic).
Os europeus parecem ter perdido o rumo de casa. Há pouco tempo,
autoridades europeias graúdas consideravam inaceitável que
a Grécia, um país da zona do euro, recorresse ao FMI. Agora,
os europeus anunciam demandas extraordinárias sobre a instituição,
as suas equipes e os seus recursos. No limite, levariam todo o dinheiro
que temos aqui -e mais algum.
FMI, não. FME -Fundo Monetário Europeu. (PAULO
NOGUEIRA BATISTA JR - Folha de S.Paulo)
14.05 - Brasil: Remédio tardio para a indigestão
Governo pensa em cortar gasto para evitar crescimento "excessivo" da
economia, talvez o maior em 34 anos
O Ministério da Fazenda acredita que o país teria crescido
em torno de 8,5% no primeiro trimestre deste ano (taxa do trimestre, anualizada).
As projeções dos maiores bancos e consultorias vão
de 9% a 12%, ao menos nas estimativas daqueles que costumam ser mais certeiros
e realistas.
Ontem, o Itaú Unibanco revisou sua previsão de crescimento
do PIB deste ano para 7,5%. Na segunda-feira, o Bradesco atualizara a sua
estimativa para 7%. As revisões têm sido mensais e muito fortes.
Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tais projeções
são exageradas. O crescimento ficaria entre 5,5% e 6%.
A se confirmar a previsão do Itaú Unibanco, teríamos
neste ano a maior alta do PIB per capita desde 1976. Em um terço
de século.
Como se escreveu nesta coluna, faz um mês, a equipe econômica
de Lula já estava então preocupada com a aceleração
excessiva da economia e dos preços: "O governo está algo
surpreendido com a velocidade da recuperação. Pensa agora
como pode ajudar a conter a escalada de alguns preços".
O governo então pensava em tomar medidas pontuais a fim de conter
aumentos de preços com grande poder de contágio, por assim
dizer, como os do aço e de material de construção.
Ainda imaginava que o BC poderia apertar o crédito sem apenas recorrer
à taxa de juros -exigindo mais depósitos compulsórios
dos bancos nos cofres do BC.
Agora, Planejamento e Fazenda anunciam em público e difundem
por meios mais discretos a ideia de que pretendem reduzir os gastos de
modo a dar sua parte na redução do consumo e, assim, conter
a aceleração excessiva da economia.
Em si mesma, a ideia é boa. No mínimo, vai colaborar
marginalmente para a redução da dívida pública.
Os juros de tal dívida são monstruosos e constituem, enfim,
uma grande transferência de renda para a minoria de brasileiros que
têm poupança, grandes investidores e bancos.
Quanto a esfriar a economia com cortes de gastos a fim de conter a
inflação e evitar altas maiores de juros, esses são
outros quinhentos.
Onde o governo pode cortar o bastante, a ponto de dar uma mão
na política monetária (a de juros, do BC)? Os aumentos de
renda devidos à ação do governo foram contratados
no ano passado, e um tanto mais neste: rendas assistenciais, aposentadorias
do INSS, salários de servidores, tudo isso já foi.
A despesa pode aumentar ainda, com o reajuste que o Congresso deu aos
aposentados do INSS. Mas tal reajuste extra nem estava na conta do governo.
Seria corte de vento.
Previdência, salários e gastos vinculados com saúde
e educação perfazem quase todo o gasto do governo. Onde é
que se vai cortar?
É tarde também para o governo mexer em outra rubrica
do PIB, o investimento. O governo aumentou o capital do BNDES. Boa coisa,
pois os investimentos crescerão. Mas não dá mais para
conter a demanda por aí, a não ser em parte, e com uma paulada
nas taxas de juros.
Ainda que o governo tivesse como fazer cortes importantes neste ano,
é um tanto tarde para que a medida possa evitar as altas de juros
previsíveis para 2010 ("tudo o mais constante", não considerando
a hipótese de catástrofes pelo mundo, claro).
(VINICIUS TORRES FREIRE - Folha de S.Paulo)
13.05 - O FMI melhorou
É fato conhecido que, no Brasil, o mais importante para a aceitação
de uma "teoria" é que ela seja exposta em inglês.
Sua conformação com nossa realidade e nossa história
é, em geral, um acidente de menor importância. Que tais construções
são mais "modismo" do que "ciência" nunca foi tão visível
como no comportamento recente dos economistas do FMI. Estes costumavam
impor sua ideologia como "ciência" a todos os países que lhe
pediam ajuda. A geografia, a história e a organização
política de cada um deles não lhes interessavam.
Eram todos elementos pertencentes a um mesmo conjunto abstrato de países
supostamente controlados por um mesmo modelo de equilíbrio, que
respondia a uma ciência econômica universal. Esta, em lugar
de ser parte de um todo social, era o próprio todo.
Nem mesmo a distinção entre países "desenvolvidos"
e "em desenvolvimento" fazia sentido. Numa espécie de ataque de
marxismo tardio, para o FMI todos estavam condenados a percorrer o mesmo
caminho. Ele era, apenas, o guia que indicava o caminho "ótimo"!
Foi preciso uma crise internacional, que ainda não terminou,
mas já dizimou a economia de muitos países e produziu um
desemprego e um empobrecimento fantásticos, para que o "modismo"
vendido como "ciência" mostrasse a sua verdadeira cara.
Uma coisa é certa: o FMI não produziu a crise, mas suas
"crenças" foram importantes fatores coadjuvantes na insensatez que
levou os Estados a reduzirem a regulação do sistema financeiro.
Regulação criada nos anos 30 do século passado para
coibir a repetição da patifaria que produziu a crise de 1929.
Os fatos mostraram que a crença no "mercado" financeiro perfeito,
que ao autorregular-se obedecia ao imperativo categórico kantiano,
é uma farsa. Os agentes de tal mercado, quando não duramente
regulados pelo Estado, têm uma irresistível propensão
à velhacaria. Sempre voltam ao local do crime...
Para mostrar a mudança de atitude do FMI e a recuperação
de certo "espírito científico" temos: 1º) a dúvida
sistemática; 2º) o cuidado e a humildade com as afirmações
apodícticas e, acima de tudo, 3º) a busca incessante de refutar
empiricamente suas crenças.
E basta esta frase: "Embora existam algumas evidências sugerindo
que uma continuada sobrevalorização da taxa de câmbio
prejudique o crescimento e que uma desvalorização o estimule,
elas são ainda insuficientes" ("Regional Economic Outlook - Western
Hemisphere", maio de 2010, pág. 52). Bingo! Essa é a dúvida
que temos de eliminar. (ANTONIO DELFIM NETTO - Folha de S.Paulo)
13.05 - FMI exige austeridade da Europa
Com socorro à Grécia, Fundo amplia seu papel nas decisões
econômicas globais e resgata receituário para países
em crise
Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente, pede mais ação
política do bloco; para entidade, reação europeia
será moderada e desigual
De volta ao centro do palco após acudir a Europa, o Fundo Monetário
Internacional bateu e assoprou ontem fazendo lembrar sua velha forma: avisou
que está pronto para prover crédito a outros países
à beira do abismo, mas ditou para Atenas um futuro sombrio.
O diretor-gerente da entidade, Dominique Strauss-Kahn, lembrou que
o problema da Grécia não acaba no deficit fiscal, e será
preciso tratar a falta de competitividade para sanar as contas e pagar
aos credores.
Na prática, para um país sem política cambial
independente por conta da moeda comum, isso significa desvalorizar toda
a sua economia achatando salários e preços.
"O programa grego é muito duro, dolorido, mas é o modo
de voltar para os trilhos. Para a Grécia, isso vai acontecer por
meio da melhora da competitividade", afirmou.
A recomendação -que lembra o velho receituário
do Fundo, do tipo que é mal recebido nas ruas e tem custo político-
foi feita em entrevista coletiva em Zurique após um evento com o
Banco Central Suíço.
Strauss-Kahn capitalizou o momento político, bem definido pouco
depois pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles: "A posição
do FMI no sistema financeiro cresceu enormemente, na prevenção
e no monitoramento".
Já o francês lembrou que a instituição debate
a reformulação de seu mandato, que suas reservas em um ano
triplicaram e que, se forem necessários pacotes a outros países,
o FMI tem "recursos disponíveis".
"Há perguntas para o futuro sobre o tamanho do Fundo", ponderou.
"Mas admitimos que temos de dar um passo adiante. Isso me deixa otimista
sobre a reforma do mandato."
Indagado pela Folha sobre o significado político de a União
Europeia ter acorrido ao FMI após meses dizendo que não o
faria para não mostrar fraqueza, ironizou: "Melhor perguntar à
União Europeia, pois não temos a experiência política".
Mas sua frase seguinte não deixa de ecoar as semanas de resistência
da Alemanha para emprestar dinheiro a um vizinho que passou duas décadas
bagunçando o orçamento.
"A solidariedade dos países da Europa foi grande o bastante
para prover a maior parte do programa [a UE entrou com € 80 bilhões,
e o FMI, com € 30 bilhões]. Em qualquer outra parte do mundo
onde os vizinhos quisessem providenciar a maior parte do pacote, ficaríamos
felizes em deixar."
Performance fraca
Relatório emitido ontem pelo próprio FMI guarda poucos
elogios à UE, ressaltando apenas sua ação coordenada
para superar a crise e evitar a quebradeira no sistema bancário.
O documento descreve a recuperação europeia como moderada
e desigual, atrelada sobretudo à retomada do comércio global
e à política de estímulos (a mesma, diz, que ajudou
a inflar o deficit mediterrâneo).
"A performance da Europa continua fraca se comparada com a recuperação
em outras partes do mundo", diz o texto. E há forte contraste entre
os europeus, refletindo vulnerabilidades à dificuldade de financiamento
externo e à queda na demanda por exportações.
O FMI se diz cada vez mais preocupado com a intervenção
estatal e pede mais ação política. "O crescimento
deve ganhar fôlego em 2010-11, mas os motores tradicionais da retomada
estarão mais frágeis."
O texto, sem surpresa, também cita a alta do desemprego e o
risco aos bancos vindo da crise da dívida. (LUCIANA COELHO
- Folha de S.Paulo)
13.05 - UE está despreparada para apertar o cinto
A Europa ganhou algum tempo com o resgate de 750 bilhões. Mas
o problema de longo prazo permanece.
A maior parte da União Europeia vive acima de suas posses. Os
deficit governamentais estão descontrolados, e a dívida do
setor público, em ascensão. Caso os governos não utilizem
para controlar seus gastos o tempo que obtiveram, os mercados voltarão
a ficar perigosamente inquietos.
Infelizmente, eleitores e políticos europeus estão despreparados
para a era de austeridade que os aguarda.
A Europa poderia continuar a ser o lugar com as mais belas cidades,
o melhor vinho, a mais rica histórica cultural, as férias
mais compridas, os melhores times de futebol. A vida para a maior parte
dos europeus jamais foi tão confortável.
A estratégia era excelente, mas trazia uma grande falha. A Europa
não tem como arcar com o custo de sua confortável aposentadoria.
A crise financeira grega serve, infelizmente, como exemplo extremo
de um problema europeu mais amplo. Os investidores vêm contemplando
nervosamente os níveis de dívida e os deficit orçamentários
de Espanha, Portugal e Irlanda.
Mas nem os quatro grandes países da Europa -Alemanha, França,
Itália e Reino Unido- estão imunes a preocupações,
em razão das dívidas e deficit.
E um dos motivos para a amargura da Alemanha quanto à necessidade
de resgatar a Grécia é o conhecimento de que Berlim já
enfrenta dificuldades para manter suas contas.
É verdade que os cidadãos da Letônia e da Irlanda
já engoliram a necessidade de cortes de salários e pensões.
Mas experimentaram pobreza em época recente, seguida por expansão
intensa e insustentável. Seus cidadãos sabem que os últimos
anos foram um tanto irreais.
Como ilustram os tumultos em Atenas, no entanto, nem todo europeu reage
de forma tão estoica a fortes cortes de orçamento. Muitos
consideram que aposentadoria antecipada, assistência médica
gratuita e seguros-desemprego generosos são direitos fundamentais.
Deixaram há muito de perguntar como essas coisas eram pagas.
É essa sensação de que tudo é um direito que
torna tão difíceis as reformas.
Mas, caso os europeus não aceitem a austeridade agora, no futuro
terão de encarar algo mais chocante: moratórias nacionais
e colapsos bancários.
Para muitos europeus, isso é coisa de América Latina.
A descoberta de que a Europa Latina -e talvez também a Europa setentrional-
pode colidir contra os fatos financeiros será um choque horrível.
O crescimento no tamanho e no poder da UE alimentou uma perigosa sensação
de complacência. Para os países do centro e do sul da Europa
-que aderiram depois do núcleo central-, "Bruxelas" foi vendida
como a apólice de seguros definitiva.
Assim que tivessem aderido à UE, todos poderiam aspirar às
vidas relativamente confortáveis e estáveis de franceses
e alemães. E o método funcionou durante anos, com a alta
dos padrões de vida em países como Espanha, Grécia
e Polônia.
Apólice de seguro
Nos últimos anos, a unidade europeia também vinha sendo
alardeada como apólice de seguro para os membros fundadores da União.
Nicolas Sarkozy e Angela Merkel falam de uma Europa que "protege".
A ideia era que uma União abarcando 27 membros seria grande
o bastante para proteger o modelo social único que existe na Europa
contra as incertezas da globalização. Em seu nível
mais fundamental, a UE decerto protege.
Mas, embora os europeus já não temam Exércitos
estrangeiros, começam a temer os detentores estrangeiros de seus
títulos de dívida. A existência da Europa como "superpotência
do estilo de vida" depende de ampla oferta de crédito.
O resgate do final de semana representa um último salva-vidas
lançado aos governos europeus que possam precisar dele. Mas, apesar
de toda a conversa sobre solidariedade europeia, um dos custos dessa linha
de crédito será o agravamento das tensões no seio
da UE.
Já há muitos protestos na Grécia quanto à
perda de soberania nacional, só equiparados à amargura na
Alemanha sobre o custo do resgate aos irresponsáveis europeus do
sul.
Na semana passada, conversei com um membro da elite da UE. Ele sacudiu
a cabeça diante das amargas recriminações trocadas
entre alemães e gregos e da forma pela qual a crise "lançou
os dois povos um contra o outro". Isso, disse, é o mais perto que
temos da guerra, na Europa moderna.
Vamos esperar que sim. Mas os europeus estão descobrindo que
o "projeto europeu" não oferece proteção contra a
dureza do mundo externo. As coisas ainda podem ir horrivelmente mal mesmo
no jardim murado da União Europeia. (GIDEON RACHMAN
- Financial Times, tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de
S.Paulo)
12.05 - Brasileiro tende a buscar aplicação com risco
maior
Gestores, associações e governo se preparam para o aumento
no número de investidores que querem mais retorno, mesmo com mais
risco
Apesar da tendência de alta nas taxas básicas de juros
para os próximos meses, que acabam acomodando o investidor em aplicações
mais conservadoras porém seguras, a indústria financeira
tem mexido-se, nos últimos meses, em busca de novos formatos. Gestores
de recursos já começaram a sentir uma demanda um pouco maior
por investimentos mais arriscados e a expectativa é que, em algum
momento num futuro não muito distante, essa busca se torne um hábito
corrente do brasileiro.
Atrás desse mercado emergente, Luiz Fernando Figueiredo, sócio
da gestora de recursos financeiros Mauá Sekular Investimentos, afirma
que a Mauá se uniu à Sekular em outubro para ampliar os produtos
ofertados. “O sonho era ter uma companhia de investimentos completa, mas
com profissionais reconhecidos entre os investidores”, diz.
Atualmente, a Mauá tem R$ 1,1 bilhão de ativos sob gestão.
As áreas de atuação são gestão de fundos,
de patrimônio e de crédito. “Queremos desenvolver desde produtos
moderados a mais agressivos, em todas as áreas”, afirma.
Na Verax, administradora independente de recursos, o forte são
os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). Também
conhecidos por fundos de recebíveis, são lastreados em títulos
de dívidas de empresas e estão começando a se popularizar.
“Queremos ter parceiros para ampliar a oferta de serviços em FIDCs”,
diz Marcelo Xandó, diretor executivo da empresa. “
Xandó afirma que seus clientes estão tomando cada vez
mais gosto por risco. “Os investidores estão com mais disposição
para investir", diz. "Alguns de nossos clientes, por exemplo, saíram
de uma fatia de 5% dos ativos em Bolsa para 45%.” A renda variável
é mais arriscada que a fixa.
Feito sob medida
Além dos gestores, as associações setoriais e
o governo também têm procurado atender à demanda crescente
por risco. Na semana passada, a Associação Brasileira das
Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) comemorou o aniversário
de cinco anos do IMA, o Índice de Mercado Anbima. O indicador foi
criado em parceria com a Secretaria do Tesouro Nacional e representa a
evolução da carteira de títulos públicos.
O IMA nasceu para suprir uma necessidade de um mercado mais maduro:
um acompanhamento mais fiel para títulos de longo prazo. Até
então, explica Marcelo Giufrida, presidente da associação,
a indústria de fundos utilizava basicamente o Depósito Interbancário
(DI) para medir rendimento. O problema é que o DI é um indicador
de curto prazo, e muitas vezes, se mostrava ineficiente para aplicações
mais longas.
Nesses cinco anos de vida, o IMA parece estar caindo no gosto dos gestores.
Em 2007, segundo levantamento do Tesouro Nacional, 24 fundos seguiam o
indicador. Este ano já são 78.
Uma mudança regulatória também ajuda na adesão
ao índice. Em 2009, o Conselho Monetário Nacional aprovou
mudanças nas regras de investimento de fundos de pensão e
regimes próprios de previdência social. No caso dos últimos,
tornou-se obrigatório que pelo menos 70% dos investimentos previdenciários
em fundos sigam um índice IMA. (Aline Cury Zampieri
- iG)
12.05 - Crise europeia não impedirá país de crescer
A crise econômica europeia, disparada com a debacle da Grécia,
não vai impedir o novo ciclo de expansão econômica
do Brasil, cujo Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 5,5% a 6% este
ano, disse segunda-feira o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, no seminário
"Brazil Infrastructure Summit". Promovido pelos jornais Valor e "Financial
Times", o encontro reuniu, em seu primeiro dia no Rio de Janeiro, especialistas
e autoridades da área de infraestrutura para discutir as propostas
e possibilidades de desenvolvimento e financiamento de projetos no país.
Em sua palestra no painel "Panorama Econômico Brasileiro", Mantega
falou das condições que fizeram do país um dos únicos
no mundo a crescer enquanto a maioria se retraía pela crise internacional.
Destacou o crescimento sustentado da economia brasileira com geração
de empregos e equilíbrio fiscal e avaliou positivamente o pacote
financeiro acertado pela União Europeia (UE) e o Fundo Monetário
Internacional (FMI), de US$ 955 bilhões ( € 750 bilhões),
aprovado na segunda-feira.
Mantega disse que o pacote "deve ser suficiente para restabelecer a
tranquilidade", apesar de ter chegado tarde. "A União Europeia estava
lenta, dormiu no ponto e a conta foi subindo", criticou. Para o ministro,
o pacote europeu permite prever uma recuperação da economia
mundial a partir de 2011, o que beneficiaria diretamente o Brasil ao reduzir
a pressão sobre as contas externas. "Temos tido problemas com déficit
em transações correntes que se deve à crise que reduziu
o comercio internacional e, portanto, os nossos mercados."
O economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, também
se mostrou otimista em relação à possibilidade de
que o pacote de ajuda anunciado pela União Europeia evite o contágio
da crise iniciada na Grécia. "Os países se juntaram, vai
ter um grande ajuste fiscal. A economia vai continuar funcionando", frisou
Goldfajn, para quem a economia global ainda vai sofrer os efeitos de um
crescimento mais modesto no médio prazo. "Mas não será
mais um crise desorganizada", acrescentou.
Para o Brasil, a projeção de Goldfajn é de que
a crise europeia não afetará a tendência de um crescimento
forte para este ano. A estimativa de crescimento do Itaú Unibanco
para o país em 2010 é de 6,5% e o economista confirmou que
o patamar está sendo revisto, "provavelmente para cima".
Na visão de Mantega, a solução da crise internacional
com o pacote financeiro da União Europeia e do Fundo Monetário
Internacional também é importante do ponto de vista de perspectivas
de financiamento dos projetos de infraestrutura a médio e longo
prazos. "O Brasil hoje pode ser considerado um canteiro de obras", afirmou
Mantega apresentando um mapa com as principais obras em curso no território
nacional, entre elas rodovias, ferrovias, plataformas de petróleo
e hidrelétricas.
Mantega garantiu que o volume de poupança interna prevista para
2010, da ordem de 18,5% do PIB mostra forte recuperação em
comparação com 2009, quando foi de 16,5%. No entanto, o salto
nos investimentos previsto para os próximos anos vai exigir poupança
estatal e externa para garantir o financiamento de projetos que, só
na carteira do BNDES, já passam de R$ 300 bilhões.
Em entrevista ao Valor, Mantega rebateu as críticas de economistas
e analistas de que haveria um superaquecimento da economia brasileira.
No entanto, disse que o governo prepara medidas de curto e médio
prazo para evitar ameaças ao cumprimento da meta de inflação
para 2010, de 4,5%.
Retiradas as medidas de estímulo tomadas em 2008 como redução
de IPI e de depósitos compulsórios nos bancos, o próximo
passo será cortar gastos públicos. Segundo Mantega, o corte
vai atingir gastos correntes em todos os ministérios, mas o valor
global da redução ainda está em definição,
sujeita à aprovação do presidente luiz Inácio
Lula da Silva. (Janes Rocha e Rafael Rosas - Valor Online)
12.05 - Previsão para o PIB sobe pela oitava semana
Os analistas do mercado financeiro elevaram, pela oitava semana seguida,
a previsão para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) para
2010. Segundo o relatório Focus, divulgado segunda-feira pelo Banco
Central (BC), o PIB deve fechar o ano com elevação de 6,26%.
Para 2011, a previsão de crescimento econômico do mercado
financeiro permaneceu estável em 4,5%.
As estimativas para a inflação oficial para 2010, medida
pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), também
foram elevadas pela 16ª semana consecutiva, para 5,50%, bem acima
da meta do governo de 4,5%. Para 2011, a previsão dos analistas
permaneceu em 4,8%.
A produção industrial também teve suas projeções
aumentadas para este ano pela 11ª vez seguida. Segundo os analistas
do mercado financeiro, a produção industrial deve ter elevação
de 10,30%. No último relatório a previsão era de alta
de 9,54%. Para 2011, a estimativa permaneceu inalterada em 5,00%.
Já a projeção dos economistas do mercado financeiro
para o superávit da balança comercial em 2010 subiu de US$
12,2 bilhões para US$ 13 bilhões na semana passada. Para
2011, o BC revelou que a previsão dos economistas para o saldo da
balança comercial permaneceu estável em US$ 5 bilhões
de superávit. (Executivos Financeiros)
11.05 - A natureza da crise na Europa
É preciso repensar radicalmente o problema das finanças
internacionais e dos deficit em conta-corrente
O quadro financeiro europeu continua muito grave. A Alemanha, afinal,
decidiu dar apoio ao pacote financeiro grego, de forma que a dívida
do setor público da Grécia está equacionada. A imprensa
tem dado amplo noticiário sobre o assunto, mas afinal se limita
a informar sobre o deficit público e a dívida pública
do Estado grego, em vez de informar sobre o problema fundamental que não
é do setor público, e sim do setor privado: é o deficit
em conta-corrente e a dívida externa dos países. O problema
fiscal é grave porque o deficit de 2009 somou-se a elevados níveis
de dívida pública, mas o desequilíbrio não
está apenas nos governos; está nos países como um
todo e, portanto, em seu deficit em conta-corrente e em sua dívida
externa, que englobam o setor público e o setor privado.
Se o problema fosse apenas do setor público, o socorro financeiro
e uma política dura de ajuste fiscal resolveriam a questão.
Sendo do país, necessita da depreciação cambial que
não podem realizar.
A União Europeia controla os deficit públicos, não
controla os deficit em conta-corrente. Os jornais não publicam dados
sobre esse deficit porque não os recebem dos economistas. Esses
não os informam porque a teoria econômica ortodoxa pressupõe
que o setor privado é equilibrado pelo mercado: é o chamado
"princípio de Lawson", associado ao ministro das Finanças
de Margaret Thatcher, Nigel Lawson.
A Crise Global de 2008 mostrou que essa tese é absurda no plano
nacional. Agora o fenômeno se repete no plano internacional. Em 2009,
enquanto a Alemanha, que reduziu salários nos últimos dez
anos, obteve superavit em conta-corrente de 4,8% do PIB, Grécia,
Portugal, Espanha e Itália realizaram deficit em conta-corrente
de 10,2%, 10,5%, 5,8% e 3,9% do PIB, respectivamente. Esses deficit financiaram
investimentos de médio prazo, mas as empresas e o Estado se endividaram
no mercado financeiro de curto prazo.
Devedores e credores sabiam que os débitos não poderiam
ser pagos de um dia para o outro -que teriam que ser rolados-, mas, dado
o pressuposto dos mercados privados sempre equilibrados, foram adiante
no processo. Até que, neste ano, repentinamente, os credores começaram
a elevar os prêmios de risco e a suspender a rolagem da dívida.
O problema se agrava porque decidiram pelo "sudden stop" em um quadro
no qual os países não têm o mecanismo de ajuste clássico
para esses momentos: a desvalorização cambial, que reduziria
os salários e equilibraria a conta-corrente. Os Estados de cada
país podem ajustar suas finanças, mas não há
solução para o desajuste privado de países que não
têm moeda própria para desvalorizar.
Como na Crise Global, existe a solução financeira via
Estado. O governo da União Europeia pode garantir a dívida
externa daqueles quatro países por meio da criação,
às pressas, de um FMI europeu, por meio do próprio FMI e
via BC Europeu.
Neste momento, os ortodoxos dirão que o BCE não pode
entrar no jogo porque estaria criando dinheiro ao socorrer os países,
mas foi exatamente isso o que fez o Federal Reserve na Crise Global, sem
causar inflação. Agora o BCE precisará criar dinheiro
para salvar os países, ou melhor, novamente os bancos, porque foram
eles que emprestaram.
Mas uma situação como essa não pode continuar
para sempre. A política de crescimento com poupança externa
já vitimou muitos países. É preciso repensar radicalmente
o problema das finanças internacionais e dos deficit em conta-corrente.
(LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA - Folha de S.Paulo)
11.05 - A crise na Grécia afetará a economia brasileira?
NÃO
Contágio é menos intenso que no passado
PAULO TENANI
Bolhas especulativas existem em diferentes variedades e podem inflar
ou derrubar preços de ativos, mas só surgem e se desenvolvem
sob determinadas condições.
Por exemplo, entre 1997 e 2002, o Brasil tinha condições
necessárias e suficientes para que bolhas especulativas surgissem
no mercado de dívida e câmbio. Qualquer choque mais intenso
poderia levar os ativos brasileiros a adquirir vida própria e sofrer
correção muito maior do que seria justificado pela deterioração
dos fundamentos.
Hoje, no entanto, em tempos de crise na Grécia, o contexto é
bastante distinto, e tais condições não mais existem.
Nesse sentido, assumindo contágio, é improvável que,
como no passado, os ativos brasileiros desvalorizem-se desproporcionalmente
-sem relação com os fundamentos.
Alguns números são ilustrativos.
Entre 1997 e 2002, o Brasil enfrentou uma conjunção de
fatores desfavoráveis, que resultaram na condição
necessária para uma bolha especulativa: juros mundiais de 5,5%,
risco Brasil de 9%, crescimento econômico em 2% e um superavit primário
e dívida líquida, respectivamente, em 2,25% e 47% do PIB
(Produto Interno Bruto) -números medidos em termos de valores médios
no período.
Nessas circunstâncias, a dinâmica da dívida pública
brasileira era intrinsecamente instável, aumentando, em condições
normais, 2,3 pontos percentuais por ano.
Por outro lado, a dívida pública indexada ao dólar,
que na época representava 18% do PIB, caracterizava o mecanismo
de realimentação -condição suficiente para
uma bolha.
O processo era o seguinte: um choque no risco-país afetava a
taxa de câmbio, que, por sua vez, através da dívida
indexada ao dólar, desestabilizava ainda mais a dinâmica da
dívida.
O risco Brasil, então, era novamente afetado, o que, mais uma
vez, repercutia sobre o câmbio; e o processo assim se repetia. Ou
seja, entre 1997 e 2002, existiam condições para o surgimento
de duas bolhas especulativas que se realimentavam mutuamente: uma na dívida,
outra no câmbio.
Bastava apenas um choque -e no período o Brasil sofreu vários-
para iniciar o processo.
Hoje, no entanto, o Brasil enfrenta uma conjunção de
fatores distinta: juros mundiais de 3,6%, risco-país em 2%, crescimento
em 5,5% e superavit primário e dívida líquida em,
respectivamente, 3% e 42% do PIB.
Nessas circunstâncias, a dinâmica da dívida é
intrinsecamente estável, decrescendo, em condições
normais, quatro pontos percentuais por ano. Além do mais, não
há mais mecanismos de realimentação, pois que a dívida
indexada ao dólar é negativa.
Ou seja, não há condições para um choque
instaurar uma bolha que derrube o preço dos ativos mais que proporcionalmente
a deterioração dos fundamentos, muito pelo contrário.
Se hoje, no Brasil, existem condições para bolhas especulativas,
elas estão no sentido de inflar, não no de derrubar o preço
dos ativos.
A baixa probabilidade de bolhas negativas no Brasil, no entanto, não
é a única boa notícia. O cenário também
é melhor para os fundamentos.
Por exemplo, a evidência empírica sugere que o Brasil
está se tornando um país de "beta" baixo -menos correlacionado
com o cenário global.
Entre 1997 e 2002, o "beta" médio da dívida externa soberana
brasileira era 1,05, enquanto o "beta" do mercado de ações
era de 1,64, e o do câmbio, medido entre 2003 e 2008, de - 0,73.
Hoje, as correlações caíram para 0,71, 1,33 e
- 0,70, respectivamente.
Ou seja, tudo o mais constante, uma queda de 20% nas bolsas globais,
como aconteceu em outubro de 2008, resultaria em aumento de um ponto percentuais
no risco Brasil (para 3%), desvalorização de 13% do real
e queda de 26% do mercado de ações.
Sem dúvida um ajuste difícil, dada a deterioração
abrupta dos fundamentos globais. Mas um ajuste que fica muito aquém
da queda de preços possível na presença de uma bolha.
Nesse sentido, a possibilidade de contágio vindo da Grécia
pode até ser preocupante. Porém, na ausência de bolhas
especulativas, as simulações acima sugerem um ajuste muito
menos dramático do que o Brasil já experimentou no passado.
SIM
A especulação tem limites
GILSON SCHWARTZ
O Brasil sempre foi o "país do futuro". Com o tempo, esforços
foram empreendidos para acelerar esse tempo pela ação do
Estado e do desenvolvimentismo, uma espécie de ciência da
aceleração do tempo econômico.
A eterna promessa brasileira, no entanto, parecia ter desencantado
na crise financeira de 2008-2009.
Com o desmonte ocorrido nas principais economias desenvolvidas do mundo,
parece que um relógio maluco inverteu seus ponteiros e as economias
da periferia, como Brasil, China e Índia, tornaram-se as que já
chegaram ao futuro, enquanto as sociedades maduras e pós-industrializadas
retraem-se e retrocedem a níveis bárbaros de desemprego,
endividamento e asfixia do gasto estatal.
É hora do Brasil? Ou tudo não passa de mais uma ilusão
de ótica criada pela forte e rápida deterioração
dos países mais ricos?
O ilusionismo é decorrência da especulação
financeira. Nesse jogo de espelhos, não interessa tanto a qualidade
do ativo, mas o sentido do fluxo, o movimento da manada.
Se o sistema indica baixa na rentabilidade de ativos ancorados nas
economias mais ricas, o capital em busca de oportunidades fareja o que
parece menos ruim e com potencial de alta (quem não arrisca, não
petisca). Não importa quão bom é um papel ou ativo
financeiro, mas o quanto ele pode melhorar, seja como for.
Há limites para as virtudes expansivas da economia especulativa.
A ilusão de ótica se desfaz nos movimentos do próprio
sistema.
Ontem, era bom comprar Brasil para escapar da crise. Hoje, é
melhor vender Brasil: liquidar ativos brasileiros, ainda com bom preço,
ajuda a melhorar o balanço de quem perde dinheiro na Grécia
ou na Espanha.
O risco, nessa conjuntura, é o de se encantar com as ilusões
provocadas pelos fluxos de capitais "andorinhas", com foco no curto prazo.
A onda de otimismo com um mercado é real, mas a massa de apostadores
que acorre querendo surfar ao mesmo tempo cria muitas vezes apenas mais
espuma, não uma onda mais alta ou duradoura.
No Brasil, o Banco Central faz o que pode para enfrentar a euforia
especulativa (travestida de apetite exuberante e irracional por países
menos afetados pela crise global).
A tragédia grega nada tem a ver com o Carnaval brasileiro? Já
vimos esse filme antes (a fantasia mais célebre foi o "milagre"
dos anos 70). Para evitar o pior, o ciclo de redução dos
juros já foi revertido e a percepção mais realista
é a de que os primeiros dois anos após as eleições
presidenciais exigirão forte disciplina fiscal.
A União Europeia aderna com problemas financeiros e fiscais.
Os EUA ganharam fôlego. Não é trivial, para o investidor
global, acreditar em miragens como Brics. Pode ser uma boa hora para realizar
os lucros da "onda" brasileira e correr de volta para o complexo industrial-consumista
animado pelos EUA e pela China.
Para garantir a estabilidade do Brasil nessas águas agitadas
e turvas, o Banco Central continuará cauteloso e elevará
os juros para manter a taxa de câmbio sob controle (juros mais altos
no Brasil atraem dólares, que reforçam nossa blindagem cambial).
Descartada a ilusão de ótica, a miragem da "ilha de tranquilidade"
tropical, a economia brasileira ainda não encontrou um modelo de
desenvolvimento que se sustente sem juros reais elevadíssimos.
A expiação dos pecados terceiro-mundistas (moratória,
estatismo e corrupção) foi até hoje insuficiente no
duelo com o dragão da inflação e contra os diabos
da especulação.
A crise grega (e europeia), combinada aos sinais de retomada dos EUA,
pode configurar o pior dos mundos: perdemos mercado (dada a perda no poder
de compra dos europeus) e ficamos menos atraentes como destino de investimentos
produtivos (pois nossa aceleração do crescimento também
tem limites, mesmo com todo o apoio estatal).
O cenário doméstico reforça a cautela -inflação
acima da meta, dúvidas sobre o equilíbrio fiscal e incerteza
eleitoral afetam investidores abalados pelo rescaldo global.
Chegou mais uma vez a nossa hora, mas talvez ainda não seja
a nossa vez. (Folha de S.Paulo)
11.05 - Investimentos: Sob a nuvem vulcânica
Como ficam os investimentos no Brasil com o agravamento da crise europeia?
A crise que sacode as economias da Europa, a Grécia em especial,
vai afetar a remessa de recursos a países emergentes? Para alguns
economistas, os gregos já não são o maior problema.
O apoio europeu e o do FMI vão sinalizar uma saída. A preocupação
central é com o sistema bancário europeu, que, literalmente,
travou. O que vai definir o alcance da crise será a capacidade de
o Banco Central Europeu dar repostas mais ágeis, a exemplo do que
fez o Fed (o BC dos EUA) na crise do Lehman Brothers. Analistas afirmam
que, até agora, não veem contágio muito significativo
para o Brasil nos custos de linhas externas. A crise na Europa escamoteou
as deficiências brasileiras, como o deficit, e favoreceu o entusiasmo
com o Brasil? Como há liquidez no mundo, investidores acabaram investindo
no país, apesar dos problemas?
Abaixo, extratos da opinião de economistas.
Brasil pode se beneficiar
"O Brasil pode se tornar beneficiário de uma certa "fuga para
a qualidade". Apesar das incertezas que ainda rondam a economia europeia
e que podem nos afetar via commodities, confiança e financiamentos
externos, o país tem grandes chances de seguir como "darling" dos
mercados. Os vasos comunicantes abalam todos os mercados, mas a volta pode
ser bem favorável ao Brasil se autoridades do G7 derem a resposta
adequada a essa crise. Seria fantástico se mostrássemos que
somos capazes de avançar no plano fiscal e que não deixaremos
que retrocessos nos joguem na vala comum dos países desajustados
fiscalmente. Nossa situação fiscal não pode depender
só do crescimento econômico forte como o deste ano porque,
em fases de vacas magras, as fraturas ficarão expostas. Se déssemos
sinais de austeridade, aí, sim, o Brasil poderia ter um extraordinário
benefício na disputa por investimentos."
Lado fiscal preocupa
"O Brasil tem sido procurado mais pelos seus méritos do que
pelos deméritos dos demais países. Tenho restrições,
mas não há como não reconhecer que o Brasil está
se dando melhor que outros países, pela atitude que adotou há
anos, de responsabilidade fiscal e de preocupação em manter
a inflação sob controle. Há problemas: o país
tributa demais e gasta demais; há também preocupação
com o lado fiscal, mas não como a Grécia, de insolvência.
O problema fiscal é um obstáculo à nossa capacidade
de crescimento, mas não como em alguns países da Europa,
em que se questiona a capacidade de pagamento dos governos. O Brasil poderia
melhorar a sua política fiscal, mas o fato de ter adotado uma política
de redução da dívida em relação ao PIB
é um mérito."
Incerteza favoreceu o país
"Tudo dependerá do tamanho da crise, se vai reduzir a atratividade
dos emergentes, sem elevar muito a aversão ao risco. O Brasil é
um dos mais bem alocados. Mas, se a crise aumentar, isso pode mudar. O
BCE parece pouco afeito ao problema. Vão ter que chamar o Brasil
para entender como trabalhar. É banco de estirpe alemã, tendo
que lidar com problema ao qual não está acostumado, que parece
de latino-americano. São 15 Tesouros que não têm necessariamente
o mesmo entendimento de como ajudar a Grécia. O Brasil acaba sendo
destino para o dólar. O país vinha sendo favorecido pelas
incertezas causadas pela crise europeia. Nos últimos dois meses,
quando já havia sinais da Grécia, havia lista de espera para
emissões. O risco-país, medido pelo CDS, estava baixo. Mas
acabou subindo."
Dívida requer atenção
"O Brasil não tem problema de solvência, como a Grécia,
e tem a perspectiva de manter a relação dívida líquida
sobre o PIB. No longo prazo, deve ter crescimento em torno de 5%. Se o
Brasil entregar superavit primário de 2,5%, conseguirá reduzir
a dívida líquida como proporção do PIB e, talvez,
zerar o deficit nominal até 2020. Mas há riscos no radar:
a previdência preocupa e, com a incerteza relativa ao fator previdenciário,
ficou ainda pior. É preciso também ficar atento ao endividamento
bruto, em razão de empréstimos a bancos públicos.
Sem entrar no mérito, a perspectiva é boa, mas não
pode exagerar. Apesar da redução do superavit primário,
a situação brasileira é mais fácil do que a
de alguns países desenvolvidos. O investidor estrangeiro não
está olhando com atenção para o deficit brasileiro.
Nem muitos de nós." (Maria Cristina Frias - Folha de
S.Paulo)
10.05 - O que devemos preservar na economia
Espero que o que houve nos mercados sirva para abrir os olhos das autoridades
sobre a falta de controle dos gastos
A economia brasileira tem se beneficiado por mudanças estruturais
importantes que estão ocorrendo no mundo nos últimos anos.
São eventos que ocorrem fora de nossas fronteiras e em relação
aos quais não temos nenhuma influência. De certa forma, somos
observadores privilegiados desse processo que ainda é ignorado pela
grande maioria de nossos analistas políticos e econômicos.
Mesmo dentro do governo a desinformação em relação
a esses fatos é abissal.
Estou convencido de que estamos vivendo uma descontinuidade importante
no funcionamento das economias de mercado que formam o que se convencionou
chamar de mundo global. Até a virada do século, o processo
de globalização ocorria dentro de um arcabouço institucional
e operacional herdado do pós-Segunda Guerra Mundial.
Podemos colocar o colapso do mundo comunista -ou soviético,
para ser mais preciso- como uma etapa final na construção
desse mundo econômico centrado nos Estados Unidos e na Europa.
Um primeiro sinal da descontinuidade a que me referi veio com a ascensão
da China e de umas poucas economias emergentes como a brasileira, os chamados
Brics. A força desses novos atores vinha, principalmente, do potencial
de consumo de seus cidadãos à medida que se incorporavam
ao mercado de trabalho e de crédito. Eles representavam um contraponto
ao consumidor do Primeiro Mundo, que mantinha seus gastos à custa
de um superendividamento bancário.
Mas é a partir de 2008, com a quebra do Lehman Brothers e a
necessidade de um incrível esforço financeiro dos governos
do G7 para evitar uma depressão econômica, que a descontinuidade
no funcionamento da economia mundial aparece de forma clara. A crise grega
acordou a todos sobre a gravidade dos desequilíbrios financeiros
dos países ricos e recolocou na ordem do dia os receios de uma nova
crise de credibilidade no funcionamento da economia mundial.
Tardiamente foi percebido que, para salvar o sistema bancário
no G7, governos passaram a incorrer em deficit fiscais gigantescos, o que
levou o endividamento público a níveis próximos da
ruptura. E só mais recentemente ficou claro que os grandes detentores
dos títulos públicos são os mesmos bancos que foram
salvos pela ação dos Tesouros nacionais. A credibilidade
do sistema financeiro está sendo novamente colocada em xeque e o
medo de um banco investir em outro já está de volta, pelo
menos na Europa.
Na próxima década, um dos elementos mais importantes
para o sucesso ou o fracasso de uma economia nacional será o nível
do endividamento público. E, mais uma vez, são os países
da antiga periferia econômica -hoje chamados de emergentes- que estarão
em melhores condições de crescer. E o Brasil está
entre eles. Talvez um dos pontos mais importantes para garantir um crescimento
sustentado nos próximos anos seja uma relação dívi-
da-PIB vista como sólida.
Por isso, parece-me uma irresponsabilidade a falta de controle atual
dos gastos fiscais do governo Lula, principalmente a emissão de
dívida pública para aumentar a capacidade de emprestar do
BNDES.
Preservar um endividamento controlado, em um mundo apavorado com as
dívidas dos governos, pode ser até mais importante para nós
do que o chamado pré-sal lulista.
Espero que os acontecimentos dos últimos dias nos mercados -inclusive
a disparada do dólar aqui no Brasil- sirvam para abrir os olhos
das autoridades. (LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Folha de
S.Paulo)
10.05 - A macroeconomia de 2011
Na ata do Copom de março, o Banco Central indicou que não
mais mirava a inflação de 2010, optando por manter a taxa
Selic constante, apesar de suas projeções indicarem que nesse
cenário a inflação do ano ficaria "sensivelmente acima
do valor central de 4,5% para a meta fixada pelo Conselho Monetário
Nacional CMN". Reconhecia, assim, que o custo para trazer a inflação
para o centro da meta este ano seria alto demais e que melhor seria fazer
um ajuste mais gradual, voltado para garantir essa convergência em
2011. Desde então, a expectativa de mercado para a alta de preços
este ano subiu 0,4 ponto percentual (p.p.), no caso do IPCA, e 1,9 p.p.,
no do IGP-M. É bem possível que essas projeções
subam mais nos próximos meses e não se pode descartar o risco
de que a inflação supere o teto da banda.
A política fiscal também não deve atingir suas
metas este ano. O superávit primário do primeiro trimestre
de 2010 ficou em apenas 2,1% do PIB, cerca de um terço do observado
em 2008, quando o PIB registrou uma expansão semelhante à
atual. No acumulado de 12 meses, métrica que controla melhor para
a sazonalidade do gasto e da receita pública, esse indicador está
em 1,9% do PIB. Dificilmente se conseguirá fechar o ano com um superávit
próximo à meta de 3,3% do PIB. Outras facetas da política
fiscal também geram preocupação. Por exemplo, as operações
de empréstimos do Tesouro aos bancos públicos, além
de elevar o juro implícito sobre a dívida líquida,
criam passivos contingentes e reduzem a transparência da contabilidade
pública.
Em relação ao crédito público, largamente
ampliado desde o final de 2008, em princípio para combater a crise,
também não se observa uma desaceleração consistente
com o seu prometido caráter anticíclico. No primeiro trimestre
de 2010, com a economia brasileira crescendo acima de 7%, o setor financeiro
público ampliou os empréstimos tanto quanto os bancos privados.
A possibilidade de que o Tesouro aporte novos recursos nessas instituições
sinaliza que essas devem continuar expandindo suas carteiras num ritmo
forte.
Os mais críticos não hesitarão em enxergar nesse
quadro mais do que uma deterioração conjuntural na qualidade
da política econômica, lembrando que é mais custoso
reverter os desequilíbrios que estão sendo gerados do que
simplesmente evitá-los. Muitos estranharão essa visão,
considerando a forma positiva como o mundo passou a enxergar o Brasil.
Mas não se pode esquecer que o país ficou mais atraente para
o investidor, menos pelos progressos que fez recentemente, e mais pela
deterioração de fundamentos no resto do mundo.
Se 2010 está essencialmente perdido em termos de ambições
da política macroeconômica, é hora de pensar sobre
o que fazer em 2011. Essa reflexão é importante não
apenas para sinalizar como serão revertidos os desequilíbrios
herdados de 2010, mas também no sentido de se discutir qual a estratégia
que deve ser adotada no próximo mandato presidencial. Além
disso, o primeiro ano de mandato é basicamente a única janela
aberta para a adoção de reformas que permitam conter a escalada
dos gastos públicos correntes, reformas que em geral não
gozam da simpatia do eleitor, como demonstrou esta semana a Câmara
dos Deputados.
Idealmente, a política macroeconômica de 2011 deverá
focar em dois objetivos. Primeiro, reduzir o ritmo de expansão da
demanda doméstica, de forma a conter a inflação e
limitar a ampliação do déficit externo. Em especial,
isso deve ser feito utilizando um mix mais equilibrado de políticas
fiscal, creditícia e monetária. Em 2010, como observou Gustavo
Loyola neste espaço, isso está sendo feito com certa dose
de esquizofrenia, com a política monetária puxando o freio,
enquanto as políticas fiscal e creditícia pisam no acelerador.
Segundo, é preciso aumentar a poupança doméstica,
para que se possa elevar a taxa de investimento, viabilizando um crescimento
potencial mais alto, sem gerar um déficit externo insustentavelmente
elevado. Para isso será necessário mudar a composição
do gasto público, reduzindo as despesas correntes e elevando as
de capital, em especial em infraestrutura. Isso também passa por
reduzir os subsídios dados pelo Tesouro ao setor privado, por intermédio
dos bancos públicos, limitando-os aos casos em que haja uma contrapartida
social que vá além do ganho privado dos donos e empregados
das empresas beneficiadas.
Em 2011 é provável que o novo governo, como é
tradicional, aproveite para dar um freio de arrumação, subindo
mais os juros e cortando gastos, com programas de austeridade e controles
na "boca do caixa". Se, porém, ousar mais e der uma guinada na direção
apontada acima, pode levar o país a um novo patamar de crescimento,
com a redução do custo de capital e a alta na demanda por
investimentos. A elevada poupança pública, e não o
dirigismo estatal, foi o verdadeiro segredo do período de alto crescimento
do Brasil no século passado. (Armando Castelar Pinheiro
- Valor Online)
10.05 - BC indica que manterá o ritmo de alta dos juros
Efeitos dos gastos do governo preocupam mais Copom que desdobramentos
da crise grega
Ata da última reunião do Copom sinaliza que alta dos
juros nos próximos meses é necessária para colocar
a inflação na meta prevista
O Banco Central deve manter o ritmo de aumento da taxa básica
de juros nos próximos meses para colocar a inflação
na meta, de acordo com a ata da última reunião do Copom,
divulgada ontem.
Na semana passada, o BC aumentou a taxa, que estava inalterada desde
julho do ano passado, de 8,75% para 9,50% ao ano. O documento divulgado
ontem reforçou as apostas de que os juros devem subir para 10,25%
na reunião de junho.
Apesar dos problemas na Grécia e em outros países europeus,
o BC diz que está mais preocupado com os efeitos dos gastos do governo
sobre a economia brasileira do que com o ambiente externo, que ainda é
de "liquidez abundante".
Para o BC, a piora no mercado internacional ainda não compromete
o fluxo de recursos para o país. Além disso, os preços
de ativos brasileiros e commodities, fatores que afetam a inflação
doméstica, continuam se valorizando.
A instituição afirma, no entanto, que esse cenário
pode ser rapidamente revertido, o que vai depender do "quadro de desconfiança"
do mercado em relação à solvência dessas economias
europeias.
Ao justificar a alta dos juros, o BC diz que era preciso agir de forma
"incisiva" para evitar a disparada da inflação. Para o BC,
apesar de a crise econômica ter sido superada, os incentivos do governo
continuam estimulando o aumento da demanda, que está acima da oferta.
"A despeito da reversão de parcela substancial dos estímulos
introduzidos durante a recente crise financeira internacional, desde a
última reunião, aumentaram os riscos à concretização
de um cenário inflacionário benigno", diz a ata.
Além do aumento recente da inflação, o Banco Central
vê como sinais de aquecimento da economia os indícios de escassez
de mão de obra em alguns segmentos e a alta dos custos de insumos
para a produção.
O BC não divulga as previsões para o IPCA, mas diz que
elas estão "sensivelmente" acima da meta de 4,50% na maioria dos
cenários traçados para 2010 e para 2011. (EDUARDO CUCOLO
- Folha de S.Paulo)
10.05 - Crise na Europa pode deter nova alta de juro
Ata do Copom alerta que agravamento da crise pode levar a interrupção
do crescimento global e causar deflação com impacto na inflação
brasileira
A crise fiscal na Europa, que teve início com a Grécia
e ganhou contornos mais graves nos últimos dias, entrou no radar
do Banco Central (BC) e passou a ter peso na definição dos
próximos passos da política de juros. A ata da última
reunião do Copom, divulgada na quinta-feira, 6, alertou para a possibilidade
de um agravamento da crise europeia levar a uma interrupção
da retomada do crescimento nos países desenvolvidos e provocar um
movimento de deflação com impacto na inflação
brasileira.
A interpretação que ganhou força no mercado financeiro,
logo após a divulgação da ata, foi a de que as altas
de juros poderão ser menores do que o esperado, caso a crise fiscal
que se abateu sobre a Europa se intensifique. Em consequência, o
mercado de juros começou a rever as suas apostas com a possibilidade
de altas menores da taxa de juros daqui para frente. A aposta de que o
Copom poderá subir a taxa Selic em um ponto porcentual na sua próxima
reunião, em junho, ficou enfraquecida.
Nesse cenário de piora da economia europeia, as empresas no
Brasil iriam importar a deflação europeia comprando do exterior
produtos mais baratos, como matéria-prima e insumos para a indústria,
com impacto positivo sobre a inflação no País. Além
de baratear as importações, o "viés" positivo da crise
europeia para a inflação brasileira seria reforçado
também pela queda dos preços de commodities, pressionado
para baixo a inflação.
Cenário
Na ata, os integrantes do BC afirmam que o cenário de retomada
das pressões inflacionárias em "economias relevantes" do
mundo, que estava se configurando nos últimos meses, inclusive com
o aumento dos preços das commodities, poderá ser revertido
rapidamente "dependendo da dinâmica que tomar" o quadro de desconfiança
do mercado em relação à solvência de alguns
países europeus. Dessa forma, no entendimento do Banco Central,
a influência benigna do cenário externo para o comportamento
da inflação brasileira, que vinha diminuindo nos últimos
tempos, poderá continuar.
"O peso externo na inflação é hoje maior do que
o interno, de aumento da demanda", destaca Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor
da área externa do BC e hoje economista-chefe da Confederação
Nacional de Comércio (CNC). Segundo ele, um choque deflacionário
na Europa e nos EUA poderá fazer com o BC faça uma dosagem
menor dos porcentuais de elevação da Selic. Por outro lado,
alertou Freitas, a crise na Europa aumenta as incertezas de médio
prazo com relação à inflação. Segundo
ele, com o aumento da aversão ao risco os investidores retiram as
suas aplicações em títulos de países emergentes
em troca do porto seguro dos papéis do Tesouro norte-americanos.
(Adriana Fernandes e Fabio Graner, colaborou Francisco Carlos de Assis
- O Estado de S. Paulo)
07.05 - O arrastão financeiro
Ataque especulativo tornou-se palavra branda demais para descrever
o que está acontecendo na Europa. Já é um "arrastão",
desses que vira e mexe acontecem nas praias do Rio ou nos condomínios
de São Paulo.
A gota de sangue que pingou da Grécia (e ontem pingou literalmente,
não figuradamente) despertou o apetite incontrolável das
piranhas do mercado financeiro. Não há mais -se é
que houve em algum momento- a menor "rationale" para o que está
ocorrendo.
É só ler o que um dos operadores de mercado, Juan Luis
García Alejo, do Inversis Banco, disse ao jornal espanhol "El País":
"É impossível impor a calma nos mercados neste momento. Quando
a Grécia não tinha um plano de ajuste, era castigada; quando
o aprovou, era muito pequeno; e agora, que o endureceu, os investidores
dizem que não acreditam nele".
Não é pequeno o estrago, de que dá prova frase
de Angela Merkel, a chanceler alemã, em geral pouco dada a arroubos
retóricos: "Estão em jogo o futuro da Alemanha e o futuro
da Europa".
Surpreende o arrastão? A mim, nadica de nada. A ganância
desenfreada tornou-se o combustível que move uma parte importante
do setor financeiro.
O que surpreende é o silêncio de governantes, acadêmicos
e até dos bancos não corsários, igualmente vítimas.
Anteontem, o Santander sofreu um belo tombo por conta da especulação
contra tudo o que cheirasse Espanha, cujo sangue está sendo pedido
pelas piranhas.
O que você, Fábio Barbosa, presidente do Santander no
Brasil e da Federação de Bancos e eterno pregador da ética
nos negócios, tem a dizer?
Essa roleta infernal não gera "benefício social", como
disse há dias George Soros, que é campeão mundial
de ganhar dinheiro com as falhas do mercado, mas sabe enxergá-las
e não se cala. (Clóvis Rossi - Folha de S.Paulo)
07.05 - É possível salvar o euro?
A crise financeira grega colocou em jogo a sobrevivência do euro.
Quando a moeda unificada foi criada, muita gente se preocupava com sua
viabilidade no longo prazo. Porque tudo transcorreu bem, essas preocupações
foram esquecidas.
Mas a questão de como realizar ajustes caso uma parte da zona
do euro fosse atingida por fortes efeitos adversos persistiu. Determinar
uma taxa fixa de câmbio e entregar a autoridade monetária
ao Banco Central Europeu eliminou os dois meios primários pelos
quais governos nacionais estimulam suas economias a fim de evitar recessões.
Como substituí-los?
Robert Mundell, Nobel de Economia, estabeleceu as condições
sob as quais uma moeda unificada seria capaz de funcionar. A Europa não
cumpria essas condições quando da adoção do
euro; e ainda não o faz.
A remoção das barreiras jurídicas ao movimento
de trabalhadores criou um mercado de trabalho unificado, mas as diferenças
linguísticas e culturais tornam irrealizável uma mobilidade
de mão de obra como a que existe nos EUA.
Além disso, a Europa não tem um meio de ajudar os países
que enfrentam sérios problemas. Tomemos como exemplo a Espanha,
que tem um índice de desemprego de 20% -e de mais de 40% entre os
jovens.
O país tinha superavit fiscal antes da crise; depois, seu deficit
inchou para mais de 11% do PIB. Mas, sob as regras da UE (União
Europeia), a Espanha agora precisa reduzir seus gastos, o que provavelmente
exacerbará o desemprego. Com a desaceleração da economia,
a melhora na posição fiscal do país pode ser mínima.
Para os países de menor porte na UE, a lição é
clara: caso não reduzam seus deficit orçamentários,
existe um alto risco de ataques especulativos, com pouca esperança
de ajuda adequada dos vizinhos, ao menos não sem dolorosas e contraproducentes
medidas de restrição orçamentária pró-cíclicas.
As consequências sociais e econômicas do arranjo atual
devem ser inaceitáveis. Os países cujos deficit dispararam
como resultado da recessão mundial não devem ser forçados
a uma espiral de morte como a Argentina há uma década.
Uma das soluções propostas é que esses países
organizem o equivalente a uma desvalorização cambial -um
corte uniforme nos salários. Creio que seja impossível, e
as consequências distributivas seriam inaceitáveis. As tensões
sociais seriam enormes. É uma fantasia.
Existe uma segunda solução: que a Alemanha deixe a zona
do euro ou que esta seja dividida em duas subáreas. O euro foi uma
experiência interessante, mas falta-lhe o apoio institucional para
que funcione.
Há também uma terceira solução que a Europa
talvez venha a compreender como a mais promissora de todas: implementar
as reformas institucionais, incluindo a criação da estrutura
fiscal necessária, que deveriam ter sido adotadas quando do lançamento
do euro.
Não é tarde demais para que a Europa implemente as reformas
e recupere os ideais, baseados na solidariedade, que embasaram a criação
do euro.
Mas, caso a Europa não possa fazê-lo, talvez o melhor
seja admitir o fracasso e seguir em frente, em lugar de pagar o alto preço
em termos de desemprego e sofrimento humano que a preservação
de um modelo econômico falho requereria. (JOSEPH STIGLITZ,
tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo)
07.05 - Brasil registra mais de 200 fusões e aquisições
no 1º quadrimestre
Foram registradas 208 operações de fusões e aquisições
no Brasil nos primeiros quatro meses de 2010, segundo levantamento da KPMG.
O número de transações realizadas cresceu muito
em relação às 135 do mesmo período de 2009,
ano marcado pela crise econômica.
O volume, porém, é menor que os 225 registrados no primeiro
quadrimestre de 2008, quando o mercado vinha extremamente aquecido e estimulado
pela onda de IPOs (ofertas iniciais de ações) do ano anterior,
que deu fôlego às compras e vendas de empresas ocorridas naquela
época.
A quantidade de operações fechadas em abril (48) caiu
em relação a março (59), sinal de que os próximos
meses devem ser menos aquecidos. O primeiro trimestre, que havia registrado
recorde histórico de fusões e aquisições desde
a década de 1990, foi marcado por negociações que
tinham sido represadas em 2009 pela crise.
"O ano de 2010 será bom, mas não se pode esperar que
supere 2007, época em que muitas empresas abriram capital e saíram
se consolidado no mercado, até porque os IPOs estavam sendo feitos
justamente para isso", afirma Luís Motta, sócio da KPMG.
O Brasil também não conta mais com a maciça presença
de estrangeiros na liderança das transações. "Grande
parte dos negócios são domésticos, de empresas brasileiras
comprando estrangeiras ou brasileiras."
O cenário deve voltar a se aquecer a partir do segundo semestre.
"As operações represadas aconteceram, agora devem dar uma
baixada. Os negócios, que levam cerca de seis meses para serem fechados,
devem voltar a aparecer com muita força a partir de julho", diz.
(Maria Cristina Frias - Folha de S.Paulo)
06.05 - Equilíbrio fiscal
É preciso insistir no fato de que o Brasil só se tornou
uma "área monetária ótima", isto é, um "ente"
passível de ser razoavelmente administrado do ponto de vista monetário
por um Banco Central operacionalmente autônomo, a partir do momento
em que:
1) realizou a consolidação das dívidas internas
e externas de todos os Estados da Federação e lhes impôs
condições de pagamento "líquidas e certas" (com taxas
nominais de juros talvez exageradas). O arranjo foi eficiente. Todos os
Estados já liquidaram a sua dívida externa;
2) aprovou a Lei de Responsabilidade Fiscal, que colocou relativa ordem
nas finanças estaduais, mas, infelizmente, com resultados menores
nas finanças da União.
Não se passa um dia, entretanto, em que, por "arte" do Legislativo
e algum estímulo do Executivo, não se tente emascular os
efeitos que garantem a "ordem fiscal", o que é lamentável.
O exemplo da tragédia que se abate sobre o povo grego deve servir-nos
de exemplo. A possibilidade de manter a coerência de nossa política
macroeconômica depende fundamentalmente da manutenção
do nosso equilíbrio fiscal: 1) deficits nominais modestos e 2) superavits
primário capazes de reduzir, monotonicamente, a relação
dívida/PIB (fator importante na formação da taxa de
juros). É preciso entender que essa é uma condição
necessária para completar a tríade que caracteriza a política
econômica canônica que é o "estado da arte" da teoria
econômica da moda.
Ela é (ou era, até recentemente) utilizada pela grande
maioria dos países desenvolvidos e emergentes: 1) política
fiscal responsável; 2) política monetária executada
por um Banco Central operacionalmente autônomo; 3) política
cambial com relativa liberdade de movimento de capitais e intervenções
"sujas".
Em relação à dívida pública, é
preciso uma clara distinção sobre o seu uso. Se ela cresce
para sustentar despesas de custeio ou transferências de retorno economicamente
duvidoso, ainda que socialmente necessários, devem ser "acomodadas",
ou com cortes de outras despesas de custeio, ou, explicitamente, com aumento
de impostos, para que a sociedade contabilize os seus custos. Se o seu
uso for para investimentos com taxas de retorno superiores à taxa
de juro real da economia, o seu aumento produzirá uma aceleração
do crescimento futuro.
É claro que qualquer eventual subsídio sobre as taxas
de juros nominais deve ser inscrito no Orçamento. O que é
obviamente ridículo é considerar a dívida pública
ameaçadora do equilíbrio fiscal no longo prazo.
(ANTONIO DELFIM NETTO - Folha de S.Paulo)
06.05 - Brics apresentam ambiente econômico pior do que Piigs
Apesar das perspectivas positivas com relação ao poder
do Brasil e outros Brics em captar investimentos estrangeiros diretos,
esses países ainda oferecem ambiente de negócios pior que
os Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha).
Os Brics são os vencedores em entraves burocráticos e
jurídicos à atração de investimentos, segundo
William Eid Júnior, do Centro de Estudos em Finanças da FGV.
"O risco de investimento sobe se um país não dá
garantia de direito de propriedade, por exemplo. Para o investidor, isso
gera custo de monitoramento do capital e de busca de informações
sobre garantias", diz.
Um estudo elaborado por Eid Junior, Marcos Wink e Hsia Sheng, da FGV,
reuniu variáveis e indicadores de custos de transação
para comparar seus efeitos em diferentes economias. As variáveis
utilizadas foram desenvolvidas recentemente pelo Doing Business, do Banco
Mundial, e pela Heritage Foundation.
Os piores indicadores de liberdade estão nos Brics, segundo
o levantamento. Enquanto o indicador de liberdade de governo nos Brics
é de cerca de 32 pontos apenas, os Piigs marcam 60. Se nos Brics
são necessários quase 80 dias para a abertura de um negócio,
nos Piigs o trabalho é feito em pouco mais de 40 dias.
"No Brasil, uma disputa judicial leva anos. Abrir negócio demora.
Tanta norma dá insegurança. Rússia e China também
são complicados. Tudo conta para atrair investimento. Nos Piigs,
os efeitos são menores." (Maria Cristina Frias - Folha de
S.Paulo)
06.05 - Resgate à Grécia é apenas o começo
Momentos de desespero requerem medidas desesperadas. Depois de meses
de dispendiosa postergação, a zona do euro fechou um enorme
pacote de apoio à Grécia. Ao envolver o FMI, a pedido da
Alemanha, os países europeus conseguiram alguns recursos adicionais
e um programa melhor. Mas será que vai funcionar? Infelizmente,
tenho sérias dúvidas.
Duas características do que foi decidido merecem menção.
Primeiro, não haverá reestruturação da dívida;
segundo, será suspenso o requisito de uma classificação
mínima de crédito para os ativos garantidos pelo governo
grego utilizados nas operações de liquidez, o que oferece
alguma assistência aos vulneráveis bancos locais.
Assim, será que o programa é sensato, quer para a Grécia,
quer para a zona do euro? Sim e não, em ambos os casos.
Comecemos pela Grécia. O país já perdeu o acesso
aos mercados. Assim, a alternativa a aceitar esse pacote seria decretar
uma moratória.
O país nesse caso deixaria de pagar os juros sobre suas dívidas,
mas teria de reduzir seu deficit fiscal primário (ou seja, anterior
aos pagamentos de juros) para 9% a 10% do PIB imediatamente. Isso resultaria
em um aperto muito mais brutal do que aquele que a Grécia aceitou
como parte do pacote.
Além disso, uma moratória traria o colapso do sistema
bancário. A Grécia está certa em prometer mundos e
fundos, a fim de ganhar tempo e eliminar de maneira mais suave o seu deficit
primário.
Mas é difícil acreditar que a Grécia venha a ser
capaz de evitar uma reestruturação da dívida. Primeiro,
presumamos que tudo corra de acordo com o plano. E que a taxa média
de juros sobre a dívida grega de longo prazo fique em apenas 5%.
O país precisaria, com isso, manter um superavit primário
da ordem de 4,5% e dedicar o equivalente a 7,5% do PIB de sua arrecadação
tributária para manter o serviço da dívida.
O público grego será capaz de suportar esse fardo ano
após ano, sem descanso?
A Grécia está sendo solicitada a fazer o que a América
Latina fez nos anos 80. Isso resultou em uma década perdida, da
qual os únicos beneficiários foram os credores estrangeiros.
Além disso, já que os credores agora estão sendo
pagos para escapar, quem os substituirá? O pacote certamente fracassará
em seu objetivo de devolver a Grécia aos mercados, em termos administráveis,
dentro de poucos anos.
Para a zona do euro, duas lições são claras: primeiro,
a escolha é ou permitir moratórias de dívidas soberanas,
por mais complicadas que sejam, ou criar uma união fiscal, com forte
disciplina e fundos suficientes para permitir o amparo a economias devastadas.
Segundo, os ajustes na zona do euro não funcionarão sem
que os países mais importantes realizem ajustes compensatórios.
Se a zona do euro estiver disposta a viver próxima da estagnação
em sua demanda geral, ela se tornará uma arena para medidas agressivas
de desinflação competitiva e dependerá mais dos mercados
mundiais como destino para seus excedentes de produção.
A crise que está em curso confirma a sabedoria daqueles que
viam o euro como uma empreitada de alto risco. No entanto, agora que a
zona do euro foi criada, é preciso fazer com que ela funcione. A
tentativa de resgate à Grécia é só o começo
da história. Há muito mais que precisa ser feito, em termos
de resposta imediata à crise e de reforma da zona do euro, em futuro
não muito distante. (MARTIN WOLF - Financial Times,
tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo)
05.05 - A crise só acaba quando termina
Empréstimo-monstro grego não dá cabo da crise;
BCE dá mãozinha a bancos; tumulto grego ainda pode se espalhar
Remendar as contas de um país pequeno como a Grécia com
US$ 145 bilhões, ou R$ 250 bilhões, é impressionante,
embora nem isso assente a crise. Mas extravagante mesmo foi o fato menos
notado de que o Banco Central Europeu resolveu aceitar os títulos
públicos gregos como garantia mesmo que todas as agências
de avaliação de risco chamem de "podre" a dívida da
Grécia. Parece um assunto estrambótico, relevante apenas
para "nerds" financeiros. Mas não é, não.
O Banco Central Europeu insinua é que pode imprimir dinheiro
para tapar um rombo grego ou outros.
Do que se trata? Bancos emprestam dinheiro ao governo grego: compram
títulos públicos da dívida grega. Usam esses títulos
como garantia para o dinheiro que eventualmente tomam no BCE.
Em tese, se todas as agências de risco relevantes dissessem que
esses papéis são "podres", o BCE não poderia aceitá-los
como garantia. Teria de pedir mais garantias ou dinheiro aos bancos. Isso
é problema. Reduz o capital dos bancos. Coloca-os sob suspeita.
Etc.
Se a Grécia dá calote, os primeiros caloteados são
bancos que compraram títulos, decerto. Mas tais títulos estão
no BCE. Se o BCE aceita papéis gregos "podres", pode ficar com a
conta. Basta o BCE não exigir que os bancos privados fiquem com
o mico, o que o BCE pode ter de fazer a fim de evitar "problemas sistêmicos".
Isso é um cenário limite, de monetização da
dívida grega. Mas, após a crise de 2008/9, essas probabilidades
parecem menos remotas.
De imediato, o que o BCE está fazendo é evitar que os
bancos gregos acabem no vinagre. Os bancos gregos são os principais
detentores de títulos gregos. Se esses títulos não
servirem para nada, como garantias para operações compromissadas
com o BCE, podem ter "crise de liquidez". E até quebrar.
Enfim, a Europa faz gato e sapato de suas normas financeiras a fim
de evitar o calote grego. Que pode vir mesmo com a dinheirama ofertada.
A fim de receber o dinheiro, a Grécia terá de produzir
recessão e crise social. Se conseguir cortar na carne econômica,
pode não resistir politicamente. O tumulto social pode derrubar
o governo. E o acordo financeiro com o FMI e a UE.
Os governos português e, em menor medida, espanhol já
estão sendo discretamente instados a arrochar suas contas. Vão
aguentar politicamente? A Espanha já tem 20% de desemprego. E se
os mercados decidirem que pode ser uma boa ideia especular com a baixa
dos papéis ibéricos? Isto é, demandando juros mais
altos desses governos a fim de rolar as dívidas deles.
A crise da dívida europeia não acabou. Seu destino, em
parte, vai ser decidido no conflito político e social grego. Por
ora, apenas sindicatos de servidores estão em combate. Com a continuidade
da recessão, mais gente pode entrar na liça. Se o governo
e o acordo gregos caírem, vai haver confusão além
das ruas gregas.
Os investidores, gente com dinheiro grosso, "os mercados", podem começar
a pedir juros estratosféricos para financiar a dívida portuguesa.
E daí? Portugal vai cortar ainda mais gastos para honrar o serviço
da dívida? O quanto vai aguentar?
Vai pedir água? Se pedir, como a União Europeia negaria
ajuda? (VINICIUS TORRES FREIRE - Folha de S.Paulo)
05.05 - Álibi perfeito
A deterioração das contas públicas do Brasil seria
um álibi perfeito para justificar novas altas dos juros
Os fatos das últimas semanas mostram uma grande diferença
entre os blocos econômicos mundiais no que se refere à saída
da crise.
Na Ásia, principalmente na China, já há um crescimento
econômico tão acelerado quanto antes de setembro de 2008.
Lá, de fato, a crise foi uma marolinha que deixou poucos estragos.
No Brasil, também se cultiva a preocupação com
um possível superaquecimento devido à expansão da
demanda interna. O Banco Central elevou a taxa básica de juros na
semana passada para 9,50% ao ano, em minha opinião de forma precipitada,
mas deixa isso pra lá -todos já conhecem o que penso sobre
esse assunto: trata-se da escolha da política do medo.
Nos EUA, a recuperação parece estar a caminho, com três
trimestres seguidos de crescimento do PIB. Apesar disso, os juros básicos
seguem entre zero e 0,25% ao ano.
Na Europa, a situação de países do sul é
dramática, com reflexos em todo o continente e fora dele. Sem socorro
financeiro do FMI e da União Europeia como o concedido à
Grécia ( 110 bilhões), alguns países poderão
entrar em default (calote).
A origem dos problemas da Europa está nos deficit fiscais. O
tratado de Maastricht, que em 1992 criou a União Europeia, tem entre
seus pilares a recomendação, imposta pela Alemanha, de que
os deficit fiscais dos países se mantenham no limite máximo
de 3% do Produto Interno Bruto.
A meta de austeridade fiscal de Maastricht passa longe da Europa.
Nem a própria Alemanha vai cumpri-la. O deficit fiscal médio
para a zona do euro deve ficar em 2010 acima de 7% do PIB. A Grécia
encerrou 2009 com deficit de 13,6%, depois que o novo governo divulgou
os números corretos e admitiu que o anterior maquiava as contas.
Os gregos estão pagando caro pelo excesso de gastos. Caíram
no que o economista Paul Krugman chamou de "armadilha do euro".
Precisariam aumentar exportações para cobrir o deficit
e para isso teriam de desvalorizar sua moeda, mas não podem fazer
isso, porque a moeda (euro) é comunitária. Sobra, então,
a opção de buscar ajuda externa e fazer um profundo corte
de gastos do setor público, com enorme desgaste político.
Problemas da mesma natureza, embora aparentemente um pouco menos graves,
enfrentam Espanha, Portugal e Itália. Os dois primeiros, com a Grécia,
tiveram suas dívidas rebaixadas na semana passada.
A situação do Brasil está muito distante da vivida
por
esses países europeus. Para este ano, o deficit esperado é
de 2,4% do PIB. Nos últimos 12 meses, excluídos gastos com
pagamentos de juros da dívida pública, há um superavit
primário de 1,94% do PIB.
Apesar disso, acendeu-se uma luz amarela porque as contas públicas
brasileiras fecharam março com um péssimo desempenho.
Mesmo com o forte crescimento da receita, o superavit primário
do primeiro trimestre, de R$ 16,8 bilhões, foi R$ 2 bilhões
inferior ao do mesmo período do ano passado.
É recomendável, portanto, atenção especial
para a evolução dos gastos correntes do setor público,
nos três níveis de governo, principalmente levando-se em conta
que estamos em ano eleitoral. Para manter e ampliar os investimentos, é
preciso cortar despesas correntes e evitar maior deterioração
das contas. Até porque essa tendência seria um álibi
perfeito para justificar novas altas dos juros. (BENJAMIN STEINBRUCH
- Folha de S.Paulo)
05.05 - A desregulamentação financeira
FMI fracassou em prever a crise por distração ou por
olhar para o lado errado
Agora que a crise financeira mundial perde força, chegou a hora
de fazer o inventário de nossos erros e assegurar que não
sejam repetidos. Além de melhorias na regulamentação,
que evitem recompensar com incentivos monetários a assunção
imprudente de riscos, e de construir muralhas da China entre os criadores
dos papéis e as agências avaliadoras de crédito, precisamos
descobrir o que tornou essa crise tão difícil de ser prevista.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) é nosso fiscalizador
global e muitos acreditam que fracassou em prever a crise por distração
ou por olhar para o lado errado. Discordo. O problema é que o FMI
foi incapaz de interpretar as evidências com as quais se confrontava.
Trabalhei no conselho do FMI em junho de 2006, quando se discutiu sua
avaliação anual dos Estados Unidos. Os funcionários
"viram" o relaxamento nos padrões de crédito imobiliário
nos EUA, mas detectaram que "os captadores sob risco de sofrerem aumento
significativo no pagamento da hipoteca continuavam sendo uma pequena minoria,
concentrada, na maior parte, em famílias de maior renda, conscientes
dos riscos existentes".
Poucos meses depois, em setembro de 2006, apenas dez meses antes da
crise das hipotecas de baixa qualidade tornar-se evidente a todos, o Relatório
de Estabilidade Financeira Mundial, uma das principais publicações
do FMI, sustentou quer "importantes instituições financeiras
em mercados desenvolvidos (estavam) saudáveis, continuando lucrativas
e bem capitalizadas". Além disso, atestava que os setores financeiros
em muitos países estavam supostamente em uma forte posição
para lidar com quaisquer desafios cíclicos e correções
do mercado por vir.
O radar do FMI começou a piscar apenas em abril de 2007, praticamente
quando o problema já atingia o para-brisa, mas ainda com pouca percepção
de urgência. Claramente, a vigilância da economia dos EUA pelo
FMI foi ineficiente e a vigilância multilateral dos mercados financeiros
não se saiu melhor. O Fundo não foi o único em deixar
de interpretar os fatos que estiveram por trás da crise, mas isso
serve de pouco consolo.
Antes da crise, a função mais conhecida do FMI - emprestar
a países com problemas no balanço de pagamentos - estava
se tornando irrelevante. Países emergentes preferiram ter um seguro
próprio, acumulando reservas internacionais, em vez de captar empréstimos
do fundo. Por ironia, isso estava levando o FMI a centrar-se mais em seu
papel de supervisão. Portanto, na busca pelos motivos que levaram
o FMI a falhar, podemos descartar distrações por outros assuntos
mais urgentes.
O Fundo normalmente supõe que os problemas chegarão a
partir dos suspeitos de sempre - países em desenvolvimento economicamente
voláteis -, mas desta vez a crise originou-se a poucos quilômetros
de sua própria sede. Talvez essa proximidade seja uma das raízes
do fracasso do FMI em interpretar evidências bem debaixo de seu nariz.
Se for isso, é um fracasso que levanta duas questões.
Primeira, será que a estrutura de governança do fundo é
adequada para exercer uma vigilância distanciada de seus principais
cotistas? E, segunda, será que fatores ideológicos cegaram
o FMI impedindo-o de ver que a desregulamentação poderia
contribuir para um desastre?
É inconcebível pensar que o fundo, com seus funcionários
qualificados e dedicados, teria falhado tão miseravelmente em detectar
e chamar a atenção para as vulnerabilidades que se acumulavam
no mercado hipotecário dos EUA caso se tratasse de um país
em desenvolvimento. Mas o poder no FMI atualmente segue a lógica
de seu papel como credor. Quanto mais dinheiro um país coloca no
fundo, mais influência ganha.
Eu, por exemplo, não estou satisfeito com a forma como as cotas
do FMI são calculadas, mas tenho de admitir que trocar dinheiro
por voto é uma estrutura de governo perfeitamente adequada para
uma instituição de crédito. Não é adequado,
no entanto, para uma instituição que supostamente deveria
exercer uma vigilância distanciada de seus membros - particularmente,
de seu membro mais influente, cujas políticas domésticas
possuem implicações sistêmicas mundiais.
Em agosto de 2005, seu conselheiro econômico (economista-chefe),
Raghuram Rajan, alertava para a debilidade dos mercados financeiros dos
EUA. Rajan via que algo potencialmente perigoso estava ocorrendo. Advertiu
que as forças da concorrência estavam levando os mercados
financeiros a "flertar continuamente com os limites de iliquidez" e a esconder
riscos dos investidores, para poder superar os concorrentes.
Talvez ainda mais revelador, no entanto, Rajan argumentou de forma
otimista, apesar de tudo, dizendo que a "desregulamentação
removeu barreiras artificiais à entrada de novas firmas e encorajou
a competição entre produtos, instituições,
mercados e jurisdições". Em outras palavras, ele claramente
acreditava que a regulamentação criava "barreiras artificiais"
e que a "competição entre jurisdições" - isto
é, entre órgãos reguladores - deveria ser bem-vinda.
Tais crenças são naturais para os que estão comprometidos
com a visão de que os mercados funcionam melhor sem regulamentação
e a declaração de Rajan é uma boa ilustração
do credo da FMI na época. E foi essa fé irrestrita na capacidade
autorreguladora dos mercados que parece ter sido a raiz do fracasso do
fundo em detectar o que não estava procurando.
Há novos sinais encorajadores de mudança no FMI, mas
isso não deve ser motivo para que nos acalmemos. Como ressaltou
o economista político Fred Block, "as sociedades, invariavelmente,
voltam atrás quando estão à beira do pleno funcionamento
da experimentação da autorregulamentação do
mercado". Infelizmente, isso também torna a autorregulamentação
uma fé muito difícil de dispersar, porque seus sacerdotes
podem sempre argumentar que seus fracassos resultam não de uma falência
teológica, mas de ortodoxia insuficiente. (Hector R.
Torres - Valor Online)
04.05 - Inflação e o BC
Interessante notar a recente mudança de opinião dos analistas
econômicos referente à inflação no Brasil. Até
dezembro de 2009 era consenso entre tais analistas que a inflação
não seria um problema. Durante uma sessão de conjuntura econômica,
ocorrida em dezembro de 2009, no Encontro de Economia (que ocorreu em Foz
do IguaçuPR) perguntei aos palestrantes por que os mesmos não
endereçavam a inflação como um problema. As respostas
foram variadas, mas todos foram unânimes em afirmar que num horizonte
de médio prazo a inflação não era problema.
Venho alertando há tempos sobre o problema da volta da inflação
no Brasil. Aconselhei com todas as letras que se façam dívidas
em juros pré-fixados: essas dívidas com a volta da inflação
serão um ótimo negócio para o devedor. Disse, com
todas as letras, que em 2011 teremos problemas com a inflação.
Só não entendo o motivo da relutância de tantos analistas
de enxergarem um problema tão simples. Existem duas razões
bem claras que sinalizam para o problema inflacionário. A primeira
razão é que a política monetária, ao contrário
do que é alardeado, não é tão restritiva no
Brasil. Em segundo lugar a política fiscal tem sido mais frouxa
ainda que a política monetária.
Os dados referentes à expansão do M1 (fornecidas pelo
Banco Central) deixam meu ponto claro: de janeiro de 2003 a janeiro de
2007 (o primeiro mandato de Lula) a oferta de moeda (M1) cresceu 68,34%.
De janeiro de 2007 a janeiro de 2010 o M1 já cresceu 45,36%. Isto
é, entre janeiro de 2003 e janeiro de 2010 a oferta de moeda cresceu
em incríveis 144,7%, sendo que só entre janeiro de 2009 e
janeiro de 2010 esse crescimento foi de 15,37%. Cedo ou tarde esse incrível
aumento de moeda vai ser transformado, pelo menos em parte, em aumento
de preços.
Do ponto de vista fiscal, o panorama também não é
melhor, os recursivos aumentos salariais concedidos a funcionários
públicos aliado à contratação de cada vez mais
servidores pressiona o orçamento público. Um ano eleitoral
também não apresenta o melhor ambiente para se acreditar
que o gasto público será reduzido. Resumindo, o panorama
para as contas públicas em 2011 não parece ser dos melhores.
Isso indica que o caminho fácil da inflação para sanar
contas públicas pode voltar ao cenário nacional. Não
custa lembrar que para Dilma uma inflação de 10% ao ano não
é grande problema. (Adolfo Sachsida - Jornal de
Brasília)
04.05 - Finanças reguladas
Países do G20 se desentendem sobre regras para bancos, mas evoluem
para ampliar legitimidade do FMI
São duas as frentes do atual debate no âmbito do G20,
o grupo dos principais países ricos e emergentes, sobre as reformas
na regulação financeira global.
A primeira busca criar regras para bancos e outras instituições
financeiras que minimizem os riscos de crises sistêmicas. A segunda
diz respeito a mudanças nos organismos financeiros multilaterais,
principalmente o FMI e o Banco Mundial, para aumentar a representatividade
dos países em desenvolvimento e, com isso, reduzir o deficit de
legitimidade dessas instituições.
Os pontos menos controversos da regulação financeira
em debate são a necessidade de ampliar o capital mínimo usado
pelos bancos como base para seus empréstimos, a adoção
de melhores práticas para evitar a exposição excessiva
a riscos e a harmonização dos padrões de contabilidade.
Em outros temas ainda há desacordo, como ficou claro na última
reunião dos ministros das finanças do G20.
O ponto nevrálgico é a taxação dos bancos.
Dias antes do encontro, o FMI propôs a criação de "uma
contribuição justa e substancial do setor financeiro" para
custear a eventual necessidade de um novo "resgate". A proposta foi apoiada
por aqueles que estiveram no epicentro da crise de 2008 e 2009 -EUA, Inglaterra
e União Europeia.
Mas houve repúdio por parte de países que não
comprometeram dinheiro público na crise e que consideram injusta
a aplicação de uma regra global. O Canadá considerou
tal solução como uma potencial violação de
soberania. O Brasil também se posicionou contra. Não deixa
de ser uma ironia que EUA e Inglaterra sejam hoje os países mais
intervencionistas, movidos pelo imperativo político de dar satisfações
a um público descontente.
Provavelmente haverá concordância nos temas básicos,
o que já é um avanço, mas muitos outros permanecerão
em aberto e, em última instância, a cargo dos governos nacionais.
Quanto às mudanças no FMI, desde 2006 está em
curso uma revisão das participações nacionais, que
ocorrerá em etapas. Haverá maior relação com
o peso econômico, com aumento da participação -e do
voto- de vários países em desenvolvimento.
Mas a conquista definitiva da legitimidade, necessária para
que o FMI se coloque como núcleo da coordenação monetária
e financeira no novo contexto mundial, ainda depende de reformas mais profundas.
O fim do poder de veto ainda conferido aos EUA em decisões fundamentais
e a adoção de critérios de mérito para a escolha
do diretor-gerente (reservada a um europeu) são exemplos destas
reformas. Trata-se de uma agenda de longo prazo. Dela pode resultar uma
melhor coordenação internacional, com efeitos positivos para
o crescimento da economia mundial. (Folha de S.Paulo)
04.05 - A crise europeia
Os líderes da UE se reúnem e fazem promessas a cada crise,
mas estão sempre atrasados; o FMI se envolveu tarde demais
A Grécia, e mais recentemente Portugal e Espanha, dominaram
a imprensa financeira nas últimas semanas. As dívidas soberanas
desses países tiveram sua classificação rebaixada,
mais radicalmente no caso da Grécia, cujos títulos a Standard
& Poor's agora classifica como "junk bonds". Os juros sobre eles, com
isso, dispararam.
Para as pessoas que se interessam por história, os acontecimentos
atuais dificilmente constituem surpresa. Afinal, no século 4 a.C.,
as cidades gregas declararam moratória sobre os empréstimos
tomados para construir o templo de Delos; e, no século 19, depois
de conquistar a independência política, a Grécia deu
mais quatro calotes.
As circunstâncias modernas são um pouco mais complicadas.
Todos os países mencionados fazem parte da União Europeia
e adotaram o euro.
O Tratado de Maastricht fixa um conjunto de condições
a satisfazer quanto a um nível de deficit fiscal inferior a 3%,
uma magnitude de dívida pública inferior a 60% do PIB, bem
como baixa inflação. No início, as coisas pareciam
estar funcionando bem, e a convergência estava funcionando. O valor
do euro subiu de modo impressionante ante o dólar.
Com a recente crise de 2007/8, a situação escapou completamente
ao controle. Um indicativo das dimensões do problema está
em a Grécia ter registrado no ano passado deficit fiscal superior
a 14%, relação entre dívida pública e PIB superior
a 100% e inflação em queda após índice superior
a 4% em 2008.
Outros países enfrentaram problemas, mas não dessa magnitude,
e tentaram resolvê-los. Um bom exemplo é a Irlanda. Também
infelizmente, o problema persiste há meses. Os líderes da
União Europeia se reúnem e fazem promessas a cada crise,
mas estão sempre atrasados.
Os pacotes de assistência prometidos foram sempre insuficientes,
e o FMI se envolveu tarde demais, e apenas por iniciativa do primeiro-ministro
grego, George Papandreou.
A Alemanha demonstrou claramente que é um líder relutante
na União Europeia. O motivo é compreensível. O público
alemão não vê grandes motivos para fornecer os recursos
requeridos. Até recentemente, claro, os alemães estavam felizes
com a venda continuada de exportações de seu país
à Grécia. Isso resultava em empregos na Alemanha. E a Grécia
não está sozinha em seus problemas.
A Alemanha mantém superavit em seu comércio com os demais
países da União Europeia e financia a crescente dívida
de muitos dos demais países. Historicamente, uma situação
como essa teria resultado em valorização do marco, mas com
o euro essa possibilidade desapareceu. Um ajuste conduzido por meio de
taxas de câmbio já não é possível.
Isso força a Grécia a reduzir diretamente a demanda interna
e a renda disponível. Não surpreende que haja, no país,
grande resistência a esse desfecho. Os sindicatos estão resistindo
vigorosamente. Preferem o passado de altos salários, consumo ampliado
e maior endividamento. Resolver a situação não será
fácil.
Fundamentalmente, a Alemanha terá de consumir e importar mais,
enquanto os demais países poupam e exportam mais. Mais fácil
falar sobre um equilíbrio sustentável como esse do que atingi-lo.
Não avançamos muito nesse sentido, até agora.
Existe um indicador claro da importância internacional dessa
questão. Depois que o Banco Central brasileiro elevou a taxa Selic
em 0,75 ponto percentual, na quarta, a edição de quinta do
"Financial Times" não teve espaço para um artigo sobre o
assunto. A preocupação com a Europa era intensa demais.
(ALBERT FISHLOW, tradução de PAULO MIGLIACCI - Folha de S.Paulo)
03.05 - Governo reforça controle de fundos estrangeiros
O governo federal estuda uma forma de aumentar o controle sobre investimentos
feitos por fundos estrangeiros na compra de ativos no Brasil. O objetivo
é evitar que recursos provenientes de atividades ilícitas
sejam "lavados" em território nacional. O tema está sendo
analisado pelo Ministério da Justiça em conjunto com o Conselho
de Controle de Atividades Financeira (Coaf), a Comissão de Valores
Mobiliários (CVM) e o Banco Central (BC).
De acordo com o secretário nacional de Justiça, Romeu
Tuma Jr., a ideia de criar mecanismos para evitar a lavagem de dinheiro
por meio de fundos estrangeiros que investem no país, através
da compra de ativos, surgiu durante a crise econômica iniciada nos
Estados Unidos em 2007, quando o governo percebeu que, apesar da falta
de liquidez no sistema financeiro mundial, não houve descapitalização
dos bancos no Brasil. "Quando fomos ver o porquê, percebemos que
os bancos haviam afrouxado o cumprimento das regras de compliance", diz
Tuma Jr.
A tipologia da lavagem de dinheiro por meio de fundos estrangeiros
conta com o sigilo oferecido pelos paraísos fiscais a empresas offshore
- segundo Tuma Jr., 80% da lavagem no Brasil ocorre por meio dessas companhias.
De acordo com secretário, após o início da crise foram
identificados indícios de lavagem por meio de fundos estrangeiros,
que estão sendo investigados sob sigilo. "Temos feito alguns trabalhos
nesse sentido", afirma. Entre os fundos investigados, há casos de
recursos de brasileiros obtidos de forma ilícita e enviados para
fora ilegalmente, e que retornaram ao Brasil ao serem repassados a offshores
e posteriormente a fundos que investiram em ativos nacionais. "Com a crise
os bancos afrouxaram o compliance no recebimento desses recursos", diz.
"E essa é uma situação que já foi identificada
em vários países do mundo, não apenas no Brasil."
De acordo com Lorenzo Parodi, especialista em lavagem de dinheiro da
Deall Riscos e Inteligência, em muitos países a utilização
de fundos para legalizar recursos provenientes de crimes é feita
de forma sistemática. Segundo ele, nos últimos três
anos surgiram diversos alertas sobre o uso de fundos para lavar dinheiro.
Pelas regras de compliance seguidas pelo sistema financeiro, no Brasil
e na maior parte do mundo, os bancos devem exigir de qualquer correntista
informações sobre o titular da conta e a origem dos recursos
depositados. No caso de fundos de investimento brasileiros, sujeitos às
regras da CVM, os bancos exigem informações sobre as pessoas
físicas beneficiárias desses fundos - o que dificulta a lavagem.
A mesma exigência, no entanto, não é feita por
alguns paraísos fiscais em relação aos fundos neles
criados. E esses fundos estrangeiros, por não captarem recursos
no Brasil, mas apenas se destinarem a comprar ativos locais, não
se submetem às regras brasileiras, mas às do país
onde têm sede. Os bancos nacionais, por sua vez, embora tenham a
obrigação de saber quem são os titulares das contas
abertas por eles, não têm a obrigação de buscar
o investidor de um fundo estrangeiro que abre uma conta no país
- que pode ser uma offshore com sede em um paraíso fiscal, cujos
titulares são protegidos pelo sigilo oferecido por esses países.
A criação de regras para evitar a lavagem de dinheiro
por meio de fundos no Brasil ainda é uma ideia incipiente. Na opinião
de Tuma Jr., a opção ideal seria obrigar os bancos a exigir
dos fundos estrangeiros detalhes sobre seus investidores. "Isso já
inibiria a lavagem", diz. O advogado José Eduardo Carneiro Queiroz,
especialista em fundos do escritório Mattos Filho Advogados, no
entanto, alerta para a necessidade de que normas nesse sentido sigam o
padrão internacional. "É preciso tomar cuidado para não
criar um ambiente regulatório que afugente o investidor", diz.
(Cristine Prestes - Valor Online)
03.05 - Um novo ciclo econômico no Brasil
Não é possível continuar com essa farra do boi
de consumismo que é a marca mais importante dos últimos cinco
anos
AMB Associados acaba de publicar um interessante estudo sobre o crescimento
brasileiro. A variação do PIB -medida do lado da demanda-
nos mostra que o Brasil viveu duas fases distintas nos últimos dez
anos: de 2000 a 2005 e de 2006 a 2010. Considerada a década como
um todo, o crescimento do PIB pode ser explicado em 70% pelo consumo das
famílias, em 20% pelo consumo do governo e em 13% pela formação
bruta de capital fixo. Para fechar esse quadro de demanda interna, as importações
foram maiores do que as exportações em 3% do PIB.
Mas esse mesmo exercício para o período 2006/2010 mostra
um quadro bem diferente. O consumo das famílias passa a explicar
85% do crescimento do PIB, com o consumo do governo caindo para 18% e os
investimentos representando 16,4%. Para fechar a conta, as exportações
líquidas negativas representaram 19,2% do PIB. Nos últimos
cinco anos, o consumo interno total -governo mais famílias- ultrapassou
o valor do PIB brasileiro. O pouco investimento realizado nestes cinco
anos foi todo ele financiado com poupança externa. Em outras palavras,
nos últimos cinco anos os brasileiros viveram o papel de cigarras,
e não de formigas.
Mas o economista Sergio Vale, da MB, construiu uma projeção
desses componentes de demanda para os primeiros cinco anos da nova década.
Como premissa, considerou um crescimento real de 10% ao ano para o volume
de investimentos em capital fixo no Brasil. Além disso, trouxe a
participação do consumo das famílias no PIB para o
número médio de 70% e reduziu o consumo do governo para 17%
do PIB. Nessas hipóteses, o setor externo continuará sendo
a variável de ajuste para fazer o consumo caber no PIB.
Os números obtidos por Sergio Vale, da MB, apenas quantificam
o que alguns analistas vêm advertindo há algum tempo: não
é possível continuar com essa farra do boi de consumismo
que é a marca mais importante dos últimos cinco anos. Ter
o consumo das famílias brasileiras representando 85% do crescimento
PIB é uma irresponsabilidade que vai cobrar um preço elevadíssimo
em futuro próximo. Mais ainda, ter a soma do consumo do governo
e das famílias maior do que o PIB é uma situação
insustentável no médio prazo.
Daí resulta o ponto mais assustador do exercício da MB:
mesmo com uma redução do consumo das famílias e do
governo e um aumento mínimo no investimento de capital fixo, a deterioração
de nossa conta-corrente pode chegar a níveis perigosos. Uma bela
sinuca de bico para o próximo presidente da República.
Quero terminar fazendo uma homenagem a meus filhos Marcello e Daniel.
Depois de 12 anos no controle acionário da Link Investimentos, período
em que ela alcançou a posição de maior corretora de
valores independente no Brasil, eles e seus companheiros venderam a empresa
para o banco suíço UBS. Acompanhei -como pai e conselheiro-
toda a vida da Link, sofrendo juntos quando aloprados do PT resolveram
acusá-los de utilização de informações
privilegiadas fornecidas por mim -à época eu era ministro
do governo FHC-, e agora, nos longos meses em que concretizaram a difícil
decisão de vender a empresa.
Neste novo Brasil internacionalizado, é muito difícil
um grupo brasileiro de médio porte e líder de mercado ficar
independente. Acho que tomaram a decisão correta. (LUIZ CARLOS
MENDONÇA DE BARROS - Folha de S.Paulo)
03.05 - A economia aquecida
A economia está aquecida e a temperatura é bastante alta
para justificar a preocupação do Banco Central (BC) com a
inflação. Mais uma confirmação do intenso ritmo
de atividade foi divulgada nessa quinta-feira. O desemprego nas seis maiores
áreas metropolitanas, 7,6% em março, foi o mais baixo para
esse mês desde o início da série, em 2002. A massa
de rendimento habitual dos ocupados aumentou 0,6% no mês, descontada
a inflação, e no primeiro trimestre foi 5,2% maior que a
de um ano antes. Combinado com o crédito disponível, esse
aumento de renda tem permitido uma rápida expansão do consumo,
refletida tanto nos índices de preços quanto nos volumes
crescentes de importação. Mais empregos e mais dinheiro para
gastar no varejo são boas notícias, especialmente depois
de um ano de estagnação econômica. Mas só com
a inflação contida esses ganhos serão preservados.
É esse o melhor argumento a favor de um aperto da política
monetária. Se o aumento de juros básicos de 8,75% para 9,5%
ao ano está bem calibrado é outra questão. O BC acompanhará
a evolução dos indicadores nos próximos meses e novos
ajustes ocorrerão.
Os últimos dados nacionais de consumo são de fevereiro
e mostram intenso movimento no comércio varejista. Naquele mês,
o volume de vendas foi 1,6% maior que o do mês anterior e 12,3% maior
que o de um ano antes. No primeiro bimestre, as vendas ficaram 11,3% acima
do volume registrado em janeiro e fevereiro de 2009. Como este foi o pior
momento da crise, a recuperação pode parecer apenas normal.
Mas o quadro fica mais claro quando se verifica um aumento de 6,9% em 12
meses. Além disso, o consumo das famílias não deixou
de crescer em 2009, apesar da retração da maior parte dos
indicadores da economia. Também nesse aspecto, a recessão
foi muito menos severa no Brasil do que na maior parte dos países
desenvolvidos.
Os números da produção indicam também a
firme expansão do mercado consumidor. Sondagem da Confederação
Nacional da Indústria (CNI) mostrou, com base na avaliação
de executivos de 1.227 empresas de todo o País, um firme crescimento
da produção, do emprego, das vendas e do uso da capacidade
instalada. Além disso, foi registrada expansão em 26 de 28
setores cobertos pela pesquisa. Dos outros dois, um recuou e o outro permaneceu
sem variação.
A Federação das Indústrias do Estado de S. Paulo
divulgou terça-feira o Índice do Nível de Atividade.
O aumento de 2,8% de fevereiro para março, descontado o efeito sazonal,
foi o maior para o período desde 2004. Comparando-se o primeiro
trimestre deste ano com o primeiro de 2009, o resultado obtido ? uma diferença
de 18,2% ? é o melhor da série iniciada em 2001. No acumulado
de 12 meses, a variação ainda é negativa (-1,15),
mas um nível igual ao anterior à crise já deve ter
sido alcançado em abril, segundo o diretor de Pesquisas e Estudos
Econômicos da Fiesp, Paulo Francini. Além disso, a indústria
usou 81,6% de seu potencial produtivo, pouco mais que no mês anterior.
Um dos melhores indicadores do aquecimento econômico é
a redução do superávit comercial. A importação
voltou a crescer bem mais rapidamente que a exportação, por
causa da expansão da demanda interna. Sem a entrada de produtos
estrangeiros, a inflação seria certamente mais alta. Apesar
disso, os preços continuam crescendo aceleradamente, embora tenham
perdido algum impulso nos últimos dois meses.
Em março, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo
(IPCA), usado como referência para a política oficial, subiu
0,52%. Subiu menos do que em fevereiro (0,78%), mas ainda acima do ritmo
compatível com a meta central fixada para este ano, de 4,5%. Apesar
da redução do IPCA, o grau de difusão cresceu de 61,7%
para 66,4%: elevou-se, portanto, o número de itens com aumento de
preço. As pressões se espalharam, portanto, e esse é
um forte sinal de excesso de demanda.
Boa parte dessa tendência é explicável pela rápida
expansão do crédito ao consumidor. Em março, o saldo
dos empréstimos a pessoas físicas foi 2% maior que em fevereiro.
Em 12 meses, o crescimento foi de 18,6%, segundo relatório divulgado
nessa quinta-feira pelo BC. Esse quadro mostra que o aumento da Selic pode
não bastar. (Editorial - O Estado de S.Paulo)
Notícias
Recentes

|