Envelhecer,
um desafio
Um
fenômeno, ao menos, parece atingir o país de forma menos desigual.
A sociedade passa por um processo intenso de envelhecimento. O crescimento
da expectativa de vida e a redução da taxa de fecundidade
estão por trás do crescimento no número de idosos,
de 30% entre 2000 e 2010, totalizando hoje 20,5 milhões de pessoas
com mais de 60 anos. Isso representa 10,8% da população.
Há 10 anos, esse percentual era de 8,6%. Mas os dados do IBGE indicam
também que o Brasil terá que enfrentar o desafio de se adaptar
às necessidades desse enorme contingente populacional.
Segundo
o geriatra Sabrí Lakhdari, diretor científico da Sociedade
Brasileira de Geriatria e Gerontologia, a modificação da
estrutura etária da população tem consequências
sociais e econômicas. "O aumento do número de idosos levanta
a discussão sobre o financiamento dos inativos. Quem vai pagar a
aposentadoria dessas pessoas? É preciso pensar nesse aspecto financeiro,
já que essa equação é de difícil solução."
Sabrí Lakhdari afirma que os países de primeiro mundo ficaram
ricos antes que sua população envelhecesse — fenômeno
que não se repetiu no Brasil. "Os idosos são ainda mais vulneráveis.
No Brasil, temos apenas 1 mil geriatras, o que mostra o desinteresse com
essa fatia da população. Ainda existe muito preconceito com
relação ao envelhecimento. As pessoas acham normal quando
um idoso está quieto em casa, ninguém pensa que ele pode
estar deprimido ou com Alzheimer. Há muita desinformação",
diz.
O
envelhecimento da população aumentou a idade média
do brasileiro, que saltou de 26,5 anos em 1991 para 32,1 anos em 2010.
Há, no entanto, áreas bem abaixo do índice. As comunidades
rurais do Amazonas, por exemplo, têm a menor idade média do
país: 24 anos. Em 2010, o índice de Roraima, incluindo as
comunidades urbanas e não urbanas, foi de 26,3. Na Rio Grande do
Sul, 34,9.
Com
uma média de 30,6 anos, o Distrito Federal tem uma população
com mais de 60 anos que representa 7,7% do total de brasilienses. Há
10 anos, esse percentual era de apenas 5,4%. A maior concentração
de brasilienses acima de 60 anos está no Lago Sul. Lá, 19,9%
dos moradores estão nessa faixa etária e o percentual é
quase três vezes maior do que a média do resto da cidade.
O Plano Piloto aparece na sequência do ranking. Nas asas Sul e Norte,
13,8% dos moradores têm mais de 60 anos. As cidades criadas nas últimas
décadas e as regiões com rendimentos mais baixos possuem
menos idosos. Em São Sebastião, por exemplo, apenas 3,7%
da comunidade está acima dessa faixa etária — o menor percentual
do Distrito Federal.
O
economista Júlio Miragaya, diretor de Gestão de Informações
da Companha de Planejamento do Distrito Federal, lembra que o envelhecimento
da população é uma tendência mundial, especialmente
nas regiões com maior nível de renda. "Nessas áreas,
os moradores têm mais escolaridade, maior acesso a atendimento médico
e uma alimentação de mais qualidade. A melhoria nas condições
de vida, aliada à queda da fertilidade, contribuiu para esse envelhecimento
rápido", explica.
O
empresário Amaro Luiz Peixoto, 76 anos, vive na 308 Sul desde 2007,
quando trocou a QI 29 do Lago Sul por um confortável apartamento
na superquadra modelo de Brasília. Para ele, o Plano Piloto é
a melhor região para os brasilienses idosos. "É muito bom
caminhar embaixo das árvores. Eu também ando de bicicleta
no Parque da Cidade com a minha mulher, tudo isso contribui para a qualidade
de vida", conta. Seus cuidados com a saúde e o bem-estar não
se restringem às pedaladas e às caminhadas. "Faço
ioga e musculação. Existe diferença entre ser idoso
e velho. Eu estou na primeira categoria, porque não vivo à
espera da morte. Pelo contrário, aproveito muito a vida, todos os
dias", conta o empresário, que ficou viúvo há sete
anos, mas se casou de novo. Ele divide seu tempo entre sua empresa corretora
de seguros e o trabalho como prefeito comunitário da quadra.
(Correio Web)
Brasil de hoje precisa pensar
no amanhã
Pesquisas que o IBGE realiza
anualmente para avaliar as condições de vida dos brasileiros
estão se aprimorando, e assim retratam com grande fidelidade a evolução
do quadro social e econômico do país. No entanto, ainda que
avanços tecnológicos e metodológicos ajudem a aperfeiçoar
tais pesquisas, elas precisam de um ponto de partida sólido, que,
no caso, é o censo demográfico decenal.
Os dados do último
censo (2010), devidamente consolidados, vêm sendo divulgados e confirmam
que o Brasil está em pleno período que os especialistas intitulam
de bônus demográfico. São os anos em que mais teremos
brasileiros nas faixas etárias aptas, simultaneamente, à
produção, ao consumo, ao investimento, à poupança.
Em decorrência da queda na taxa de fecundidade (para 1,86 filho por
mulher em idade fértil), que se evidencia até mesmo nas regiões
Norte e Nordeste — embora estejam ainda bem acima da média nacional,
com, respectivamente, 2,42 e 2,01 filhos —, o ritmo de crescimento da população
está diminuindo e caminha para a estabilidade dentro de no máximo
duas décadas.
A queda na taxa de fecundidade
é um fenômeno já observado em países de economia
mais avançada, e geralmente resulta da conjugação
de vários fatores, como a urbanização, a escolarização
das mulheres e a maior participação delas no mercado de trabalho.
O bônus demográfico
é uma janela de oportunidade, de duração relativamente
curta em termos históricos. Como o número de crianças
está se reduzindo, é possível redobrar esforços
para se avançar na qualidade de ensino, da alimentação
e da saúde infantil. Para os jovens, além da continuidade
da educação convencional, é possível se abrir
oportunidades com treinamento e cursos de qualificação profissional,
conforme as demandas efetivas de mercado.
O fato de as famílias
serem agora menos numerosas e se concentrarem em núcleos urbanos
facilita a execução de programas que resolvam a questão
habitacional, paralelamente com oferta de serviços básicos,
em especial o saneamento, os transportes, a energia, as comunicações
e os de saúde.
Findo o período do
bônus demográfico, o país vai se deparar com uma população
mais envelhecida. Até lá, terá de alcançar
níveis de produtividade que possibilitem à economia funcionar
bem com menos pessoas ativas no mercado. A proporção de aposentados
e pensionistas crescerá, mas também haverá mais espaço
para aqueles que desejarem, ou necessitarem, estender suas atividades profissionais.
Isso somente se tornará
viável se no decorrer desse período de bônus demográfico
o Brasil conseguir expandir sua poupança doméstica e o investimento,
o que pressupõe aumento generalizado de eficiência, principalmente
do setor público.
Há ainda muitas reformas
por fazer no país, que envolvem desde o modo de se pensar as cidades
até ajustes nas regras da previdência oficial. Tais reformas
têm como horizonte o longo prazo, mas precisam ser postas em prática
no curto e médio prazos, o que esbarra em dificuldades políticas.
Para assegurar o seu futuro, as novas gerações dependem de
que os políticos de hoje pensem mais no amanhã. (O
Globo)
O impacto
da união homoafetiva na Previdência
O
ano de 2011 vai ficar marcado na Previdência Social, como o ano em
que se resolveu, por intermédio da ação dos Tribunais
Superiores, uma das questões mais delicadas relativa à concessão
de benefícios previdenciários, em especial o destinado aos
dependentes do segurado falecido, no caso, a pensão por morte.
Nossa
sociedade, nos últimos anos apresentou avanços significativos,
permitindo que situações que até bem pouco tempo eram
reprimidas com veemência, ante a enorme carga de pré-conceitos
existentes em seu seio, passassem a ser reconhecidas não só
de fato, mas, também como juridicamente possíveis, caso da
natureza jurídica da união afetuosa entre pessoas do mesmo
sexo.
No
início do atual milênio a discussão atinente a existência
de direito à pensão por morte por parte do companheiro do
mesmo sexo supérstite, foi levada aos Tribunais pátrios,
cabendo ao Juízo da 3ª Vara Federal de Porto Alegre, proferir
decisão pioneira na Ação Civil Pública n. 2000.71.00.0009347-0,
concedendo o benefício, no âmbito do Regime Geral de Previdência
Social, não só no caso em julgamento, mas, também,
estendendo seus efeitos às demais demandas administrativas existentes
no mesmo sentido.
A
importância, a repercussão e a magnitude da decisão
proferida no douto Juízo federal, levaram o INSS a reconhecer, por
intermédio de ato administrativo (Instrução Normativa),
o direito a pensão por morte para aqueles que conviviam em união
homoafetiva, desde que o (a) sobrevivente demonstrasse que o (a) falecido
(a) contribuía efetivamente para o seu sustento.
Mesmo
na esfera administrativa, depara-se com uma clássica hipótese
de aplicação da Teoria Tridimensional do Direito, elaborada
pelo mestre Miguel Reale Júnior, onde o fato (união homoafetiva)
foi reconhecido pela sociedade como algo relevante (valor social) e consequentemente
exigiu sua normatização (edição da norma).
É
preciso destacar que a atitude da Autarquia Federal, apesar de louvável,
ainda carregava em sim uma carga de desigualdade e ofensa à dignidade
destas pessoas à medida que lhes reconhecia a condição
de equiparado aos beneficiários de 1ª Classe, somente quando
ocorresse a comprovação de que o segurado falecido contribuía
financeiramente para o sustento do supérstite.
Exigências
estas não aplicáveis aos casais heterossexuais que são
considerados dependentes de primeira classe, devendo apenas provar a condição
de cônjuge ou companheiro para usufruírem do benefício.
Durante
todo este período tanto os Tribunais pátrios quanto a legislação
atinente aos Regimes Próprios de Previdência Social, caminharam
no sentido de reconhecer a condição de dependente para efeitos
previdenciários para os companheiros do mesmo sexo e em igualdade
de condições com os casais heterossexuais.
Até
que o Supremo Tribunal Federal ao julgar, conjuntamente, a Ação
Direta de Inconstitucionalidade n. 4.277 e a Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental n. 132, deu o primeiro e decisivo
passo para solucionar definitivamente a questão, tanto na esfera
previdenciária quanto para todo o ordenamento jurídico pátrio.
Inicialmente
reconhecendo que o sexo das pessoas, salvo disposição constitucional
expressa ou implícita em sentido contrário, não se
presta como fator de desigualação jurídica.[1]
E
que o caput do art. 226 confere à família, base da sociedade,
especial proteção do Estado. Ênfase constitucional
à instituição da família. Família em
seu coloquial ou proverbial significado de núcleo doméstico,
pouco importando se formal ou informalmente constituída, ou se integrada
por casais heteroafetivos ou por pares homoafetivos. A Constituição
de 1988, ao utilizar-se da expressão “família”, não
limita sua formação a casais heteroafetivos nem a formalidade
cartorária, celebração civil ou liturgia religiosa.[2]
Para
ao final estabelecer, utilizando-se do instituto da Interpretação
conforme a Constituição, que a união homoafetiva deve
ser considerada como uma entidade familiar já que caracteriza uma
das espécies de união estável previstas no artigo
1.723, do Código Civil brasileiro.
E
agora, o Superior Tribunal de Justiça, reconheceu a possibilidade
de que pessoas do mesmo sexo se habilitem para o casamento, aduzindo quepor
consequência, o mesmo raciocínio utilizado, tanto pelo STJ
quanto pelo STF, para conceder aos pares homoafetivos os direitos decorrentes
da união estável, deve ser utilizado para lhes franquear
a via do casamento civil, mesmo porque é a própria Constituição
Federal que determina a facilitação da conversão da
união estável em casamento (art. 226, § 3º).[3]
Estas
decisões permitem às pessoas do mesmo sexo celebrar uniões
estáveis ou mesmo casamento, sendo-lhe garantido, a partir de então,
a condição de dependente de primeira classe na escala de
futuros beneficiários da pensão por morte concedida e administrada
pelo INSS, já que o artigo 16, da Lei n. 8.13/91 assim estabelece:
Art.
16. São beneficiários do Regime Geral de Previdência
Social, na condição de dependentes do segurado:
I
- o cônjuge, a companheira, o companheiro e o filho não emancipado,
de qualquer condição, menor de 21 (vinte e um) anos ou inválido
ou que tenha deficiência intelectual ou mental que o torne absoluta
ou relativamente incapaz, assim declarado judicialmente;
Da
mesma forma ocorre no âmbito dos Regimes Próprios, já
que estes, em regra, também definem em suas legislações
a cônjuge e o companheiro (a), como dependentes de primeira classe.
As
decisões proferidas pelas Cortes Superiores afastam de vez os homossexuais
da condição de equiparados a cônjuge ou companheiros,
passando estes a integrá-las efetivamente, proporcionando-lhe a
concessão do benefício mediante a simples comprovação
da existência de união estável ou casamento.
Tais
decisões facilitarão a vida destas pessoas que não
mais precisarão submeter-se ao constrangimento de ver seu pleito
de pensão por morte, ou mesmo, de outros benefícios previdenciários
negados.
Basta-lhes,
apenas a apresentação das mesmas provas exigidas para o casal
heterossexual, para que possam receber seus benefícios de forma
vitalícia, garantindo-se, assim, o respeito a sua dignidade, independente
de sua opção sexual, apregoado pela Constituição
Federal.
Portanto,
independente de convicções pessoais, o fato é que
as decisões proferidas tanto pela Corte Suprema, quanto pelo Superior
Tribunal de Justiça, ensejam a solução do conflito
existente na relação Beneficiários/Previdência
Social em decorrência da opção sexual do segurado falecido.
[1]
Trecho da Ementa da ADIN n. 4.277. Rel. Min. Ayres Brito. STF
[2]
Trecho da Ementa da ADIN n. 4.277. Rel. Min. Ayres Brito. STF.
[3]
Trecho do voto do Min. Luiz Felipe Salomão no REsp n. 1.183.378-RS.
STJ. (Bruno Sá Freire Martins - Consultor Jurídico)
A eterna
polêmica da reforma da Previdência
Mais
da metade do gasto federal social no Brasil é com o RGPS (Regime
Geral de Previdência Social), segundo dados do Ipea. Em segundo plano
estão os benefícios dos servidores públicos federais
e somente depois despesas com saúde, assistência social e
educação. Por esta razão todos os dias o tema da reforma
da Previdência Social é debatido, em especial quando se vislumbram
no horizonte crises financeiras mundiais, como está acontecendo
atualmente.
Observa-se,
no entanto, que este tema vem sendo tratado com certo regionalismo, como
se a crise neste importante setor social, político e econômico
fosse um fenômeno isolado brasileiro. A crise na Previdência
tem dimensões mundiais, seja nos países desenvolvidos, nos
países industrializados, seja nos países em desenvolvimento
ou naqueles que ainda sequer são assim considerados.
Pode-se
dizer, sem grande radicalismo, que a Previdência nasceu em crise,
simplesmente porque nasceu de forma tortuosa, ou seja, ela - na forma próxima
que a conhecemos - é filha da própria crise. A Previdência
Social foi mundialmente evoluindo, sempre movida por uma crise.
A
primeira grande crise que modelou a Previdência Social foi Revolução
Industrial, dela se originando o seguro social, abraçado pela Seguridade
Social, fruto da Segunda Guerra Mundial. Este modelo de seguro social —
que nada mais é do que a previdência social — estará
sempre em transição e pode-se dizer em crise, haja vista
que mundialmente cada dia mais pessoas dele dependem para viver, pois somos
hoje sete bilhões de pessoas, com direitos sociais que devem ser
tutelados. O custo dos direitos fundamentais sociais é sempre muito
alto.
Em
todo o mundo, países estão em transição, já
há algum tempo, nos seus sistemas de Previdência Social. Na
América Latina a Previdência Social pública vem sendo
paulatinamente reduzida, com a substituição por sistemas
de capitalização individual, administrados pelo setor privado.
Na
China foi implementado um plano escritural de contribuição
definida em que o trabalhador tem uma conta individual que é creditada
com suas contribuições mais os juros. Entretanto, a acumulação
é escritural, e não real, uma vez que o dinheiro pago aos
trabalhadores é imediatamente pago aos aposentados, em vez de ser
investido.
Na
Suíça, o crescimento do setor de seguros de vida, de empresas
de investimentos e de fundos mútuos têm sido estimulado pelos
planos previdenciários capitalizados obrigatórios. O Reino
Unido possui um sistema previdenciário público uniforme para
todos, patrocinado pelos empregadores. Já a previdência obrigatória
complementar coletiva ou individual é alternativa, encontrando-se
tal modelo em constante reforma. Nos Estados Unidos cada trabalhador escolhe
as entidades gestoras do investimento de suas próprias contas individuais
de aposentadorias, sendo certo que nos comprovantes de pagamento dos benefícios
já vem indicado quando os recursos financeiros terminarão.
Observa-se
que ao redor do mundo, a maioria dos países está reavaliando
seus sistemas de Previdência Social. Na medida em que a população
envelhece e os antigos sistemas de previdência passam a consumir
cada vez maior parte das receitas nacionais, as reformas tornam-se inadiáveis.
As reformas parecem sempre caminhar para a implantação de
sistemas conjugados de previdência pública, previdência
complementar obrigatória e previdência complementar voluntária.
No entanto, mesmo aqueles países que já adotaram esta proposição
ainda estão ajustando seus rumos, pois o envelhecimento da população
mundial é inexorável.
O
Brasil, portanto, pode contar com inúmeros paradigmas que podem
servir para a implantação de uma reforma previdenciária
séria, a qual, no entanto, deverá ser muito mais ampla do
que a mera discussão sobre o aumento das fontes de custeio e, portanto,
da carga tributária. (Ana Paula Oriola De Raeffray - Última
Instância)
Análises
fora do foco
A
Previdência Social continua na berlinda. As considerações
e propostas para ‘reformas’ são sempre baseadas em insuficiência
de recursos, longevidade, disparidade de idade nos casamentos, e coisas
tais que não justificam coisa alguma, porque não têm
sustentação. Nada tão difícil de ser entendido.
O foco das análises está errado! Basta que não se
permita desvio das receitas da Seguridade Social e tudo estará equilibrado.
Explicamos:
apesar dos desvios praticados, através da Desvinculação
de Receitas União (DRU) e renúncias sucessivas concedidas
a diversos segmentos da economia, a Seguridade Social, pagando todas as
despesas autorizadas, deixou no Tesouro Nacional o expressivo saldo de
R$ 58 bi, ao final do exercício de 2010, repetindo os anos anteriores.
É intrigante continuarem a usar o argumento do déficit (que
não existe!) para justificar reformas para a Previdência Social.
Se existisse o tal ‘rombo’, de onde tirariam os 20% da DRU? Claro que isso
é um engodo!
Por
outro lado, agravando o verdadeiro saque ao Orçamento da Seguridade
Social, ocorrem as sucessivas renúncias fiscais, que apartam do
orçamento quantias expressivas que se prestariam, isto sim, ao pagamento
dos precatórios dos segurados do INSS, à expansão
dos programas assistenciais e, tão urgentemente, à recuperação
dos serviços de saúde, precários em todo o Brasil.
Para nós, não existe outra prioridade que se possa sobrepor
a essas relacionadas.
Pior
é que têm coragem de considerar ‘generosos’ os benefícios
pagos pelo sistema. O teto desses pagamentos, que deveria estar em R$ 5.450,00
(dez salários mínimos), hoje só alcança o valor
de R$ 3.689,66 – amargando a perda de cerca de 30% do que seria esperado.
Aliás, as perdas impostas aos segurados chegam às raias do
inacreditável: como imaginar que se pudesse impor, no decorrer da
conquista dos direitos, o fator previdenciário? E o achatamento
do valor dos benefícios, resultante do uso de percentuais diferenciados
do concedido ao salário mínimo, para sua correção?
A integralidade de seu valor, infelizmente, é letra morta; só
cabe na Constituição Federal.
Temos
ainda o erro de se abolir o pecúlio especial, benefício que
remunerava o segurado que voltasse ao trabalho após a aposentadoria,
que também foi para o espaço, sem qualquer cuidado. Hoje
pensam em reimplantá-lo. E faz todo sentido: o princípio
básico da contrapartida, que existe na doutrina previdenciária,
foi desconsiderado quando resolveram banir o pecúlio.
Estão
assustados com a receptividade do Poder Judiciário ao pleito da
desaposentação. Não tem sustentação,
para o STF, o fato de o segurado contribuinte pagar contribuição
e não ter direito ao retorno de qualquer benefício que seja.
Amadorismo puro!
Gosto
muito de me referir e exaltar a capacidade técnica dos antigos pensadores
da Previdência Social, que organizaram os seus estamentos. Tudo lógico,
justo e seguro. Os ‘reformadores’, por outro lado, baseados em premissas
falsas, querem de qualquer forma reduzir ou extinguir direitos dos segurados.
O
foco correto é: executar os devedores da Seguridade Social; retirar
a DRU das receitas da Seguridade Social; suspender, definitivamente, a
concessão de renúncias fiscais sobre as receitas da Seguridade
Social; e devolver direitos legítimos aos segurados.
Isto
feito, estará sendo respeitado e garantido o artigo 201 da CF, quanto
ao ‘equilíbrio financeiro e atuarial’ que visa a proteger a Previdência
Social.
E,
a propósito, não conhecemos qualquer dispositivo legal que
permita a qualquer gestor, em qualquer nível, apoderar-se de recursos
vinculados às ações da Seguridade Social, ou desviá-los,
sob qualquer pretexto, ao arrepio do que reza o artigo 195 da nossa Carta
Magna. (Clemilce Sanfim - Anfip)
Como
quebrar a Previdência sem trabalho
A
Previdência Social brasileira é modelo para o mundo, melhor
do que aquelas que no passado eram consideradas inovações,
como a do Chile, hoje totalmente quebrada e à mercê das seguradoras
e dos bancos internacionais. Os trabalhadores perderam o seu futuro. Os
empresários vibram porque não pagam mais previdência.
No
Brasil, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) segue sendo a maior
seguradora da América Latina. Pagamos em dia 25 milhões de
aposentados e pensionistas urbanos e rurais do Regime Geral de Previdência
Social (RGPS) e 3,8 milhões de benefícios assistenciais.
Entre os 25 milhões, seguramente estão 10 milhões
que contribuíram pouco ou nada.
Fala-se
em déficit, mas como poderemos saber se é real, se existe
mesmo, se não sabemos sobre fiscalização, arrecadação,
recuperação de créditos, etc.?
Quando
falam ou escrevem sobre déficit, os "especialistas em Previdência"
de plantão se esquecem de mencionar as pessoas que se apropriaram
do dinheiro alheio, dos segurados urbanos: todos os caloteiros da dívida
administrativa e da dívida ativa do INSS, cujo valor correto não
sabemos, beneficiados pelos Refis (de 1 a 4) e pelas decisões judiciais
dos tribunais de qualquer instância. Há pouco divulgou-se
que, dos 577,9 mil caloteiros do Refis da Crise - já é o
quarto -, só 212,4 mil se apresentaram para pagar a dívida,
que era de R$ 1 trilhão e ficou reduzida a R$ 173 bilhões,
apenas 17% do total. Seguramente, é um escárnio para os bons
e corretos contribuintes. Os 365,5 mil caloteiros devedores de R$ 827 bilhões
aguardarão o Refis 5, que aparece às vésperas de eleições
gerais ou municipais.
Também
não falam ou escrevem sobre a longa lista dos benefícios
sem custeio adequado, cuja conta é paga pelos trabalhadores urbanos,
com um ônus desesperador. Fingem ou desconhecem que os segurados
rurais, do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural),
desde 1971 recebem pelo INSS, assim como os autônomos, segurados
especiais, etc.
Nossos
legisladores, que pouco ou nada entendem de Previdência Social, só
pensam em impor ao INSS mais assistencialismo, mais paternalismo, mais
fisiologismo, concedendo benefícios sem custeio e criando facilidades
para os caloteiros, no figurino do proselitismo político com o chapéu
alheio.
No
Senado, os senadores aprovaram projeto de lei complementar que reajusta
em 50% as tabelas de enquadramento das micro e pequenas empresas no Simples
nacional (Supersimples), sob o manto de empreendedor individual. Estão
criando um novo Funrural.
Aprovaram
também o projeto de lei do Executivo que instituiu a previdência
social para as donas de casa de baixa renda, que agora podem se aposentar
pagando somente 5% sobre o salário mínimo. A previsão
é de que 6 milhões de donas de casa serão beneficiadas
com a medida, mas deixaram as demais donas de casa num bonde de segunda
classe, mesmo tendo de contribuir com mais para se aposentar. Aprovaram,
ainda, a redução da contribuição da empregada
doméstica, sonhando com a formalização. Nos dois casos,
deram um tiro no pé.
A
pergunta que não quer calar é: quem paga a conta acima, sem
o devido custeio, os legisladores que procuram voto a qualquer preço,
as beneficiárias ou todo o povo?
O
preço com certeza será caro. Não existe previdência
que aguente tantos desmandos, tanta administração política,
sem que ninguém possa levantar a voz em favor dos aposentados. No
entanto, dão a eles um porcentual de "aumento" medíocre e
vão em busca do voto nas eleições, com promessas de
mudanças no próximo governo. Já vimos esse filme várias
vezes, eles vencem sempre, eles são os mocinhos e, infelizmente,
quem trabalha e paga em dia são os bandidos. (PAULO CÉSAR,
R. DE SOUZA - O Estado de S.Paulo)
Revisão
do Programa de Qualificação Operadoras
A
ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) colocou em discussão
com a sociedade, através da Consulta Pública 46/2011, já
encerrada, uma proposta de revisão do seu Programa de Qualificação
de Operadoras de planos de saúde, integrante do Programa de Qualificação
da Saúde Suplementar.
Oportunidade
de ampliação da portabilidade de carências nos planos
de saúde
O
Programa de Qualificação da ANS foi criado pela RN 139 de
24 de novembro de 2006, e desde então vem sendo revisado de tempos
em tempos, sendo esta a 4ª fase de revisão, na qual se pretende
efetuar a reformulação do IDSS (Índice de Desempenho
da Saúde Suplementar) do Programa de Qualificação
de Operadoras, principalmente no que se refere à dimensão
“satisfação do beneficiário”, sendo que nesta dimensão
o mais difícil é encontrar instrumentos que efetivamente
meçam a satisfação dos beneficiários de planos
de saúde.
Este
Programa de Qualificação das Operadoras avalia, anualmente,
o desempenho das operadoras com registro ativo na ANS que comercializam
planos de saúde por meio do IDSS, que é composto por
diversos indicadores agregados nas seguintes dimensões:
1
- dimensão da atenção à saúde, que avaliará
a qualidade da assistência à saúde prestada aos beneficiários;
2
- dimensão econômico-financeira, que consiste na avaliação
da situação econômico-financeira da operadora frente
à manutenção dos contratos assinados de acordo com
a legislação vigente;
3
- dimensão de estrutura e operação, que consiste na
avaliação do modo de produção da operadora;
e
4
- dimensão de satisfação dos beneficiários,
que consiste na avaliação que o beneficiário fará
do cumprimento ao estabelecido no contrato com a operadora.
Atualmente,
o IDSS da operadora é calculado a partir do somatório dos
índices de desempenho da dimensão da seguinte forma ponderada:
(I) 50% para a dimensão da atenção à saúde;
(II) 30% para a dimensão econômico-financeira;
(III) 10% para a dimensão de estrutura e operação
e (IV) 10% para a dimensão da satisfação do beneficiário.
Segundo
consta na exposição de motivos da CP 46, diante das mudanças
no mercado de saúde suplementar, foi identificada a necessidade
de revisão dos principais parâmetros atinentes ao Programa
de Qualificação Operadoras, principalmente no que se refere
à dimensão satisfação do beneficiário.
A
minuta de Resolução Normativa proposta apresenta algumas
alterações a tal programa. A primeira delas consiste a mudança
no peso dos índices de desempenho no cálculo do IDSS da operadora,
de forma que o somatório dos índices de desempenho
da dimensão passem a ser calculados da seguinte forma ponderada:
(I) 40 % para a dimensão da atenção à saúde;
(II) 20 % para a dimensão econômico-financeira;
(III) 20% para a dimensão de estrutura e operação;
e (IV) 20% para a dimensão da satisfação do beneficiário
Esta
proposta de alteração implica no aumento do peso do quesito
“satisfação do beneficiário” em 100% para a composição
do cálculo do IDSS.
Esta
alteração mostra-se bastante positiva, por possibilitar maior
participação dos beneficiários nas avaliações
das operadoras pela ANS, bem como dar maior relevância à satisfação
do consumidor ao avaliar a qualidade das operadoras, equiparando-a a outras
questões de mesma relevância como o equilíbrio econômico
financeiro e as condições de estrutura e operação.
Outra
sugestão de alteração proposta pela ANS consiste na
possibilidade de inclusão, na avaliação de desempenho
das operadoras, a partir do ano base de 2012, na dimensão de satisfação
de beneficiários, de novo indicador, que terá como base uma
Pesquisa de Satisfação de Beneficiários.
A
pesquisa terá sua metodologia desenvolvida pela ANS, de forma padronizada
e adequável a qualquer operadora, que poderá optar pela realização
de sua pesquisa por livre contratação de empresa para coleta
de informações, em conformidade com a metodologia e
regras de detalhamento dispostas em Instrução Normativa
a ser editada pela DIGES (Diretoria de Gestão).
Esta
é outra alteração positiva, já que a aplicação
de uma pesquisa de satisfação mostra-se indispensável
para a avaliação das operadoras quanto à efetiva satisfação
dos beneficiários, já que atualmente todos os critérios
utilizados são de inferência indireta e estão longe
de serem ideais.
De
acordo coma Agência, a metodologia de aplicação
da pesquisa será editada posteriormente por Instrução
Normativa. Porém, é indispensável a pesquisa seja
fiel aos conceitos de qualidade dos beneficiários, sendo que estes
deverão ser ouvidos preliminarmente à elaboração
da mencionada metodologia a fim de que os itens a serem avaliados correspondam
aos elementos julgados importantes, pelos próprios consumidores,
para sua satisfação.
Já
a minuta de Instrução Normativa e seus anexos apresentados
nesta Consulta Pública estabelecem critérios para a mensuração
dos indicadores das quatro dimensões que, no que diz respeito à
satisfação dos beneficiários, são os seguintes:
(I) proporção de permanência dos beneficiários;
(II) proporção de beneficiários com desistência
no primeiro ano; (III) sanção pecuniária em primeira
instância; (IV) índice de reclamações; e (V)
pontuação bônus da ouvidoria.
Com
relação aos critérios da proporção de
permanência dos beneficiários e de desistência no primeiro
ano, fácil notar que a permanência do consumidor no plano
de saúde, seja ela pelo período de 12 ou 36 meses,
não está ligada necessariamente à sua satisfação
com os serviços prestados, haja vista que, muitas vezes, não
há troca de operadora simplesmente porque o consumidor não
possui requisitos para obter a portabilidade de carências ou por
conta dos custos iniciais envolvidos na contratação de um
novo plano, o que faz com que estes critérios sejam bem longes dos
ideais para media a satisfação do consumidor.
Já
o critério de sanção pecuniária em primeira
instância, que consiste nas multas aplicadas às operadoras,
decorrentes de processos julgados pela ANS, em primeira instância,
no ano avaliado, cumpre observar que é de extrema importância
verificar o registro, na ANS, das infrações cometidas pelas
operadoras, a fim de medir a qualidade dos serviços prestados pelas
operadoras.
No
entanto, para que tal ocorra da melhor forma, deve haver um critério
mais aprimorado, devendo a ANS contabilizar não somente o somatório
dos valores aplicados como sanção às operadoras, mas
também fatores como gravidade da infração e a reincidência
da operadora.
Também
a proposta apresentada para o critério do índice de reclamações
merece algumas considerações. Isso porque a ANS propõe
que seja considerado o total de reclamações que a ANS recebe
no ano dos consumidores de planos privados de saúde contra a operadora,
excluindo as reclamações julgadas como não procedentes,
que são demandas finalizadas preliminarmente, antes da abertura
do processo administrativo sancionador, por falta de indícios de
infração.
Ocorre
que, para que este critério ajude a apurar efetivamente a satisfação
do beneficiário de plano de saúde, as reclamações
improcedentes devem ser contabilizadas também. Isso porque, conforme
a definição constante neste mesmo documento, o índice
de reclamações é conceituado como “atuação
das operadoras do ponto de vista do consumidor que, ao julgar não
ter tido respeitado seu direito, dirige-se a ANS para solicitar orientação,
análise e julgamento da questão”. E a procedência ou
não de uma reclamação feita pelo consumidor representa
o ponto de vista da ANS, e não deste. Ou seja, qualquer reclamação
feita pelo consumidor, seja ela julgada procedente ou não, representa
sua insatisfação, haja vista que, caso contrário,
o beneficiário não se daria o trabalho de tomar conhecimento
da ANS e contatá-la.
Por
fim, a ANS pretende criar uma pontuação bônus que será
atribuída ao resultado do IDSB (Índice de Desempenho na Dimensão
de Satisfação do Beneficiário) para as operadoras
que possuírem ouvidorias estruturadas, com o cumprimento integral
dos requisitos propostos pela Agência.
Porém,
dados os evidentes problemas de qualidade que o setor de planos de saúde
apresenta, é questionável o fato de a ANS optar por exercer
sua competência no tema através da instituição
de um programa de incentivo à instituição de ouvidorias.
O
cenário atual do setor regulado aponta para outra direção:
a necessidade de estabelecimento de critérios mais claros e compulsórios
de atendimento pelas às reclamações dos consumidores
de serviços prestados pelas operadoras de planos de saúde.
Vale
notar que recentemente a ANEEL ( Agência Nacional de Energia Elétrica)
disponibilizou a Audiência Pública 46/2011 para obter subsídios
à proposta de regulamentação das Ouvidorias das concessionárias
de serviço público de distribuição de energia
elétrica. E essa Agência Reguladora propôs a implantação
obrigatória da Ouvidoria para todas as distribuidoras de energia
elétrica.
Assim,
a escolha de mero programa de incentivo à criação
de ouvidorias mostra-se o caminho mais frágil e inefetivo para a
solução dos problemas de atendimento às demandas dos
consumidores pelas operadoras de planos de saúde.
Diante
deste cenário, em 01/11/2011, o IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa
do Consumidor) enviou suas contribuições a esta Consulta
Pública da ANS, com as seguintes sugestões:
a)
A revisão e aprimoramento dos critérios “proporção
da permanência dos beneficiários” e “proporção
de beneficiários com desistência no primeiro ano”, por conta
de não significarem, necessariamente, a satisfação
dos consumidores;
b)
Que o critério “sanção pecuniária em primeira
instância” apresente, além do valor do somatório das
multas aplicadas pela ANS às operadoras, informações
conclusivas sobre a gravidade da infração e reincidência
da operadora;
c)
Que o critério “índice de reclamações” considere
todas as reclamações recebidas pela ANS, sejam elas consideradas
procedentes ou improcedentes pela agência;
d)
Que, ao invés de de criação de uma pontuação
bônus para incentivar a criação de Ouvidorias, a ANS
elabore uma regulamentação determinando a obrigatoriedade
de todas as operadoras criarem este órgão; ou, no mínimo,
que, para terem direito a tal pontuação bônus, as operadoras
devam criar Ouvidorias com as especificações adicionais sugeridas
pelo Idec; e
e)
Que a pesquisa de satisfação dos beneficiários, a
ser aplicada a partir do ano base de 2012, esteja de acordo com os conceitos
de qualidade dos beneficiários, que deverão ser ouvidos preliminarmente
à elaboração da pesquisa, para que a avaliação
contemple elementos de satisfação julgados importantes pelos
próprios consumidores.
Portanto,
é positiva a proposta de revisão do Programa de Qualificação
de Operadoras da ANS, no que tange à satisfação do
beneficiário, com algumas ressalvas e possíveis melhorias.
E,
como ressaltou o Idec em suas contribuições, é importante
para o consumidor ter informações sobre a qualidade dos planos
de saúde, mas não basta informá-lo, é necessário
que a ANS utilize os dados coletados para fiscalizar e punir as operadoras
que são avaliadas negativamente. (Juliana Ferreira - Última
Instância)
A Geladeira
e a Saúde
O
mercado de geladeiras vem sofrendo a influência do efeito estufa
e da mudança de clima que afeta o mundo nas últimas décadas.
A utilização do CFC e do consumo de energia elétrica
é objeto de regulação em muitos países, a qual
a indústria tem respondido com eficiência produzindo novos
modelos desprovidos desse gás e cada vez mais eficientes do ponto
de vista do uso de energia elétrica. O aumento de temperatura do
globo terrestre tem ampliado a expectativa de vendas e o número
de modelos é cada vez maior, com duas portas, freezer na parte superior,
na parte inferior, com dispensador de água ou gelo na porta, tamanhos
e capacidades das mais diversas, estilos modernos ou retrô, cores
e tonalidades das mais variadas, além da incorporação
da tecnologia digital que possibilita a programação do descongelamento
de alimentos automaticamente ou controlados por wireless.
Com
toda essa diversidade o consumidor tem sempre alguma dificuldade para escolher
o refrigerador que melhor se adapta a sua necessidade, mas o processo de
comparação de tamanhos, design, consumo de energia, preços,
estilo da cozinha onde será colocada e de outras informações
que estão totalmente disponíveis nos manuais e que podem
ser constatadas in loco, permitem que esse consumidor compre o produto
que o atenda integralmente.
Assim
é o mercado de geladeiras, em que há a necessidade de propaganda
para que os atributos dos produtos sejam divulgados e gerem a vontade no
consumidor de trocar de equipamento e onde o vendedor é treinado
pela indústria para destacar esses atributos e ajudar a esclarecer
as dúvidas que eventualmente surjam nesse processo.
Vamos
pensar agora no mercado da saúde e compará-lo com o mercado
de geladeiras: na saúde o consumidor ou paciente não tem
a sua disposição todas as informações para
fazer a escolha do melhor tratamento que atenderá suas necessidades.
Essas informações são do médico e essa decisão
é realizada por esse profissional, que detém todo o conhecimento
sobre a tecnologia a ser utilizada para o diagnóstico e o tratamento
do paciente, de forma isenta e sempre pensando no melhor resultado para
esse, ou deveria ser dessa forma.
Será
que é assim que acontece? Será que a indústria de
equipamentos, medicamentos, materiais e de prestação de serviços
de saúde não atua como a indústria de geladeiras,
fazendo propaganda de seus produtos e treinando os seus vendedores para
que os pacientes consumam mais das suas marcas e produtos? Será
que a indústria da saúde, com o seu aspecto social e relevância
para as populações deve estar submetida a esse modelo de
mercado, colocando o cuidado do paciente como uma forma de comercialização
de produtos?
Esses
questionamentos têm sido feitos já há muitos anos por
todos os governos e países no mundo e alguns escolheram por transformar
a indústria da saúde num modelo de pleno mercado, como é
o caso dos Estados Unidos, em que a propaganda de medicamentos e de tratamentos
é feita em todas as mídias, os especialistas nas tecnologias
são a maioria dos profissionais médicos e os hospitais são
os locais preferidos para o cuidado do paciente. Esse modelo tem se mostrado
muito caro e de pouca eficiência para resolver o problema dos pacientes,
por outro lado a indústria tem bons resultados.
Em
outros países, como em quase toda a Europa, Canadá, Austrália,
entre outros, se resolveu que a indústria estaria a serviço
das suas populações e que o modelo teria um controle maior
por parte do Estado. Nesses o cuidado do paciente é feito por um
médico generalista, que é muito prestigiado pelo amplo conhecimento
que detém e pelos resultados que consegue, e o especialista está
no ápice de uma pirâmide como referência para os casos
mais complexos e que necessitam da sua intervenção. Nesse
modelo o número de médicos generalistas e especialistas é
controlado pelo Estado, que define o número de vagas para sua formação
de acordo com as necessidades da população, sendo que em
nenhum deles há menos do que 35% de vagas para especialização
em medicina geral. Os resultados obtidos com esse modelo são melhores
e com menores custos que o do mercado (vide http://gamapserver.who.int/mapLibrary/).
E
no Brasil que modelo adotamos? Ambos, com predominância do modelo
de mercado, pois esse tem um volume maior de recursos (56% dos gastos do
país) e detém o poder de direcionamento da formação
de especialistas, que sobram nos grandes centros e estão ausentes
nas periferias e interior do país.
Já
no sistema público, o SUS, o modelo é do médico generalista
que, entretanto, não tem candidatos para suas vagas, por total falta
de prestígio, num mercado que dá muito valor e propagandeia
a sofisticação tecnológica como a melhor forma resolução
dos problemas de saúde.
O
brasileiro sabe escolher geladeiras e o faz bem, porém tem sido
levado a achar que saúde também segue o mesmo modelo de compra,
apesar de que as lojas públicas não tem o produto que procuram.
Com
perspectivas de aumento de recursos para o SUS, através da regulamentação
da emenda 29, está na hora de se repensar o modelo da indústria
da saúde no Brasil. O médico, figura central desse processo,
tem papel importantíssimo na mudança e deve rever conceitos
e bandeiras, defender um SUS que remunere de forma adequada o médico,
ampliando em muito o número de generalistas, que controle as vagas
das residências médicas, priorizando as de generalista e das
especialidades básicas.
As
escolas médicas não devem ser fechadas, mas sim melhoradas
– no Brasil há 17 médicos para cada 10 mil habitantes, na
Europa a média dos países é de 35 médicos para
cada 10 mil habitantes (1).
Os
profissionais da saúde não médicos contribuirão
com a melhoria e ampliação da assistência assumindo
maiores responsabilidades no atendimento dos pacientes, deixando para os
médicos os problemas que necessitam do seu conhecimento e habilidade
– em grande parte dos países uma receita de óculos é
fornecida por um profissional técnico e os oftalmologistas estão
centrados nas doenças dos olhos que somente eles podem tratar (catarata,
glaucoma, degeneração macular), por exemplo.
A
discussão desses temas deve ser ampliada de modo a permitir que
o cidadão brasileiro possa optar entre consumir saúde como
geladeiras ou ter um sistema que atenda suas necessidades e que melhore
sua vida.
Referencias:
1.
World health statistics 2011; WHO Library Cataloguing-in-Publication Data;
World Health Organization; http://www.who.int/whosis/whostat/EN_WHS2011_Full.pdf
(Silvio Possa - Saúde Business Web)
Futuro do transplante de
órgãos
Além de não
causar rejeição, outra importante vantagem desse novo método
é a de aumentar a disponibilidade de órgãos para transplantes
A evolução
da medicina e da cirurgia é marcada por inovações
que resultam em progressos exponenciais. Na língua inglesa, são
denominados "breakthroughs". Thomas Edison não produziu uma vela
com chama mais forte. Inventou a lâmpada baseada na incandescência
a vácuo de um filamento de carvão e revolucionou o setor.
Da mesma forma, estamos
presenciando um "breakthrough" na tecnologia dos transplantes que abre
novos horizontes para esse procedimento, justamente considerado o maior
progresso da cirurgia no século 20. Consiste em nova tecnologia
que emprega órgãos "modificados" ("engineered organs").
Para compreendê-la,
devemos lembrar que os órgãos sólidos atualmente transplantados
são formados por uma matriz de sustentação e por um
conjunto de células mais nobres, denominado parênquima, que
realiza suas funções.
A matriz extracelular é
pouco ou nada antigênica, ou seja, não é rejeitada
pelo receptor.
A nova tecnologia inclui:
1 - Retirada de todas as
células do parênquima do órgão a ser transplantado
por meio de uma lavagem com soluções contendo detergentes,
enzimas e outros produtos com capacidade seletiva, isto é, de retirar
apenas as células do parênquima, preservando a matriz (a chamada
descelularização).
2 - Biopsia do órgão
do receptor a ser substituído e separação das células
do seu parênquima.
3 - Recelurização
da matriz do órgão a ser transplantado por células
do parênquima da biópsia ou por células-tronco do receptor.
4 - Oxigenação
da matriz durante o tempo necessário para que estas células
se multipliquem até reconstruir todo o parênquima.
5 - Transplante desse órgão
"modificado", que não é rejeitado, uma vez que seu parênquima
é constituído por células do próprio receptor.
O método já
foi usado com sucesso em humanos para transplante de pele, bexiga, pericárdio,
válvulas cardíacas e traqueia. Pesquisadores da Universidade
Harvard (EUA) já conseguiram transplantar fígados em roedores
e prevê-se que, em cinco anos, também transplantes de rim,
coração e pulmão sejam realizados com a nova técnica.
Além de não
causar rejeição, outra grande vantagem do novo método
é aumentar a disponibilidade de órgãos para transplante.
De fato, como os constituintes
da matriz são mais resistentes à falta de oxigênio
do que as células do parênquima, abrem-se perspectivas para
o aproveitamento de órgãos também de doadores com
coração parado. Atualmente, a captação de órgãos
sólidos se limita a doadores com morte encefálica (com o
coração ainda batendo).
Essa dependência,
além de diminuir a captação como um todo, exige equipamento
e pessoal especializados, nem sempre disponíveis nos hospitais que
atendem regularmente doadores em potencial.
Como foi feito para o desenvolvimento
da tecnologia atual, centros nacionais de pesquisa em transplante deveriam
iniciar desde já projetos experimentais com a nova metodologia,
mantendo sua tradição que nos trouxe até aqui: caminhar
sempre com os pés firmes no chão, mas com os olhos nas estrelas.
(SILVANO RAIA - Folha de S.Paulo)
Um
longo amanhã
Ninguém
quer morrer, disse Steve Jobs. No discurso para formandos da Universidade
de Stanford que entraria para a história, o fundador da Apple continuou
o raciocínio: "Ainda assim, a morte é o destino que todos
nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim
deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção
da vida. É o agente de mudança da vida."
Jobs
inventou a nossa relação com a tecnologia, porém sucumbiu
à "principal invenção da vida" mais cedo do que o
esperado. Morreu aos 56 anos, enquanto a expectativa de vida para homens
nascidos nos Estados Unidos em 1955 era de 66,6 anos. Mas a morte do empresário,
vítima de um câncer pancreático, poderá ser
vista no futuro como ainda mais precoce. Da mesma forma como hoje nos espantamos
com mortes que seriam evitadas no passado com um simples antibiótico,
poderemos lamentar que o gênio da tecnologia não tenha chegado
a usufruir de avanços que estavam tão próximos em
áreas como terapia genética e reconstrução
de órgãos. Para alguns cientistas, estamos às vésperas
de uma extensão radical na longevidade humana, e a primeira pessoa
que viverá 150 anos já nasceu.
Mas
será que Jobs gostaria de viver tanto, se tivesse o pâncreas
reconstruído pela engenharia de tecidos e o câncer debelado
por genes terapêuticos? A julgar pelo discurso em Stanford e pela
hesitação diante da cirurgia indicada na ocasião para
extirpar o seu câncer, talvez não. Motivações
filosóficas, porém, tendem a ser ofuscadas em debates sobre
a existência humana quando entra em cena a promessa grandiosa de
uma vida prolongada, com saúde e menos sofrimento. "Chegará
um tempo em que problemas de saúde serão raros, assim como
hoje são raras as doenças infecciosas nos países desenvolvidos",
afirma a futuróloga Sonia Arrison, que acaba de lançar nos
Estados Unidos o livro "100 Plus: How the Coming Age of Longevity Will
Change Everything, From Careers and Relationships to Family and Faith"
(Basic Books, 2011).
Neurocientista
impressionou ao afirmar que "estamos próximos do instante em que
o cérebro vai se libertar dos limites físicos do corpo"
A
previsão de que nossa longevidade dobrará neste século,
amparada por cuidadosa pesquisa em torno de progressos comprovados na medicina
e na biotecnologia, destaca o livro de Sonia no segmento de títulos
que prometem revelar os segredos de uma vida longa e saudável, um
filão crescente nos Estados Unidos. O assunto empolga também
no Brasil, onde o interesse vai desde as 150 pílulas alternativas
tomadas diariamente pela jornalista Glória Maria para retardar o
envelhecimento até os avanços obtidos por pesquisadores brasileiros
como o neurocientista Miguel Nicolelis, que impressionou a plateia da última
Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) ao afirmar que "estamos
próximos do instante em que o cérebro vai se libertar dos
limites físicos do corpo".
Depois
de desenvolver uma nova técnica cirúrgica, baseada na simulação
elétrica da medula espinhal, testada como novo tratamento para o
mal de Parkinson, Nicolelis criou uma interface cérebro-máquina
que poderá ser desenvolvida junto com um exoesqueleto robótico
de corpo inteiro. Ou seja, além da substituição de
órgãos que começam a falhar por outros feitos sob
medida com nosso DNA, como se fossem peças de um automóvel,
podemos no futuro prescindir do corpo inteiro, envelhecido, enquanto nosso
cérebro estiver saudável.
O
cenário de ficção científica pode parecer exagerado
se considerarmos que o experimento de Nicolelis envolve até agora
macacos e o sucesso da terapia genética para retardar o envelhecimento,
e também a evolução de doenças degenerativas,
foi comprovado apenas em animais de laboratório. Exageros, de fato,
existem. O gerontologista inglês Aubrey de Grey, por exemplo, caiu
em descrédito ao prever que a próxima geração
viverá mil anos, quando os experimentos mais espetaculares de manipulação
genética possibilitaram uma vida seis vezes maior apenas em um pequeno
verme - o "Caenorhabditis elegans", alterado geneticamente pela biologista
molecular Cynthia Kenyon, da Universidade da Califórnia.
No
entanto, longe dos laboratórios já há resultados concretos
- e impressionantes - de cura em humanos, a partir da utilização
de células-tronco, envolvendo casos de cegueira e de alguns tipos
de câncer. Sonia Arrison destaca a história de uma mulher
de 30 anos, Claudia Castillo, que precisava de um transplante de traqueia
depois de ter sofrido danos irreversíveis em seus órgãos
respiratórios por causa da tuberculose. Os médicos usaram
a traqueia de um doador, limparam-na com substâncias químicas
para matar todas as células e revestiram a estrutura que restou
com células da própria paciente - evitando, assim, a rejeição
ao órgão doado.
O
sucesso da cirurgia foi considerado emblemático da nova fase da
medicina regenerativa, cujo financiamento conta com a ajuda decisiva do
Departamento de Defesa americano. "O governo dos Estados Unidos vem aplicando
muito dinheiro nesse campo porque gostaria de ser capaz de recuperar os
soldados que voltam para casa com sérios ferimentos", diz a escritora
americana. "O [projeto] Genoma Humano redundará em imensos progressos
e novas formas de tratamento", prevê também o médico
brasileiro Alexandre Kalache, que chefiou o Programa de Envelhecimento
e Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS)
e é conselheiro em envelhecimento da Academia de Medicina de Nova
York. "Para uma minoria, com acesso à alta tecnologia, talvez não
haja limites do que possa ser feito no sentido de oferecer-lhe longevidade
com saúde."
A
questão levantada por Kalache é um dos poucos pontos a preocupar
a otimista Sonia. Tudo indica que aumentará a disparidade entre
a esperança de vida de uma elite e o resto da população
mundial, que pode contar no máximo com os anos extras proporcionados
por mudanças no estilo de vida - fugindo do cigarro, do excesso
de álcool, do sedentarismo e das dietas pouco saudáveis.
Kalache prefere "pôr os pés na terra" e fugir das especulações
sobre o bebê que terá 150 ou mil anos. "Não estou interessado
nelas", diz. "O que mais me entusiasma é a nossa compreensão
sobre a importância de nossos hábitos de vida e dos fatores
sociais que determinam o envelhecimento saudável e ativo."
Além
de problemas éticos e existenciais, a longevidade implica a redefinição
dos sistemas de previdência e seguridade
Já
Sonia torce para que os avanços tecnológicos rumo à
expansão da longevidade cheguem rápido às camadas
menos favorecidas da população global, pulando etapas, assim
como os celulares se tornaram acessíveis em países que mal
tinham um sistema de telefonia fixa. "Historicamente, a distribuição
das novas tecnologias vem se acelerando", lembra. Além disso, na
prática, a humanidade já estaria dividida em categorias que
vivem mais ou menos tempo, sem que para isso se desenhem cenários
de ficção científica: "Uma pessoa morando em Mônaco
pode esperar viver 89 anos, enquanto outra em Angola tem uma expectativa
de apenas 38 anos", compara a escritora.
A
esperança de vida ao nascer, ressalta o demógrafo José
Eustáquio Alves, é uma média muito influenciada pela
mortalidade infantil - o que de certa forma explica o seu expressivo crescimento
à medida que mortes de crianças são evitadas. O resultado
é que nas últimas seis décadas a população
mundial tem ganhado 2,5 anos de vida a cada 10 anos, o que representou
um acréscimo de 15 anos. "Os otimistas acreditam que esse ritmo
vai continuar", diz Alves, professor titular do mestrado em estudos populacionais
da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE.
De qualquer forma, como a taxa de fecundidade vem caindo, a população
mundial envelhece rapidamente, inclusive no Brasil, onde o número
de pessoas com mais de 90 anos aumentou de 261 mil em 2000 para 449 mil
em 2010, um salto de 72%, segundo dados do IBGE.
Alves
é cético em relação ao ritmo de aumento da
longevidade porque o impacto da redução de mortes precoces
deve diminuir, ao mesmo tempo em que o ser humano parece ter encontrado
uma espécie de limite documentado para a espécie. Oficialmente,
o recorde de longevidade pertence à francesa Jeanne Calment, que
morreu em 1997 aos 122 anos. No ano passado, a brasileira Maria Gomes Valentim,
moradora de Carangola (MG), chegou a deter o título de "decano da
humanidade", reconhecido pelo Guinness World Records, mas morreu pouco
antes de completar 115 anos. "Passar dos 100 anos está fácil",
diz Alves. "Mas os estudiosos perceberam que ultrapassar os 115 é
quase impossível, como se esse fosse um limite, do cérebro
e do corpo."
O
limite atual seria dado pela nossa divisão celular, afirma o presidente
da Academia Brasileira de Medicina Antienvelhecimento, Kose Horibe. "Como
nossas células têm potencial para se dividir 54 vezes, nosso
corpo pode viver até 120 anos, se atrasarmos cada fase da divisão
celular." É aí que entram as medidas antienvelhecimento,
que pautam a entidade criada nos moldes da academia americana, difusora
do conceito repudiado por gerontológos que defendem o envelhecimento
como um processo natural - e não a ser evitado.
Quem
pretende adiar ao máximo o envelhecimento deve, por exemplo, seguir
uma dieta bastante restritiva do ponto de vista calórico, o que
comprovadamente retarda o processo de divisão das células.
Horibe, que tem 70 anos, faz a dieta, assim como segue as indicações
do livro "The Project Longevity", no qual os pesquisadores Howard Friedman
e Leslie Martin analisaram um estudo de oito décadas com 1.500 americanos
desde a infância, concluindo sobre quais hábitos levam à
longevidade, como a maneira de pensar e se exercitar.
Cirurgião
plástico com doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo (USP), Horibe acompanha os estudos antienvelhecimento
internacionais e reconhece que é preciso desconfiar das novidades.
"Existe um comércio grande em torno de efeitos miraculosos." Mas
se entusiasma diante dos experimentos com comprovação científica:
"A prevenção do envelhecimento tende a ficar mais eficaz
com os diagnósticos de doenças latentes. As tecnologias da
substituição vão permitir transplantes feitos a partir
do nosso DNA, e poderemos trocar partes preventivamente, como fazemos com
os carros."
A
comparação entre corpos e automóveis, presente também
no livro de Sonia Arrison, é um prato cheio para filósofos.
"A tecnociência contemporânea se move em direção
a um projeto de ultrapassagem da finitude", diz Maria Cristina Franco Ferraz,
doutora em filosofia pela Universidade de Paris I-Sorbonne e professora
titular de teoria da comunicação da Universidade Federal
Fluminense (UFF). "Enquanto no século XIX o avanço visava
a um aprimoramento das condições da vida humana sobre o planeta,
na contemporaneidade ele passou a almejar a superação da
insistente tendência do 'orgânico' ao envelhecimento, à
obsolescência e à degradação."
Na
medida em que envelhecer deixa de ser "natural" e perde qualquer sentido
positivo, surgem novos problemas éticos e existenciais, diz Maria
Cristina. Evitar o envelhecimento tornou-se um "imperativo e dever moral",
que solicita a responsabilização pelo próprio corpo,
pela saúde e pelas doenças. Para aumentar a angústia
de quem conta rugas no espelho e faz check-up anual, ela acrescenta que
o envelhecimento contraria valores das sociedades liberais avançadas,
tais como autonomia e independência social e financeira.
"Envelhecer,
em nossa cultura, passou a ser algo pelo qual somos responsáveis,
se não quisermos viver o inferno da 'dependência' em uma sociedade
em que laços afetivos duradouros vão visivelmente se esgarçando",
afirma Maria Cristina, autora de "Homo Deletabilis: Corpo, Percepção,
Esquecimento: do Século XIX ao XXI" (Garamond/Faperj). "Os eufóricos
a respeito da busca da longevidade talvez não tenham se dado conta
dessas questões." A filósofa termina se perguntando, como
outros entrevistados desta reportagem: e por que seria melhor viver muito
tempo?
Em
"100 Plus...", Sonia Arrison rebate as críticas ao que alguns já
chamam de "tecnolongevidade". "Argumentos contra a extensão da vida
são muitas vezes simplesmente um apelo ao status quo. Dizem que,
se os seres humanos vivessem mais, o mundo de alguma forma seria menos
nobre, belo ou emocionante. Mas o que há de nobre, belo e emocionante
na deterioração e no declínio? O que é moralmente
suspeito em amenizar o sofrimento humano?" Ela enfatiza que o motivo de
seu otimismo reside não no prolongamento da vida em si, mas no prolongamento
da saúde humana. Indagada sobre quantos anos gostaria de viver,
ela responde que almeja o máximo possível - com saúde.
Com
corpo e mente saudáveis, de qualquer forma, outras questões
terão de ser enfrentadas, nos relacionamentos, no trabalho e nas
finanças. Enquanto os governos, desde já, precisam reavaliar
seus sistemas de previdência e seguridade, do ponto de vista individual
a aposentadoria deveria ser redefinida como um tempo livre para o retreinamento
para uma nova carreira, diz Sonia, apresentando estudos que mostram a longevidade
produtiva como fator de enriquecimento dos países. Com uma expectativa
média de 150 anos, mais casamentos serão possíveis
ao longo da vida, poderá haver maior diferença de idade entre
cônjuges e também entre irmãos - o número de
pais idosos tenderia a aumentar com o congelamento de óvulos e a
evolução das tecnologias de reprodução.
Esse
futuro pode ser distante para a maioria, mas para Glória Maria parece
bem palpável. "Se puder, estico a vida até uns 180 anos",
afirma a jornalista do "Globo Repórter". "Agora que tenho minhas
filhas, serei obrigada a viver pelo menos mais 50 anos." Glória
não diz com quantos anos se tornou mãe das filhas adotivas
Maria e Laura, de dois e três anos, para não revelar a idade
- estimada em "terceira idade" pelas revistas de celebridades que a perseguem
atrás da fórmula de sua aparência jovem. "Uso tudo
o que estiver à disposição", resume. Além de
não beber álcool, não fumar nem comer carne vermelha,
toma cerca de 150 pílulas ao longo do dia. "Fui incorporando o que
eu descobria, por isso são tantas."
As
"descobertas" se referem mais a substâncias naturais e alternativas
do que a novidades científicas - que ela, no entanto, não
descarta utilizar. "Trocaria um órgão meu que estivesse com
problemas, mas não substituiria preventivamente. Aí já
é birutice total." Influenciada pelas reportagens que fez viajando
pelo mundo quando era apresentadora do "Fantástico", a jornalista
incluiu no seu arsenal "anti-aging" excentricidades como ninhos de passarinho
importados da China, cujos microorganismos agiriam na elasticidade da pele.
"Se funcionou com os samurais, por que não vai funcionar comigo?",
pergunta.
O
motivo de ela se empolgar mais com as novidades da medicina alternativa
do que com a tecnologia foi a sua observação dos hábitos
de pessoas centenárias - de uma comunidade isolada no Japão
à sua avó, que morreu lúcida aos 104 anos. "Eu aceitaria
ficar congelada por dez anos se me garantissem a fórmula da imortalidade
quando eu acordasse", afirma. "Acho morrer uma inutilidade."
A
imortalidade na literatura, retratada quase sempre de forma sombria, é
citada por aqueles que temem o prolongamento da vida. Em "Todos os Homens
São Mortais", de Simone de Beauvoir, um conde que toma o elixir
da juventude se cansa de tentar mudar o destino da humanidade, cita o demógrafo
Alves, para justificar a idade com que gostaria de morrer: "Cem anos está
bom. A fila anda." O médico Kalache cita "As Intermitências
da Morte", romance de José Saramago no qual a morte é abolida
de um país, para rechaçar o desejo da imortalidade: "Ela
roubaria da humanidade sua inocência e humildade. Viver em um mundo
arrogante seria um martírio para mim." Já a filósofa
Maria Cristina lembra de "Os Imortais", conto de Jorge Luis Borges que
narra o "tédio mortal sentido pelos que nunca morrem": "O fato de
sermos os únicos a sabermos que vamos morrer é um aguilhão
que dá sabor e intensidade à vida. Além disso, é
uma grande generosidade saber sair de cena para que novos seres nasçam."
E
voltamos assim ao discurso de Steve Jobs, que precocemente abriu o seu
lugar para Tim Cook na Apple ou para outro gênio da tecnologia talvez
presente na formatura de Stanford: "A morte é o agente de mudança
da vida", continuou o discurso. "Ela limpa o velho para abrir caminho para
o novo. Neste momento, o novo é você. Mas algum dia, não
muito distante, você gradualmente se tornará um velho."
(Marta Barcellos - Valor Online)
Aposentadoria
não é hora de “pendurar as chuteiras”
Com
o aumento da expectativa de vida, profissionais não abandonam o
trabalho quando começam a receber o benefício de anos de
contribuição para a Previdência
Chegar
à aposentadoria não significa necessariamente “pendurar as
chuteiras”. Especialistas ressaltam que a atividade exercida durante toda
a vida pode chegar ao fim, mas o momento pode ser o começo de novos
projetos, como o próprio negócio ou a prestação
de consultoria na área em que o profissional é especializado.
A
diretora de uma das lojas da rede de supermercados Mercadorama Maria
da Penha dos Reis trabalha há 29 anos na mesma empresa e em 2012
vai se aposentar – apenas formalmente, porque suas atividades vão
continuar iguais. “Este foi o meu primeiro emprego, comecei como balconista
e sei que ainda tenho muito a oferecer. Vou me aposentar porque este é
um direito meu, mas vou continuar a trabalhar. O meu emprego faz parte
da minha rotina, do meu bem-estar”, conta Maria da Penha, que tem 45 anos.
De
acordo com especialistas, a aposentadoria hoje não é sinônimo
de tricô para as mulheres e xadrez para os homens. Com o aumento
da expectativa de vida, mesmo que a aposentadoria chegue cedo, como no
caso de Maria da Penha, ela é postergada em anos à frente.
“A aposentadoria não é uma parada, ela marca uma nova etapa.
Muitos continuam trabalhando e recebem o benefício, que foi um investimento
compulsório. Aos 60 anos a pessoa tem ainda muito o que contribuir
à sociedade”, explica Edmar Gualberto, diretor da ABRH-PR e consultor
de recursos humanos.
Maria
da Penha tem em mente que ainda é muito jovem para parar e colocou
como meta continuar a trabalhar. “Hoje tenho 45 anos e pelos próximos
15 anos tenho certeza que eu vou continuar trabalhando. Comecei
há pouco a investir em um plano de aposentadoria privada para complementar
a renda”, ressalta.
Esse
é um dos pontos que mais pesa na hora de um profissional que chega
à idade de se aposentar escolher parar de trabalhar: o valor do
benefício. “A maioria dos profissionais não para de trabalhar,
geralmente porque a aposentadoria que é paga não cobre as
despesas”, lembra Carla Virmond Mello, diretora da ACTA e da DBM.
A
realização profissional é outro ponto que influencia
a escolha, diz Carlos Contar, da Business Partners. “O profissional aposentado
pode buscar realização profissional, porque tem tranquilidade
para fazer escolhas.”
Opções
vão de negócio próprio a consultoria
Se
o profissional escolher continuar na ativa, é preciso identificar
o que será feito quando a aposentadoria chegar. Ele pode permanecer
trabalhando na mesma empresa, pensar em prestar serviço para corporações
com perfis semelhantes ao daquela em que ele atuou ou abrir uma “empresa
dos sonhos”. O importante é se planejar.
“Quando
a pessoa está em vias de se aposentar, ela precisa se preparar para
este momento. Em um trabalho é possível buscar mais prazer
e menos desprazer, mas é preciso planejar essa fase”, explica Edmar
Gualberto, diretor da ABRH-PR e consultor de Recursos Humanos.
É
o que está fazendo Maria da Penha, que vai começar a receber
aposentadoria no ano que vem, mas continuará na ativa: ela já
sabe o que quer alcançar nos próximos anos. “Minha empresa
me dá oportunidade de crescimento e tenho metas para estes próximos
15 anos: quero mais duas escaladas dentro da empresa, seja aqui ou em outro
país, além de aprimorar o meu inglês. Não me
dou por satisfeita e tenho muito a contribuir”, afirma.
Outra
maneira de continuar trabalhando em áreas correlatas é prestar
consultoria para a empresa em que se está atuando – com isso, não
há a obrigatoriedade formal de estar na organização
todos os dias. “O mercado está vendo estes profissionais com bons
olhos, aproveitando-os como mentores ou conselheiros. Há ainda aqueles
que estão montando seus próprios negócios, aqueles
que perceberam que algo pode ser melhorado e agora querem oferecer esse
serviço. O profissional pode ficar atento àquilo que não
estava funcionando muito bem em sua rotina e ver nisso uma oportunidade
de negócio. Essas são boas opções porque ainda
estão dentro da zona de conforto, não exige tanto risco”,
ressalta Carla Virmond Mello, diretora da ACTA e da DBM.
Ser
chefe
Experiência
conta para abrir uma empresa
A
aposentadoria pode ser o momento também de colocar em prática
o plano de ser o chefe de sua própria empresa. Porém, realizar
o projeto de criar o negócio requer uma série de cuidados.
Para
Carlos Contar, da Business Partner, ao chegar à aposentadoria, o
profissional que não quer mais trabalhar na empresa em que atuava
pode se valer de sua experiência. “Há uma mudança na
carreira profissional, porque o aposentado acaba já tendo uma estabilização
financeira e profissional. Ao se retirar do mercado ele pode se reencontrar
com projetos de cunho pessoal, como consultoria de empresas ou empreendedorismo”,
exemplifica.
De
acordo com consultor do Sebrae-PR Paulo Tadeu Graciano, a idade não
deve ser vista como um impeditivo: o que deve ser considerada é
a sua paixão pela área. “Muitas pessoas que estão
se aposentando demandam consultorias do Sebrae. O que a gente recomenda
é que o profissional olhe para o seu perfil, saiba o que gosta.
Se a área que ele trabalhou por um longo período é
sua paixão, isso já é um pré-requisito para
seu negócio dar certo”, explica.
O
que os aposentados e futuros empreendedores precisam saber é que,
enquanto na empresa há uma gama de profissionais para auxiliar no
exercício de sua função, no seu próprio negócio
eles terão de fazer um pouco de tudo, ao menos no início
do projeto. “Por isso, é preciso analisar seu próprio perfil,
ver suas competências e fazer pesquisa de mercado; esses são
passos iniciais antes de abrir um negócio. Idade não é
impeditivo, pelo contrário: vale a experiência na hora de
pensar em um novo negócio”, ressalta Graciano. (João
Pedro Schonarth - Gazeta do Povo)
Previdência: Em busca
das melhores práticas de governança
Brasília - Nesta
entrevista, publicada na íntegra, o superintendente nacional de
previdência complementar, José Maria Rabelo, fala sobre os
desafios da pasta, destaca as peculiaridades do sistema brasileiro e reafirma
a importância educação previdenciária: “Temos
que pensar no futuro agora e pavimentar o caminho para chegarmos até
lá mantendo a qualidade de vida, o poder de consumo e o acesso às
questões fundamentais. É preciso começar desde já
e, pouco a pouco, construir a qualidade desse futuro”.
FUNCEF - Quais os grandes
desafios da Previc para fomentar e aprimorar a previdência complementar
no Brasil?
José Maria Rabelo
- O setor de previdência complementar fechada brasileiro está
consolidado, sólido e fortalecido. Porém, ainda há
muito espaço para crescer e evoluir. Assim, nosso maior desafio
é propiciar as condições para esse aperfeiçoamento
e, consequentemente, para o contínuo crescimento do setor. Criar
e manter cenários que favoreçam a adesão de novos
participantes e a criação de novos planos e entidades é
uma meta que pauta não só nossas ações, mas
de todos os atores do setor.
FUNCEF - Existem mudanças
em estudo? Quais?
JMR- A necessidade de aprimoramento
é constante, porém não há previsão de
grandes mudanças. Todo aparato normativo e legal que ampara a Previdência
Complementar está consolidado e alinhado com as orientações
internacionais. O que pode ser feito, neste momento, é uma revisão
de alguns itens da regulamentação do setor, mas sempre primando
pela segurança dos direitos dos participantes e assistidos. O aperfeiçoamento
e a modernização são movimentos naturais e que convergem
para uma busca constante pela melhoria na governança dos fundos,
pelo gerenciamento de riscos, pelo desenvolvimento e manutenção
de um ambiente que propicie um crescimento sustentável, e, principalmente,
pela excelência na fiscalização e supervisão.
FUNCEF - Como o senhor avalia
a evolução da governança dos fundos de pensão
brasileiros?
JMR- O sistema, na última
década, passou por um intenso processo de fortalecimento de sua
legislação e regulamentação por meio, principalmente,
das Leis Complementares nºs 108 e 109, de 2001. Com essas normatizações,
veio a necessidade de profissionalização dos conselheiros
e dirigentes dos fundos de pensão, o que, sem dúvida, é
extremamente positivo para o setor. Além disso, a Supervisão
Baseada em Risco exige que o processo de governança seja rigoroso
para ser capaz de detectar, mitigar e prevenir os riscos a que a entidade
está sujeita.
FUNCEF - O que deve ser
priorizado na política de gestão e supervisão de riscos
dos fundos de pensão?
JMR- A gestão e supervisão
de riscos têm o objetivo de prever e adotar defesas quanto às
adversidades e as possibilidades que podem gerar algum tipo de prejuízo
à entidade, e consequentemente, a seus participantes e assistidos.
Assim, contar com profissionais preparados, aptos a analisar as oportunidades
e ameaças do mercado, é primordial para que a entidade minimize
sua exposição aos riscos, garantindo as reservas para o pagamento
dos benefícios.
FUNCEF - Quais os principais
riscos que o aumento da longevidade apresenta aos planos de previdência?
Quais as alternativas para esse impasse?
JMR- Em primeiro lugar,
é preciso ficar claro que o aumento da longevidade é um sinal
auspicioso para a sociedade em geral, e não seria diferente em nosso
sistema. É claro que esse fator traz desafios críticos para
a gestão das entidades, sob a perspectiva de garantia de direitos
por um período maior de tempo. A consequência é a necessidade
de maior capitalização, especialmente nos planos de benefício
definido. Os riscos, porém, existem em qualquer atividade e isso
não ocorre diferente com os fundos de pensão.
Esses riscos devem ser constantemente monitorados pela própria entidade
e pelo trabalho de supervisão e fiscalização da Previc,
com o objetivo de garantir a segurança aos participantes e assistidos.
Todas as entidades devem enviar à Previc relatórios atuariais,
de investimentos, etc., além de sua disponibilização
para participantes e assistidos, demonstrando que o plano está saudável
e aderente às premissas atuariais, financeiras e contábeis.
Quando isso não acontece, a Previc possui mecanismos que obrigam
as entidades a se adequar e resolver qualquer problema existente.
FUNCEF - O passivo
judicial das entidades preocupa a Previc?
JMR - Entendemos como um
caminho institucional natural o uso do poder judiciário para solução
de impasses de natureza jurídica, não nos cabendo fazer qualquer
oposição à tomada dessa decisão. De toda forma,
consideramos que, a partir de determinado ponto, a judicialização
dos assuntos - que teriam solução evidente no âmbito
administrativo - traz uma sensação de insegurança
que não é benéfica nem para participantes, nem para
as entidades. A Previc não está alheia a esses processos
e os acompanha com olhos de supervisor. Quando entendemos que determinado
assunto representa interesse geral ou risco sistêmico, também
temos os caminhos institucionais a seguir, o que passa a ser um dever do
Estado. Nossa vocação, todavia, é no sentido de contribuir
para evitar o conflito judicial, via diálogo permanente e exercício
do convencimento e da conciliação. Sabemos que conflitos
que se perpetuam na justiça tendem a não atender ao interesse
de qualquer das partes.
FUNCEF - Qual a importância
da educação previdenciária nesse processo?
JMR- A educação
previdenciária não é só importante em um determinado
processo ou situação. Ela é fundamental para todos
os cidadãos, integrante ou não de um fundo de pensão.
Um cidadão educado financeiramente e ciente da necessidade de uma
previdência privada para seu futuro é capaz de se planejar,
de fazer escolhas maduras e conscientes, de aplicar adequadamente seu dinheiro,
etc. Um participante de fundo de pensão que possui conhecimentos
adequados sobre o tema atua como um fiscalizador do seu próprio
plano, que para ele é um investimento essencial. Esse participante
é capaz de interpretar os relatórios, de acompanhar as aplicações
e, portanto, de cobrar dos dirigentes e conselheiros quanto às decisões
tomadas por eles.
FUNCEF – Em setembro, a
FUNCEF recebeu a visita de uma delegação francesa do Instituto
de Previdência Coletiva (IPC) que veio conhecer a experiência
brasileira no setor de previdência. Na troca de experiências
com outros países, o que o Brasil tem a aprender e ensinar?
JMR- Li a notícia
quanto à visita, o que me deu orgulho e entusiasmo. Apresento à
FUNCEF os cumprimentos pela proveitosa agenda proporcionada aos visitantes.
O Brasil possui um dos sistemas mais antigos de previdência complementar,
dentre os países da América Latina. As primeiras leis brasileiras
foram publicadas em 1977 e alguns fundos de pensão já existem
há aproximadamente 100 anos.
Atualmente, a Previc participa,
regularmente, das discussões realizadas no âmbito do Grupo
de Trabalho sobre Previdência Privada da OCDE (Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e da
Organização Internacional de Supervisores de Pensão,
com o intuito de aperfeiçoar os mecanismos de fiscalização
dos fundos, buscando - nas diretrizes estabelecidas pelas Organizações
e pelos países membros - as melhores práticas na área
de governança das Entidades Fechadas de Previdência Complementar
(EFPCs), no desenvolvimento de ferramentas e metodologias de supervisão,
dentre outros.
Observamos, a partir desse
estreitamento com a comunidade internacional, que há um grande interesse
em torno do Sistema Previdenciário do nosso País, principalmente
pelo seu formato. O sistema previdenciário brasileiro se difere
dos sistemas de alguns outros países, onde a previdência oficial
foi reestruturada, instituindo-se uma previdência complementar compulsória.
No Brasil, o sistema é
híbrido e a previdência complementar é estimulada e
constituída por fundos de pensão sem fins lucrativos. Apesar
de o vínculo às EFPCs ser facultativo, a poupança
previdenciária complementar fechada no Brasil chega a valores próximos
de 20% do PIB, o que coloca o país como maior sistema de previdência
complementar da América Latina e um dos dez maiores do mundo.
FUNCEF - Os fundos de pensão
estão preparados para enfrentar uma gradual baixa das taxas de juros?
JMR- Os fundos de
pensão, bem como a Previc, estão constantemente monitorando
os riscos e as tendências existentes no mercado e na economia, que
poderão impactar financeiramente as entidades. Uma das ações
praticadas pelas entidades para proteger o patrimônio dos fundos
é a adequação do perfil de investimento e a diversificação
das alocações dos recursos, com objetivo de se adaptarem
a essa realidade, para que se assegure o cumprimento das obrigações
perante participantes e assistidos. A queda da taxa de juros, a exemplo
do aumento da longevidade, já tratada nesta entrevista, representa
um fator positivo para a economia brasileira, trazendo, todavia, o requerimento
de reforço adicional na gestão dos planos de benefício,
pois seu impacto em termos de reservas requeridas é bastante significativo.
Acompanhamos de perto o tema e entendemos que, no geral, as entidades estão
conscientes e se preparando bem para a transição para essa
nova realidade econômica no Brasil. Eventuais necessidades pontuais
de ajuste, se identificadas pela Previc, serão tratadas na hora
e na forma adequadas, com o objetivo, fundamental, de garantir o equilíbrio
dos planos de benefício.
FUNCEF - Qual o futuro que
o senhor vislumbra para a previdência complementar brasileira?
JMR- Um futuro de conquistas,
aprimoramento e crescimento. O setor está fortalecido e bem estruturado
e, cada vez mais, em destaque na agenda governamental e em evidência
nas grandes empresas. Com profissionais tecnicamente qualificados, e com
um arcabouço normativo e legal alinhado às práticas
internacionais, não há dúvidas de que o único
caminho é o da inovação e da prosperidade.
FUNCEF - Que mensagem o
senhor deixa para os empregados da CAIXA que ainda não se associaram
à FUNCEF?
JMR- Eu pediria licença
para terminar num tom mais informal e usar minha experiência pessoal.
Em 1975, ao tomar posse em meu emprego (que duraria 34 anos) assinei, sem
nenhuma consciência disso, a inscrição no fundo de
pensão de minha empresa. Essa adesão me permite hoje ser
um dos milhares de assistidos daquele fundo. Sou muito grato às
pessoas que me “convenceram” da importância daquele gesto. Sei, também
por vivência própria e familiar, que não é muito
natural ao jovem, quando ingressa no mercado de trabalho, preocupar-se
com a aposentadoria, algo que parece extremamente distante. De fato, é
um pouco distante, mas isso só ajuda.
Temos que pensar no futuro
agora e pavimentar o caminho para chegarmos até lá, mantendo
a qualidade de vida, o poder de consumo, o acesso às questões
fundamentais ou que nos sejam importantes. Não dá para fazer
isso de um dia para o outro. É preciso começar desde
já e, pouco a pouco, construir a qualidade desse futuro. Isso ninguém
faz isso por nós. A empresa ajuda, mas o principal interessado é
o próprio profissional. Portanto, se você está “devendo”
sua inscrição à FUNCEF, peço-lhe que reflita
bastante e decida, com convicção e liberdade de consciência.
Quem sabe, daqui a algumas décadas, você possa se lembrar
disso e guardar alguma gratidão quanto a esse “empurrãozinho”
... (Funcef/AssPreviSite)
Saúde Suplementar:
Meu
voto é quebrar a ANS em 2
Tenho
minha opinião do porque a ANS não agrada hospitais, operadoras
e segurados dos planos de saúde: é muita coisa para uma única
agência.
Permita-me
fazer algumas comparações.
A
SUSEP regula o relacionamento entre a seguradora e o segurado. Ela não
fixa o preço da funilaria – até regula o preço do
seguro carro, mas não serviço de funilaria. Porque não
daria certo regular toda a cadeia de valores: segurado – seguradora – prestador
de serviços da seguradora … é uma cadeia muito grande e complexa.
O
Banco Central regula o relacionamento entre o correntista e o banco. Mas
não regula o relacionamento entre o banco e a empresa de segurança
que presta serviço para o banco, ou a empresa que presta serviços
de higiene, alimentação, etc. Porque não daria certo
regular toda a cadeia de valores: correntista – banco – prestador de serviços
do banco.
Em
resumo: a SUSEP regula o seguro e não o sinistro. O Banco Central
regula a operação financeira e não o custo operacional
do banco.
Pois
bem … a ANS quer regular uma cadeia de valores que nenhuma agencia pode
fazer sozinha: paciente – operadora – serviço de saúde !!!
A
ANS quer regular o plano de saúde e todos os serviços de
saúde que atuam em saúde suplementar. Uma loucura, porque
os serviços de saúde privados são imensamente diferentes
uns dos outros ( para os que têm dúvida sobre a afirmação
sugiro visitar o site www.admhosp.net.br ).
Em
um cenário onde a operadora tem lucro quanto menos o segurado utilizar
o serviço de saúde, e o serviço de saúde tem
lucro quanto mais o segurado utilizar seus serviços não é
viável que algum órgão isoladamente possa atender
as necessidades de três atores com interesses tão diferentes.
Quando
a ANS toma uma decisão é evidente que atua sob pressão
de um dos três atores e, mais evidente ainda, é que não
pode avaliar com clareza o quanto estará prejudicando os outros
dois atores.
Antes
de continuar é preciso ressaltar dois aspectos:
Não
existe aqui nenhuma crítica pessoal a qualquer pessoa da ANS. Não
está aqui sendo posta em dúvida a competência de alguém.
É uma questão institucional: o papel da ANS em um cenário
que não pode ser gerido por uma única agência;
Aos
que defendem que a ANS deve ser única justamente para julgar as
questões tão conflitantes de operadoras e serviços
de saúde … respeito a opinião, mas a ANS é um órgão
vinculado ao poder executivo e não do judiciário, a quem
realmente se compete julgar.
Posto
isso, meu voto é que o âmbito da ANS seja restrito ao relacionamento
da operadora com o segurado, e que uma outra agência exista para
gerir a relação entre serviço de saúde e o
cliente.
Esta
outra agência, que faz muita falta em saúde suplementar no
Brasil, deve entender o cliente como sendo tanto a operadora quanto o paciente
que paga diretamente a conta.
Esta
outra agência não pode deixar que as operadoras de planos
de saúde ditem a forma como os serviços de saúde atendam
os pacientes, fixem de forma aviltante a remuneração dos
médicos e, principalmente, não pode deixar que o sistema
de saúde se curve aos interesses econômicos de meia dúzia
de empresas que atuam na saúde como atuam em seguro residencial,
de automóveis, etc.
A
ANS que cuide do relacionamento entre operadora e segurado, e outra agência
venha para fazer o que está faltando: foco no atendimento assistencial
da saúde suplementar.
Enquanto
estivermos neste cenário de uma única agência querendo
controlar o incontrolável, vamos continuar discutindo padrões
TISS, TUSS, remessa de contas, margem de comercialização
de medicamentos … muita burocracia administrativa e pouca (ou nenhuma)
ação que realmente se reverta em melhoria do atendimento
assistencial em saúde suplementar. (Enio Salu - Saúde
Business Web)
Saúde: Entrevista
com José Gomes Temporão
Ex-ministro assume a direção
da Unasul com o objetivo de criar consensos, compromissos e políticas
entre os países
Temporão: "A saúde
não pode ser vista apenas como um negócio, estamos diante
de questões éticas e morais"
FH – O problema de financiamento
na cadeia de saúde constitui um cenário que se estende há
várias décadas. O senhor acredita que a emenda 29 é
essencial, mesmo que nem todos seus dispositivos tenham sido apresentados
à sociedade? Será aprovada no Senado?
José Gomes Temporão:
Conseguimos construir um consenso na sociedade brasileira, entre gestores,
setor público e privado, parlamentares, sobre a importância
da regulamentação da emenda por vários motivos. O
primeiro deles é porque, em definitivo teremos claro, definido em
lei, o que são gastos em saúde, pois até então
não existia. Muito governadores contabilizam para fins de prestação
de contas ações que na realidade nada tem a ver com o setor
de saúde. A estimativa é que R$ 72 bilhões por ano
deixam de ser aplicados na saúde por essa questão. Então,
a emenda aprovada, de uma vez por todas, impedirá que despesas que
não são de saúde sejam estritamente da área
de saúde contabilizadas como se fossem. O segundo ponto, é
mais importante ainda, é uma repactuação da sociedade
brasileira sobre a importância de ampliar os gastos em saúde.
Essa discussão de que o problema da saúde é de gestão
é um argumento de uma fragilidade incrível porque todos os
sistemas de saúde do mundo enfrentam problema de gestão e
sempre será assim porque melhorar a qualidade e eficiência
do gasto, impedir mal uso e desvio do recurso é uma tarefa de todos
os dias nos sistemas e não referente ao Brasil. Não se pode
com isso negar que a saúde pública brasileira não
tenha recursos suficientes. Sim, temos problemas de gestão, sim
temos problemas para melhorar a eficiência do gasto, sim temos de
impedir o desvio e mal uso de recursos, mas, ao mesmo tempo, admitir que
o sistema de saúde público brasileiro é subfinanciado.
Basta comparar com nossos vizinhos Chile e Argentina que gastam mais n
sistema de saúde público. Um dado contundente é que
apenas 40% gastos em saúde no Brasil são públicos.
Na verdade, quem financia a saúde brasileira são as famílias
e as empresas. O Brasil precisa gastar mais e, obviamente, gastar bem.
FH: Nesse sentido, qual
a importância das PPPs para aliviar essa conta, tendo em vista as
dívidas que as Santas Casas acumulam e os conflitos que todos os
serviços de saúde sofrem num efeito cascata?
Temporão: As Parcerias
Público Privadas e alternativas como outros modelos de gestão
se encaixam, justamente, nos recursos disponíveis. Então,
são válidas, desde que os princípios válidos
dos sistemas de saúde não sejam comprometidos. Refiro-me
aos princípios da universalidade, da equidade, da integralidade
e da gratuidade. Dentro deles, as PPPs e inovações em modelos
de gestão, desde que não levem também às terceirizações
e fragilizações entre profissionais e organizações
me parecem que vem ajudar. Essa questão está dentro do debate
público, com certeza.
FH: E qual é sua
visão sobre os royalties do petróleo para beneficiar à
saúde? Há uma perspectiva real de financiamento do setor
diante de um cenário de receita futuro?
Temporão: Insere-se
dentro desta visão mais ampla de onde tirar os recursos. De um lado,
há uma grande rejeição da sociedade brasileira em
aumentar a carga tributária. Uma fonte que parece importante é
óbvia, e é impressionante como não se consegue avançar
sobre isso é que cigarros no Brasil é muito barato. E uma
das maneiras de reduzir o consumo é aumentar o preço. O cigarro
no Brasil é ridiculamente barato quando comparado a outros países,
como Europa e os Estados Unidos. Aqui são vendidos por ano 5 bilhões
de maços. Se colocarmos recursos específicos para a saúde,
teríamos uma fonte importante. Outra seria taxar as bebidas alcoólicas,
cerveja, cachaça, poderiam ter uma taxação específica
destinada à saúde pública. O petróleo entraria
nessa possibilidade. Mas na realidade temos uma questão de tempo.
O Pré-Sal ainda é uma hipótese. Teríamos de
esperar uns 10 anos para que essa receita seja disponibilizada. E a saúde
não pode esperar tanto. Ainda assim, acredito que é uma alternativa,
como o próprio marco regulatório que colocou a saúde
como umas das áreas a ser beneficiada.
FH: Como os serviços
e estabelecimento de saúde devem se preparar para a Copa do Mundo
e as Olimpíadas? O senhor acredita que haverá um significativo
aumento
de demanda que precisa ser antecipado desde agora pelos serviços
públicos e a rede de saúde suplementar?
Temporão: Fazemos
todos os anos no dia 31 de dezembro uma festa no Rio de Janeiro que coloca
3 milhões de pessoas na rua, em Copacabana. O Brasil já tem
certa experiência em grandes eventos. Tivemos os Jogos Pan-americanos,
no Rio. É importante que a sociedade receba um retorno do investimento
gigantesco que serão feitos com dinheiro público e vão
depender dos jogos dos dois eventos. Durante muito tempo, dos anos 50 aos
70, o Rio de Janeiro era o centro da medicina brasileira. A residência
médica começou nos Hospital dos Servidores, e nos anos 80
e 90 houve a degradação da saúde pública no
País. Está sendo feita um grande esforço de recuperação
da estrutura física e do serviço. Minha expectativa é
que as Olimpíadas possam, de uma vez por todas, recuperar esse patrimônio
que foi abandonado por muito tempo que são os hospitais universitários
e do ministério da saúde no Rio de Janeiro e fortalecimento
do sistema de saúde como um todo. Também acho fundamental
a parceria com o setor privado no sentido de que, especificamente, voltado
aos visitantes, turistas, atletas que estarão aqui, durante os jogos,
que tenhamos uma atenção de prevenção e cuidado
de alto nível e acredito que o Brasil já tenha como oferecer
tudo isso.
FH: Qual o balanço
que o senhor faz em relação a sua gestão no ministério
da saúde?
Temporão: É
complexo. Foram quatro anos. Trabalho com saúde pública há
35 anos, sou professor da Fundação Osvaldo Cruz e me esforcei
em boa parte da minha vida no fortalecimento do SUS e como ministro foi
o que me dediquei a fazer. Mas destacaria alguns pontos, como a discussão
da gestão, com a proposta que fiz com as fundações
estatais de direito privado; toda a questão da pesquisa e
fortalecimento das indústrias no País com o estabelecimento
importante das PPPs na produção de medicamentos e tecnologias
para o SUS, incorporação de três novas vacinas no SUS;
o combate à publicidade de bebida alcoólica e o saúde
do homem. Pela primeira vez no País implantamos uma política
nesse sentido. Foram muitos projetos e faço um balanço, sendo
honesto e franco, de que foi uma boa gestão.
FH: Permanente, o senhor
busca estimular a cooperação entre instituições
como a Fundação Osvaldo Cruz, a Anvisa, o Instituto Adolfo
Lutz. Qual a sua sugestão para inspirar aos players da saúde
na iniciativa privada a atuarem nessa perspectiva de colaboração
técnica, parceira e transparência mantendo a competitividade
de mercado em níveis saudáveis?
Temporão: Sempre
que possível ampliar o diálogo e estreitar as relações,
é claro, tendo uma capacidade de regulação própria,
que respeite os aspectos de cidadania. Vejo que as cooperações
institucionais, de diálogos sejam na saúde ou em outros fóruns
me parecem sempre o melhor caminho. Muitas vezes, o setor público
tende a aprender com práticas que vem do empresariamento e do mercado,
com experiências inovadoras, inclusive entre estados, municípios
e o próprio Governo Federal. O que se tem de defender não
é colocar limites estanques nessa relação ou apenas
estabelecer uma relação nos termos restrito da lei, mas sim
que trabalhe no fortalecimento do sistema público, que é
o que nós queremos.
FH: O senhor sempre defende
a necessidade de repolitização da saúde. Como isso
seria feito na atual conjuntura de discussões sobre refinanciamento,
portas de entradas, PPPs, novos partidos políticos, entre outros
aspectos num cenário macroeconômico e ambiental?
Temporão: Me refiro
a uma visão perigosa que confunde saúde com assistência,
que é apenas uma dimensão da primeira. Da mesma maneira,
um hospital é apenas um ponto de atendimento dentro de um sistema
complexo. A assistência é um ponto dentro de uma questão
mais abrangente que tem a ver com as condições de vida, de
educação, cultura, moradia, saneamento, alimentação,
atividade física. Saúde tem a ver com bem-estar, com um padrão
de qualidade de vida. Portanto, a repotilização se refere
a essa questão. É importante que a sociedade que, quando
garantimos acesso ao ensino de qualidade, também investimos na saúde.
Quando investimos em espaços de trabalhos seguros, que diminuam
os riscos de acidentes também. Quando universalizamos o acesso à
água tratada e esgotamento sanitário, estamos investindo
em saúde. Então, essa é a visão mais ampla
que nós temos de ter.
FH: No Isags o senhor assume
com a proposta de compartilhar com os países membros da América
Latina os desafios, propostas e consensos. Quais os elementos comuns entre
países de dimensões, políticas, histórias e
necessidades tão distintas da população em saúde?
Temporão: Esse é
um dos desafios do Isags. Queremos chamar a atenção de que
o Isags expressa uma aumento da saúde na agenda continental. Cada
vez mais é tema de debates dos fóruns internacionais, na
Câmara Mundial de Comércio, todas as discussões sobre
proteção patentária, e a última epidemia de
gripe H1N1 foi um exemplo de que como um evento de nível global
afeta as relações comerciais, cria ameaças e, portanto,
precisamos discutir juntos como enfrentar esse problema. No continente
sul-americano, é interessante que, quando foi lançado a Unasul
[União de Nações Sul-Americanas] foram criadas duas
áreas institucionais, a de defesa, estruturada em Buenos Aires no
Instituto Sul-Americano de Defesa e Saúde, onde temos uma estratégia
que envolve temas como universalidade, recursos humanos, vigilância
epidemiológica, entre outros pontos, e a criação de
um instituto com sede no Rio de Janeiro, o Isags, que estou dirigindo.
A proposta é apoiar os ministérios de saúde do continente
na melhoria de sua capacidade de governo, em gestão, formando quadros,
colocando a disposição modelos de governança para
melhorar o desempenho desses sistemas.
FH: Que países os
sul-americanos o senhor considera referência, no sentido de olhar
para frente em antecipar as tendências assistenciais implementando
uma nova visão e política de conduta e investimentos?
Temporão: É
um ponto de vista pontual, Argentina e Chile são países como
o Brasil, com sistemas mais organizados. Por outro lado, Bolívia,
Peru, Equador, Colômbia estão fazendo grandes esforços
e investimentos no fortalecimento dos sistemas, mas eles são muito
diferentes. O Isags vai atuar propondo linhas de atuação
conjuntas, que sejam consenso entre todos os países e a principal
é que todos concordam, se não formarmos países capazes,
com bons dirigentes e gestores, não tem funcionalidade. Então,
o Isags entra exatamente aí, para ajudar esses países a formar
seus quadros de dirigentes. (Saúde Business Web)
A saúde
está obesa
Alguns
dos recentes fatos amplamente anunciados pela mídia apontam a necessidade
de redefinições na área da saúde. O tema é
complexo, envolvendo desde questões religiosas e filosóficas
até questões políticas, especialmente, no campo da
moral e da ética. A esta bagagem histórica, somam-se novos
elementos que têm de ser repensados.
Já
há algumas décadas, pesquisadores apontam que a saúde
tornou-se um campo de investimento privilegiado para o capital, com alta
taxa de retorno. Assim, hoje, são orgânicas as relações
entre, de um lado, bancos e bolsa de valores e, de outro, indústrias
farmacêuticas e médicas. A este conjunto, agregam-se o seguro
social privado e o estatal, uma vez que este também utiliza os insumos
de tais indústrias, especialmente, na assistência médica.
Um
exemplo concreto pode ser buscado nas discussões travadas nas últimas
semanas nos Estados Unidos, em meio a uma proposta de reforma na Saúde
acerca dos benefícios dos testes de detecção precoce
de câncer de próstata e dos exames de mamografia. Embora não
tenham produzido consenso, tais discussões trouxeram à tona
a questão do excesso de cuidado à saúde como causa
do aumento em espiral dos custos da assistência médica.
Tal
excesso pode ir desde exames sofisticados até os mais simples. O
fenômeno também pode ser observado no Brasil, como afirmam
os planos de saúde, que, onerados pelo excesso de pedidos, passaram
a fazer estatísticas de exames deixados nos laboratórios
sem que os pacientes jamais voltem para pegá-los e atestaram seu
grande número. Cabe observar que isso se verifica tanto no setor
público quanto no privado e, em ambos, se traduz em investimento
de recursos financeiros e humanos sem nenhuma contrapartida positiva para
a população assistida.
Nos
Estados Unidos, um número crescente de estudos apontou que 30% dos
gastos com pacientes são desnecessários e, às vezes,
danosos. Assim, profissionais envolvidos na elaboração das
políticas públicas e seguradoras passaram a abordar o problema
do excesso de uso do sistema como um plano de redução de
calorias para perder peso, argumentando que é necessário
eliminar o excesso para tornar mais leve o corpulento sistema de assistência
à saúde.
Foi
neste sentido que algumas seguradoras americanas começaram a pagar
sessões de ginástica e aconselhamento alimentar a seus segurados.
Estimam que tal operação seja autofinanciável, pois
pesquisas indicam que uma diminuição de 5% do peso corporal
corresponde a 60% menos chances de um pré-diabético vir a
desenvolver a doença. Apenas para que se possa dimensionar corretamente
a questão do diabetes tipo II nos EUA, entre diabéticos e
pré-diabéticos, calcula-se que haja cerca de 100 milhões
de pessoas, gerando um custo de tratamento que excede US$200 bilhões
por ano.
A
criação de academias de ginástica é uma ideia
simples que consegue equacionar a lucratividade de empresas do ramo do
seguro saúde privado e o bem-estar dos segurados. A solução
também é passível de ser importada para o setor público
e, no Brasil, já está sendo implementada — ainda que de forma
lenta, devido a problemas políticos e administrativos — pelo Ministério
da Saúde em convênio com prefeituras de algumas cidades.
Outros
exemplos — que envolvem a Lei de Patentes; a publicidade e a venda de medicamentos
pela internet; desenvolvimento de tecnologia nacional na área da
indústria médica e da indústria farmacêutica
com parcerias público-privadas — fazem pensar que o sistema de saúde
não está necessariamente em colisão com os pacientes,
nem muito menos com a realidade econômica. Antes, faz parte dela
com todas as suas contradições e possibilidades.
O
futuro do sistema de saúde não está determinado, porém,
de fato, esta não é a questão. Cabe mencionar que,
hoje, o futuro do sistema econômico, ao qual o sistema de saúde
está atrelado, é uma incógnita.
Em
um mundo em crise, é preciso antes de tudo criatividade. Melhorar
o valor do dinheiro gasto tornou-se clichê, a questão hoje
é melhorar o valor do sistema sem gastar dinheiro algum e ainda
expandir o campo de investimento. (LUIZ FELIPE CONDE e CARLOS
OLIVEIRA - O Globo)
O direito e o
contradireito
Por
que exigir que o SUS atenda ao interesse público, sem ficar subordinado
a demandas políticas, corporativas e empresariais
O
SUS foi fruto de uma trajetória de intensa mobilização
da sociedade civil por democratizar o País, assegurando direitos
sociais universais na Constituição de 1988, onde a ordem
social se destacava da ordem econômica. Descentralizado e com uma
autoridade única em cada nível de governo, o SUS redesenhou
o pacto federativo gerando um modelo de governança baseado em instâncias
de pactuação intergovernamental e uma proposta de governabilidade
inovadora baseada em conselhos e conferências.
Um
pouco mais de duas décadas depois, em um curto período de
semanas, vemos nos jornais que os médicos do SUS se encontraram
em greve por melhorias salariais e de trabalho condizentes com sua função,
as entidades filantrópicas que prestam serviços ao SUS foram
denunciadas pela precariedade de instalações e qualidade
do atendimento, os profissionais credenciados pelos planos de saúde
fizeram paralisações semelhantes ao setor público,
a ANS avaliou que 20 milhões de brasileiros têm planos de
saúde ruins, a Anvisa foi proibida de fazer audiências públicas
para regular o tabagismo, mas permitiu o uso de agrotóxicos proibidos
em outros países e o Congresso "ameaça" regulamentar a Emenda
Constitucional 29.
São
inegáveis os avanços do SUS na ampliação da
cobertura, na internacionalmente reconhecida capacidade de realizar imunizações
massivas, desenvolver um programa emblemático da aids, enfrentar,
dentro da legalidade dos acordos de comércio internacionais as multinacionais
produtoras de remédios que se julgam no direito de exacerbar seu
poder de precificação, favorecer a produção
de genéricos e a distribuição de medicamentos em farmácias
populares, chegar até os excluídos com programas de saúde
da família, gerar novas formas de regionalização e
contratualização na regulamentação recente
da Lei Orgânica da Saúde.
Diante
de tantos avanços, como entender as reivindicações
dos profissionais, os sofrimentos dos pacientes, as queixas dos gestores
locais, os desencontros entre o avanço do Samu e a incapacidade
de encontrar um lugar na UTI ou mesmo um leito hospitalar?
Discutir
se o problema é de falta de financiamento ou incapacidade de gestão,
é ignorar a irresponsabilidade da União em cumprir seus compromissos
com o financiamento do sistema público e universal de saúde,
como se isso não tivesse consequências nas gestões
subnacionais, reféns dos recursos repassados pelo nível central,
das decisões judiciais, das denúncias da mídia e da
sua própria incapacidade. Ao acabar com o arcabouço da seguridade
social, especializando as fontes de financiamento, retirando recursos da
área social para pagar juros por meio da DRU, eliminando o Conselho
da Seguridade, impedindo a convocação da Conferência
da Seguridade, aumentando o gasto social apenas para a área contratual
da Previdência ou focalizada dos programas de transferência
condicionadas de renda, todos os governos da democracia foram artífices
dessa situação de precariedade nos sistemas universais de
saúde e educação.
A
opção política foi subsidiar os setores com maior
poder de barganha: isenções para provedores privados, renúncia
fiscal dos planos de saúde e educação para a classe
média, planos privados de saúde para servidores, ausência
de investimentos para gerar uma rede pública capaz de atender à
população, financiamentos e subsídios para utilização
dos serviços privados, atenção primária de
baixa qualidade que não resolve os problemas, mas despacha o paciente,
dupla porta de entrada de pacientes junto com a dupla militância
de profissionais, falta de ressarcimento por parte dos seguros de pacientes
atendidos no SUS, repasse de recursos financeiros, físicos e humanos
para gestões privadas, etc.
Os
resultados de uma pesquisa que realizamos recentemente pelo Programa des
Estudos da Esfera Pública (PEEP), da FGV, demonstram que a precarização
dos serviços públicos se manifesta das seguintes formas:
-
A aceitação tácita de todos os agentes de que "serviço
público é assim mesmo", ou a naturalização
da precariedade, na ausência de parâmetros de qualidade explícitos;
-
A precariedade para o atendimento adequado permite o aumento do poder discricionário
dos profissionais, resultando em situações de discriminação;
-
A cultura política brasileira, desde o primeiro escalão presidencial
até o atendente hospitalar, privilegia o QI (quem indica) em detrimento
da igualdade da cidadania;
-
A falta de responsabilidade do sistema com os pacientes provoca a "peregrinação"
em busca do cuidado. Na ausência de garantia, o direito se transforma
em contradireito, insegurança, sofrimento, humilhação;
-
A perspectiva da classe média de que estaria salva com seu plano
de saúde começa a ser desmascarada, pois, a precarização
do atendimento privado é um sucedâneo do que ocorreu no SUS,
já que quem dá o parâmetro da qualidade é sempre
o setor público.
Em
conclusão, precisamos resgatar os princípios solidários
do SUS e exigir um financiamento público condigno com os padrões
internacionais de saúde, no qual a União repasse para a saúde
10% do que ela arrecada em impostos, que os Estados não manipulem
seus orçamentos incluindo na saúde o que não lhe é
próprio e coordenem a atenção regional, que os municípios
não apenas comprem ambulâncias para enviar seus pacientes
para outras cidades. Há que exigir que o SUS atenda ao interesse
público, não se subordinando aos interesses políticos,
corporativos e empresariais. Mas, o que precisamos mesmo é exigir
responsabilidade dessas autoridades, para que o paciente ao chegar ao sistema
seja acolhido, encaminhado, tratado e nunca mais seja obrigado a buscar,
em uma ensandecida peregrinação, fazer valer seus direitos
constitucionais. Ou morrer no percurso. (SONIA FLEURY - O Estado
de S. Paulo)
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